16 de Dezembro, 2025

A crise da saúde é profunda mas tem saída

Vivemos um momento crítico na medicina, tanto no sistema público como no privado

por Joaquim Machado Cândido

Médico especialista em Neurologia e Neurofisiologia

A tensão nos serviços de urgência, o esgotamento dos profissionais, a frustração dos doentes, a gravidez que não é uma doença tornou-se o maior problema de saúde e o discurso constante de falta de recursos parece apontar para um problema económico. 

Mas essa leitura é incompleta. 

O que está em crise não é apenas o financiamento, nem a falta de profissionais da saúde. 

O que está em crise é a medicina. Logo exige-se um outro tipo de solução. 

Por uma abordagem holística do doente

Durante décadas, a prática clínica ocidental foi construída sobre a separação entre corpo e a mente, entre o que é mensurável e o que é vivido. Porém, a ciência moderna mostrou-nos que essa divisão é falsa: cérebro, corpo e ambiente formam um único sistema. 

O sentido da vida, as emoções, vínculos, alimentação, rotina, trabalho, stress e contexto social participam diretamente da doença e na sua recuperação, isto remete nos para uma abordagem holística do doente, no diagnostico e na orientação terapêutica 

Contudo, o sistema de saúde continua organizado como se o ser humano pudesse ser dividido em partes isoladas. 

Como é o exemplo da psiquiatria e da neurologia. 

A relação médico-doente está a ser substituída por registos informáticos e pedidos de meios auxiliares de diagnósticos. 

O tempo de consulta diminuiu. A burocracia aumentou. 

Hoje, muitos cidadãos já têm a perceção de que vale mais uma TAC do que uma boa consulta médica. 

Esse é o sintoma mais visível da desumanização da medicina, mas encontramos outros sinais, como o isolamento do doente no internamento sem acesso ao apoio da família. 

Predomina a produção mecânica de atos e de relatórios

Mas mais preocupante é o desespero de centenas de profissionais que assinaram documentos a desresponsabilizarem-se dos actos clínicos e continuarem a trabalhar no SNS. 

A semiologia, a observação e a narrativa do doente – os pilares da decisão clínica – foram sendo trocados pela produção mecânica de atos e relatórios. 

  • O médico deixa de ter espaço para interpretar a pessoa. 
  • O doente deixa de sentir que alguém está, verdadeiramente, a cuidar dele. 
  • A fragmentação do trabalho impede a investigação e a excelência 

A atividade médica divide-se numa correria entre o setor público, social e o privado. Essa dispersão fragiliza a formação contínua e a investigação clínica, essenciais ao desenvolvimento científico dos profissionais e dos serviços dificultando a criação de centros de referência, essenciais para doenças complexas, que exigem mais diferenciação e experiência. Constroem se hospitais para responder a interesses políticos regionais. 

O aparelho corporativo do Ministério da Saúde é o primeiro obstáculo a qualquer iniciativa inovadora. 

Quem representa quem?

Ao mesmo tempo, a governação hospitalar permanece presa a interesses corporativos.

O médico representa os médicos. 

O enfermeiro representa os enfermeiros. 

Alguns grupos profissionais sem representação. 

O administrador representa o sistema atual, também ele incapaz de corrigir o óbvio. 

E quem representa o doente? 

Uma reforma que se impõe

A primeira reforma tem, por isso, de ser estrutural: 

  • Queremos uma medicina hierarquizada e transdisciplinar. 
  • Conselhos de administração com mandato claro, alinhados com a direção executiva. 
  • Director do Hospital, liderado por um médico, de competência técnica e humana reconhecida pelos seus pares e demais profissionais de saúde, com equipas técnicas qualificadas e estáveis. 
  • Aumentamos as especialidades, quando as devíamos reduzir. 
  • O que precisamos é de: subespecialização para tratar melhor situações clínicas, mais complexas e coordenação clínica entre especialidades, para evitar erros e duplicações. 
  • A medicina interna deve voltar a ser o eixo integrador entre áreas médicas, incluindo a Neurologia e a Psiquiatria. 
  • As especialidades cirúrgicas devem concentrar procedimentos em redes qualificadas, on… 

Um desafio e uma nota final

Os partidos, os comentadores e os influenciadores que querem contribuir para uma nova medicina mais humana científica e com melhores resultados têm que conhecer o conteúdo da saúde e não a aparência. Não se preocupem com a perda de votos, nem com a imagem e carreira de incoerência política. É este o desafio que vos lanço: só é possível fazer um pacto para a saúde urgente e necessário se assentar no conteúdo e não na aparência. 

Por aquilo que eu conheço pessoalmente do atual Presidente da República, quando era dirigente do PSD, o seu pensamento anti-corporativo obrigava-o a se mais objetivo e profundo quando lançou o pacto para a saúde. 

Médico especialista em Neurologia e Neurofisiologia
Fundador da Associação Ibérica da Patologia do Sono e da Unidade Cerebrovasculares do Centro Hospitalar de Lisboa Central

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