Por quem somos
A terra sem amos, com que sonhávamos e cantávamos na juventude, como meta historicamente inevitável dos valores que nos animavam, está a degenerar numa terra com 3 amos.

Francisco Melro
18 de Janeiro de 2026
Tenho 76 anos, como muitos outros ainda vivos, espero que sejam mesmo muitos e que fiquem por cá muitos mais anos. Os da minha geração que sobrevivem transportam experiências e memórias de outros tempos que nos responsabilizam. Quando era muito jovem, todas as memórias e responsabilidades associadas eram transmitidas em família, ao fim do dia, em momentos de convívio, à lareira, ouvindo histórias de pais, tios e avós, quando estes ainda para aqui estavam. E indo à Igreja, à missa e à catequese, onde recolhíamos valores, e onde, em confissão, éramos repreendidos pelos “pecados” assumidos que cometíamos, que declarávamos para não irmos parar ao Inferno. Ficava sempre um ou outro pecado de fora, que não declarávamos porque a admissão chocava com o nosso amor próprio. Mas todos sabíamos o que tínhamos feito de errado e que não estava conforme aos valores em que nos reconhecíamos. Acho que apreendi os que os meus me transmitiram. Quando depois do 25 de Abril de 1974, em 25 de Abril de 1975, nas primeiras eleições livres, a minha mãe perguntou ao meu pai: Manel, onde é que vamos votar? O meu pai respondeu-lhe, sem hesitação: “vamos votar no partido dos garotos”.
Liberdade, Igualdade e Fraternidade, são os valores que sempre quis transportar comigo para me manter ligado aos meus.
Sempre que me confrontei com desvios deste rumo, esforcei-me por retomar os caminhos certos. Como agora tento.
Nos tempos da internet, ando, creio que andamos todos, às aranhas, sem saber como é que a nossas vivências e valores poderão ser transmitidos aos nossos vindouros, começando pelos mais próximos, os que mais amamos. Olhamos para as sondagens das eleições presidenciais e estarrecemos. Um carreirista troca-tintas diplomado, auto- declarado amante de Cristo, alarviando baboseiras e destilando ódios contra a comunidade cigana e os imigrantes que satisfazem as nossas necessidades básicas, poderá ser o candidato escolhido por um quarto dos portugueses para os representar na presidência da República. Olhamos para o Mundo e vemos um ditadorzeco, ex-coronel do KGB, que quer passar à História como um czar dos nossos dias e para tal, procura retomar, sempre em nome da salvação das suas gentes, destruindo os seus ambientes, as suas habitações e as suas vidas, os territórios outrora servos da Rússia. E, para mal dos nossos pecados, temos de aguentar com um protector aliado americano que se julga imbuído de uma missão divina e quer ser venerado pelos seus súbditos actuais e pelos vindouros como o maior conquistador americano e maior amante da Paz, de todos os tempos, à lei da bala e da chantagem sobre os seus aliados mais vulneráveis. E, a quem não se dobrar aos sus ditames, ameaça com taxas e invasões. Enquanto a China de Xi Jinping escuta, olha e aguarda, acolhendo os abandonados, ocupando espaços vazios, sobretudo os mais ricos em recursos energéticos e estratégicos, absorvendo conhecimentos e tecnologias, fortalecendo-se financeiramente e militarmente e forjando alianças com vistas a um domínio mundial.
Um Mundo dominado por ditadores, espreita-nos e ameaça-nos no Ocidente, está à vista de todos, suportado pelos avanços da Ciência e da Tecnologia e pelos ricalhaços que deles beneficiam.
Um Mundo de enormes conhecimentos e avanços na Ciência e na Tecnologia que beneficiam, egoisticamente e tendencialmente, um número restrito de ricalhaços, empurrando a Humanidade para o esgotamento acelerado dos seus recursos e a esmagadora maioria da população para vivências próximas dos mínimos da sobrevivência.
A terra sem amos, com que sonhávamos e cantávamos na juventude, como meta historicamente inevitável dos valores que nos animavam, está a degenerar numa terra com 3 amos.
Este desenlace não será só devido à internet nem à velocidade das mudanças que nos atropelam e nos têm desorientado. A História não nos perdoará, Não haverá desculpas. Será também e muito, porque não temos estado à altura das nossas responsabilidades geracionais.
Por que razão a nossa geração tem estado ausente destes conflitos existenciais? A Velhice não justifica tudo. Os nossos pecados da juventude também não nos servem de alibi.
Começando por aqui, por Portugal e pelas actuais batalhas, por que razão não há nenhum candidato às eleições presidenciais a falar verdade? A dizer que o País, a Europa e o Mundo enfrentam desafios existenciais? Que a Democracia, o Estado de Direito, o Estado Social que têm vigorado na Europa estão por um fio? Que a União Europeia, que constitui o maior feito da Humanidade, enquanto espaço de Paz, Liberdade, Solidariedade e convívio entre os povos, está debaixo do fogo de ditadores vindos do Leste e do Oeste? Que é urgente e indispensável que todos nos preparemos para nos defendermos como cidadãos livres e donos dos nossos destinos, assumindo os inevitáveis custos associados?
Mesmo que não ganhasse, era indispensável que esse candidato tivesse avançado para identificar essas ameaças e reavivar os valores civilizacionais, em contraposição com o espectáculo deprimente a que temos vindo a assistir. Alguns candidatos da esquerda, que, eventualmente, pelas suas heranças ideológicas históricas, poderiam ser mais sensíveis a estes desafios e assumir esta missão, consumiram-se em conversas muito nobres, mas completamente desviadas dos grandes desafios. Há problemas com o Serviço Nacional de Saúde? Sem dúvida, os governantes querem enfraquecer o SNS em benefício de interesses privados. Há problemas com a Habitação? Está à vista de todos. Há problemas com as leis laborais? Há, e os governantes estão do lado oposto dos interesses de quem trabalha. Mas há, acima de tudo, uma ameaça à nossa existência como cidadãos livres que tem de ser reconhecida e enfrentada.
Onde votar? O único objectivo que nos resta neste conflito será impedir uma vitória moral da extrema-direita. Ganhar à primeira volta, à segunda parece ainda um feito inacessível, dará à extrema-direita ânimo para maiores feitos. Irei votar em quem parece que conseguirá impedir. Tinha em mente que não votaria na nulidade do Seguro nem à 25ª volta. Acabarei por votar à primeira volta. Tal estão as coisas.
Fonte: Imagem de destaque © South China Morning Post