{"id":7088,"date":"2022-06-12T10:26:03","date_gmt":"2022-06-12T10:26:03","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=7088"},"modified":"2022-06-12T10:26:08","modified_gmt":"2022-06-12T10:26:08","slug":"o-nosso-dever-de-memoria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/06\/12\/o-nosso-dever-de-memoria\/","title":{"rendered":"O nosso dever de mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>MEM\u00d3RIAS E EX\u00cdLIOS<\/strong><\/mark> | Encontro de Narradores e Autores, 8 de junho 2022<\/p>\n\n\n\n<p>Por <strong>Helena Pat<\/strong>o, <strong>10 de junho <\/strong>\u00a02022<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7091\" width=\"355\" height=\"329\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp.jpg 401w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp-300x278.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 355px) 100vw, 355px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>V\u00eddeo<\/strong><\/mark> | Imagens do Encontro<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Narradores autores: Helena Pato\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/e4MxqFKAOF0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A mem\u00f3ria e \u00abA Noite Mais Longa de Todas as Noites\u00bb *<\/h2>\n\n\n\n<p>Helena Pato<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">1. O NOSSO DEVER DE MEM\u00d3RIA<\/h2>\n\n\n\n<p>A preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do regime fascista, que continua t\u00e3o descurada &#8211; e, n\u00e3o raramente, desprezada &#8211; pelas diversas institui\u00e7\u00f5es do Estado, \u00e9, a meu ver, uma quest\u00e3o cada vez mais oportuna na nossa cidadania. Desde logo, para procurarmos impedir que se escamoteiem os progressos obtidos com a implanta\u00e7\u00e3o da nossa democracia. Custa-me ler e ouvir diariamente frases como \u201co Tarrafal est\u00e1 entre n\u00f3s\u201d e afirma\u00e7\u00f5es do g\u00e9nero &#8220;actualmente est\u00e1-se pior do que dantes&#8221; \u2013 o que reflecte um desconhecimento profundo do que era o pa\u00eds antes do 25 de Abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Considero de extraordin\u00e1ria import\u00e2ncia tudo o que possa ser realizado e produzido com o objectivo de carrear mem\u00f3ria e mem\u00f3rias do per\u00edodo de 1926 a 1974 para a Hist\u00f3ria que, nas Universidades, se desenha, se escreve e se vai construindo. Importam, a meu ver, n\u00e3o apenas o contacto directo com os jovens nas escolas e as visitas a museus da Resist\u00eancia, mas tamb\u00e9m a divulga\u00e7\u00e3o de trabalhos dispersos de pesquisa, tais como artigos, document\u00e1rios, biografias e, na \u00e1rea da fic\u00e7\u00e3o, romances, pe\u00e7as de teatro, v\u00eddeos, filmes. Constituem sempre valiosos contributos para a informa\u00e7\u00e3o e consciencializa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, dos jovens e daqueles que n\u00e3o viveram esse per\u00edodo da Hist\u00f3ria de Portugal, ou cujas vidas se desenvolveram, ent\u00e3o, \u00e0 margem ou na ignor\u00e2ncia da realidade do regime. A hist\u00f3ria do regime fascista e da Resist\u00eancia, desde a ditadura militar at\u00e9 1974, est\u00e1 ainda demasiado circunscrita \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o das academias, mas tem de ser levada \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, usando todos os meios e com a objectividade desde j\u00e1 poss\u00edvel. E quando digo \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, penso tamb\u00e9m nos novos professores de Hist\u00f3ria que, em grande parte, ignoram o que foram a Ditadura do Estado Novo e a Resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo urge. A divulga\u00e7\u00e3o do que foi a mis\u00e9ria no regime opressivo e repressivo dos 48 anos de Ditadura em Portugal \u2013 a mais longa ditadura no mundo &#8211; \u00e9 um factor fundamental na preven\u00e7\u00e3o da ascens\u00e3o da extrema direita ao poder. O desconhecimento das ditaduras do s\u00e9culo XX tem-se revelado um facto sempre que ficamos perante as causas dos retrocessos anti-democr\u00e1ticos no mundo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">2. AS REDES SOCIAIS<\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 12 anos cri\u00e1mos, no Facebook, um grupo destinado a dar voz a resistentes an\u00f3nimos e a divulgar testemunhos, lutas, e atrocidades do regime, evocando momentos duros e, tamb\u00e9m, momentos empolgantes da resist\u00eancia. Nasceu o \u00abGrupo Fascismo Nunca Mais\u00bb (um grupo distanciado dos partidos pol\u00edticos, hoje com 19 mil membros, apesar de ser um grupo fechado e de as entradas serem submetidas a escrut\u00ednio contra a extrema direita). Por essa altura (2013), abrimos tamb\u00e9m uma p\u00e1gina, para inclus\u00e3o de biografias de resistentes antifascistas com ideologias diversas. \u00abAntifascistas da Resist\u00eancia\u00bb \u00e9 um espa\u00e7o de mem\u00f3ria plural, que vimos alimentando com modestas notas biogr\u00e1ficas cujo n\u00famero se aproxima j\u00e1 do milhar. Temos contado essencialmente com a colabora\u00e7\u00e3o da professora Maria Jo\u00e3o Dias e de Jo\u00e3o Esteves, um historiador que partilhou nessa p\u00e1gina umas dezenas de biografias de cidad\u00e3os sem nome, mortos \u00e0s m\u00e3os da PVDE e da PIDE ou v\u00edtimas das maiores torturas, revelando-nos por essa via uma resist\u00eancia oculta, muito surpreendente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3. O LIVRO A Noite Mais Longa de Todas as Noites<\/h2>\n\n\n\n<p>Todavia, nesse contexto de mem\u00f3ria que incentivamos no Facebook, muito raramente tenho uma interven\u00e7\u00e3o personalizada, aludindo ou escrevendo acerca da minha viv\u00eancia, como v\u00edtima ou testemunha directa do fascismo. E porque me fui apercebendo dos enormes buracos negros, que existem nas escolas sobre o regime em que a minha gera\u00e7\u00e3o nasceu, cresceu e se tornou adulta, eu tive, pessoalmente, vontade de me lan\u00e7ar num passo diferente. Senti um outro dever de mem\u00f3ria: dar um testemunho que poderia ser \u00fatil a quem faz Hist\u00f3ria. Sem pretens\u00f5es autobiogr\u00e1ficas, (n\u00e3o se trata de uma autobiografia), dei corpo ao meu 3\u00ba livro de mem\u00f3ria da resist\u00eancia. \u00abA Noite Mais Longa de Todas as Noites\u00bb s\u00e3o, de facto, mem\u00f3rias que deixam aos leitores alguns elementos autobiogr\u00e1ficos, mas apenas as decorrentes das descri\u00e7\u00f5es de situa\u00e7\u00f5es vividas por mim, na Resist\u00eancia. O livro \u00e9 constru\u00eddo \u00e0 volta de \u00abhist\u00f3rias\u00bb (em sequ\u00eancia numerada), narradas na primeira pessoa e continuamente contextualizadas por pequenos textos de cariz hist\u00f3rico, social e pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>As hist\u00f3rias (reais) t\u00eam o objectivo de prender os leitores, mais pelas emo\u00e7\u00f5es, que naturalmente despertam, enquanto que os textos se prop\u00f5em informar com o rigor poss\u00edvel. Este \u00e9 um livro a pensar no presente, mas que olha apenas para o passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentei-me em frente das teclas do computador, a correr atr\u00e1s de lembran\u00e7as, a desfiar nomes, datas e lugares; a ler cartas (com, e de, familiares) j\u00e1 esquecidas: umas in\u00fateis, outras f\u00fateis, outras apaixonadas, e tantas, tantas delas, em raiva ou em drama. Saltitava no Google, a confirmar acontecimentos hist\u00f3ricos, que me ocorriam, entrela\u00e7ados com diversos factos pessoais adormecidos. O computador sempre aberto, enquanto eu via fotografias e consultava notas dos anos secretos da minha vida. A folha word em branco e eu sem saber por que ponta puxar. Como come\u00e7ar. Foram meses de espera. Um dia, sem qu\u00ea nem porqu\u00ea, de repente, a primeira frase irrompeu: \u00abForam precisos muitos anos, muita vida, muitas vidas para vermos com clareza a raz\u00e3o de ser\u2026\u00bb. A partir dessa frase, saltaram-me das pontas dos dedos, as ideias, as recorda\u00e7\u00f5es, os factos, tudo a atropelar-se numa escrita compulsiva, numa \u00e2nsia de n\u00e3o me perder de mim nem da verdade. Queria que a minha hist\u00f3ria, que era a hist\u00f3ria de tantos homens e tantas mulheres da minha gera\u00e7\u00e3o, tanto quanto poss\u00edvel, me sa\u00edsse rigorosa e r\u00e1pida, agora que n\u00e3o me restava muito tempo de vida para falar do que vivi, do que muitos de n\u00f3s vivemos. Desejava que a minha escrita pudesse n\u00e3o se tornar uma seca para os jovens, mas que o conte\u00fado do livro lhes fosse oferecido com o rigor de um testemunho, dado com seriedade e sem demagogia. O meu livro nasceu desse modo &#8211; espero em breve que chegue a 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o &#8211; e \u00e9, ou eu gostaria que fosse, o que a escritora Maria Teresa Horta escreveu no longo pref\u00e1cio que lhe escreveu.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Helena Pato<\/h2>\n\n\n\n<p>(*) texto gui\u00e3o para uma interven\u00e7\u00e3o oral, a convite de Carlos Ribeiro, no II\u00ba Encontro de Narradores-Autores, realizado no Museu do Aljube Resist\u00eancia Liberdade, no passado 8 de Junho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MEM\u00d3RIAS E EX\u00cdLIOS | Encontro de Narradores e Autores, 8 de junho 2022 Por Helena&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7092,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,367],"tags":[368],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3.jpg",804,439,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3-300x164.jpg",300,164,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3-768x419.jpg",640,349,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3.jpg",640,349,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3.jpg",804,439,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3.jpg",804,439,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3.jpg",804,439,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3-800x439.jpg",800,439,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3.jpg",804,439,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/hp3-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/memorias-e-exilios\/\" rel=\"category tag\">MEM\u00d3RIAS E EX\u00cdLIOS<\/a>","tag_info":"MEM\u00d3RIAS E EX\u00cdLIOS","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7088"}],"collection":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7088"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7088\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7093,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7088\/revisions\/7093"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7092"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7088"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7088"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7088"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}