Quando os emigrantes aplaudem o carrasco
OPINIÃO – por Manuel de Melo – Genebra/Suíça
(Manuel de Melo – Facebook)
Há algo de particularmente revoltante – quase obsceno – em ver portugueses emigrantes a aplaudir o ódio que cresce em Portugal. Gente que vive fora, acolhida por países que lhes deram trabalho, abrigo, direitos e dignidade, mas que agora, de peito cheio, defendem um projeto político que fecharia as mesmas portas a quem bate hoje à nossa.
É de uma hipocrisia gritante. Inacreditável.
E não é só incoerência, é traição à própria história.
Foram os vossos avós, os vossos pais, que atravessaram fronteiras à procura de um futuro. Chegaram a países onde eram vistos como “os outros”. Sofreram desconfiança, racismo, exploração. Passaram anos a trabalhar nas sombras, sem voz, muitas vezes sem documentos. E agora, com o estatuto conquistado, voltam-se para Portugal a defender ideologias que tratam os imigrantes como pragas. Que falam de “invasão” e “limpeza cultural”. Vocês perderam a memória, ou simplesmente perderam a vergonha?
O que diriam os franceses, suíços, luxemburgueses, alemães, ingleses, se vos vissem a apoiar, para o vosso país de origem, aquilo que eles rejeitam no próprio? Acham que, se esses governos tivessem seguido o mesmo modelo de exclusão que vocês agora defendem para Portugal, ainda estariam nos países onde estão? Com casa? Com filhos na escola? Com assistência médica?
Claro que não. Já teriam sido postos na fronteira ou num avião com um bilhete só de ida.
É nojento que continuem a espalhar discursos inflamados nas redes sociais, partilhando vídeos populistas como se fossem revelações divinas, dizendo “finalmente alguém diz a verdade”.
Mas qual verdade? A verdade de que o medo é mais confortável do que a empatia?
A verdade de que é mais fácil esquecer o que fomos do que enfrentar quem somos?
É uma miséria moral. Um retrocesso humano.
O emigrante que se esquece de onde veio não é símbolo de sucesso. É espelho de cinismo.
Ao apoiar este tipo de ideologia, não estão apenas a atacar os que agora tentam fazer o mesmo caminho que vocês fizeram. Estão a atacar os vossos próprios fantasmas, a cuspir no vosso passado, a negar o direito de outros viverem aquilo que vos foi permitido viver. Vocês não são patriotas. Não são “realistas”. São cúmplices daquilo que um dia também vos magoou.
Portugal tem memória. E vocês deviam tê-la também.
Aplaudir o ódio, à distância confortável da segurança que outros vos deram, é a forma mais baixa de covardia.
Quem viveu na pele o que é ser “de fora” e mesmo assim reproduz o discurso do carrasco, não merece palmas.
Merece ser olhado de frente. E confrontado com esta simples pergunta:
Se hoje fosses tu a bater à porta… Portugal abriria? Ou fecharia por tua causa?
Pensa bem.
Manuel de Melo
Genebra/Suíça
Original AQUI