{"id":1904,"date":"2020-08-23T23:41:55","date_gmt":"2020-08-23T23:41:55","guid":{"rendered":"http:\/\/aep61-74.org\/?p=1904"},"modified":"2020-12-29T00:19:27","modified_gmt":"2020-12-29T00:19:27","slug":"extrema-direita-resistir-e-uma-obrigacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/2020\/08\/23\/extrema-direita-resistir-e-uma-obrigacao\/","title":{"rendered":"EXTREMA-DIREITA |Resistir \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>SF | 24-08-2020 | <strong>Acir Meireles convida-nos para um exerc\u00edcio de grande f\u00f4lego. Associar a cada uma das quest\u00f5es que se colocam no combate \u00e0 extrema-direita uma resposta multidisciplinar integrando dimens\u00f5es pol\u00edticas, hist\u00f3ricas, filos\u00f3ficas e morais. Vale a pena fazer este percurso com uma tranquilidade doce, como se estiv\u00e9ssemos em S. Miguel, nos A\u00e7ores.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Acir Meireles, Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas \/Cultura Medieval Portuguesa  coordenador de programas regionais de educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de adultos, <\/p>\n\n\n\n<p>Tempo de separar as \u00e1guas (um texto longo, mas n\u00e3o consegui fazer por menos)<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSe a justi\u00e7a perecer, a vida humana na Terra ter\u00e1 perdido o seu sentido\u201d (Kant). Algumas semanas atr\u00e1s, Rui Rio admitiu que poderia chegar a um acordo de governo com o Chega, caso o partido \u201cmoderasse\u201d as suas posi\u00e7\u00f5es. Alguns dias depois, o Presidente do Governo Regional da Madeira escancarou a porta que Rio havia entreaberto: \u00e9 um acordo sim Sr., e sem condi\u00e7\u00f5es. A prioridade \u00e9 derrotar a Esquerda, independentemente dos compagnon de route. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Social Democrata<\/h4>\n\n\n\n<p>Foi, de facto, uma surpresa para mim, pois nunca pensei que um partido que carrega no nome a denomina\u00e7\u00e3o Social Democrata aceitasse tal tipo de coliga\u00e7\u00e3o. Mais surpreso ainda fiquei ao constatar a rapidez com que muitos militantes, que h\u00e1 pouco tempo ainda traziam na boca o credo <em>ppdpsd<\/em>, aceitaram, at\u00e9 com uma certa naturalidade, a nova realidade. Fico a espera de um pronunciamento inequ\u00edvoco do PSD A\u00e7ores sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Um problema moral<\/h4>\n\n\n\n<p>Pessoalmente, parece-me que estou a ver um mau filme pela segunda vez. No caso do Brasil, j\u00e1 tinha rompido rela\u00e7\u00f5es com muitos amigos e mais ou menos metade da fam\u00edlia. Parece que em Portugal terei de seguir o mesmo percurso. Alguns dir\u00e3o que \u00e9 uma tolice brigar por motivos pol\u00edticos, e t\u00eam toda a raz\u00e3o. Nunca rompi rela\u00e7\u00f5es com base em tal motiva\u00e7\u00e3o. Relaciono-me com comunistas e monarquistas e, no sil\u00eancio da urna, cada um segue o seu caminho. O meu problema com o Chega n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtico, \u00e9 moral. E se n\u00e3o estivermos dispostos a discutir nesses termos, muito perigoso vai o mundo. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Bezerro de ouro<\/h4>\n\n\n\n<p>Em se tratando de estrat\u00e9gia pol\u00edtica, o Chega n\u00e3o apresenta nenhuma novidade. Pelo contr\u00e1rio, copia, como bom aluno, os seus cong\u00e9neres europeus (It\u00e1lia, Hungria, Pol\u00f3nia, R\u00fassia) e americanos (EUA e Brasil). Tamb\u00e9m n\u00e3o apareceu por acaso, a qualidade da nossa Democracia pare e amamenta este bezerro de ouro. \u00c9 nas nossas falhas como sociedade que eles crescem, apostando em duas estrat\u00e9gias principais: a identifica\u00e7\u00e3o de um inimigo e a dissemina\u00e7\u00e3o de mentiras. Ter inimigos d\u00e1 sempre jeito, pois permite levantar uma bandeira \u00e0 sombra da qual todas as outras quest\u00f5es, realmente relevantes e por discutir, podem descansar calmamente. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Os bodes expiat\u00f3rios<\/h4>\n\n\n\n<p>De acordo com o recenseamento de 1933, o n\u00famero de judeus na Alemanha era de aproximadamente 500 mil pessoas. Ou seja, representavam menos de um por cento do total da popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3, de cerca de 67 milh\u00f5es. Mesmo assim, para o partido Nazista representavam a fonte de todos os males sofridos pelos alem\u00e3es. Um pouco mais a Leste, sob Estaline, n\u00e3o faltavam inimigos, fossem membros da classe dirigente do antigo regime, os velhos revolucion\u00e1rios de 1917 ou os camponeses remediados. Esta tradi\u00e7\u00e3o mant\u00e9m-se. Putin debita na conta dos seus opositores ideias homossexuais trazidas do Ocidente, enquanto em It\u00e1lia e na Hungria os refugiados cumprem a fun\u00e7\u00e3o de bode expiat\u00f3rio. Na Am\u00e9rica, com a sua complexidade social, Trump pode ir colhendo as flores que deseja num imenso jardim que serve \u00e0s suas conveni\u00eancias: homossexuais, imigrantes, marxista, democratas, negros, latinos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Programa tirado do ar<\/h4>\n\n\n\n<p>Por c\u00e1, um pa\u00eds que \u00e9 simultaneamente Estado e Na\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o \u00e9 muito comum na Europa, o Chega teve um pouco mais de dificuldade em encontrar uma minoria que pudesse servir de refer\u00eancia para os males do pa\u00eds. Passaram pelas suas m\u00e3os os homossexuais (o partido prega o fim do casamento gay), os ped\u00f3filos (castra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica neles), desempregados, presos e benefici\u00e1rios do RSI (que t\u00eam de trabalhar para merecer os servi\u00e7os do Estado), os ciganos (campo de concentra\u00e7\u00e3o durante a pandemia) e, agora, os movimentos anti-racistas. O programa do partido (que foi tirado do ar, nunca \u00e9 demais lembrar) seleciona ainda outros grupos, como os marxistas, que estariam a fazer lavagem cerebral \u00e0s nossas crian\u00e7as, e certas seitas mu\u00e7ulmanas. Exercer este tipo de persegui\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se sustentado por um conjunto de mentiras. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Mentiras de m\u00e9dio porte<\/h4>\n\n\n\n<p>O exemplo cl\u00e1ssico s\u00e3o <em>Os Protocolos dos S\u00e1bios de Si\u00e3o<\/em>. Publicado pela primeira vez em 1903, na R\u00fassia, seria a ata de uma reuni\u00e3o secreta ocorrida em 1897, em Basileia, durante o Primeiro Congresso Sionista, contendo os planos de um grupo de judeus para dominar o Ocidente. Em 1921, o jornal londrino The Times provou que o texto era falso, tendo sido forjado por militares russos, mas o documento ainda hoje \u00e9 citado por grupos radicais. Em <em>Minha Luta<\/em>, Hitler citou trechos dos Protocolos para justificar a persegui\u00e7\u00e3o nazista aos judeus. Mas, diferentemente dos anos 30 do s\u00e9culo passado, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 necessidade de grandes mentiras, como um <em>complot<\/em> judaico internacional ou um aumento da produtividade industrial superior a 100%. Com as possibilidades trazidas pelas redes sociais, as mentiras grandes foram substitu\u00eddas por um conjunto daquilo que o historiador Timothy Snyder chamou de mentiras de m\u00e9dia porte, direcionadas a p\u00fablicos muito espec\u00edficos e apoiadas por um marketing muito agressivo nas redes sociais.A forte influ\u00eancia dessas mentiras de m\u00e9dia porte ficaram patentes nas elei\u00e7\u00f5es de Trump e de Bolsonaro e no referendo ao Brexit. No caso do Brasil, os apoiantes de Bolsonaro difundiram em rede a exist\u00eancia de um \u201ckit gay\u201d, que seria distribu\u00eddo \u00e0s crian\u00e7as de todas as escolas. O tal kit, obviamente, n\u00e3o existia, mas foi denunciado continuamente. Enquanto Bolsonaro proclamava estar a defender <em>a inoc\u00eancia das nossas crian\u00e7as<\/em>, Fernando Haddad, candidato do PT, tinha que desmentir diariamente que tal documento n\u00e3o existia, sem sucesso, diga-se de passagem. Para Bolsonaro bastava dizer que o kit gay existia, para Haddad era preciso provar que n\u00e3o existia. Como se prova que algo n\u00e3o existe? Tais mentiras de m\u00e9dio porte acabam por distorcer os argumentos e a colocar em causa a nossa pr\u00f3pria capacidade de pensamento cr\u00edtico. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Orwell e a novil\u00edngua<\/h4>\n\n\n\n<p>Ainda no Brasil, frente \u00e0 pandemia, o Presidente da Rep\u00fablica tem tentado vender a hidroxicloroquina como um medicamente eficaz contra o v\u00edrus. Segundo ele \u201cn\u00e3o h\u00e1 comprova\u00e7\u00e3o que tem nem que n\u00e3o tem efic\u00e1cia\u201d, pelo que o melhor \u00e9 tomar. Parece que estamos no terreno do dist\u00f3pico 1984, em que o idioma, denominado novil\u00edngua, substitui o ingl\u00eas padr\u00e3o. Por meio de uma s\u00e9rie de mecanismos lingu\u00edsticos implementados nessa l\u00edngua artificial, era poss\u00edvel impedir qualquer ato de revolta, pelo simples exterm\u00ednio da ideia que leva \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Orwell sabia que havia o perigo do aparecimento de uma linguagem pol\u00edtica que n\u00e3o representasse mais um pensamento comprometido com a condi\u00e7\u00e3o humana. Pior, que as express\u00f5es pr\u00e9-fabricadas, comprometessem a forma\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio adequado, a energia do pensamento cr\u00edtico. Coisa de fic\u00e7\u00e3o? Victor Klemperer, um judeu alem\u00e3o, fil\u00f3logo, que, quase por milagre, sobreviveu ao nazismo sem nunca sair da Alemanha, escreveu, como ato de resist\u00eancia, um di\u00e1rio (infelizmente nunca publicado em Portugal). Ao analisar a linguagem do Reich, que ele batizou de Lingua Tertiii Imperii, ele chama a aten\u00e7\u00e3o de como o alem\u00e3o estava a ser adulterado e corrompido, com as palavras a serem utilizadas como \u201cmin\u00fasculas doses de ars\u00eanico\u201d, inoculadas \u201cna carne e no sangue das massas\u201d. Entre as adultera\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas e morfol\u00f3gicas, Klemperer nota a amplia\u00e7\u00e3o do uso do prefixo \u201cent-\u201d, que indica o seu contr\u00e1rio, como em entdunkeln (des&#8211;obscurecer) ou entbittern (des-amargar). O prefixo lembra a tentativa da novil\u00edngua de formar palavras a partir do seu oposto: \u201cdesbom\u201d (ungood) para ruim ou \u201cdespessoa\u201d (unperson) para designar pessoas desaparecidas, cujo registro \u00e9 apagado da hist\u00f3ria. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Chega de qu\u00ea?<\/h4>\n\n\n\n<p>As palavras e a gram\u00e1tica s\u00e3o fundamentais na estrutura\u00e7\u00e3o da nossa capacidade de raciocinar. Em 1984, a novil\u00edngua sustenta o duplipensar, que associa conceitos antag\u00f3nicos: \u201cGuerra \u00e9 paz! Liberdade \u00e9 escravid\u00e3o! Ignor\u00e2ncia \u00e9 for\u00e7a!\u201d. Ou, num exemplo mais caseiro: Segurar uma faixa a dizer n\u00e3o h\u00e1 racismo em Portugal ao mesmo tempo que se faz uma sauda\u00e7\u00e3o nazi. Eleger inimigos e fabricar mentiras \u00e9 essencial aos partidos de extrema-direita como o Chega, pois a sua sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tem por base um perp\u00e9tuo confronto. Um confronto seletivo, obviamente. Assim, para o Chega o principal problema de Portugal, pelo menos nas \u00faltimas semanas, parece ser o facto de algumas pessoas considerarem que existe racismo entre n\u00f3s, o que merece que se efetuem mobiliza\u00e7\u00f5es. Orwell poderia ter colocado algo parecido no seu romance e n\u00e3o ficaria desenquadrado. O pr\u00f3prio nome do partido \u2013 Chega \u2013 \u00e9 um convite ao combate. Chega de qu\u00ea? Vai colocar o qu\u00ea no lugar? Sem confronto o que sobra ao Chega? O seu programa, que, de resto, volto a frisar, eles suprimiram da consulta p\u00fablica. E o que diz o seu programa? Coisas como &#8220;Ao Estado n\u00e3o compete a produ\u00e7\u00e3o ou distribui\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, sejam esses servi\u00e7os de Educa\u00e7\u00e3o ou de Sa\u00fade, ou sejam os bens vias de comunica\u00e7\u00e3o ou meios de transporte.&#8221; Ou seja, o Chega prop\u00f5e o fim do Sistema Nacional de Sa\u00fade e da Escola P\u00fablica, n\u00e3o por acaso os dois grandes setores p\u00fablicos ainda n\u00e3o capturados pelos servi\u00e7os privados. N\u00e3o h\u00e1 nisso nenhum pecado, o partido \u00e9 livre de apresentar tais propostas e vota nele quem quiser. O problema \u00e9 que, ao inv\u00e9s de defend\u00ea-las publicamente, ele a camufla sob o manto di\u00e1fano do eterno combate por causas escolhidas ao sabor do marketing pol\u00edtico. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Os esquecimentos de Ventura<\/h4>\n\n\n\n<p>No passado dia 21 de agosto, a comunica\u00e7\u00e3o social divulgou a nova mo\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 Ventura: colocar os benefici\u00e1rios do RSI a fazer trabalho comunit\u00e1rio. \u00c9 uma proposta que sintetiza bem o seu partido em termos de fabricar inimigos, criar mentiras e encobrir interesses. Dizer que os benefici\u00e1rios do RSI t\u00eam de prestar servi\u00e7o comunit\u00e1rio deixa impl\u00edcita a ideia de que os mesmos n\u00e3o trabalham, ou seja, comem o p\u00e3o sem o suor do seu corpo. Andr\u00e9 Ventura \u201cesqueceu\u201d de dizer que como o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 muito baixo em Portugal, h\u00e1 fam\u00edlias que trabalham mas necessitam do RSI para n\u00e3o cair na extrema pobreza. Andr\u00e9 Ventura \u201cesqueceu\u201d de dizer que os benefici\u00e1rios que n\u00e3o trabalham s\u00e3o obrigados a inscrever-se nos centros de emprego, pelo que est\u00e3o dispon\u00edveis para um emprego. Andr\u00e9 Ventura \u201cesqueceu\u201d de dizer que se o servi\u00e7o comunit\u00e1rio \u00e9 t\u00e3o importante, ent\u00e3o os benefici\u00e1rios poderiam ser contratados para realiz\u00e1-lo, deixando assim de necessitar desse apoio. Andr\u00e9 Ventura \u201cesqueceu\u201d de dizer que o valor m\u00e9dio das presta\u00e7\u00f5es do RSI \u00e9 de 116,93\u20ac por pessoa e 263,25\u20ac por fam\u00edlia, sendo com esse valor que os pregui\u00e7osos vivem sem precisar de trabalhar. Andr\u00e9 Ventura \u201cesqueceu\u201d sobretudo de comparar o que o Estado despende com os benefici\u00e1rios do RSI e o que gasta com a banca. Segundo os dados dispon\u00edveis do Banco de Portugal, as despesas totais com as interven\u00e7\u00f5es para apoio ao sistema financeiro ascenderam a 19.923 milh\u00f5es de euros, entre 2007 e o final de 2017. No mesmo per\u00edodo, segundo dados da Seguran\u00e7a Social, os custos com o RSI foram de 4.203 milh\u00f5es de euros. A banca, por conseguinte, custou ao pa\u00eds quase 5 vezes mais do que os pobres.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">N\u00e3o s\u00e3o verdades<\/h4>\n\n\n\n<p>Tanto \u201cesquecimento\u201d \u00e9 estranho, considerando ser Andr\u00e9 Ventura consultor fiscal da Finpartner, uma empresa do universo da sociedade de advogados Caiado Guerreiro, especializada no aconselhamento fiscal, aquisi\u00e7\u00e3o de vistos gold e imobili\u00e1rio de luxo. \u00c9 uma \u00e1rea que ele conhece bem, pois trabalhou na Autoridade Tribut\u00e1ria, antes de vender os seus servi\u00e7os aos privados. \u00c9 esse o pol\u00edtico que, segundo consta, diz verdades que os outros n\u00e3o dizem. Os outros n\u00e3o dizem pelo simples motivo de que n\u00e3o s\u00e3o verdades. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O caso Dreyfus<\/h4>\n\n\n\n<p>Um exemplo hist\u00f3rico de como a mentira e a irracionalidade podem dividir uma sociedade \u00e9 o caso Dreyfus. Em Fran\u00e7a, no s\u00e9culo XIX, o capit\u00e3o Alfred Dreyfus foi acusado de espionagem e de entregar documentos secretos aos alem\u00e3es. Para complicar as coisas, Dreyfus era judeu e, por ser da Als\u00e1cia, falava franc\u00eas com sotaque alem\u00e3o. No decorrer do processo, quando foi progressivamente ficando clara a sua inoc\u00eancia, uma parte da imprensa e do Ex\u00e9rcito passou a mentir sistematicamente. Todas as evid\u00eancias existentes a seu favor foram refutadas, ainda que utilizando argumentos irracionais. A Fran\u00e7a, literalmente, dividiu-se em duas metades: a dos que apoiavam a sua condena\u00e7\u00e3o, em que circunst\u00e2ncia fosse, em nome da raz\u00e3o de Estado, e a dos que argumentavam haver princ\u00edpios superiores \u00e0 honra nacional, sendo um deles a obriga\u00e7\u00e3o do Estado de aplicar a lei de forma equ\u00e2nime, qualquer que fosse a religi\u00e3o do cidad\u00e3o. Tal como o caso Dreyfus, um caso judicial na sua ess\u00eancia, dividiu a sociedade francesa, agora a exist\u00eancia ou n\u00e3o de racismo ou de uma massa de vagabundos que n\u00e3o querem trabalhar aparenta dividir Portugal, gerando desaven\u00e7as entre pessoas que nem sequer sabiam que discordavam entre si. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Os meios e os fins<\/h4>\n\n\n\n<p>Na verdade, esta divis\u00e3o j\u00e1 pr\u00e9-existia, faltava apenas acender o pavio. E, pavio acesso, o PSD come\u00e7ou a fazer contas \u00e0 vida. Tal como o D. Fabr\u00edzio de <em>O Leopardo<\/em>, Rui Rio deve achar que consegue ceder alguma coisa para que tudo fique como est\u00e1, ou seja, um acordo com o Chega, fazendo uma concess\u00e3o aqui e outra ali, mas no interior do mesmo sistema, s\u00f3 que agora com ele como Primeiro Ministro. \u00c9 um mau c\u00e1lculo pol\u00edtico e um ato imoral. A hist\u00f3ria j\u00e1 deu provas de que, uma vez aberta a porta \u00e0 barb\u00e1rie, ela tende a instalar-se e a mandar na casa. As classes dirigentes alem\u00e3es que apoiaram Hitler encarando-o como um meio para atingir um fim, acabaram por ser engolidas por ele, com o Nazismo a apropriar-se de todo o aparelho do Estado, Ex\u00e9rcito inclusive. Mas mesmo que assim n\u00e3o fosse, colocar-se-ia sempre a d\u00favida \u00e9tica. Rui Rio, que domina a l\u00edngua alem\u00e3, deveria aproveitar para ler Kant e descobrir, por essa via, que fins que justificam meios n\u00e3o s\u00e3o um imperativo moral. Pelo contr\u00e1rio, seguindo o imperativo categ\u00f3rico, o que nos cabe \u00e9 fazermos o bem, sem nos reportarmos a qualquer fim. E se d\u00favidas h\u00e1 sobre o que \u00e9 esse bem, Rui Rio que n\u00e3o se preocupe, pois Kant bem o explica: \u201cSem nada ensinarmos de novo \u00e0 raz\u00e3o comum, n\u00e3o temos necessidade sen\u00e3o de chamarmos a sua aten\u00e7\u00e3o para o seu pr\u00f3prio princ\u00edpio, \u00e0 maneira de S\u00f3crates, mostrando desse modo que n\u00e3o h\u00e1 nem de ci\u00eancia nem de filosofia para que cada qual saiba o que tem de fazer para ser honesto e bom\u201d, e que \u201co conhecimento do que cada qual est\u00e1 obrigado a fazer, e por conseguinte tamb\u00e9m a conhecer, encontra-se ao alcance de quem quer que seja, at\u00e9 mesmo do mais comum dos homens\u201d. E caso a filosofia n\u00e3o baste aos militantes do PSD, e j\u00e1 agora tamb\u00e9m do CDS, eles que ou\u00e7am Mestre Eckhart, que afirmava preferir estar no Inverno com Deus do que no c\u00e9u sem ele.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O rinoceronte<\/h4>\n\n\n\n<p>O Jos\u00e9 Matildes que Agustina Bessa-Lu\u00eds t\u00e3o bem descreveu no seu <em>Os Meninos de Ouro,<\/em> n\u00e3o tem necessariamente que deixar o mundo da fic\u00e7\u00e3o: \u201cO pa\u00eds estava preparado para o receber, o seu fundo messi\u00e2nico encontrava um terreno prop\u00edcio porque, entretanto, o c\u00f3digo da revolu\u00e7\u00e3o se tinha revelado deficiente na sua simboliza\u00e7\u00e3o afetiva\u201d. N\u00e3o deixemos que esta passagem salte do livro para o palco da pol\u00edtica. Em 1960, o dramaturgo romeno Ionesco escreveu a pe\u00e7a O Rinoceronte, a hist\u00f3ria de uma tranquila cidade que se transforma completamente ap\u00f3s o surgimento inexplic\u00e1vel de um rinoceronte correndo pelas suas ruas. Enquanto os cidad\u00e3os debatem o fen\u00f3meno, v\u00e3o aos poucos, um a um, transformando-se, tamb\u00e9m eles, em rinocerontes. A pe\u00e7a mostra como \u00e9 mais f\u00e1cil \u201cseguir a manada\u201d do que pensar de forma cr\u00edtica. O di\u00e1logo entre a personagem B\u00e9renger, que resiste a tornar-se um rinoceronte, e a sua namorada, tem a for\u00e7a dos argumentos do seu autor: <\/p>\n\n\n\n<p>B\u00c9RENGER &#8211; Como \u00e9 que poderemos salvar o mundo, ent\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>DAISY &#8211; Salvar porqu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>B\u00c9RENGER &#8211; Que pergunta!&#8230; Fa\u00e7a isso por mim, Daisy. Salvemos o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>DAISY &#8211; Afinal, talvez sejamos n\u00f3s que precisemos ser salvos. Talvez os anormais, sejamos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>B\u00c9RENGER &#8211; Est\u00e1s delirando, Daisy; est\u00e1s com febre.<\/p>\n\n\n\n<p>DAISY \u2013 Tu est\u00e1s a ver mais algu\u00e9m como n\u00f3s?<\/p>\n\n\n\n<p>B\u00c9RENGER &#8211; Daisy, n\u00e3o quero ouvir-te dizer uma coisa dessas!(Daisy olha para todos os lados, na dire\u00e7\u00e3o dos rinocerontes cujas cabe\u00e7as vemos ao longo das paredes, na porta do patamar e perto da ribalta)<\/p>\n\n\n\n<p>DAISY &#8211; Isso \u00e9 que \u00e9 gente. Tem um ar feliz, est\u00e3o de acordo com eles mesmos. N\u00e3o t\u00eam aspeto de loucos, s\u00e3o at\u00e9 bem naturais. Devem ter tido raz\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>B\u00c9RENGER &#8211; N\u00f3s \u00e9 que temos raz\u00e3o, Daisy, eu asseguro-te.<\/p>\n\n\n\n<p>DAISY &#8211; Que pretens\u00e3o!&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>B\u00c9RENGER &#8211; Sabes muito bem que tenho raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>DAISY &#8211; N\u00e3o existe raz\u00e3o absoluta. Quem tem raz\u00e3o \u00e9 o mundo, n\u00e3o \u00e9s tu nem eu.<\/p>\n\n\n\n<p>B\u00c9RENGER &#8211; Sim, Daisy, eu tenho raz\u00e3o. A prova est\u00e1 que quando eu falo, tu me entendes.<\/p>\n\n\n\n<p>DAISY &#8211; Isso n\u00e3o prova nada.<\/p>\n\n\n\n<p>B\u00c9RENGER &#8211; A prova, \u00e9 eu amar-te tanto quanto um homem pode amar uma mulher. <\/p>\n\n\n\n<p>DAISY &#8211; Bonito argumento!<\/p>\n\n\n\n<p>B\u00c9RENGER &#8211; N\u00e3o estou a compreender-te, Daisy. Tu j\u00e1 nem sabes o que dizes, minha querida! Escuta, o amor&#8230; \u00c9 o amor! O amor!<\/p>\n\n\n\n<p>DAISY &#8211; Sinto vergonha disso que tu chamas amor, esse sentimento m\u00f3rbido, essa fraqueza do homem, e da mulher tamb\u00e9m. Isso n\u00e3o pode ser comparado com o ardor, com a energia extraordin\u00e1ria que irradiam de todos estes seres que nos rodeiam. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">N\u00e3o sabemos como acaba<\/h4>\n\n\n\n<p>Como devemos gerir a vida numa altura em que os nossos amigos e vizinhos parecem abdicar voluntariamente da racionalidade, apostando na discrimina\u00e7\u00e3o daquele que \u00e9 diferente e repetindo incessantemente um rol de fake news? Como percebemos pela leitura de Ionesco, a decis\u00e3o de virar rinoceronte \u00e9 volunt\u00e1ria. O que significa que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma m\u00e1quina de propaganda que nos impe\u00e7a de examinar os fen\u00f3menos e sentir dentro de n\u00f3s pr\u00f3prios o que \u00e9 o caminho do bem. Tendo sido citados ao longo do texto v\u00e1rios exemplos do Comunismo e do Nazismo, \u00e9 justo que nos perguntemos se n\u00e3o h\u00e1 aqui algum exagero, afinal de contas, j\u00e1 n\u00e3o estamos em 1937. Entre uma \u00e9poca de campos de concentra\u00e7\u00e3o e do gulag, n\u00e3o ser\u00e1 o Chega uma diatribe de crian\u00e7as? A quest\u00e3o \u00e9 que estamos a ver como come\u00e7a, mas n\u00e3o sabemos como acaba, mas, se a Hist\u00f3ria tem algo a ensinar nesse cap\u00edtulo, \u00e9 que nunca, nunca mesmo, acaba bem. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A estrada para o inferno<\/h4>\n\n\n\n<p>Como esclarece Hannah Arendt: \u201cO maior perigo de ver no totalitarismo a maldi\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo ser\u00e1 uma obsess\u00e3o com o totalitarismo ao ponto de n\u00e3o vermos os muitos males pequenos, e n\u00e3o t\u00e3o pequenos, com os quais a estrada para o inferno est\u00e1 calcetada.\u201d Evgu\u00e9ni Zami\u00e1tin, no seu romance N\u00f3s, socorre-se da fic\u00e7\u00e3o para defender este mesmo ponto de vista: \u201cO que ser\u00e1 se o incidente de hoje, no fundo de \u00ednfima import\u00e2ncia, o que ser\u00e1 se tudo isto for apenas o come\u00e7o, for apenas o primeiro meteorito de toda uma s\u00e9rie de estrondosas pedras ardentes, despejadas pelo infinito sobre o nosso para\u00edso de vidro?\u201dNa Babil\u00f3nia b\u00edblica, Daniel, a exemplo dos outros judeus, foi proibido de professar publicamente a sua religi\u00e3o. Daniel optou por orar em casa, mas \u00e0 janela, onde poderia por ser visto. Foi lan\u00e7ado na cova dos le\u00f5es e salvo pela intercess\u00e3o divina. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 um exemplo muito comum. Nas ditaduras o mais comum \u00e9 os opositores irem para a pris\u00e3o, como est\u00e1 a acontecer em Hong Kong, ou acabarem envenenados, o que \u00e9 frequente na R\u00fassia. Nesses sistemas, por vezes a \u00fanica op\u00e7\u00e3o de protesto \u00e9 a n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Nunca mintas a ti pr\u00f3prio<\/h4>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, que vivemos em Democracia, n\u00e3o temos tal limita\u00e7\u00e3o. Resistir \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o para todos aqueles que, frente ao mal, n\u00e3o se sentem bem consigo mesmo ao observar passivamente o que se passa. Como bem descreve o escritor polaco Czeslaw Milosz, no seu A Mente Aprisionada: \u201cRecusar ser c\u00famplice, seja de que maneira for, com a tirania do Leste \u2013 bastar\u00e1 isso para nos deixar de consci\u00eancia tranquila? N\u00e3o creio. Ganhei a liberdade, mas n\u00e3o quero esquecer que a cada dia corro o risco de voltar a perd\u00ea-la. Porque tamb\u00e9m no Ocidente somos pressionados no sentido do conformismo \u2013 a conformarmo-nos a um sistema que \u00e9 o oposto daquele ao qual fugi. A diferen\u00e7a \u00e9 que, no Ocidente, podemos resistir a essa press\u00e3o sem que nos declarem culpados de um pecado capital.\u201dFrente ao Chega e ao que ele representa, necessitamos, cada um de n\u00f3s, fazermos uma an\u00e1lise introspetiva e percebermos que posi\u00e7\u00e3o assumiremos nessa arena. Dimitri Karamazov ao perguntar a um monge: \u201cQue tenho eu de fazer para merecer a salva\u00e7\u00e3o?\u201d, recebeu uma resposta simples mais muito exigente: \u201cAcima de tudo, nunca mintas a ti pr\u00f3prio.\u201d Portanto, quando ouvirmos as manifesta\u00e7\u00f5es contra o SOS Racismo e as amea\u00e7as aos deputados, temos de nos questionar n\u00e3o apenas se \u00e9 com esse tipo de gente que queremos conviver, mas se vamos deix\u00e1-los agir sem dar combate. A hora \u00e9 de sermos honestos connosco pr\u00f3prios e da\u00ed tirarmos as devidas consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Acir Meireles<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SF | 24-08-2020 | Acir Meireles convida-nos para um exerc\u00edcio de grande f\u00f4lego. 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