{"id":11881,"date":"2024-05-14T10:55:52","date_gmt":"2024-05-14T10:55:52","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=11881"},"modified":"2024-05-14T10:55:55","modified_gmt":"2024-05-14T10:55:55","slug":"a-globalizacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/2024\/05\/14\/a-globalizacao\/","title":{"rendered":"A GLOBALIZA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">BIBLIOTECA DAS IDEIAS<\/h2>\n\n\n\n<p>Filipe do Carmo aborda num texto com cinco partes, complementadas por notas de interesse particularmente relevante, o tema da globaliza\u00e7\u00e3o. Vale a pena acompanhar a sua d\u00e9marche na interpela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que realiza ao pr\u00f3prio conceito e sobretudo \u00e0s suas consequ\u00eancias nos diversos dom\u00ednios da nossa vida em comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros artigo do autor podem ser encontrados <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/?s=Filipe+do+Carmo\">AQUI.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">NSF &#8211; Not\u00edcias Sem Fronteiras<\/mark><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignfull\" style=\"padding-top:4vw;padding-right:4vw;padding-bottom:4vw;padding-left:4vw;min-height:66vh\"><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-black-background-color has-background-dim-100 has-background-dim\"><\/span><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-group is-content-justification-center is-nowrap is-layout-flex wp-container-1 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/thato.test\/?page_id=28\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/pd.w.org\/2022\/01\/84661f60659149cc8.02053291.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/thato.test\/?page_id=28\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/pd.w.org\/2022\/01\/21261f60ba46147b0.97888240.jpg\" alt=\"\"\/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A GLOBALIZA\u00c7\u00c3O | Filipe do Carmo<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-medium\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"300\" height=\"257\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2-300x257.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11885\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2-300x257.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2.jpg 647w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><strong>Parte I <\/strong><\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es sobre o per\u00edodo final do s\u00e9culo XX<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O termo <strong>globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong> (equivalente a mundializa\u00e7\u00e3o, por vezes tamb\u00e9m utilizado), \u00e9 actualmente usado para designar o processo \u2013 relativo \u00e0 interac\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o entre pessoas, empresas e governos \u2013 que se tem vindo a estender e aprofundar entre todas as regi\u00f5es do planeta. Os desenvolvimentos que t\u00eam ocorrido no dom\u00ednio dos transportes desde sobretudo o s\u00e9culo XVIII e, mais recentemente, nas infraestruturas de telecomunica\u00e7\u00f5es s\u00e3o factores importantes que influenciam esse processo, tendo gerado uma interdepend\u00eancia crescente n\u00e3o s\u00f3 na economia, mas tamb\u00e9m nas actividades culturais, neste nosso mundo. S\u00e3o evolu\u00e7\u00f5es que, no entanto, em certos aspectos v\u00eam de tempos mais antigos, com alguns estudiosos a referir o terceiro mil\u00e9nio a.C. e muitos outros a dar mais relev\u00e2ncia \u00e0 era das descobertas e das viagens ao Novo Mundo pelos europeus. O termo <strong>globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>, no entanto, ter\u00e1 aparecido no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, desenvolvido o seu actual significado algures desde meados desse s\u00e9culo, tendo a sua populariza\u00e7\u00e3o ocorrido apenas, por\u00e9m, em meados dos anos 1990.<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o que pretendo colocar em primeiro lugar sobre este processo tem a ver com o significado real (em particular, em termos de aspectos positivos e negativos) que ele tem para o comum dos cidad\u00e3os. Num livro j\u00e1 escrito h\u00e1 cerca de 25 anos por um autor ingl\u00eas<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a> come\u00e7a-se por referir que \u201c<em>A nossa \u00e9poca evoluiu sob o impacte da ci\u00eancia, da tecnologia e do pensamento racionalista \u2026 A cultura industrial do Ocidente foi moldada pelas ideias do Iluminismo, pelos escritos de pensadores que rejeitavam a influ\u00eancia da religi\u00e3o e do dogma, e que, na pr\u00e1tica, queriam substitu\u00ed-los por formas mais racionais de encarar a vida \u2026 Para controlarmos o futuro, \u00e9 necess\u00e1rio que nos libertemos dos h\u00e1bitos e dos preconceitos do passado<\/em>.\u201d Da\u00ed que George Orwell tenha antevisto \u201c<em>uma sociedade com demasiada estabilidade e previsibilidade, na qual todas as pessoas se tornariam simples pe\u00e7as de uma vasta m\u00e1quina econ\u00f3mica e social \u2026 Contudo, o mundo em que agora vivemos n\u00e3o se parece muito com aquele que foi previsto, nem o vemos como tal. Em vez de estar cada vez mais dominado por n\u00f3s, parece totalmente descontrolado \u2013 um mundo virado do avesso<\/em>.\u201d<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Quando a palavra <strong>globaliza\u00e7\u00e3o <\/strong>nos aparece, tendemos a pensar em geral na economia, nas rela\u00e7\u00f5es mercantis que existem entre os diferentes estados, mas o processo que est\u00e1 impl\u00edcito no termo \u00e9 bem mais vasto. Giddens diz, por exemplo, que \u201c<em>a globaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a reestruturar as nossas formas de viver \u2026 afecta a vida corrente, da mesma forma que determina eventos que se passam \u00e0 escala planet\u00e1ria<\/em>\u201d e engloba \u201c<em>sexualidade \u2026 casamento \u2026 fam\u00edlia \u2026 mulheres \u2026 a exigir maior autonomia \u2026<\/em> [tais] <em>aspectos da globaliza\u00e7\u00e3o<\/em> [sendo] <em>pelo menos t\u00e3o importantes como os que afectam os mercados.<\/em>\u201d A perspectiva que Giddens transmitiu sobre o que pensava que se iria passar no s\u00e9culo em que j\u00e1 nos encontramos h\u00e1 mais de 20 anos era que aqueles que ele designava como fundamentalistas se iriam defrontar com a toler\u00e2ncia cosmopolita (a qual, segundo o autor, louva e adopta a referida complexidade cultural)<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. N\u00e3o deixando de ter presente que essa complexidade cultural existe de facto na actualidade, tenderei, pelo menos em alguns dos desenvolvimentos que farei a seguir, a dar relevo priorit\u00e1rio aos aspectos econ\u00f3micos e financeiros da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Giddens apoia posi\u00e7\u00f5es que consideravam, no final do s\u00e9culo XX, que <strong>a globaliza\u00e7\u00e3o era<\/strong>, como dizia, \u201c<em>um facto bem concreto, cujos efeitos se fazem sentir por toda a parte. O mercado global est\u00e1, segundo \u2026 dizem, muito mais desenvolvido do que estava em \u00e9pocas recentes, nos anos 60 e 70, por exemplo, e \u00e9 indiferente \u00e0s fronteiras nacionais. As na\u00e7\u00f5es perderam uma boa parte da soberania que detinham e os pol\u00edticos perderam muita da sua capacidade de influenciar os acontecimentos. N\u00e3o surpreende que os l\u00edderes pol\u00edticos j\u00e1 n\u00e3o sejam respeitados por ningu\u00e9m e que exista pouco interesse em rela\u00e7\u00e3o ao que eles t\u00eam a dizer. Acabou a era do Estado-na\u00e7\u00e3o.<\/em>\u201d Relativamente a outras opini\u00f5es provenientes de indiv\u00edduos que designava de \u201cc\u00e9pticos\u201d (tendentes a pertencer \u00e0 esquerda pol\u00edtica, especialmente \u00e0 velha esquerda) \u2013 os quais pretendiam que a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o passava de um mito e que os governos continuavam a ter capacidade para controlar a vida econ\u00f3mica e manter intactos os benef\u00edcios do Estado-provid\u00eancia \u2013 Giddens discordava delas. A sua discord\u00e2ncia apoiava-se n\u00e3o s\u00f3 no facto de o volume do com\u00e9rcio externo de ent\u00e3o ser superior ao de qualquer per\u00edodo anterior e abranger uma gama muito mais extensa de bens e servi\u00e7os, mas tamb\u00e9m de a ainda maior diferen\u00e7a se registar a n\u00edvel financeiro e de movimentos de capitais. Nesta \u00e1rea financeira, alimentada pelo dinheiro electr\u00f3nico \u2013 com as transfer\u00eancias maci\u00e7as de capitais a serem feitas com o simples carregar num bot\u00e3o \u2013 as decis\u00f5es tomadas por gestores de fundos, bancos, empresas e milh\u00f5es de investidores a t\u00edtulo pessoal, podiam desestabilizar economias que pareciam s\u00f3lidas como granito (como aconteceu, diz o autor, durante a crise asi\u00e1tica de 1998).<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Valer\u00e1 a pena dar destaque a alguns dos aspectos, referidos por Giddens<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a> com refer\u00eancia ao momento em que escreve, da evolu\u00e7\u00e3o que caracteriza o processo da globaliza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>\u201c<em>Os mercados financeiros globais movimentam mais de um milh\u00e3o de milh\u00f5es de d\u00f3lares por dia. \u00c9 um aumento maci\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o aos finais da d\u00e9cada de 1980, sem falarmos de anos mais distantes.<\/em>\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>H\u00e1 considera\u00e7\u00f5es de que se trata, \u201c<em>antes de tudo, de um fen\u00f3meno de natureza econ\u00f3mica. O que \u00e9 um erro. A globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica, tecnol\u00f3gica e cultural, al\u00e9m de econ\u00f3mica. Acima de tudo, tem sido influenciada pelo progresso nos sistemas de comunica\u00e7\u00e3o, registado a partir do final da d\u00e9cada de 1960.<\/em>\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>\u201c<em>O primeiro sat\u00e9lite comercial foi lan\u00e7ado em 1969. Agora h\u00e1 mais de duzentos destes sat\u00e9lites em \u00f3rbita \u2026 Pela primeira vez na Hist\u00f3ria, podemos estabelecer comunica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea com o outro lado do mundo \u2026 At\u00e9 final da d\u00e9cada de 1950, n\u00e3o existia nenhum cabo directo transatl\u00e2ntico ou transpac\u00edfico. O primeiro transportava menos de cem comunica\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas. Os actuais transportam mais de um milh\u00e3o.<\/em>\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>\u201c<em>A comunica\u00e7\u00e3o electr\u00f3nica instant\u00e2nea n\u00e3o \u00e9 apenas um meio de transmitir informa\u00e7\u00f5es com maior rapidez. A sua exist\u00eancia altera o pr\u00f3prio quadro das nossas vidas, ricos ou pobres.<\/em>\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>\u201c<em>Nos Estados Unidos, a r\u00e1dio levou quarenta anos para atingir os cinquenta milh\u00f5es de ouvintes. O mesmo n\u00famero de pessoas usava o computador pessoal, apenas quinze anos depois de a m\u00e1quina ter sido inventada. S\u00f3 foram precisos uns meros quatro anos, para haver cinquenta milh\u00f5es de americanos que usam a Internet com regularidade.<\/em>\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>\u201c<em>A globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas mais uma coisa que \u00abanda por a\u00ed\u00bb, remota e afastada do indiv\u00edduo. \u00c9 tamb\u00e9m um fen\u00f3meno \u00abinterior\u00bb, que influencia aspectos \u00edntimos e pessoais das nossas vidas. \u2026 Os sistemas tradicionais da fam\u00edlia est\u00e3o a transformar-se, ou est\u00e3o sujeitos a grandes tens\u00f5es, em diversas partes do mundo, em especial sempre que as mulheres exigem maior igualdade de direitos. Pelo que sabemos atrav\u00e9s dos registos hist\u00f3ricos, nunca houve qualquer sociedade em que as mulheres fossem, mesmo aproximadamente, iguais aos homens em direitos. Trata-se de uma revolu\u00e7\u00e3o global na vida corrente, cujas consequ\u00eancias se est\u00e3o a fazer sentir em todo o mundo, em todos os dom\u00ednios, do local de trabalho \u00e0 pol\u00edtica.<\/em>\u201d<\/li>\n\n\n\n<li>\u201c<em>A globaliza\u00e7\u00e3o, dizem alguns, cria um mundo de vencedores e vencidos, minorias que enriquecem rapidamente e maiorias condenadas a uma vida de mis\u00e9ria e desespero. Na realidade, as estat\u00edsticas s\u00e3o assustadoras. A parte do quinto mais pobre da popula\u00e7\u00e3o mundial no rendimento global tem vindo a decrescer, passou de 2,3 por cento em 1989 para 1,4 por cento em 1998. Por outro lado, a propor\u00e7\u00e3o obtida pelo quinto dos mais ricos aumentou. Na \u00c1frica ao sul do Sara, h\u00e1 vinte pa\u00edses em que o rendimento per capita \u00e9 inferior, em termos reais, ao do final dos anos 70. Em muitos pa\u00edses menos desenvolvidos, os regulamentos de seguran\u00e7a e defesa do ambiente s\u00e3o virtualmente inexistentes. \u2026 Juntamente com os riscos ecol\u00f3gicos, com os quais est\u00e1 relacionada, a desigualdade cada vez mais acentuada \u00e9 o mais grave dos problemas que a comunidade internacional tem de enfrentar.<\/em>\u201d<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Muito mais haver\u00e1 a dizer sobre a globaliza\u00e7\u00e3o, nomeadamente no que respeita \u00e0s suas implica\u00e7\u00f5es para o Estado-na\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m refere Giddens quando se interroga sobre se essa institui\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 poderosa ou se se est\u00e1 a tornar irrelevante para as for\u00e7as que est\u00e3o a transformar o mundo. A influ\u00eancia dessas for\u00e7as come\u00e7ou inquestionavelmente por vir do Ocidente, mas Giddens j\u00e1 na altura n\u00e3o deixou de se referir, por exemplo, \u00e0 emerg\u00eancia de um sector de alta tecnologia de orienta\u00e7\u00e3o global na \u00cdndia, embora n\u00e3o mencione um actor j\u00e1 ent\u00e3o bastante influente como a China. A globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, tendendo por outro lado e em particular a liberalizar o com\u00e9rcio mundial, poder\u00e1 com frequ\u00eancia conduzir tanto a benef\u00edcios para alguns estratos populacionais como \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de economias locais de subsist\u00eancia. Isso podendo ocorrer por exemplo com as flutua\u00e7\u00f5es de pre\u00e7os ou com as transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Assim, a pol\u00edtica econ\u00f3mica do Estado-na\u00e7\u00e3o, vendo-se coagida a optar pelo proteccionismo, estar\u00e1 de facto a contrariar, a fazer recuar, a globaliza\u00e7\u00e3o. A sociedade globalizada, n\u00e3o resultando de uma ordem institu\u00edda por uma vontade humana colectiva, tem feito emergir, ao acaso, uma forma an\u00e1rquica movida por uma mistura de influ\u00eancias que reflecte a incapacidade das nossas institui\u00e7\u00f5es. E, se as pol\u00edticas econ\u00f3micas nacionais n\u00e3o conseguem ser t\u00e3o eficientes como j\u00e1 foram e as antigas formas da geopol\u00edtica se est\u00e3o a tornar obsoletas, isso significa que as na\u00e7\u00f5es se veem obrigadas a repensar as pr\u00f3prias identidades.<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mas tudo isto, dando uma ideia do que \u00e9 a globaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixa de ter uma data, que \u00e9 o final do s\u00e9culo XX e uma perspectiva pessoalizada que \u00e9 essencialmente a de Anthony Giddens. E, se a sua percep\u00e7\u00e3o de que a ideia de autonomia nacional se op\u00f5e \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 confirmada por opini\u00f5es posteriores baseadas em realidades que traduzem recuos nesse processo (o regresso dos proteccionismos \u00e9 evidente actualmente), haver\u00e1 certamente muito mais a dizer n\u00e3o s\u00f3 sobre tais recuos mas tamb\u00e9m sobre a caracteriza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio processo de globaliza\u00e7\u00e3o desde o per\u00edodo dos anos 1990 at\u00e9 2024. Por exemplo no respeitante \u00e0 integra\u00e7\u00e3o da China e do Leste europeu na economia mundial. H\u00e1 in\u00fameros aspectos da globaliza\u00e7\u00e3o que requerem desenvolvimentos e dever\u00e3o ser tratados em textos que se dever\u00e3o seguir a este.<\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa, 7 de Mar\u00e7o de 2024<\/p>\n\n\n\n<p>Filipe do Carmo<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><strong>Parte II  <\/strong><\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Rela\u00e7\u00e3o entre globaliza\u00e7\u00e3o e a traject\u00f3ria do sistema mundial<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Um autor muito conhecido na \u00e1rea dos desenvolvimentos econ\u00f3micos, pol\u00edticos e sociais no per\u00edodo que tem in\u00edcio em meados do s\u00e9culo XV \u2013 Immanuel Wallerstein \u2013 considerou, num dos seus artigos<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, que a globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um conceito enganador. Isso porque o que se entendia como tal nos finais do s\u00e9culo XX j\u00e1 tinha come\u00e7ado a acontecer h\u00e1 500 anos<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, precisamente a partir do in\u00edcio do per\u00edodo sobre que incide uma das suas mais relevantes obras<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a> na \u00e1rea acima referida. Para ele, o que de facto constitu\u00eda novidade na altura em que escreveu o artigo citado \u00e9 que se estava a entrar numa \u201cera de transi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Wallerstein, os anos 1990 foram assolados por um discurso sobre a globaliza\u00e7\u00e3o, com bastantes personalidades a insistirem que se vivia, pela primeira vez, numa tal era. Afirmavam que a globaliza\u00e7\u00e3o havia mudado tudo:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>a soberania dos Estados havia sido diminu\u00edda;<\/li>\n\n\n\n<li>a capacidade de qualquer um resistir \u00e0s regras do mercado tinha desaparecido;<\/li>\n\n\n\n<li>a possibilidade de autonomia cultural tinha sido praticamente anulada;<\/li>\n\n\n\n<li>as caracter\u00edsticas definidoras das nossas identidades haviam sido seriamente abaladas.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Para Wallerstein, esse processo de presumida globaliza\u00e7\u00e3o, que era celebrado por alguns e lamentado por outros, constitu\u00eda uma desmesurada e errada interpreta\u00e7\u00e3o da realidade que se vivia: um engano ditado por grupos poderosos e, pior ainda, um engano que os cidad\u00e3os impuseram a eles pr\u00f3prios, muitas vezes de forma desesperada.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a leitura que fiz do citado artigo de Wallerstein fiquei com uma forte impress\u00e3o \u2013 a qual poder\u00e1 resultar, no entanto, do meu desconhecimento de desenvolvimentos feitos por especialistas que escreveram sobre a globaliza\u00e7\u00e3o \u2013 de que o autor se equivocou sobre o objectivo que a utiliza\u00e7\u00e3o do conceito pretendia atingir no per\u00edodo que ent\u00e3o se vivia. E esse equ\u00edvoco parece ser vis\u00edvel logo na primeira parte (<em>Globalization<\/em><em> <\/em><em>or the Age of Transition<\/em>?) do t\u00edtulo do artigo. A quest\u00e3o estar\u00e1 em que, para Wallerstein, ocorreram acontecimentos \u2013 de natureza fundamentalmente econ\u00f3mica, mas aos quais estavam associados outros, sobretudo de natureza social, pol\u00edtica e cultural \u2013 que j\u00e1 tinham sido iniciados nos anos 1990 e que, segundo a sua opini\u00e3o, traduziam uma crise sist\u00e9mica (sendo errado, afirma, classific\u00e1-los como elementos definidores de uma <em>globaliza\u00e7\u00e3o<\/em>): a crise do <em>World System<\/em>, cujo estudo ele desenvolveu para o per\u00edodo 1450-1914 e que, mais em particular, designa como <em>Capitalist World Economy<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa crise constitui, para Wallerstein, <em>the Age of Transition<\/em> (no sistema da economia capitalista), e integra-se na fase B do ciclo de Kondratieff (fase essa, de retrac\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, iniciada em meados dos anos 1970, e que sucedeu \u00e0 fase A \u2013 de expans\u00e3o \u2013 do mesmo ciclo que tinha tido in\u00edcio em 1945). N\u00e3o vou tentar explicar em detalhe o que s\u00e3o os ciclos de Kondratieff, sobretudo porque as poucas leituras que fiz sobre o assunto me convenceram, dadas as diferentes percep\u00e7\u00f5es que identifiquei, que necessitaria de muitas mais leituras e imensas p\u00e1ginas de tentativas de correcta elucida\u00e7\u00e3o, para chegar a um resultado satisfat\u00f3rio (se \u00e9 que l\u00e1 chegaria\u2026). Mas poderei come\u00e7ar por dar realce, em primeiro lugar, ao que Wallerstein diz da referida fase A do ciclo referido: \u201c\u2026 aquele per\u00edodo que os Franceses adequadamente designaram <em>les trente glorieuses<\/em>. O qual coincidiu com o ponto alto da hegemonia dos Estados Unidos no sistema mundial e ocorreu no quadro de uma ordem mundial que os EUA estabeleceram a seguir a 1945.\u201d O autor d\u00e1 tamb\u00e9m destaque a que os EUA emergiram da Segunda Guerra Mundial como a \u00fanica pot\u00eancia cujas unidades industriais se mantiveram intactas, o que, conjugado com o colapso que atingiu outros actores econ\u00f3micos, lhes deu uma vantagem concorrencial enorme que lhes permitiu acumular enormes riquezas, mas conduzindo tamb\u00e9m a grandes tens\u00f5es pol\u00edticas e sociais em muitas regi\u00f5es do planeta.<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em termos especificamente econ\u00f3micos, contudo, o mais dif\u00edcil de absorver para os EUA foi a recupera\u00e7\u00e3o e depois o florescimento da Europa Ocidental e do Jap\u00e3o. Para Wallerstein, no decurso dos anos 1960 os respectivos diferenciais de produtividade entre estas \u00e1reas geogr\u00e1ficas e os EUA foram praticamente eliminados, o que levou a que tais \u00e1reas passassem a poder competir com os produtos americanos nos mercados de outros pa\u00edses e mesmo no territ\u00f3rio americano. Como consequ\u00eancia para a economia americana adveio um forte decl\u00ednio da rentabilidade em v\u00e1rios sectores, o qual foi uma das principais causas por detr\u00e1s de acontecimentos como o que Wallerstein designa \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Mundial de 1968\u201d e o abandono do padr\u00e3o ouro do sistema monet\u00e1rio. Com as situa\u00e7\u00f5es criadas foram originadas manifesta\u00e7\u00f5es, mesmo motins e por vezes revoltas, e, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural na China, as contesta\u00e7\u00f5es sociais ganharam novos contornos. E, com a multiplica\u00e7\u00e3o, por 4 ou 5, dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo dos finais de 1973 ao in\u00edcio de 1974, muita coisa mudou significativamente na concorr\u00eancia entre as empresas em v\u00e1rios sectores, e isto nos mais variados pa\u00edses. Se os fortes ganhos de produtividade que haviam ocorrido, at\u00e9 ent\u00e3o, haviam permitido fazer frente com alguma facilidade \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es salariais que ocorriam, o agravamento das situa\u00e7\u00f5es concorrenciais passou, a partir de cerca de 1970, a implicar atitudes menos favor\u00e1veis aos assalariados face a tais reivindica\u00e7\u00f5es. E da\u00ed at\u00e9 ao triunfo das posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas neoliberais \u2013 com destaque para o que sucedeu nos in\u00edcios dos anos 1980 com Thatcher (Reino Unido) e Reagan (EUA) \u2013 foi apenas um curto passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha-se posto um fim \u00e0s <em>trente glorieuses<\/em>. E j\u00e1 na segunda metade dos anos 1970 se come\u00e7aram a multiplicar as situa\u00e7\u00f5es claramente de fase B do ciclo de Kondratieff iniciado em 1945. E se, nos \u00faltimos tempos da fase A, tend\u00eancias pol\u00edticas de esquerda tinham conquistado o poder pol\u00edtico estatal (paradoxalmente ou n\u00e3o), j\u00e1 no respeitante \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es nas suas sociedades que pretendiam implementar, refere Wallerstein, n\u00e3o foram capazes de o conseguir e defrontaram-se com um longo per\u00edodo de estagna\u00e7\u00e3o na economia mundial. E as principais consequ\u00eancias dessa situa\u00e7\u00e3o foram:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>Os detentores de capitais alteraram de modo significativo a \u00e1rea em que procuravam lucro da esfera produtiva para a esfera financeira.<\/li>\n\n\n\n<li>Crescimento substancial do desemprego a n\u00edvel mundial.<\/li>\n\n\n\n<li>Mudan\u00e7as significativas de locais de produ\u00e7\u00e3o de \u00e1reas com sal\u00e1rios mais altos para \u00e1reas com sal\u00e1rios mais baixos (o fen\u00f3meno das \u201cf\u00e1bricas em fuga\u201d).<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Wallerstein teria provavelmente raz\u00e3o quando dizia que se estava a entrar numa era de transi\u00e7\u00e3o nos anos 1990 e que aquilo que entendia como processo de globaliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha tido in\u00edcio muito antes. Mais problem\u00e1tico ser\u00e1 contudo aceitar a contraposi\u00e7\u00e3o que fazia no respeitante ao dito processo de globaliza\u00e7\u00e3o quando \u2013 referindo que \u201cbastantes personalidades\u201d afirmavam em tais anos 1990 que esse processo havia mudado tudo \u2013 insistia em que a globaliza\u00e7\u00e3o constitu\u00eda uma desmesurada e errada interpreta\u00e7\u00e3o da realidade que se vivia. E isso porque os pontos ent\u00e3o referidos como caracterizadores da globaliza\u00e7\u00e3o, entendidos por ele n\u00e3o como tais mas sim como definidores de uma crise sist\u00e9mica, poder\u00e3o na realidade contribuir para definir o car\u00e1cter tanto de uma como da outra realidade (embora a ocorr\u00eancia do processo de globaliza\u00e7\u00e3o, em muitos momentos, possa n\u00e3o ser acompanhado do que se entenda por crise sist\u00e9mica ou que uma tal crise possa conduzir, de modo diverso e curiosamente, a epis\u00f3dios de desglobaliza\u00e7\u00e3o). Na minha opini\u00e3o, o facto de eventualmente estar a decorrer uma crise sist\u00e9mica pode ter resultado de factores que se integram ou n\u00e3o num processo de globaliza\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Interessar\u00e1, de qualquer modo, entender adequadamente o que eram, no ano 2000, para Wallerstein, a <strong>transi\u00e7\u00e3o<\/strong> que referia e a <strong>crise sist\u00e9mica<\/strong> que a caracterizava. Poderei agora recorrer a partes do texto de Wallerstein (tradu\u00e7\u00e3o minha) para tentar compreender. Come\u00e7ando com uma parte de um par\u00e1grafo da p\u00e1gina 252:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Estamos de facto num momento de transforma\u00e7\u00e3o. Mas isso n\u00e3o corresponde a um mundo j\u00e1 estabelecido, recentemente globalizado, e com regras claras. Pelo contr\u00e1rio, encontramo-nos numa era de transi\u00e7\u00e3o, transi\u00e7\u00e3o essa n\u00e3o apenas de alguns pa\u00edses atrasados que precisam de acompanhar o esp\u00edrito da globaliza\u00e7\u00e3o, mas uma transi\u00e7\u00e3o em que todo o sistema capitalista mundial ser\u00e1 transformado em algo diferente. O futuro, longe de ser inevit\u00e1vel e \u00fanico, para o qual n\u00e3o h\u00e1 alternativa, est\u00e1 em vias de ser determinado nesta transi\u00e7\u00e3o que tem um desfecho extremamente incerto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O mundo a que o autor se refere \u00e9 o que existia no ano 2000. Crise havia certamente e, ainda na mesma p\u00e1gina, ela \u00e9 situada (fase B do j\u00e1 referido ciclo de Kondratieff) a partir de 1967-73 at\u00e9 2000, sendo expect\u00e1vel que continuasse durante mais alguns anos. Mas, logo a seguir, Wallerstein diz que o per\u00edodo de 1450 at\u00e9 2000, em contraste, marca o ciclo de vida da economia mundial capitalista, o qual tem o seu per\u00edodo de g\u00e9nese, o seu per\u00edodo de normal desenvolvimento, tendo entrado, na altura em que escreve, no seu per\u00edodo de crise terminal. Quest\u00e3o complicada, quando se sabe que houve per\u00edodos de expans\u00e3o econ\u00f3mica (pelo menos a partir de 1985, embora certamente n\u00e3o compar\u00e1veis com as <em>trente glorieuses<\/em>) e outros de retrac\u00e7\u00e3o (j\u00e1 foi referida, em particular, no texto que precede o actual, a crise asi\u00e1tica do final dos anos 1990; depois de 2000, sabemos que houve uma grande crise, a iniciada em 2008, e outra, ap\u00f3s o in\u00edcio da guerra da Ucr\u00e2nia, que ainda n\u00e3o se tem considerado como terminada)<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Ora, na cita\u00e7\u00e3o acima, diz-se que, com a transi\u00e7\u00e3o em causa, \u201ctodo o sistema capitalista mundial ser\u00e1 transformado em algo diferente\u201d e ter\u00e1 um \u201cdesfecho extremamente incerto\u201d. Para complicar ainda mais, uma outra parcela de par\u00e1grafo, na p\u00e1gina 265, refere o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2026 podemos dizer que a economia mundial capitalista entrou agora na sua crise terminal \u2013 uma crise que pode durar at\u00e9 50 anos. A verdadeira quest\u00e3o que se nos coloca \u00e9 o que ir\u00e1 acontecer durante esta crise, que \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o do actual sistema mundial para algum outro tipo de sistema ou sistemas hist\u00f3ricos. Analiticamente, a quest\u00e3o chave com que nos defrontamos \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre os ciclos de Kondratieff que descrevi inicialmente e a crise de sistema a que agora me refiro. Politicamente, coloca-se a quest\u00e3o de saber que tipo de ac\u00e7\u00e3o social \u00e9 poss\u00edvel e desej\u00e1vel durante uma transi\u00e7\u00e3o sist\u00e9mica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E complica mais porque se fica sobretudo sem saber \u2013 como tem consci\u00eancia o autor \u2013 qual a rela\u00e7\u00e3o entre os ciclos de Kondratieff e a crise terminal que \u00e9 suspeita de ir durar at\u00e9 cerca de 2050. E, para mim, torna-se dif\u00edcil de perceber como \u00e9 que, existindo per\u00edodos at\u00e9 2000 de clara recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica (sem falar no que ocorreu a seguir at\u00e9 2008), se pode integrar tais per\u00edodos na referida fase B do ent\u00e3o ciclo em que se estava. Mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que eu tenha compreendido mal tudo isso. Provavelmente, Wallerstein tamb\u00e9m ter\u00e1 tido algumas dificuldades de compreens\u00e3o do que est\u00e1 em causa e algo que escreve a seguir (p\u00e1gina 266) poder\u00e1 ir em tal sentido:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Os ciclos de Kondratieff fazem parte do funcionamento \u201cnormal\u201d da economia capitalista mundial. O dito funcionamento normal n\u00e3o p\u00e1ra porque o sistema entrou numa crise sist\u00e9mica. Os v\u00e1rios mecanismos que explicam o comportamento de um sistema capitalista continuam a funcionar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E, ainda na mesma p\u00e1gina, fornece poss\u00edveis explica\u00e7\u00f5es mais concretas:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Quando a fase B em vigor chegar ao seu termo, teremos sem d\u00favida uma nova fase A. Contudo, a crise sist\u00e9mica interfere seriamente com a traject\u00f3ria. \u00c9 um pouco como se algu\u00e9m tentasse dirigir um carro ladeira abaixo com o motor ainda intacto, mas com a carro\u00e7aria e as rodas danificadas. O carro sem d\u00favida avan\u00e7aria, mas certamente n\u00e3o em linha recta como se esperaria anteriormente, nem com as mesmas garantias de que os trav\u00f5es funcionariam de forma eficiente. O modo como se iria comportar seria bastante dif\u00edcil de avaliar antecipadamente. Fornecer mais gasolina ao motor pode ter consequ\u00eancias inesperadas. O carro poderia colidir. \u2026 Sem d\u00favida \u2026 um motorista prudente deveria conduzir bastante devagar nessas dif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o h\u00e1 motoristas prudentes na economia mundial capitalista. Nenhum indiv\u00edduo ou grupo tem o poder de tomar as decis\u00f5es necess\u00e1rias sozinho. E o pr\u00f3prio facto de estas decis\u00f5es serem tomadas por um grande n\u00famero de intervenientes que operam separadamente, e cada um no seu pr\u00f3prio interesse imediato, garante que na realidade o carro n\u00e3o ir\u00e1 abrandar. Provavelmente, come\u00e7ar\u00e1 a andar de modo cada vez mais r\u00e1pido<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Claro, para mim, que \u201cn\u00e3o h\u00e1 motoristas prudentes na economia mundial capitalista\u201d e que \u201cnenhum indiv\u00edduo ou grupo tem o poder de tomar as decis\u00f5es necess\u00e1rias sozinho\u201d. E outras afirma\u00e7\u00f5es ou explica\u00e7\u00f5es de Wallerstein se afiguram interessantes noutras p\u00e1ginas do seu artigo mas, se vier a achar conveniente, deix\u00e1-las-ei para textos que penso ainda escrever para esta s\u00e9rie. E, para isso, procurarei expor aspectos da globaliza\u00e7\u00e3o (ou mesmo da desglobaliza\u00e7\u00e3o) em curso, n\u00e3o obstante Wallerstein n\u00e3o lhe dar autonomia relativamente \u00e0 crise sist\u00e9mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa, 31 de Mar\u00e7o de 2024<\/p>\n\n\n\n<p>Filipe do Carmo<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Parte III <\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Do pensamento econ\u00f3mico desde a Renascen\u00e7a at\u00e9 \u00e0 poss\u00edvel crise sist\u00e9mica do capitalismo nos nossos tempos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Com o per\u00edodo da Renascen\u00e7a e da Reforma Protestante, a uma sociedade rural e artesanal sucede uma sociedade comercial e de manufactura. E, com os novos tempos, a riqueza, a ind\u00fastria, o com\u00e9rcio e o esp\u00edrito do lucro, adquirem maior relevo. Surge o designado mercantilismo, primeiro de express\u00e3o espanhola (que dava proemin\u00eancia \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de metais preciosos), o qual no entanto conduziu a uma estagna\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas e a atrasos no crescimento industrial e comercial. J\u00e1 o mercantilismo franc\u00eas, tamb\u00e9m conhecido por colbertismo e de natureza mais industrialista e estatista, dava grande relev\u00e2ncia \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o manufacturada, procurando assegurar uma balan\u00e7a comercial positiva (e logo, tamb\u00e9m, um aumento das reservas monet\u00e1rias). Contudo, com mais ou menos influ\u00eancia dos princ\u00edpios mercantilistas, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e financeiras da Fran\u00e7a eram bastante m\u00e1s. O que poder\u00e1 ter influenciado as teorias fisiocratas \u2013 em que se destacava o m\u00e9dico e economista Quesnay \u2013 que consideravam que a ind\u00fastria e o com\u00e9rcio eram est\u00e9reis, que s\u00f3 a agricultura criava realmente riqueza, mas defendiam a liberdade de com\u00e9rcio e a livre concorr\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do final do s\u00e9culo XVIII, e desenvolvendo-se sobretudo no s\u00e9culo seguinte, afirma-se o pensamento econ\u00f3mico da Escola Cl\u00e1ssica, em que o grande destaque deve ser dado a <em>The Wealth of Nations<\/em>, c\u00e9lebre obra de Adam Smith. A\u00ed, a fonte origin\u00e1ria da riqueza n\u00e3o \u00e9 o com\u00e9rcio ou a agricultura, mas sim o trabalho (atribuindo a este factor o facto de umas na\u00e7\u00f5es serem mais ricas que outras, dadas as diferentes produtividades existentes numas e noutras). O autor faz a distin\u00e7\u00e3o entre valor de uso e valor de troca e \u00e9 apologista, tal como os fisiocratas precedentes, de uma plena liberdade econ\u00f3mica. Preocupando-se, a partir do interesse individual, com a produ\u00e7\u00e3o, a divis\u00e3o do trabalho e o equil\u00edbrio da oferta e da procura, define uma doutrina liberal que se traduz pelo <em>laissez faire, laissez passer<\/em>, afirmando-se ainda advers\u00e1rio do proteccionismo e da interven\u00e7\u00e3o estatal. Autores posteriores \u2013 como David Ricardo (que, diferentemente de Smith, considera que \u00e9 o trabalho que determina o valor), Jean-Baptiste Say, Claude-Fr\u00e9d\u00e9ric Bastiat e John Stuart Mill \u2013 assumem posi\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas de Smith, introduzindo por vezes precis\u00f5es ou acertos \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es e afirmando, uma ou outra vez, discord\u00e2ncias. No caso de Ricardo, \u00e9 afirmado, por exemplo, que o com\u00e9rcio livre permite tirar todo o proveito poss\u00edvel dos favores da natureza, conseguindo-se uma melhor distribui\u00e7\u00e3o e mais economia no trabalho, al\u00e9m de difundir por toda a parte o bem-estar. Say formulou a Lei dos Mercados, proclamando que o empres\u00e1rio que cria valores s\u00f3 pode conseguir que lhos paguem se outros tiverem meios para lhos comprar e, assim, o aumento da produ\u00e7\u00e3o de um bem cria mercados para os outros. Sendo advers\u00e1rio do socialismo e do proteccionismo, condena toda a interven\u00e7\u00e3o do Estado na vida econ\u00f3mica, com as leis gerais do mundo social a revelarem-se harm\u00f3nicas e a tenderem em todos os sentidos para o aperfei\u00e7oamento da humanidade. Stuart Mill tinha a opini\u00e3o de que as classes oper\u00e1rias n\u00e3o estavam preparadas para o socialismo, defendendo contudo o melhoramento das suas condi\u00e7\u00f5es de vida. Por outro lado, considera que o pa\u00eds mais pobre e menos industrializado \u00e9 o que mais lucra com as importa\u00e7\u00f5es que realiza, verificando-se que a troca entre pa\u00edses proporciona a cada parte a economia de uma quantidade de trabalho, que representa um ganho a favor do pa\u00eds importador.<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Dados os elementos que s\u00e3o dados nos par\u00e1grafos anteriores, ser\u00e1 poss\u00edvel compreender melhor as evolu\u00e7\u00f5es que ocorreram mais tarde, sobretudo desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, e de que j\u00e1 foram transmitidos elementos nos textos anteriores, sobretudo a partir de 1945 (per\u00edodo p\u00f3s 2\u00aa guerra mundial: ver Parte II) e \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX (respeitantes \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o: Parte I). No concernente especificamente \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o, conv\u00e9m ter presentes quest\u00f5es como a defesa de uma plena liberdade econ\u00f3mica, o princ\u00edpio do com\u00e9rcio livre e os \u201cmas\u201d que lhes est\u00e3o associados, al\u00e9m dos puros proteccionismos e dos poss\u00edveis desagrados face \u00e0s interven\u00e7\u00f5es estatais (de que se encontram refer\u00eancias v\u00e1rias nos par\u00e1grafos precedentes; faltar\u00e3o certamente elementos, sobretudo, os que respeitam, por exemplo, ao neoliberalismo, mas l\u00e1 chegaremos mais \u00e0 frente).<\/p>\n\n\n\n<p>Para j\u00e1, acho conveniente dar algum prosseguimento \u00e0 quest\u00e3o da crise sist\u00e9mica que Wallerstein parece afirmar que se encontrava em desenvolvimento cerca do ano 2000, algo de que conv\u00e9m tentar obter esclarecimentos para entender melhor o que se passa em termos de globaliza\u00e7\u00e3o. Para o efeito, vou recorrer ao conte\u00fado de um livro publicado mais tarde, em 2015, de autoria de Paul Mason, um jornalista do <em>The Guardian<\/em> e do <em>New Statesman<\/em>, com um CV que apresenta, entre outras refer\u00eancias, formaturas em M\u00fasica e Pol\u00edtica pela Universidade de Sheffield.<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Um autor bem conhecido \u2013 Slavoj Zizek \u2013 d\u00e1-nos uma ideia, na badana do livro, da complexidade e da poss\u00edvel falta de lucidez das perspectivas apresentadas por Mason:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Depois do p\u00f3s-modernismo e de outras p\u00f3s-modas, Mason confronta-nos com o \u00fanico e verdadeiro p\u00f3s: o p\u00f3s-capitalismo. Embora todos percebamos \u00e0 nossa volta os sinais agoirentos de um impasse do capitalismo global, \u00e9-nos mais dif\u00edcil do que nunca conceber uma alternativa exequ\u00edvel ao mesmo. Como poderemos lidar com tamanha frustra\u00e7\u00e3o? O livro de Mason \u00e9 uma leitura irresist\u00edvel, mas esta clarivid\u00eancia n\u00e3o dever\u00e1 distrair-nos: este \u00e9 um livro que nos obriga a pensar!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ora, na contracapa, surge um pequeno par\u00e1grafo que vira ao optimismo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O capitalismo \u00e9 um sistema falido, incapaz de encontrar solu\u00e7\u00f5es vi\u00e1veis para as crises que o t\u00eam atingido. <strong>Mas a alternativa existe e est\u00e1 em marcha. E trar\u00e1 uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria e uma economia mais sustent\u00e1vel. Chama-se p\u00f3s-capitalismo<\/strong>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Vamos ent\u00e3o tentar perceber o que Mason concluiu, come\u00e7ando por tirar uma primeira ideia com uma frase inclu\u00edda na Introdu\u00e7\u00e3o do livro: \u201co capitalismo \u00e9 um sistema complexo e adaptativo que atingiu os limites da sua capacidade de adapta\u00e7\u00e3o\u201d. Come\u00e7a por ser complexo porque, al\u00e9m do que nos aparece como caracterizante em muitas leituras \u2013 entre outras, a propriedade privada, uma actividade econ\u00f3mica potencialmente livre, uma oposi\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio a regulamenta\u00e7\u00f5es estatais, a exist\u00eancia de organiza\u00e7\u00f5es sindicais dos trabalhadores \u2013 as realidades hist\u00f3ricas evidenciam situa\u00e7\u00f5es que evoluem expressivamente no tempo e no espa\u00e7o e que nos revelam aspectos que dificultam defini\u00e7\u00f5es precisas. Al\u00e9m disso, quando pensamos em \u201csociedade capitalista\u201d, o econ\u00f3mico \u00e9 insuficiente para a caracteriza\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 tivemos ocasi\u00e3o de constatar, na Parte I precedente, com as refer\u00eancias, em particular, aos aspectos culturais, pol\u00edticos e tecnol\u00f3gicos (al\u00e9m de que, como refere o autor mais \u00e0 frente na sua Introdu\u00e7\u00e3o, o capitalismo n\u00e3o se reduz \u00e0 actua\u00e7\u00e3o de empresas, dos mercados e de Estados; inclui ainda submundos criminosos, redes secretas de poder<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\">[17]<\/a>, pregadores em bairros de lata e analistas desonestos na Wall Street; e tamb\u00e9m bandos de raparigas descontroladas como o que aguardou a inaugura\u00e7\u00e3o da loja de marca em Londres, com a excita\u00e7\u00e3o de se adquirirem roupas a pre\u00e7os irris\u00f3rios). E, quando pensamos no tempo e no espa\u00e7o, n\u00e3o podem deixar de nos vir ao esp\u00edrito as influ\u00eancias de conflitos armados e de eventos ambientais que for\u00e7osamente t\u00eam requerido adapta\u00e7\u00f5es nas referidas sociedades.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Mason sentia \u2013 na sequ\u00eancia da crise de 2008 e da austeridade que se estendeu nos anos seguintes a v\u00e1rios pa\u00edses (com relevo especial, na Europa, para os pa\u00edses do Sul) e influenciado tamb\u00e9m por previs\u00f5es da OCDE e pela ordem global imposta pelo FMI, Banco Mundial e Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio \u2013 era que, no longo prazo, as perspectivas do capitalismo eram sombrias e as desigualdades haveriam de continuar a aumentar. Os cidad\u00e3os comuns, recusando-se a pagar o pre\u00e7o da austeridade, tenderiam a apoiar partidos de extrema-esquerda ou de extrema-direita enquanto os Estados haveriam de procurar impor os custos da crise uns aos outros. O que n\u00f3s temos visto, sobretudo a partir de 2020, com os resultados da pandemia e das guerras da Ucr\u00e2nia e do M\u00e9dio Oriente, n\u00e3o est\u00e1 longe disso e, j\u00e1 pressentido tamb\u00e9m por Mason, n\u00e3o s\u00f3 a globaliza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a entrar em ruptura, como o apoio ao direito internacional tenderia a \u201cevaporar-se\u201d (atente-se ao que agora se passa com a ONU). E, com os graves impactos da crise clim\u00e1tica (eu diria \u201cambiental\u201d!), o envelhecimento demogr\u00e1fico e o crescimento da popula\u00e7\u00e3o, o autor achava que, caso n\u00e3o fosse criada uma ordem global sustent\u00e1vel e restaurado o dinamismo econ\u00f3mico, as d\u00e9cadas que se seguissem a 2050 revelar-se-iam ca\u00f3ticas (um Mason pouco pessimista: eu estou convencido que v\u00e3o ser precisos menos que 26 anos para chegar a tal situa\u00e7\u00e3o; j\u00e1 estamos a ver uma parte consider\u00e1vel dos recursos econ\u00f3micos a serem desviados para o armamento; e se \u2026?). E ca\u00f3ticos j\u00e1 se t\u00eam revelado os \u00faltimos anos que temos vivido, em particular para os mais jovens \u2013 mesmo com forma\u00e7\u00e3o superior at\u00e9 doutoramento \u2013 frequentemente sem emprego ou entregues \u00e0 precariedade e aos falsos recibos verdes e impossibilitados de conseguir alojamento adequado.<\/p>\n\n\n\n<p>E Mason prossegue, talvez de modo algo optimista, procurando explicar porque raz\u00e3o a substitui\u00e7\u00e3o do capitalismo deixou de ser um sonho ut\u00f3pico, considerando que podem descobrir-se as formas b\u00e1sicas de uma economia p\u00f3s-capitalista no interior do actual sistema e como estas se podem expandir rapidamente. \u00c9 que, afirma, a crise actual n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um pren\u00fancio do fim do modelo neoliberal \u2013 o tal que pretende que, para ele, <em>There is no alternative<\/em> (TINA), <em>n\u00e3o existe alternativa<\/em>, e que uma revolta contra o capitalismo \u00e9 uma revolta contra uma ordem natural e eterna \u2013 mas tamb\u00e9m um sintoma da incompatibilidade, a longo prazo, entre os sistemas de mercado e uma economia assente na informa\u00e7\u00e3o. E, continua Mason, o neoliberalismo impulsionou, de 1990 a 2015, a maior vaga de desenvolvimento a que o mundo alguma vez assistiu e desencadeou um aperfei\u00e7oamento exponencial das principais tecnologias de informa\u00e7\u00e3o (o <strong>digital<\/strong>, com o autor a ainda n\u00e3o referir, na data em que escreve, os progressos a que temos assistido nos dom\u00ednios da Intelig\u00eancia Artificial\u2026), tendo contudo feito com que a desigualdade recuasse para um estado pr\u00f3ximo do de h\u00e1 cem anos, levando a que se gerassem novas situa\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 quest\u00e3o da crise sist\u00e9mica que Wallerstein colocou, e associando-lhe a incompatibilidade que Mason encontra entre os sistemas de mercado e a economia assente nas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o (ele preconiza que o capitalismo j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 a adaptar-se \u00e0s respectivas altera\u00e7\u00f5es, pois a informa\u00e7\u00e3o tende a dissolver os mercados e a destruir a propriedade privada) e isso porque o digital est\u00e1 a minar a capacidade dos mercados \u2013 que assenta na escassez \u2013 de estabelecer os pre\u00e7os correctamente dado que a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 abundante e as redes sociais em que ela se apoia podem constituir a base de um sistema que n\u00e3o seja o dos mercados<a id=\"_ftnref18\" href=\"#_ftn18\">[18]<\/a>. Mason d\u00e1 uma informa\u00e7\u00e3o de interesse sobre algo que ter\u00e1 sido criado h\u00e1 cerca de 200 anos e expresso por um jornalista (John Thelwall) ao avisar aqueles que constru\u00edam as f\u00e1bricas inglesas que eles haviam criado uma nova e perigosa forma de democracia: \u201cCada grande oficina ou f\u00e1brica \u00e9 uma esp\u00e9cie de sociedade pol\u00edtica, que nenhum decreto do parlamento pode calar nem nenhum magistrado dispersar\u201d. Hoje, escreve Mason, s\u00e3o as redes sociais, tal como a oficina h\u00e1 duzentos anos, que n\u00e3o podem ser caladas ou dispersadas; se desligassem o Facebook, o Twitter e mesmo toda a Internet e a rede de telem\u00f3veis em \u00e9pocas de crise, paralisariam tamb\u00e9m a economia.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muito mais de interessante no que escreve Mason, mas j\u00e1 se est\u00e1 a ir bastante longe nessa referencia\u00e7\u00e3o directa e vou, por isso, por agora, concluir. Mas n\u00e3o o fa\u00e7o sem dar a possibilidade de os mais interessados poderem ir um pouco mais longe. Para isso disponibilizo dois curtos textos (recens\u00f5es do livro) que sintetizam o que os seus autores consideram mais importante do que Mason escreve, procurando no entanto evitar repeti\u00e7\u00f5es daquilo que j\u00e1 transcrevi acima. Esses textos est\u00e3o em anexo ao presente documento.<\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa, 16 de Abril de 2024<\/p>\n\n\n\n<p>Filipe do Carmo<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><strong>Parte IV <\/strong><\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Do crescimento do com\u00e9rcio internacional at\u00e9 \u00e0 crise de 2008 e desenvolvimentos proteccionistas que se seguiram<\/strong> <\/h2>\n\n\n\n<p>Relativamente \u00e0 Globaliza\u00e7\u00e3o, ficou expresso, na Parte I (t\u00edtulo: \u201cConsidera\u00e7\u00f5es sobre o per\u00edodo final do s\u00e9culo XX\u201d) desta s\u00e9rie de artigos meus, que essa primeira parte n\u00e3o passaria ainda do que havia ocorrido no s\u00e9culo que precede o actual. Nas duas Partes seguintes, a globaliza\u00e7\u00e3o foi apenas objecto de considera\u00e7\u00f5es limitadas (indiciadoras sobretudo do pensamento econ\u00f3mico at\u00e9 final do s\u00e9culo XX ou dos primeiros anos do s\u00e9culo em que nos encontramos), dando-se agora in\u00edcio, de facto, ao prosseguimento da sua an\u00e1lise face ao que tem ocorrido desde o per\u00edodo dos anos 1990 at\u00e9 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>Convir\u00e1, para j\u00e1, dar aten\u00e7\u00e3o a dois artigos que foram publicados no final de 2022 no jornal <em>P\u00fablico<\/em> de autoria de S\u00e9rgio An\u00edbal<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. O autor come\u00e7a, no primeiro dos artigos, por chamar a aten\u00e7\u00e3o para:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cO crescimento do com\u00e9rcio internacional entre 1990 e 2008 foi, em grande parte, consequ\u00eancia da integra\u00e7\u00e3o da China e do ex-bloco de Leste europeu na economia mundial\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A globaliza\u00e7\u00e3o teria atingido um m\u00e1ximo em 2008, sendo a seguir afectada por uma designada \u201cguerra comercial entre os EUA e a China\u201d, pela pandemia e pela intensifica\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As subidas de taxas alfandeg\u00e1rias realizadas por Trump quando da sua presid\u00eancia (2017-2021).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As perturba\u00e7\u00f5es nas cadeias de distribui\u00e7\u00e3o mundiais trazidas pela pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os planos europeus para reduzir a depend\u00eancia da energia da R\u00fassia a seguir ao in\u00edcio da guerra na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A acumula\u00e7\u00e3o de sinais de que o processo de globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica pudesse vir a passar, no curto prazo, por uma fase de retrocesso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Caso a R\u00fassia e a China vierem a estar menos integrados, o com\u00e9rcio internacional sofrer\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A entrada numa via mais proteccionista leva \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es mais baratas por bens mais caros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Outro impacto, tido possivelmente como inevit\u00e1vel, \u00e9 a subida da infla\u00e7\u00e3o \u2013 como ali\u00e1s j\u00e1 se verificou ultimamente \u2013 dada a substitui\u00e7\u00e3o j\u00e1 referida de importa\u00e7\u00f5es baratas por produ\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas mais caras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta percep\u00e7\u00e3o de que a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser evitada conduziu o autor a ver no recuo do processo de globaliza\u00e7\u00e3o um motivo adequado para os bancos centrais manterem durante mais tempo os juros a n\u00edveis elevados. Correndo-se o risco que haja confirma\u00e7\u00e3o de que o longo per\u00edodo de baixa infla\u00e7\u00e3o que esteve associado \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o tenha j\u00e1 tido o seu fim<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>Um outro aspecto de maior complexidade econ\u00f3mica, derivado da acabada de referir substitui\u00e7\u00e3o do efeito dos sal\u00e1rios mais elevados nos pa\u00edses que antes importavam, tem a ver com a repercuss\u00e3o de custos fixos mais elevados associados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o industrial e de energia que passa a ser produzida localmente (o que viria a implicar custos m\u00e9dios mais elevados em todo o lado \u2013 incluindo nas f\u00e1bricas j\u00e1 existentes nos pa\u00edses anteriormente exportadores \u2013 dado que passariam a aproveitar menos as respectivas capacidades de produ\u00e7\u00e3o).<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>\u00b7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Poder\u00e1 vir a ter lugar, durante os pr\u00f3ximos 50 anos, uma redu\u00e7\u00e3o do ritmo do crescimento m\u00e9dio da economia mundial, sendo uma parte importante desse fen\u00f3meno devido a quest\u00f5es demogr\u00e1ficas e a outra parte ao abrandamento (ou mesmo recuo) do processo de globaliza\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Face \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 descrita, o mesmo autor procura, no segundo artigo, descrever o que se passava a n\u00edvel da Uni\u00e3o Europeia em termos de defini\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica que possibilitasse a redu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o. E, em tal contexto, ter\u00e1 sido necess\u00e1rio considerar o que se passava no resto do mundo em termos de geopol\u00edtica, muito em particular nos Estados Unidos, sobretudo face \u00e0s consequ\u00eancias da Lei para a redu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o (IRA \u2013 <em>Inflation Reduction Act<\/em>) que Washington havia lan\u00e7ado em Agosto desse ano de 2022<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Ora, refere-se ainda, essa iniciativa americana tem-se visto, n\u00e3o s\u00f3 na UE mas tamb\u00e9m em v\u00e1rias capitais europeias, como uma amea\u00e7a \u00e0 competitividade de ind\u00fastrias importantes europeias. O que tem levado a iniciativas diplom\u00e1ticas junto dos EUA (caso de uma visita do Presidente da Rep\u00fablica Francesa a Washington iniciada na \u00faltima semana de Novembro de 2022), mas tamb\u00e9m \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de propostas no sentido de promover mudan\u00e7as na pol\u00edtica industrial europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um problema que \u00e9, por\u00e9m, apontado num artigo publicado no <em>Le Monde<\/em> em momento<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> que se segue \u00e0 referida visita, chama a aten\u00e7\u00e3o para o facto de a Presidente da Comiss\u00e3o Europeia s\u00f3 tardiamente (tr\u00eas dias antes da publica\u00e7\u00e3o desse artigo), como \u00e9 seu h\u00e1bito, ter dado import\u00e2ncia \u00e0 necessidade de uma contra-ofensiva ao IRA, defendendo ent\u00e3o uma resposta estrutural dos Vinte e Sete (quando em meados de Agosto, demonstrando inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o entrar em conflito com Washington, havia considerado que a nova legisla\u00e7\u00e3o americana estabelecia as bases para uma economia de energia verde, limpa). O IRA, como \u00e9 referido no dito artigo, tem claramente inten\u00e7\u00f5es proteccionistas, criando aux\u00edlios sob a forma de cr\u00e9ditos fiscais e subven\u00e7\u00f5es reservados a investimentos feitos nos EUA. Da\u00ed a inquieta\u00e7\u00e3o manifestada por empresas europeias, inquieta\u00e7\u00e3o essa que j\u00e1 havia na altura levado algumas (os casos, refere-se no artigo, de Volkswagen, BMW, Northvolt, Solvay, Saint-Gobain e Iberdrola) a anunciar ac\u00e7\u00f5es em tal sentido visando diversos locais americanos. Na acima referida visita a Washington, Macron ter\u00e1 dito a Biden que a sua pol\u00edtica poderia causar a \u201cfragmenta\u00e7\u00e3o do Ocidente\u201d, o que certamente exerceu influ\u00eancia sobre a mudan\u00e7a de atitude de Von der Leyen. Fragmenta\u00e7\u00e3o essa que, refor\u00e7ando a desindustrializa\u00e7\u00e3o europeia que havia sido j\u00e1 incentivada anos antes pelos efeitos da globaliza\u00e7\u00e3o \u2013 os quais permitiram a (ou conduziram \u00e0) transfer\u00eancia de sectores produtivos para a China e \u00cdndia (al\u00e9m de outros pa\u00edses, sobretudo asi\u00e1ticos) \u2013, passaria a ocasionar novas transfer\u00eancias, desta vez para os EUA. Seria conveniente interrogarmo-nos agora sobre qual a origem dos recursos financeiros (370 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares) que j\u00e1 come\u00e7aram a ser utilizados pelo IRA para atrair os investidores<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Isso para al\u00e9m de outra vantagem que, segundo a autora do artigo do <em>Le Monde<\/em>, \u00e9 importante para as empresas que s\u00e3o atra\u00eddas e que s\u00e3o os pre\u00e7os da energia na Am\u00e9rica de entre 3 a 4 vezes mais baixos que na Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco de fragmenta\u00e7\u00e3o europeia \u2013 al\u00e9m de outras consequ\u00eancias negativas para a UE \u2013 \u00e9 entendido como algo que requer medidas de defesa europeia, o que poderia come\u00e7ar por um ataque aos EUA junto da OMC (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio) j\u00e1 que h\u00e1 aspectos do IRA que n\u00e3o respeitam as regras dessa entidade. Mas n\u00e3o foi ent\u00e3o a op\u00e7\u00e3o escolhida (e tamb\u00e9m n\u00e3o uma resposta com um IRA europeu), colocando-se, por parte de Von der Leyen, a possibilidade de uma alternativa que come\u00e7asse por \u201cfacilitar os investimentos p\u00fablicos na transi\u00e7\u00e3o ambiental\u201d (e que viesse a complementar a remo\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos administrativos que estejam a complicar a vida dos industriais), fazendo uma revis\u00e3o das regras existentes relativas a ajudas estatais. Tais regras centravam-se ent\u00e3o no dom\u00ednio da inova\u00e7\u00e3o, podendo elas vir a vir a cobrir as ind\u00fastrias que cobrem as tecnologias verdes, e responder assim ao IRA americano (o qual cobre o conjunto da cadeia de produ\u00e7\u00e3o de tais sectores estrat\u00e9gicos).<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A autora do artigo que tenho vindo a referir considerou que Von der Leyen \u2013 pugnando por uma \u201cresposta comum\u201d e evocando um \u201cfundo de soberania\u201d europeu \u2013 estava a posicionar-se entre dois riscos: o de fragmenta\u00e7\u00e3o do mercado interior e o de explos\u00e3o da uni\u00e3o monet\u00e1ria. Isso porque, por exemplo e por um lado, a Alemanha (gra\u00e7as aos seus meios mais fortes no seio da UE) seria o principal benefici\u00e1rio da evolu\u00e7\u00e3o preconizada, enquanto a It\u00e1lia, inversamente, n\u00e3o poderia ir muito longe (a n\u00e3o ser que se endividasse ainda mais, o que poria em perigo a estabilidade da zona euro). \u201cSeria sem d\u00favida necess\u00e1rio perspectivar um financiamento \u00e0 volta de 2% do PIB da UE: cerca de 350 mil milh\u00f5es de euros\u201d para o dito fundo de soberania, havia declarado o comiss\u00e1rio europeu para o Mercado Interno.<\/p>\n\n\n\n<p>As posi\u00e7\u00f5es dos diferentes pa\u00edses membros da UE sobre a cria\u00e7\u00e3o do fundo de soberania eram ainda mal conhecidas, talvez com excep\u00e7\u00e3o do caso holand\u00eas, que era claramente contra e de alguns membros do governo alem\u00e3o, cujas orienta\u00e7\u00f5es n\u00e3o iam todas no mesmo sentido. No respeitante \u00e0s posi\u00e7\u00f5es dos comiss\u00e1rios europeus, havia igualmente divis\u00e3o, embora se esperasse uma decis\u00e3o do executivo comunit\u00e1rio nas semanas seguintes. De qualquer modo haveria uma reuni\u00e3o dos chefes de Estado e de governos europeus cerca de uma semana mais tarde, estando em curso, como era h\u00e1bito, uma tentativa da parte francesa para estabelecer um acordo com o governo alem\u00e3o previamente \u00e0 dita reuni\u00e3o. Ora, aquilo que se passou sobre tais quest\u00f5es nas duas semanas seguintes parece n\u00e3o ter conduzido a acordos significativos entre os europeus no respeitante ao que se deveria ou poderia fazer como reac\u00e7\u00e3o ao proteccionismo americano ou \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o em curso na UE<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa, 1 de Maio de 2024<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Filipe do Carmo<strong><br><\/strong><\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><strong>Parte V<\/strong><\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Antecedentes \u00e0 Globaliza\u00e7\u00e3o em termos de Proteccionismo e de Livre C\u00e2mbi<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A OMC (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio) foi criada em 1995, revelando-se bastante importante para os desenvolvimentos que se seguiram no respeitante \u00e0 Globaliza\u00e7\u00e3o, sobretudo no per\u00edodo que sucedeu a 2001 (ano em que a China acedeu a essa organiza\u00e7\u00e3o). Para compreender o que sucedeu a partir desta \u00faltima data, considero adequado ter uma ideia, mesmo que algo abreviada, dos contextos hist\u00f3ricos que a antecederam em termos de proteccionismo e de livre c\u00e2mbio.<\/p>\n\n\n\n<p>De entre os referidos contextos, talvez o mais conhecido seja o que sucedeu ao per\u00edodo final da Segunda Guerra Mundial (ver Parte II) com a ordem mundial que os EUA ent\u00e3o come\u00e7aram a estabelecer. Convir\u00e1, contudo, dar alguma import\u00e2ncia ao que se passou por altura do nascimento dos pr\u00f3prios EUA (finais do s\u00e9culo XVIII) quando a sua fac\u00e7\u00e3o Norte (republicana) pretendia proteger (procurando impor medidas proteccionistas) a sua ind\u00fastria (nesse per\u00edodo pouco mais que embrion\u00e1ria) das manufacturas inglesas, enquanto o Sul democrata defendia o livre c\u00e2mbio, visando as exporta\u00e7\u00f5es de tabaco, arroz e algod\u00e3o<a href=\"#_ftn26\" id=\"_ftnref26\">[26]<\/a>. Come\u00e7ando por defender ideias diferentes de economistas como Adam Smith, David Ricardo e Jean Baptiste Say, os respons\u00e1veis pol\u00edticos americanos fizeram os poss\u00edveis por proteger as suas ind\u00fastrias nascentes da concorr\u00eancia (vinda sobretudo da ind\u00fastria inglesa). As taxas de 5% foram subindo, vindo a atingir 62% em 1830, o que pressup\u00f5e uma maior influ\u00eancia do Norte no governo federal. A descida que ent\u00e3o teve in\u00edcio (atingindo 20% em 1859) prosseguiu at\u00e9 \u00e0 guerra da Secess\u00e3o (causada pela controv\u00e9rsia sobre a escravatura defendida pelo Sul do pa\u00eds<a href=\"#_ftn27\" id=\"_ftnref27\">[27]<\/a> e decorrendo de 1861 a 1865; o facto \u00e9, por\u00e9m, que os direitos aduaneiros voltam a subir em 1861, depois de os Sulistas renunciarem aos seus lugares no Congresso)<a href=\"#_ftn28\" id=\"_ftnref28\">[28]<\/a>. Ap\u00f3s a guerra, o Norte industrial conhece uma \u201cidade de ouro\u201d, com os magnatas do petr\u00f3leo, do a\u00e7o, da electricidade e da banca a triunfarem. Em 1890, um futuro presidente americano (McKinley) gaba-se de constitu\u00edrem a primeira na\u00e7\u00e3o nos dom\u00ednios agr\u00edcola, mineiro e industrial, e isso gra\u00e7as ao que se conseguiu ap\u00f3s 29 anos de direitos alfandeg\u00e1rios proteccionistas. A subida das taxas tinha ido at\u00e9 uma m\u00e9dia de cerca de 45% em 1870, descendo depois e mantendo-se \u00e1 volta de 30% entre 1875 e 1890. Desceram de novo nos anos seguintes, oscilando at\u00e9 cerca de 1910, altura em que a descida prosseguiu de modo significativo at\u00e9 pouco depois do final da 1\u00aa guerra mundial (atingindo ent\u00e3o valores de cerca de 5%). \u00c9 uma altura em que os pr\u00f3prios agricultores americanos, sofrendo a concorr\u00eancia dos pre\u00e7os em decl\u00ednio a n\u00edvel mundial, se tornam eles pr\u00f3prios proteccionistas e os direitos aduaneiros voltam a subir, chegando a uma m\u00e9dia de quase 25% pouco depois da crise de 1929. E isto depois de as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas (Senado e C\u00e2mara dos Representantes) terem votado em Outubro de 1929, com o <em>Smoot-Hawley Tariff Act<\/em>, uma subida dos ditos direitos. \u00c9 ent\u00e3o que, em 1933, Franklin Roosevelt chega \u00e0 Casa Branca e \u00e9 iniciada uma nova era de baixa dos direitos aduaneiros com o objectivo de restabelecer o com\u00e9rcio mundial. E tal baixa prossegue depois do fim da 2\u00aa guerra mundial \u2013 a\u00ed surgir\u00e1 o ponto alto da hegemonia dos Estados Unidos no sistema mundial, altura em que esse pa\u00eds emerge como a \u00fanica pot\u00eancia cujas unidades industriais se mantiveram intactas, etc., etc., tal como descrito na Parte II deste meu artigo, sobretudo na sua nota 11. Com a recupera\u00e7\u00e3o europeia, sobretudo depois da cria\u00e7\u00e3o da CEE, os dois grandes mercados transatl\u00e2nticos ou progridem juntos ou separados, da\u00ed advindo uma alian\u00e7a ou uma amea\u00e7a para a unidade do campo ocidental (conforme declarado pelo presidente americano John Kennedy). Os EUA, j\u00e1 experimentando dificuldades nos anos 1960, sofrem um choque quando Nixon suprime a convertibilidade ouro do d\u00f3lar em Agosto de 1971, com a desvaloriza\u00e7\u00e3o dessa moeda a ser acompanhada pela fixa\u00e7\u00e3o de direitos aduaneiros em 10% para todas as importa\u00e7\u00f5es (\u00e9 o fim do sistema <em>Bretton Woods<\/em>, acompanhado pela perspectiva de futuras desvaloriza\u00e7\u00f5es do d\u00f3lar e suas consequ\u00eancias: corridas peri\u00f3dicas \u00e0 venda de d\u00f3lares). Com todas as dificuldades econ\u00f3micas que se seguem, as press\u00f5es proteccionistas crescem: por um lado, os Japoneses aceitam acordos de limita\u00e7\u00e3o \u201cespont\u00e2nea\u201d das suas exporta\u00e7\u00f5es autom\u00f3veis e construtores nip\u00f3nicos e alem\u00e3es v\u00e3o-se implantar num Sul americano livre de press\u00f5es sindicais. Assim, cerca de 40 anos antes de Trump e Biden, est\u00e1 dada a li\u00e7\u00e3o: para vender nos EUA \u00e9 preciso produzir nesse pa\u00eds.<a href=\"#_ftn29\" id=\"_ftnref29\">[29]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;J\u00e1 foi referida na Parte IV deste texto que o IRA (<em>Inflation Reduction Act<\/em>), com os seus 370 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, estaria alegadamente destinado a reduzir a infla\u00e7\u00e3o americana, mas teria indubitavelmente inten\u00e7\u00f5es proteccionistas (aux\u00edlios sob a forma de cr\u00e9ditos fiscais e subven\u00e7\u00f5es reservados a investimentos nos EUA). N\u00e3o referi na altura que, al\u00e9m do IRA, h\u00e1 outro instrumento criado pela lei americana com objectivos tamb\u00e9m proteccionistas \u2013 o <em>Chips and Science Act<\/em>, criado igualmente em Agosto de 2022 com recursos financeiros atribu\u00eddos de 280 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 e ao qual terei tamb\u00e9m que dar uma maior aten\u00e7\u00e3o em pr\u00f3ximas parcelas deste texto. O seu objectivo \u00e9 disponibilizar subven\u00e7\u00f5es, garantias de empr\u00e9stimos e outros aux\u00edlios destinados a estimular a produ\u00e7\u00e3o de semicondutores. Mas o que representam mais exactamente \u2013 como se enquadram, como se explicam \u2013 esses dois instrumentos face \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o que ocorreu at\u00e9 40 anos antes (evolu\u00e7\u00e3o essa que Parmentier, o autor em que me apoiei para redigir parte do par\u00e1grafo anterior, considerou como uma li\u00e7\u00e3o para os dois mais recentes presidentes dos EUA)? E n\u00e3o s\u00f3 tal evolu\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m os tratados, as medidas posteriores aos anos 80, uns e outras tomadas por presidentes que foram de George Bush a Trump? E como fazer o respectivo enquadramento face ainda \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da OMC, \u00e0 entrada da China nessa organiza\u00e7\u00e3o, \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o que se lhe seguiu, aos problemas de desindustrializa\u00e7\u00e3o que da\u00ed resultaram para EUA e UE, as medidas tomadas por esta \u00faltima? E n\u00e3o s\u00f3, naturalmente haver\u00e1 outros factores a identificar. Quest\u00f5es que ficar\u00e3o para pr\u00f3ximas parcelas deste texto.<\/p>\n\n\n\n<p>Acrescento contudo, nesta altura, 3 gr\u00e1ficos que permitem avaliar com mais detalhe os valores de algumas vari\u00e1veis na \u00e1rea econ\u00f3mico-financeira ao longo das d\u00e9cadas. O gr\u00e1fico 1 apresenta m\u00e9dias dos direitos aduaneiros nos EUA, comparando-os com os observados em Fran\u00e7a e no Reino Unido (per\u00edodo 1830-2010). O gr\u00e1fico 2 incide sobre os valores registados no com\u00e9rcio de bens (em % do PIB), apenas dos EUA (per\u00edodo 1895-2015). O gr\u00e1fico 3 (que \u00e9 apresentado porque o gr\u00e1fico anterior s\u00f3 considera bens e exclui servi\u00e7os) recai sobre a balan\u00e7a de pagamentos \u2013 tamb\u00e9m dos EUA e em % do PIB, em per\u00edodo mais recente (1960-2023) \u2013 permitindo uma avalia\u00e7\u00e3o mais adequada, mais completa que o anterior. Em particular, permite come\u00e7ar por dar indica\u00e7\u00f5es sobre reac\u00e7\u00f5es financeiras que poder\u00e3o j\u00e1 dar algumas indica\u00e7\u00f5es sobre os efeitos da cria\u00e7\u00e3o do IRA e do <em>Chips Act<\/em> (ou efeitos de outras medidas que tenham sido tomadas para evoluir no sentido de alguma desglobaliza\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gr\u00e1fico 1<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"901\" height=\"645\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11882\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico-1.jpg 901w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico-1-300x215.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico-1-768x550.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 901px) 100vw, 901px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Protectionism_in_the_United_States\">Protectionism in the United States &#8211; Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gr\u00e1fico 2<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"953\" height=\"643\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11883\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico-2.jpg 953w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico-2-300x202.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico-2-768x518.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 953px) 100vw, 953px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte: <\/strong><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Protectionism_in_the_United_States\">Protectionism in the United States &#8211; Wikipedia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gr\u00e1fico 3<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"957\" height=\"549\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11884\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico3.jpg 957w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico3-300x172.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/grafico3-768x441.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 957px) 100vw, 957px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte: <\/strong><a href=\"https:\/\/www.ceicdata.com\/en\/indicator\/united-states\/current-account-balance--of-nominal-gdp\"><strong>https:\/\/www.ceicdata.com\/en\/indicator\/united-states\/current-account-balance&#8211;of-nominal-gdp<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa, 5 de Maio de 2024<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Filipe do Carmo<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ver, a tais prop\u00f3sitos, o que \u00e9 referido nos primeiros par\u00e1grafos dos seguintes <em>sites<\/em> em portugu\u00eas e ingl\u00eas da <em>wikipedia<\/em>:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Globaliza%C3%A7%C3%A3o\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Globaliza%C3%A7%C3%A3o<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;e <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Globalization\">https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Globalization<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Anthony Giddens, <em>Runaway World<\/em>, traduzido para portugu\u00eas pela Editorial Presen\u00e7a em 2000 com o t\u00edtulo <em>O mundo na era da globaliza\u00e7\u00e3o<\/em>. Retenha-se desde j\u00e1 que uma tradu\u00e7\u00e3o literal do t\u00edtulo em ingl\u00eas poderia ser, por exemplo, \u201cUm mundo descontrolado\u201d, \u201cUm mundo desenfreado\u201d ou \u201cUm mundo desvairado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver Giddens (2000), 15-16.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ver p\u00e1ginas 17 e 18 do livro de Giddens. N\u00e3o pretendo entrar em desenvolvimentos, pelo menos para j\u00e1, em que se aborde o conceito de fundamentalismo tal como ele \u00e9 usado pelo autor, limitando-me a referir que tal conceito \u00e9 desenvolvido mais \u00e0 frente no livro (p\u00e1ginas 54 a 56) e tem por base a defesa das tradi\u00e7\u00f5es, cujos guardi\u00f5es t\u00eam acesso exclusivo ao significado \u201cexacto\u201d dos textos, tanto os de origem secular como religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Como referido nas p\u00e1ginas 20 e 21 do livro de Giddens.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ver as suas p\u00e1ginas 22 a 26.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ver Giddens (2000), 27-29.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Esse artigo foi escrito em 2000, tem por t\u00edtulo &#8220;Globalization or the Age of Transition?: A Long-Term View of the Trajectory of the World System&#8221;, e foi publicado na revista <em>International Sociology<\/em>, Volume 15(2), June 2000, 251-267.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> De facto, aqueles, se os h\u00e1, que consideram que a globaliza\u00e7\u00e3o \u2013 entendida, para come\u00e7ar, como o foi no primeiro texto desta s\u00e9rie \u2013 apenas foi iniciada nos anos 80 ou 90 do s\u00e9culo XX, poder\u00e3o ser objecto de cr\u00edtica, como a faz Wallerstein. E pode-se ir mais longe para o passado do que 500 anos. Veja-se, por exemplo, o livro de Karl Moore e David Lewis, <em>The Origins of Globalization<\/em>, (Routledge, 2009), em que os estudos correspondentes s\u00e3o iniciados a partir de 3700 a.C..<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Essa sua obra tem o t\u00edtulo <em>The Modern World-System<\/em> e desenvolve-se em quatro volumes: I: <em>Capitalist Agriculture and the Origins of the European World-Economy in the Sixteenth Century<\/em> (publicado em 1974); II: <em>Mercantilism and the Consolidation of the European World-Economy, 1600\u20131750<\/em> (1980); III: <em>The Second Era of Great Expansion of the Capitalist World-Economy, 1730-1840s<\/em> (1989) e IV: <em>Centrist Liberalism Triumphant, 1789\u20131914<\/em> (2011).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> No concernente \u00e0 ordem mundial que os EUA implantaram, Wallerstein d\u00e1 especial relev\u00e2ncia a institui\u00e7\u00f5es internacionais como a ONU e as suas ag\u00eancias, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e o Banco Mundial, mas tamb\u00e9m ao acordo de Yalta estabelecido com a URSS. E n\u00e3o se pode esquecer que o Estado americano teve suficiente discernimento para procurar criar condi\u00e7\u00f5es que conduzissem a que houvesse procura para os produtos americanos e da\u00ed o desenvolvimento do Plano Marshall para a Europa Ocidental e algo equivalente para o Jap\u00e3o. Os acordos que levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da NATO e ao Pacto de Defesa estabelecido com o Jap\u00e3o, por outro lado, n\u00e3o s\u00f3 deram mais consist\u00eancia \u00e0 lideran\u00e7a pol\u00edtica dos EUA como refor\u00e7aram os la\u00e7os econ\u00f3micos com as \u00e1reas geogr\u00e1ficas referidas. Ver, no respeitante \u00e0 fase A do referido ciclo de Kondratieff, as p\u00e1ginas 252-54 do citado artigo de Wallerstein. Todo este esfor\u00e7o por parte dos EUA (e tamb\u00e9m por parte da URSS) n\u00e3o impediu que em v\u00e1rias regi\u00f5es do globo \u2013 Wallerstein refere o Terceiro Mundo como um todo, alguns segmentos do mundo ocidental, alguns pa\u00edses do leste europeu, e ainda mais em particular pa\u00edses como a China, o Vietname, a Arg\u00e9lia, a Hungria, Cuba e a \u00c1frica do Sul \u2013 as tens\u00f5es n\u00e3o assumissem n\u00edveis de algum modo elevados, embora a tend\u00eancia geral fosse no sentido de elas terem conseguido ser aplacadas. A grande excep\u00e7\u00e3o, na opini\u00e3o de Wallerstein, ter\u00e1 sido \u201ca guerra do Vietname, a qual come\u00e7ou por fazer sangrar os EUA, tanto em termos financeiros como de vidas perdidas e, consequentemente, no respeitante \u00e0 moral nacional norte-americana\u201d (ver a p\u00e1gina 254 do mesmo artigo).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> Ver sobretudo a p\u00e1gina 255 do artigo de Wallerstein. Mais desenvolvimentos \u2013 pol\u00edticos, militares, econ\u00f3micos \u2013 do per\u00edodo iniciado nos anos 70 s\u00e3o apresentados nas p\u00e1ginas seguintes (256 a 259), de que n\u00e3o vou apresentar detalhes, limitando-me a referir que \u00e9 dado maior relevo \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f3mica no M\u00e9dio Oriente e na regi\u00e3o asi\u00e1tica que inclui o Jap\u00e3o, a Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Singapura, a China e o Sudeste Asi\u00e1tico. A tal evolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o associadas as dificuldades sentidas pelos EUA em manter a sua posi\u00e7\u00e3o de hegemonia mundial ao ter optado por desencadear algumas ac\u00e7\u00f5es militares, naturalmente dispendiosas (portanto muito pouco compat\u00edveis com as dificuldades financeiras que um pa\u00eds afectado por uma forte estagfla\u00e7\u00e3o experimenta), sendo essa uma situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 super\u00e1vel gra\u00e7as a endividamentos contra\u00eddos no exterior, sobretudo no Jap\u00e3o, e aos dep\u00f3sitos feitos pelos produtores de petr\u00f3leo do M\u00e9dio Oriente no sistema banc\u00e1rio americano. Aspectos, curiosamente, que denotam desenvolvimentos globalizantes nos anos 70 e 80. Ainda com bastante baixo envolvimento da China, diversamente do que se verificar\u00e1 (ver pr\u00f3ximos textos meus) sobretudo a partir do ano 2000.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> Valer\u00e1 a pena assinalar que os quatro pontos que Wallerstein atribui \u00e0s referidas \u201cpersonalidades\u201d como definidores da globaliza\u00e7\u00e3o (ver primeira p\u00e1gina da Parte II deste texto) poder\u00e3o, com apenas algumas adapta\u00e7\u00f5es, tornar-se v\u00e1lidos para, por exemplo, os tempos dos s\u00e9culos IV a I a.C., no espa\u00e7o geogr\u00e1fico em que ent\u00e3o decorria a forma\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano. Convindo, por exemplo, explicitar: (1) n\u00e3o s\u00f3 \u201csoberania dos Estados\u201d, mas \u201csoberania\u201d ou \u201cpapel importante\u201d das \u201centidades pol\u00edticas de menor dimens\u00e3o\u201d; (2) \u201cdificuldade crescente de \u2026 resistir \u00e0s regras de mercado\u201d; (3) \u201credu\u00e7\u00e3o progressiva\u201d de autonomia cultural; (4) as caracter\u00edsticas definidoras de \u201cidentidades dos distintos povos serem progressivamente abaladas\u201d. Tudo isto, naturalmente, de modo mais lento, mais espa\u00e7ado no tempo (pelo menos em termos gerais), mas a acontecer. Poder-se-\u00e1 tamb\u00e9m referir o per\u00edodo iniciado com o Renascimento, relativo a alturas em que Estados de menor dimens\u00e3o geogr\u00e1fica (pense-se nos que formavam, ainda no s\u00e9culo XIX, as actuais It\u00e1lia e Alemanha) concordaram reunir-se num s\u00f3 ou foram obrigados a tal.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> Para ficarmos com uma percep\u00e7\u00e3o adequada do que se passou depois do in\u00edcio da referida fase B, seria necess\u00e1rio procurar estat\u00edsticas relativas n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o dos PIBs de diferentes pa\u00edses nos per\u00edodos em causa, eventualmente agreg\u00e1-los, considerar outras quest\u00f5es como as evolu\u00e7\u00f5es cambiais de diferentes moedas, etc., etc.. Naturalmente n\u00e3o o irei fazer, pois dificilmente chegaria ao fim e o objectivo do presente trabalho \u00e9 a globaliza\u00e7\u00e3o, com a sua presente parcela a j\u00e1 ir longa.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> O conte\u00fado destes 2 par\u00e1grafos foi seleccionado de um ficheiro de 33 p\u00e1ginas, o qual pode ser encontrado no link <a href=\"https:\/\/www.fep.up.pt\/docentes\/joao\/material\/grandes_doutrinas.pdf\">https:\/\/www.fep.up.pt\/docentes\/joao\/material\/grandes_doutrinas.pdf<\/a>, cujo t\u00edtulo \u00e9 \u201cAs grandes doutrinas econ\u00f3micas\u201d, que contempla per\u00edodos desde a Antiguidade e Idade M\u00e9dia e indo at\u00e9 reduzidas considera\u00e7\u00f5es relativas ao s\u00e9culo XX. Considera\u00e7\u00f5es mais abrangentes poder\u00e3o tamb\u00e9m ser encontradas na internet, sendo um exemplo o link <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Escolas_do_pensamento_econ%C3%B4mico\">Escolas do pensamento econ\u00f4mico \u2013 Wikip\u00e9dia, a enciclop\u00e9dia livre (wikipedia.org)<\/a> e outro <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_do_pensamento_econ%C3%B3mico\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_do_pensamento_econ%C3%B3mico<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> O t\u00edtulo original do livro \u00e9 <em>PostCapitalism \u2013 A guide to our future<\/em>, mas as refer\u00eancias que lhe farei s\u00e3o retiradas da tradu\u00e7\u00e3o portuguesa: <em>P\u00f3s-Capitalismo \u2013 Um guia para o nosso futuro<\/em>, 2016. Lisboa: Penguin Random House.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a> Submundos criminosos, ou redes secretas de poder, as tr\u00edades chinesas surgem-nos como forte amea\u00e7a \u00e0 ordem legal que vigora \u2013 ou que se julga que vigora \u2013 nos pa\u00edses em que o capitalismo est\u00e1 instalado. Uma s\u00e9rie documental produzida por <em>Arte France<\/em> e por enquanto ainda vis\u00edvel na RTP Play (link <a href=\"https:\/\/www.rtp.pt\/programa\/tv\/p45501\">https:\/\/www.rtp.pt\/programa\/tv\/p45501<\/a>) \u00e9 descrita rapidamente na pr\u00f3pria RTP: \u201cPouco se sabe sobre as tr\u00edades chinesas, consideradas as m\u00e1fias mais influentes do mundo. Gra\u00e7as a entrevistas exclusivas com os principais protagonistas, esta investiga\u00e7\u00e3o leva-nos directamente ao cora\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o criminosa mais poderosa do mundo, para revelar a sua influ\u00eancia de longo alcance.\u201d e \u201cQuem s\u00e3o eles? Em que neg\u00f3cios est\u00e3o envolvidos e quais s\u00e3o as suas estrat\u00e9gias? Qual \u00e9 o seu papel na cultura e na hist\u00f3ria chinesa? Fundadas no s\u00e9culo XVII, as tr\u00edades constru\u00edram o seu mito em torno da luta contra os inimigos da China. Ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Mao, exilaram-se para dois novos territ\u00f3rios onde se estabeleceram e prosperaram: Hong Kong e Taiwan. Os membros da Tr\u00edade juntaram-se ao jogo da globaliza\u00e7\u00e3o, inventando novas redes criminosas de drogas enquanto investiam em im\u00f3veis nas principais cidades canadenses ou australianas e inundavam o mundo com fentanil e outras drogas sint\u00e9ticas.\u201d A descri\u00e7\u00e3o \u00e9 naturalmente insuficiente para dar uma ideia adequada do que o filme revela, embora, com a preocupa\u00e7\u00e3o que existe actualmente nos pa\u00edses ocidentais \u2013 dada a influ\u00eancia actual dos EUA e da NATO para desconsiderar o regime pol\u00edtico chin\u00eas (e tamb\u00e9m naturalmente o russo) \u2013 para \u201cdizer mal\u201d do que se passa na China, fica-se com a impress\u00e3o que muito do que se visualiza no filme para mostrar o poder pol\u00edtico chin\u00eas a utilizar desde (parece\u2026) os anos 2000 as tr\u00edades para ganhar influ\u00eancia econ\u00f3mica em pa\u00edses ocidentais poder\u00e1 ser falso (ou pelo menos exagerado).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> Atente-se ao que se passa com a Wikipedia \u2013 pelo menos em 2015 (dados constantes das p\u00e1ginas 206-207 do livro de Mason) \u2013, enciclop\u00e9dia fundada em 2001 e que havia evolu\u00eddo em sistema colaborativo, at\u00e9 28 milh\u00f5es de p\u00e1ginas e 24 milh\u00f5es de pessoas registadas como colaboradoras e editoras, com cerca de 120 mil a editarem regularmente e outras 140 mil a participarem muito esporadicamente. A Wikipedia tinha na altura 208 empregados e as pessoas que a editavam faziam-no de gra\u00e7a. 71% desses editores faziam-no porque gostavam da ideia de trabalhar a troco de nada e 63% acreditavam que a informa\u00e7\u00e3o devia ser gratuita. De acordo com uma estimativa, se funcionasse como um site comercial, o rendimento anual da Wikipedia poderia ser de 2,8 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano. No entanto, n\u00e3o gera lucros e, desse modo, torna praticamente imposs\u00edvel que algu\u00e9m obtenha lucros na mesma \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a> \u201cRecuo da globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 mais um risco para a subida dos pre\u00e7os\u201d e \u201cPol\u00edtica europeia de resposta aos EUA ainda sem consenso\u201d, publicados em 12 de Dezembro de 2022, p\u00e1ginas 20-21. Tenha-se em considera\u00e7\u00e3o que a preocupa\u00e7\u00e3o mais espec\u00edfica dos artigos est\u00e1 relacionada com a infla\u00e7\u00e3o. Por outro lado, algumas das refer\u00eancias feitas nos dois artigos resultam de cita\u00e7\u00f5es feitas pelo autor a dois economistas (o primeiro \u2013 Gon\u00e7alo Pina \u2013 sendo professor numa <em>Business School<\/em> de Berlim, e o segundo \u2013 Lu\u00eds Cabral \u2013 professor na Universidade de Nova Iorque e colaborador numa <em>Business School<\/em> portuguesa); outras refer\u00eancias correspondem ainda a an\u00e1lises do banco de investimentos Goldman Sachs. Esta n\u00e3o especifica\u00e7\u00e3o \u2013 caso a caso, em termos de autoria \u2013 das ditas refer\u00eancias \u00e9 feita para simplificar o texto, j\u00e1 de si de alguma complexidade. Os leitores interessados, poder\u00e3o, no entanto e caso vejam interesse nisso, consultar a edi\u00e7\u00e3o do jornal <em>P\u00fablico<\/em> do dia referido.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\" id=\"_ftn20\">[20]<\/a> Estranho essa previs\u00e3o (que \u00e9 feita pelo banco Goldman Sachs) n\u00e3o referir a forte possibilidade de o referido ritmo de crescimento vir a ser afectado (passando eventualmente a ser substitu\u00eddo por decrescimento) pelas consequ\u00eancias das diferentes componentes da crise ambiental. Consequ\u00eancias essas que poder\u00e3o derivar, talvez entre outras, do crescimento dos investimentos necess\u00e1rios para fazer face \u00e0 crise, da multiplica\u00e7\u00e3o das cat\u00e1strofes ambientais ou mesmo dos efeitos de guerras (cat\u00e1strofes ou investimentos excessivos em armamento).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\" id=\"_ftn21\">[21]<\/a> Haver\u00e1 muito a dizer sobre este IRA, o que se procurar\u00e1 fazer em pr\u00f3ximos textos desta s\u00e9rie. Para j\u00e1, contentar-nos-emos com uma defini\u00e7\u00e3o que \u00e9 dada na Wikip\u00e9dia: \u201cO IRA visa conter a infla\u00e7\u00e3o, procurando atenuar o d\u00e9ficit or\u00e7amental do governo federal, reduzindo os pre\u00e7os dos medicamentos e investindo na produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica de energia (tanto quanto poss\u00edvel promovendo a energia limpa).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\" id=\"_ftn22\">[22]<\/a> 7 de Dezembro de 2022. O artigo, da autoria de Virginie Malingre, \u00e9 intitulado \u201cL\u2019Europe en qu\u00eate d\u2019une riposte au protectionnisme am\u00e9ricain\u201d e figura nas p\u00e1ginas 16-17.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\" id=\"_ftn23\">[23]<\/a> \u00c9<strong> <\/strong>conhecida a atrac\u00e7\u00e3o de fundos decorrentes dos excedentes comerciais de pa\u00edses como o Jap\u00e3o, outros asi\u00e1ticos e do M\u00e9dio Oriente (per\u00edodo iniciado nos anos 70) e mais recentemente a China, por aplica\u00e7\u00f5es em dep\u00f3sitos na banca americana (recorde-se o que \u00e9 dito na nota 12 da Parte II); vir\u00e3o da\u00ed tais fundos? Ou isso j\u00e1 s\u00e3o factos de outros tempos? Procurar-se-\u00e1 analisar tal quest\u00e3o num pr\u00f3ximo texto.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\" id=\"_ftn24\">[24]<\/a> A presidente da Comiss\u00e3o Europeia daria assim sequ\u00eancia \u00e0 sua afirma\u00e7\u00e3o de que \u201cUma guerra comercial custosa n\u00e3o \u00e9 do nosso interesse nem do interesse dos americanos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref25\" id=\"_ftn25\">[25]<\/a> Como se depreende do conte\u00fado de um artigo publicado no <em>Le Monde<\/em> em 17 de Dezembro seguinte de autoria de Philippe Jacqu\u00e9 e Virginie Malingre: &#8220;L\u2019UE en qu\u00eate d\u2019une riposte au plan de relance am\u00e9ricain&#8221;, p\u00e1gina 5.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref26\" id=\"_ftn26\">[26]<\/a> Logo ap\u00f3s a independ\u00eancia, foram criados direitos aduaneiros e quotas \u00e0s importa\u00e7\u00f5es, o Presidente Washington tendo assinado um decreto autorizando o Congresso a impor (com algumas excep\u00e7\u00f5es) taxas de 5% \u00e0s importa\u00e7\u00f5es. Os referidos direitos constituem ent\u00e3o o \u00fanico recurso financeiro do Estado federal.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref27\" id=\"_ftn27\">[27]<\/a> Estima-se que em 1860 o valor dos escravos \u00e9 de 50% superior a todo o investimento industrial e ferrovi\u00e1rio americano. As entidades pol\u00edticas do Norte defendem a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos, que muitos acreditam ter tido objectivos humanit\u00e1rios, mas o facto \u00e9 que se tratava de conseguir dispor de imigra\u00e7\u00e3o que viria a constituir m\u00e3o-de-obra barata (comportamentos que continuamos a ter, na nossa actualidade, por parte dos meios pol\u00edticos de direita que defendem a imigra\u00e7\u00e3o por princ\u00edpios que n\u00e3o t\u00eam nada de humanit\u00e1rio).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref28\" id=\"_ftn28\">[28]<\/a> Seria interessante explicar a evolu\u00e7\u00e3o das tarifas alfandeg\u00e1rias antes de 1861. O facto de os EUA terem alcan\u00e7ado, entre 1803 e 1854 uma vasta expans\u00e3o de territ\u00f3rio por meio de compra, negocia\u00e7\u00e3o e conquista (os novos estados formados nos territ\u00f3rios que ent\u00e3o entraram na Uni\u00e3o foram divididos mais ou menos igualmente entre os estados do Sul democrata e os do Norte republicano; em particular, a conquista do norte do M\u00e9xico ocorreu em 1848), ter\u00e1 certamente influenciado tal evolu\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 dif\u00edcil de precisar exactamente como isso ter\u00e1 decorrido sem estudos de maior profundidade.<\/p>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn29\" href=\"#_ftnref29\">[29]<\/a> Este par\u00e1grafo est\u00e1 parcialmente baseado num artigo de Arnaud Leparmentier publicado no <em>Le Monde<\/em> de 7 de Dezembro de 2022, p\u00e1gina 17: \u201c\u00abAmerica First\u00bb, une tr\u00e8s ancienne doctrine\u201d. Tamb\u00e9m contribu\u00edram para o conte\u00fado desse par\u00e1grafo elementos encontrados em textos publicados na Wikip\u00e9dia: <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Guerra_de_Secess%C3%A3o\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Guerra_de_Secess%C3%A3o<\/a> \u00a0\u00a0e\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Protectionism_in_the_United_States\">https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Protectionism_in_the_United_States<\/a> . \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BIBLIOTECA DAS IDEIAS Filipe do Carmo aborda num texto com cinco partes, complementadas por notas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11885,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[519,317],"tags":[333],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2.jpg",647,555,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2-300x257.jpg",300,257,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2.jpg",640,549,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2.jpg",640,549,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2.jpg",647,555,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2.jpg",647,555,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2.jpg",647,555,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2-647x500.jpg",647,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2.jpg",647,555,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/filipe2-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/biblioteca-das-ideias\/\" rel=\"category tag\">BIBLIOTECA DAS IDEIAS<\/a> <a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/noticias\/\" rel=\"category tag\">NOTICIAS<\/a>","tag_info":"NOTICIAS","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11881"}],"collection":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11881"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11881\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11886,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11881\/revisions\/11886"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11885"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}