A crise da saúde é profunda mas tem saída
Vivemos um momento crítico na medicina, tanto no sistema público como no privado
por Joaquim Machado Cândido
Médico especialista em Neurologia e Neurofisiologia
A tensão nos serviços de urgência, o esgotamento dos profissionais, a frustração dos doentes, a gravidez que não é uma doença tornou-se o maior problema de saúde e o discurso constante de falta de recursos parece apontar para um problema económico.
Mas essa leitura é incompleta.
O que está em crise não é apenas o financiamento, nem a falta de profissionais da saúde.
O que está em crise é a medicina. Logo exige-se um outro tipo de solução.
Por uma abordagem holística do doente
Durante décadas, a prática clínica ocidental foi construída sobre a separação entre corpo e a mente, entre o que é mensurável e o que é vivido. Porém, a ciência moderna mostrou-nos que essa divisão é falsa: cérebro, corpo e ambiente formam um único sistema.
O sentido da vida, as emoções, vínculos, alimentação, rotina, trabalho, stress e contexto social participam diretamente da doença e na sua recuperação, isto remete nos para uma abordagem holística do doente, no diagnostico e na orientação terapêutica
Contudo, o sistema de saúde continua organizado como se o ser humano pudesse ser dividido em partes isoladas.
Como é o exemplo da psiquiatria e da neurologia.
A relação médico-doente está a ser substituída por registos informáticos e pedidos de meios auxiliares de diagnósticos.
O tempo de consulta diminuiu. A burocracia aumentou.
Hoje, muitos cidadãos já têm a perceção de que vale mais uma TAC do que uma boa consulta médica.
Esse é o sintoma mais visível da desumanização da medicina, mas encontramos outros sinais, como o isolamento do doente no internamento sem acesso ao apoio da família.
Predomina a produção mecânica de atos e de relatórios
Mas mais preocupante é o desespero de centenas de profissionais que assinaram documentos a desresponsabilizarem-se dos actos clínicos e continuarem a trabalhar no SNS.
A semiologia, a observação e a narrativa do doente – os pilares da decisão clínica – foram sendo trocados pela produção mecânica de atos e relatórios.
- O médico deixa de ter espaço para interpretar a pessoa.
- O doente deixa de sentir que alguém está, verdadeiramente, a cuidar dele.
- A fragmentação do trabalho impede a investigação e a excelência
A atividade médica divide-se numa correria entre o setor público, social e o privado. Essa dispersão fragiliza a formação contínua e a investigação clínica, essenciais ao desenvolvimento científico dos profissionais e dos serviços dificultando a criação de centros de referência, essenciais para doenças complexas, que exigem mais diferenciação e experiência. Constroem se hospitais para responder a interesses políticos regionais.
O aparelho corporativo do Ministério da Saúde é o primeiro obstáculo a qualquer iniciativa inovadora.
Quem representa quem?
Ao mesmo tempo, a governação hospitalar permanece presa a interesses corporativos.
O médico representa os médicos.
O enfermeiro representa os enfermeiros.
Alguns grupos profissionais sem representação.
O administrador representa o sistema atual, também ele incapaz de corrigir o óbvio.
E quem representa o doente?
Uma reforma que se impõe
A primeira reforma tem, por isso, de ser estrutural:
- Queremos uma medicina hierarquizada e transdisciplinar.
- Conselhos de administração com mandato claro, alinhados com a direção executiva.
- Director do Hospital, liderado por um médico, de competência técnica e humana reconhecida pelos seus pares e demais profissionais de saúde, com equipas técnicas qualificadas e estáveis.
- Aumentamos as especialidades, quando as devíamos reduzir.
- O que precisamos é de: subespecialização para tratar melhor situações clínicas, mais complexas e coordenação clínica entre especialidades, para evitar erros e duplicações.
- A medicina interna deve voltar a ser o eixo integrador entre áreas médicas, incluindo a Neurologia e a Psiquiatria.
- As especialidades cirúrgicas devem concentrar procedimentos em redes qualificadas, on…
Um desafio e uma nota final
Os partidos, os comentadores e os influenciadores que querem contribuir para uma nova medicina mais humana científica e com melhores resultados têm que conhecer o conteúdo da saúde e não a aparência. Não se preocupem com a perda de votos, nem com a imagem e carreira de incoerência política. É este o desafio que vos lanço: só é possível fazer um pacto para a saúde urgente e necessário se assentar no conteúdo e não na aparência.
Por aquilo que eu conheço pessoalmente do atual Presidente da República, quando era dirigente do PSD, o seu pensamento anti-corporativo obrigava-o a se mais objetivo e profundo quando lançou o pacto para a saúde.
Médico especialista em Neurologia e Neurofisiologia
Fundador da Associação Ibérica da Patologia do Sono e da Unidade Cerebrovasculares do Centro Hospitalar de Lisboa Central