{"id":15230,"date":"2025-10-15T18:15:49","date_gmt":"2025-10-15T18:15:49","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=15230"},"modified":"2025-10-15T18:15:53","modified_gmt":"2025-10-15T18:15:53","slug":"steve","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/2025\/10\/15\/steve\/","title":{"rendered":"Steve"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma hist\u00f3ria contada por Peter Turchin que vale a pena ler [1]<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>BIBLIOTECA DAS IDEIAS &#8211; Livros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color\">Ler com Filipe Carmo [Le chaos qui vient]<\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Agora que adquirimos uma melhor consci\u00eancia de um contexto comparativo no respeitante \u00e0 estrutura e \u00e0 din\u00e2mica dos nossos sistemas sociais, regressemos \u00e0 nossa investiga\u00e7\u00e3o sobre os Estados Unidos. Come\u00e7aremos pelo maior grupo de interesses: a classe trabalhadora. \u00c9 algo que pode parecer surpreendente num estudo elaborado com base na an\u00e1lise de vastas bases de dados visando o comportamento humano no seu conjunto, mas abrirei este cap\u00edtulo \u2013 e v\u00e1rios dos que se seguem \u2013 com uma pequena hist\u00f3ria, um exemplo arquet\u00edpico, por assim dizer. Para al\u00e9m do receio de que seja f\u00e1cil perder de vista os seres humanos reais quando se modelam for\u00e7as sociais impessoais, a minha \u00fanica justifica\u00e7\u00e3o \u00e9 que cada facto concreto presente nestas hist\u00f3rias tem abundantes precedentes no mundo real.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Steve<\/strong>, na f\u00e1brica<\/h2>\n\n\n\n<p><br>\u00abVais ent\u00e3o votar no Trump em Novembro?\u00bb, perguntei eu ao Steve no ver\u00e3o de 2016. \u00abMas ele \u00e9 um bilion\u00e1rio. O que \u00e9 que Trump sabe sobre pessoas comuns e em que medida \u00e9 que se preocupa com elas? E n\u00e3o deixa de ser um palha\u00e7o.\u00bb O Steve tirou um cigarro de um ma\u00e7o de Marlboros e acendeu-o. \u00abN\u00e3o \u00e9 no Trump que eu vou votar. O problema est\u00e1 nas elites liberais que t\u00eam andado a arruinar este grande pa\u00eds. A \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o daquela mulher \u00e9 que os banqueiros mantenham a sua riqueza. Diz que os \u201cdeplor\u00e1veis\u201d como eu \u00e9 que s\u00e3o o problema. Eu e o \u201cprivil\u00e9gio branco\u201d? Que piada de mau gosto. A verdadeira supremacia branca est\u00e1 nos presidentes das empresas da Fortune 500, noventa por cento dos quais s\u00e3o homens brancos. Mas, pelos vistos, os <em>media<\/em> corporativos n\u00e3o v\u00eaem esse elefante na sala. N\u00e3o, eu n\u00e3o engulo o que os Democratas e os <em>media<\/em> liberais nos dizem. Pelo menos o Trump diz em voz alta o que todos n\u00f3s pensamos.\u201d\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O Steve cresceu no norte do Estado de Nova Iorque, numa fam\u00edlia de classe m\u00e9dia-baixa. O pai trabalhava como maquinista numa f\u00e1brica que produzia materiais para infraestruturas rodovi\u00e1rias. Esse emprego proporcionava um rendimento modesto, mas est\u00e1vel, que permitia \u00e0 fam\u00edlia do Steve manter o seu estatuto de classe m\u00e9dia. A m\u00e3e do Steve n\u00e3o trabalhava, a fam\u00edlia era propriet\u00e1ria da sua casa e tinha possibilidades de enviar a irm\u00e3 mais velha do Steve para uma universidade local.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Steve no ex\u00e9rcito<\/h2>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio Steve decidiu que n\u00e3o estava interessado em ir para a universidade. As suas notas no secund\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o eram particularmente brilhantes. Al\u00e9m disso, quando a irm\u00e3 terminou o curso em ci\u00eancias humanas, o diploma obtido n\u00e3o teve qualquer efeito vis\u00edvel no tipo de emprego que lhe foi oferecido nem no sal\u00e1rio que recebeu. Dois anos depois de concluir o curso, ela e o marido mudaram-se para a Carolina do Norte, onde os impostos e o custo de vida eram mais baixos e as perspectivas de emprego do marido eram melhores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de ir para a universidade, Steve alistou-se no ex\u00e9rcito, que o enviou para a Alemanha. Completou, no entanto, apenas uma miss\u00e3o. Nessa altura, os Estados Unidos estavam prestes a envolverem-se numa s\u00e9rie de guerras no estrangeiro, em pa\u00edses como o Afeganist\u00e3o e o Iraque. Steve n\u00e3o via nenhum sentido em arriscar a vida em guerras em que n\u00e3o tinha grande interesse. Num acontecimento triste, o pai morreu subitamente de ataque card\u00edaco, ainda relativamente novo, e o Steve quis apoiar a m\u00e3e nesse per\u00edodo dif\u00edcil. Quando regressou a casa, percebeu que, ao contr\u00e1rio do que sucedia nos tempos do seu pai, n\u00e3o podia contar com um emprego est\u00e1vel. Durante algum tempo trabalhou na constru\u00e7\u00e3o civil, mas acabou por adquirir experi\u00eancia como mec\u00e2nico de autom\u00f3veis.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Steve, no desemprego<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Embora sem perfil para cargos de chefia, o Steve \u00e9 um bom trabalhador manual, e a sua compet\u00eancia a reparar autom\u00f3veis \u00e9 apreciada pelos patr\u00f5es. Apesar disso, o n\u00edvel real do seu sal\u00e1rio \u00e9 muito inferior ao que o pai auferia. Al\u00e9m disso, n\u00e3o tem qualquer seguran\u00e7a no emprego. H\u00e1 sempre algum problema. A oficina fecha, ou tem de reduzir o pessoal por falta de procura, ou ent\u00e3o o patr\u00e3o exige mais horas de trabalho recusando pagar as horas extraordin\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso tem como consequ\u00eancia que o Steve n\u00e3o consegue manter um emprego por mais de um ano ou dois e tem de recorrer periodicamente ao subs\u00eddio de desemprego. Candidatar-se a esse apoio \u00e9 um processo humilhante e demorado, e o Steve passa muitas vezes semanas sem qualquer rendimento. Uma das desvantagens de receber o subs\u00eddio \u00e9 a grande press\u00e3o para aceitar empregos mal pagos, mesmo quando s\u00e3o inadequados \u00e0s suas compet\u00eancias. Ele sabe que \u00e9 um bom trabalhador e, noutros empregos, chegou a ganhar vinte e cinco d\u00f3lares \u00e0 hora. Porque raz\u00e3o haveria de aceitar um trabalho pago com o sal\u00e1rio m\u00ednimo? E, depois de descontar os impostos, iria na verdade receber menos do que o subs\u00eddio de desemprego que est\u00e1 a receber. O Steve quer trabalhar, gosta de arranjar autom\u00f3veis e \u00e9 bom nisso. Mas sente-se revoltado por ser chamado pregui\u00e7oso apenas porque se mostra relutante em aceitar empregos tempor\u00e1rios e mal remunerados. Mesmo desconhecendo o termo, ele faz parte do \u201cprecariado\u201d.<sup>1<\/sup>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Steve, na Veterans Health Administration<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma ajuda o facto de a m\u00e3e do Steve ter arranjado trabalho no Walmart local. Lidar com clientes malcriados \u00e9 desagrad\u00e1vel, e o sal\u00e1rio \u00e9 baixo. Mas h\u00e1 uma compensa\u00e7\u00e3o pelo facto de a desloca\u00e7\u00e3o ser curta. Al\u00e9m disso, o Steve e a m\u00e3e sentem-se felizes por serem propriet\u00e1rios da casa em que vivem. Os impostos sobre im\u00f3veis na sua cidade s\u00e3o elevados: mais de cinco mil d\u00f3lares por ano. Ainda assim, viver numa casa pr\u00f3pria \u00e9 melhor do que arrendar um apartamento. Outro factor favor\u00e1vel \u00e9 que, sendo antigo combatente, Steve tem direito a seguro de sa\u00fade gratuito atrav\u00e9s da <em>Veterans Health Administration<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 conveniente admitir tamb\u00e9m que Steve se tem revelado incapaz de p\u00f4r de lado uma parte do seu rendimento para fazer face a tempos mais dif\u00edceis. Mesmo quando as coisas correm melhor, o dinheiro acaba por desaparecer antes do dia em que recebe o pr\u00f3ximo sal\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Steve deseja formar fam\u00edlia e ter crian\u00e7as. Contudo, embora tenha j\u00e1 tido v\u00e1rias namoradas, nenhuma dessas rela\u00e7\u00f5es durou um tempo significativo. Ele n\u00e3o percebe o que est\u00e1 por detr\u00e1s de tal situa\u00e7\u00e3o, mas, sendo j\u00e1 cinquenten\u00e1rio, come\u00e7a a sentir que ter\u00e1 talvez que se resignar a n\u00e3o vir a ter filhos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>[continua]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria contada por Peter Turchin que vale a pena ler [1] BIBLIOTECA DAS IDEIAS&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15231,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[519,238,450],"tags":[610],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner.jpg",1396,698,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner-300x150.jpg",300,150,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner-768x384.jpg",640,320,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner-1024x512.jpg",640,320,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner.jpg",1396,698,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner.jpg",1396,698,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner-1115x698.jpg",1115,698,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner-1024x512.jpg",1024,512,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/filipebaner-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/biblioteca-das-ideias\/\" rel=\"category tag\">BIBLIOTECA DAS IDEIAS<\/a> <a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/livros\/\" rel=\"category tag\">LIVROS<\/a>","tag_info":"LIVROS","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15230"}],"collection":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15230"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15230\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15232,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15230\/revisions\/15232"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15231"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}