{"id":11851,"date":"2024-05-08T07:41:37","date_gmt":"2024-05-08T07:41:37","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=11851"},"modified":"2024-05-08T07:41:41","modified_gmt":"2024-05-08T07:41:41","slug":"o-25-de-abril-visto-do-exilio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/2024\/05\/08\/o-25-de-abril-visto-do-exilio\/","title":{"rendered":"O 25 de Abril visto do ex\u00edlio"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">No notici\u00e1rio da televis\u00e3o francesa ouvimos que uma junta militar se preparava para tomar o poder no nosso Pa\u00eds<\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-post-date\"><time datetime=\"2024-05-08T07:41:37+00:00\">8 de Maio, 2024<\/time><\/div>\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>ABRIL, NA PRIMEIRA PESSOA<\/strong><\/mark> &#8211; Por <strong>Ac\u00e1cio Gomes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-medium\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"300\" height=\"234\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2-300x234.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11854\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2-300x234.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2.jpg 507w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Exilado em Fran\u00e7a, foi na manh\u00e3 do dia 25 de Abril de 1974 que soubemos do movimento militar que derrubaria o governo de Marcelo Caetano. Na manh\u00e3 desse dia, tinha combinado encontrar-me em casa do Jos\u00e9 Pedro Gomes, em Paris, e, no notici\u00e1rio da televis\u00e3o francesa do meio-dia (onze horas em Portugal), ouvimos, com um misto de incredulidade e de regozijo, que uma junta militar se preparava para tomar o poder no nosso Pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia imagens em directo de Lisboa, com tanques e tropas nas ruas, mas a informa\u00e7\u00e3o veiculada pela TV francesa era ainda muito confusa e pouco segura sobre o movimento militar que pretendia derrubar o governo do Estado Novo que j\u00e1 durava h\u00e1 48 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela manh\u00e3, apesar da incerteza acerca dos objectivos dos militares, come\u00e7\u00e1mos de imediato a fazer planos para regressar a Portugal, no mais curto espa\u00e7o de tempo poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas havia um inconveniente. A maioria dos exilados portugueses em Fran\u00e7a, tal como a grande maioria dos mais de cem mil jovens que tinham abandonado o Pa\u00eds para n\u00e3o ter de ir combater nas guerras em Angola, Mo\u00e7ambique e Guin\u00e9-Bissau, n\u00e3o possu\u00eda passaporte e, para passar nas fronteiras e atravessar Espanha, tal documento era imprescind\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Falando com v\u00e1rios outros exilados, verific\u00e1mos que as informa\u00e7\u00f5es eram muito contradit\u00f3rias, proliferavam muitos boatos, pois havia mesmo quem alvitrasse tratar-se de um golpe por parte de militares do regime e que n\u00e3o seria muito seguro voltar a Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>No meu caso, decidi regressar de imediato ao nosso Pa\u00eds, uma vez que j\u00e1 tinha tudo preparado para ir entrar na clandestinidade em Portugal para a organiza\u00e7\u00e3o em que militava naquela altura.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que a embaixada e o consulado estavam encerrados e s\u00f3 reabriram na segunda-feira seguinte. Essa circunst\u00e2ncia permitiu que a situa\u00e7\u00e3o em Portugal, vista de Paris, se clarificasse e chegarmos \u00e0 certeza de que o golpe militar visava restabelecer a democracia em Portugal. No dia em que me apresentei, havia filas enormes \u00e0 porta do consulado, que se estendiam pelas ruas anexas, para obter um passaporte. A\u00ed encontrei muitos dos membros da oposi\u00e7\u00e3o, bem conhecidos, todos com o mesmo objectivo: obter o passaporte que nos permitisse viajar.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, consegui falar ao telefone com alguns amigos e familiares do Porto, da Vila da Feira e de S. Jo\u00e3o da Madeira, para ter uma ideia da verdadeira situa\u00e7\u00e3o que emergia do movimento das for\u00e7as armadas. Depois de resolvidos alguns pendentes, regressei a Portugal no Sud-Express logo a seguir ao Primeiro de Maio de 1974 e fui de imediato para Lisboa, com a convic\u00e7\u00e3o que era ali que as \u201ccoisas\u201d estavam a acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, Portugal continuava a ser um pa\u00eds atrasado, provinciano, pese embora algum crescimento econ\u00f3mico tornado poss\u00edvel com a entrada na EFTA, concentrado sobretudo na grande Lisboa. O Pa\u00eds vivia em grande parte das remessas de emigrantes, espalhados pelo Mundo, constituindo enormes reservas que tornavam poss\u00edvel a continua\u00e7\u00e3o das guerras nas col\u00f3nias portuguesas de \u00c1frica. O famoso \u201cmilagre\u201d do ouro do Banco Portugal s\u00f3 foi poss\u00edvel com o dinheiro enviado pelos emigrantes. Sem as divisas enviadas pelos emigrantes, as guerras teriam acabado muito mais cedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a Lisboa, era uma regi\u00e3o que se encontrava inundada de bairros de lata, do Bairro Chin\u00eas ao Bairro do Rel\u00f3gio e dos muitos bairros semelhantes na Amadora, Loures, Oeiras, Margem Sul ou mesmo Cascais. Cerca de 100 mil pessoas viviam nessas circunst\u00e2ncias, em barracas de madeira, com telhados de zinco, sem \u00e1gua, sem esgotos, \u00e0s vezes sem electricidade. Conheci bem estas situa\u00e7\u00f5es, uma vez que fiz trabalho pol\u00edtico na maioria desses bairros depois do 25 de Abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Fora de Lisboa, no Norte e Centro, continuava-se a viver ao ritmo das esta\u00e7\u00f5es do ano e da agricultura, tirando algumas regi\u00f5es onde a ind\u00fastria tinha a primazia, especialmente \u00e0 volta do Porto, Braga e na nossa regi\u00e3o em particular, sobretudo S. Jo\u00e3o da Madeira, Vila da Feira, Oliveira de Azem\u00e9is e Ovar, mas a agricultura continuava a ter um impacto grande na vida das gentes.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, fora dos grandes centros urbanos de Lisboa, Porto e Braga, imperavam as condi\u00e7\u00f5es de vida de pobreza nos campos. Viajando por todo o Pa\u00eds, constatei isso mesmo, fosse no Minho ou Tr\u00e1s-os-Montes, mas em todas as Beiras, j\u00e1 para n\u00e3o falar no Alentejo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, quem tinha um emprego fixo conseguia sobreviver sem grandes luxos. Mas, quem tinha de extrair o seu sustento do trabalho nos campos passava por grandes dificuldades, dado que n\u00e3o tinha fontes de rendimento que lhes proporcionassem o acesso a bens e produtos que n\u00e3o viessem directamente da agricultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha terra n\u00e3o era muito diferente, apesar de uma parte trabalhar nas f\u00e1bricas da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas havia um sentimento generalizado na juventude de vontade de mudan\u00e7a, sentimento refor\u00e7ado pela recusa cada vez maior da continua\u00e7\u00e3o das guerras coloniais e pela repress\u00e3o pol\u00edtica e falta de liberdade. O sistema instalado procurava controlar tudo e todos, atrav\u00e9s dos informadores nas empresas, nas escolas e nas institui\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s dos legion\u00e1rios e da Mocidade Portuguesa e mesmo atrav\u00e9s de gente que era suposto n\u00e3o pactuar com tal situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi sem grande espanto que vim a saber, logo nos primeiros dias de Maio, ap\u00f3s a minha chegada a Lisboa, que tinha havido algumas repres\u00e1lias em Mosteir\u00f4 e noutras freguesias da Feira, especialmente contra legion\u00e1rios e, no caso da minha freguesia, tamb\u00e9m contra o padre, considerados informadores da pol\u00edcia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fiquei admirado, porque eu pr\u00f3prio cheguei a ser amea\u00e7ado por um legion\u00e1rio local de ser denunciado \u00e0 Pide. Apesar disso, na realidade, continuo a achar que n\u00e3o foi tal den\u00fancia que me levou a ser preso pelo pol\u00edcia pol\u00edtica em Setembro de 1967, no Porto, juntamente com um amigo. N\u00e3o estando organizado em nenhum partido na \u00e9poca, eu fazia parte de um grupo de amigos que contestava a guerra colonial, nos caf\u00e9s, nas escolas, no Instituto Comercial que frequentava, e havia sempre algu\u00e9m \u201cmais atento\u201d que era informador e se encarregava de fazer o respectivo relat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje n\u00e3o fa\u00e7o ideia de quem me ter\u00e1 denunciado \u2013 nem quero saber \u2013 mas creio que ter\u00e1 sido um informador qualquer dos muitos que existiam espalhados pela cidade do Porto.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, gra\u00e7as aos militares do Movimento das For\u00e7as Armadas, v\u00e1rios dos quais vim a conhecer pessoalmente, nomeadamente Otelo Saraiva de Carvalho, foi poss\u00edvel restabelecer a Liberdade e a Democracia em Portugal. E a todos eles devemos estar gratos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Ac\u00e1cio Gomes<\/h1>\n\n\n\n<p>Nascido em Agoncida, Mosteir\u00f4, Vila da Feira, Ac\u00e1cio Gomes \u00e9 consultor de comunica\u00e7\u00e3o e imagem. Foi jornalista de economia e finan\u00e7as no seman\u00e1rio&nbsp;<em>Expresso<\/em>, director da revista&nbsp;<em>Inforbolsa<\/em>, editor do programa da&nbsp;RTP&nbsp;<em>Bolsa e Neg\u00f3cios<\/em>, comentador econ\u00f3mico da RTP e da Antena Um e colunista do&nbsp;<em>Seman\u00e1rio Econ\u00f3mico<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Opositor ao regime salazarista, exilou-se em Fran\u00e7a em 1968, onde participou no movimento do Maio de 68. Em 1970, come\u00e7ou a escrever no jornal&nbsp;<em>O Salto<\/em>, em Paris, e foi comentador de assuntos da emigra\u00e7\u00e3o na R\u00e1dio France.<\/p>\n\n\n\n<p>Regressado a Portugal, logo ap\u00f3s o 25 de Abril, envolveu-se no movimento pol\u00edtico da \u00e9poca, tendo participado em organiza\u00e7\u00f5es de esquerda radical. Mais tarde, entre 1984 e 1987, fez parte do Clube da Esquerda Liberal, movimento que procurava discutir as quest\u00f5es relacionadas com o Liberalismo. Entre 1993 e 1995, foi adjunto da Assembleia da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 autor de&nbsp;<em>Os Soldados do PREC<\/em>&nbsp;(1977),&nbsp;<em>Os Pa\u00edses de Leste perante a Crise<\/em>&nbsp;(1980) e Coordenador e co-autor do&nbsp;<em>Guia da Bolsa Portuguesa<\/em>&nbsp;(1987).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No notici\u00e1rio da televis\u00e3o francesa ouvimos que uma junta militar se preparava para tomar o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11854,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[421,238],"tags":[369],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2.jpg",507,395,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2-300x234.jpg",300,234,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2.jpg",507,395,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2.jpg",507,395,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2.jpg",507,395,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2.jpg",507,395,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2.jpg",507,395,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2.jpg",507,395,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2.jpg",507,395,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2-507x340.jpg",507,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/ag-tmj-2-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/50anos25abril\/\" rel=\"category tag\">50ANOS25abril<\/a> <a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a>","tag_info":"DESTAQUE","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11851"}],"collection":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11851"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11851\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11855,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11851\/revisions\/11855"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11854"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}