Os novos regeneradores
OPINIÃO – Presidenciais 2026
Francisco Melro
2 de Julho de 2025
O fruto estava bem maduro e o Almirante avançou para a colheita. Candidata-se à Presidência para corrigir as maleitas do País. O sentido da correcção pretendida foi durante algum tempo, confuso ou impreciso. Sabia-se apenas que as referências político- ideológicas do Almirante se situariam, a crer no próprio, algures entre o PS e o PSD. Com o surgimento e com as declarações de Rui Rio como mandatário nacional desta campanha, e com diversos pronunciamentos posteriores do Almirante, esse sentido foi ficando mais claro, aumentando o alarme nas hostes do PS e do PSD.
O descontentamento popular com as últimas governações é significativo, como resultou bem claro da tendência dos resultados das últimas legislativas, tendendo a agrupar-se em torno do Chega, que lhes acena com um pacote económico-social milagroso e com um regime autoritário, limpo de corrupção e com segurança garantida, à maneira da boa vida de antes do 25 de Abril. O grupo que emerge em torno do Almirante dirige-se à mesma massa de descontentes, apontando, embora, um sentido regenerador diferente.
A campanha revelou inicialmente, grande adesão e entusiasmo em redor do Almirante. Dependendo da dinâmica que conseguir ir criando, outras figuras públicas e militantes partidários, incluindo ex-deputados e autarcas, do PSD, mas também do PS, poderão ou não aderir a esta causa regeneradora. Já por lá deram nas vistas o Ângelo Correia, o Isaltino Morais, o Carreira de Cascais e o empresário Mário Ferreira que detém, entre outras, as empresas TVI/CNN. O homem da imprensa do Almirante é Luís Bernardo, próximo de Mário Ferreira, que tem no curriculum a assessoria a Carrilho, Sócrates e Luís Filipe Vieira, entre outros ilustres desempenhos.
Pelo contrário, para o PSD e o PS as eleições presidenciais são um embaraço. A opção do PSD pelo Marques Mendes parece um “desculpem lá, mas não arranjámos nada melhor”, enquanto nas hostes do PS se tem quase ignorado a candidatura do Seguro, “só nos faltava este”. Por que raio haveria o eleitorado do PSD votar no Seguro se tem o Marques Mendes a propor o mesmo e por que raio haveria o eleitorado do PS apoiar o Seguro que propõe o mesmo que o candidato do PSD? O original é sempre melhor do que a cópia. Só o espelho e os comentadores afectos ao PSD estão entusiasmados com a candidatura de Seguro, mas todos estes confessam preferir Marques Mendes.
O entusiasmo do PS em torno da candidatura de Seguro é similar ao que rodeou a candidatura de Maria de Belém numa presidencial anterior, vinda por sinal da mesma área partidária e como a mesma estratégia de facto consumado, só que desta vez não existe o risco de o candidato do PS ser ultrapassado pelo Tino de Rans. O PS não tem alternativa. Mas Seguro poderá vir a ter de se confrontar com um desafio mais complicado, uma candidatura emergente das áreas da Esquerda.
A principal fragilidade das candidaturas de Marques Mendes e de Seguro resulta do facto de não conseguirem atrair quem quer que seja fora das áreas a que pertencem, porque não têm, nem se atrevem a procurar, respostas para os problemas dissonantes das dos partidos donde emergem e de cujo apoio dependem.
A Spinunviva retira moral, credibilidade e espaço a Montenegro, inibindo-o de iniciar qualquer campanha credível de mudança no modo de funcionamento partidário e o novo candidato a líder do PS também não se interessa por esses assuntos. Com os dois grandes partidos incapazes de uma análise profunda dos seus problemas e da sua relação com a sociedade, a campanha do Almirante, se for vitoriosa, tenderá a agravar a crise nessas hostes partidárias. Ainda por cima, a campanha do Almirante traz na agenda o debate público sobre o investimento na Defesa e as ameaças e os desafios geo-estratégicos do País e da Europa.
A clarificação da candidatura do Almirante está também a causar embaraços a Ventura. O terreno social potencialmente sensível para as mensagens do Almirante confunde-se com o do Chega, que tem hesitado, por isso, entre o apoio ao Almirante e a opção por uma candidatura própria, neste caso, nunca do próprio Ventura, devido aos riscos de insucesso inerentes.
A campanha presidencial poderá também vir a desencadear uma guerra entre as duas principais redes de comunicação privadas, a SIC/Expresso e a CNN/TVI. A primeira tenderá a apoiar Marques Mendes, seu comentador residente e do partido de Balsemão. A segunda está já presente, em força e ao mais alto nível, na candidatura do Almirante, através do seu dono.
Numa perspectiva bondosa, uma eventual vitória do Almirante poderia desencadear uma revolução interna nos dois maiores partidos democráticos. Mas, realisticamente, teme-se que possa só degenerar num problema adicional para a democracia. Esta segunda hipótese é a mais credível. A primeira marcha de “regeneração”, protagonizada em Portugal pelo PRD de Eanes, nem deixou saudades nem descendência.
Em caso de vitória, o Almirante poderia vir a reclamar-se de um mandato independente dos partidos, de uma legitimidade própria, vinda de uma maioria própria, em torno das soluções que propõe, podendo ser acudido por tentações populistas, em confronto com os partidos e pisando os terrenos do Executivo. Já vimos este filme. Estas tentações tenderiam a crescer à medida que fosse constatando a sua incapacidade para corresponder às expectativas sociais criadas pela sua eleição.
Estes desenvolvimentos são facilmente antecipáveis, tendo em conta que o País não dispõe de capacidade para corresponder, a curto prazo, aos anseios, por muito justos que sejam, de diferentes camadas sociais: nem subida significativa dos rendimentos de todos, nem empregos suficientes para os jovens licenciados, nem reformas dignas para os reformados, nem melhores condições e melhores remunerações para os trabalhadores públicos, nem habitação abundante e acessível, nem os investimentos indispensáveis para a melhoria significativa na prestação dos serviços públicos. As restrições virão da economia, num ambiente de estagnação da economia europeia, de conflitos, guerras e crise mundial, com Trump a espatifar a credibilidade do Ocidente, como só ele é capaz de fazer.
O crescimento económico nacional tem sido liderado pelo turismo e por sectores de mão de obra barata, gerando empregos menos exigentes em qualificações académicas, sendo a oferta nacional deste tipo de mão de obra, para os níveis remuneratórios propostos, insuficiente para corresponder às necessidades empresariais.
Daí, o recurso crescente a imigrantes, com os inevitáveis impactos sociais a que nos vamos habituando. As empresas desses sectores anunciam mesmo que precisam de muitos mais.
A natureza da candidatura do Almirante e a incapacidade mobilizadora da candidatura de Seguro junto das fileiras do PS, têm criado um espaço à Esquerda para uma candidatura aglutinadora. A candidatura de Sampaio da Nóvoa parece estar a ser a mais desejada.
Esta ou outra candidatura similar terá sempre um elefante na sala: as opções geoestratégicas da Europa e de Portugal, as ameaças russas e chinesas e o consequente investimento na Defesa, temas incontornáveis no actual contexto político, que a campanha do Almirante irá, seguramente, introduzir. Ora as posições na Esquerda, sobre este tema, vão do apoio à Ucrânia e ao reforço do investimento em Defesa na Europa democrática, vindos sobretudo das áreas do PS e do Livre, até ao pacifismo, à desvalorização das ameaças russas, à justificação da sua agressão à Ucrânia e até à tolerância para com a própria natureza ditatorial e imperial do regime de Putin, muito presentes nas áreas do BE e em especial da CDU.
Desconheço o que Sampaio da Nóvoa pensa sobre estes temas.
Foto de destaque © do site Honrar Portugal