{"id":7636,"date":"2022-07-25T11:48:44","date_gmt":"2022-07-25T11:48:44","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=7636"},"modified":"2022-07-25T11:48:48","modified_gmt":"2022-07-25T11:48:48","slug":"a-albania-da-segurimi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/07\/25\/a-albania-da-segurimi\/","title":{"rendered":"A Alb\u00e2nia da Segurimi"},"content":{"rendered":"\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>MUNDO<\/strong><\/mark> | DOSSI\u00ca Alb\u00e2nia Hoje (6) \u2013 25 de julho 2022 | DEBATE | Opini\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Continuamos a publicar mat\u00e9ria relacionada com a Alb\u00e2nia cruzando abordagens do passado com  outras mais atuais procurando antes de mais fornecer informa\u00e7\u00e3o e elementos baseados nas experi\u00eancias de quem as viveu e relata. As ideias e as opini\u00f5es atravessam as narrativas de forma mais ou menos expl\u00edcita. Por vezes surgem no campo difuso e amb\u00edguo do subliminar.  Atendendo a estas incurs\u00f5es, relativamente err\u00e1ticas, podemos admitir que se justificaria na circunst\u00e2ncia a adapta\u00e7\u00e3o, eventualmente abusiva, mas apesar de tudo oportuna, do t\u00edtulo do \u00faltimo livro de Rui  Bebiano para &#8220;No Labirinto da Alb\u00e2nia&#8221;. O texto de opini\u00e3o e de relato de experi\u00eancia que publicamos hoje \u00e9 de <strong>Francisco Melro<\/strong>. O t\u00edtulo \u00e9 nosso e os subt\u00edtulos tamb\u00e9m. SF<\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>OPINI\u00c3O<\/strong><\/mark> por\u00a0Francisco Melro<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/melro-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7606\" width=\"269\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/melro-1.jpg 435w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/melro-1-300x263.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 269px) 100vw, 269px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>A MINHA OPERA\u00c7\u00c3O ESPECIAL NA ALB\u00c2NIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estive na Alb\u00e2nia durante alguns dias no final de 1977. N\u00e3o fui em visita tur\u00edstica. Participei numa opera\u00e7\u00e3o especial, partid\u00e1ria, guiada, controlada e com fins muito espec\u00edficos, conjuntamente com mais tr\u00eas companheiros. O programa envolveu reuni\u00f5es, encontros, sess\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o, visitas a algumas das principais cidades e unidades produtivas, agr\u00edcolas e industriais, a participa\u00e7\u00e3o em eventos &nbsp;e alguns passeios por Tirana, sempre acompanhados. Este enquadramento condicionou o que vimos e como vimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como tudo se passou h\u00e1 45 anos, h\u00e1 muitas coisas de que j\u00e1 n\u00e3o me lembro e outras de que guardo uma ideia difusa. Mas retenho o essencial do que observei e at\u00e9 uma recorda\u00e7\u00e3o viva de algumas dessas viv\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"539\" data-id=\"7627\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba1-1024x539.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7627\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba1-1024x539.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba1-300x158.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba1-768x404.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba1.jpg 1240w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Painel | Museu Hist\u00f3rico nacional da Alb\u00e2nia<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um pa\u00eds pequeno e isolado<\/h2>\n\n\n\n<p>Esta hierarquiza\u00e7\u00e3o das recorda\u00e7\u00f5es est\u00e1 muito ligada a quem eu era na altura e ao foco decorrente da minha aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ia \u00e0 espera de encontrar um para\u00edso. Sabia que encontraria um pa\u00eds pequeno, geogr\u00e1fica, pol\u00edtica e economicamente isolado, de recursos limitados e pouco desenvolvido. Nisto n\u00e3o me enganei. Ainda por cima, a nossa presen\u00e7a na Alb\u00e2nia coincidiu com a p\u00f3s-ruptura deste pa\u00eds com a China, de quem vinha dependendo. Mais uma ruptura, a juntar \u00e0s da Jugosl\u00e1via de Tito e da URSS p\u00f3s-Staline.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Expectativas<\/h2>\n\n\n\n<p>Ia vigilante, atento, com olhar cr\u00edtico reservado e com as manifesta\u00e7\u00f5es interiores conscientemente e prudentemente aprisionadas. J\u00e1 tinha maturidade suficiente, o que quer que que isto significasse, mas, ainda assim, esperava encontrar uma sociedade decente, com dirigentes muito ligados ao seu povo, empenhados e dedicados na edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa com a colabora\u00e7\u00e3o activa da popula\u00e7\u00e3o. Era esta idealiza\u00e7\u00e3o que me afastava da R\u00fassia e me aproximava da Alb\u00e2nia de Enver.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-3 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"594\" height=\"524\" data-id=\"7609\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba3-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7609\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba3-1.jpg 594w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba3-1-300x265.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 594px) 100vw, 594px\" \/><figcaption>Enver Hoxha<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"292\" height=\"193\" data-id=\"7608\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7608\"\/><figcaption>Enver Hoxha<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Chegada a Tirana<\/h2>\n\n\n\n<p>Cheg\u00e1mos a Tirana, vindos de Belgrado, num pequeno avi\u00e3o jugoslavo. Esta liga\u00e7\u00e3o era regular e realizava-se apenas em alguns dias da semana, se bem me recordo. N\u00e3o sei se foi s\u00f3 por isso que tivemos de permanecer dois ou tr\u00eas dias em Belgrado. A nossa entrada na Alb\u00e2nia foi gerida por representantes do governo alban\u00eas em Belgrado.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O aeroporto em que aterr\u00e1mos era fora de Tirana e bastante rudimentar, uma pista e uma pequena gare, sem qualquer movimento. Creio ter visto dois ou tr\u00eas avi\u00f5es militares, provavelmente, migs sovi\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os interlocutores locais<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c0 nossa espera estavam dois ou tr\u00eas dirigentes, n\u00e3o me recordo quais, e o Nico, que seria nosso guia e condutor durante toda a visita.<\/p>\n\n\n\n<p>Com toda a certeza, o Nico pertenceria ao departamento internacional da Segurimi, a pol\u00edcia pol\u00edtica albanesa. Era bastante mais velho do que n\u00f3s, entre 50 e 60 anos, com aspecto de anci\u00e3o, vivera na Am\u00e9rica do Sul, creio que na Argentina, e falava bem castelhano. Era um bom conviva e muito empenhado na sua miss\u00e3o. J\u00e1 estivera em Portugal em meados de&nbsp; 1977, acompanhando o ministro alban\u00eas Gafur Xuxi, aquando da realiza\u00e7\u00e3o de um congresso da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica portuguesa a que pertenc\u00edamos. O chefe do Nico era o Aquile, bastante mais novo, porte e vestu\u00e1rio elegantes e aspecto ocidental. Era distante, reservado, de olhar altivo, intervindo cirurgicamente para dar orienta\u00e7\u00f5es (esteve algumas vezes em Portugal, uma delas em 1980, participando numa confer\u00eancia partid\u00e1ria em que apresentei diverg\u00eancias com a maioria do Comit\u00e9 Central. N\u00e3o era o \u00fanico divergente e no final foi-me transmitida a mensagem de que, ter\u00e1 sido dito \u201cpelos albaneses\u201d que, se fosse na Alb\u00e2nia, eu e os outros j\u00e1 t\u00ednhamos sido expulsos. E outras coisas, pensei eu).<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-5 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"265\" height=\"166\" data-id=\"7613\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/no-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7613\"\/><figcaption>NICO (\u00e0 dir)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"228\" height=\"182\" data-id=\"7612\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AQUILE2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7612\"\/><figcaption>Aquil\u00e9 e Nico<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A vivenda de Tirana<\/h2>\n\n\n\n<p>Do aeroporto fomos levados para uma vivenda pr\u00f3ximo de Tirana, que passou a constituir a nossa base operacional, ali dorm\u00edamos e com\u00edamos, faz\u00edamos reuni\u00f5es, t\u00ednhamos sess\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar, a nossa miss\u00e3o assim o exigia, e ali regress\u00e1vamos nas poucas vezes que ao fim da tarde nos era proporcionada uma caminhada guiada e controlada dentro de Tirana.<\/p>\n\n\n\n<p>A vivenda tinha uma pequena equipa alocada, com uma governanta, tendo-nos sido destinados dois quartos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sala de refei\u00e7\u00f5es havia um aparelho de televis\u00e3o que estava ligado \u00e0 noite, ao jantar, onde passavam not\u00edcias que n\u00e3o entend\u00edamos e interven\u00e7\u00f5es do Enver Hodja, com que sucedia o mesmo. \u00c0 hora do telejornal, os censores abriam centralmente o sinal permitindo o acesso \u00e0s not\u00edcias da televis\u00e3o italiana, abertura que era interrompida sempre que passava qualquer informa\u00e7\u00e3o ou abordagens consideradas menos pr\u00f3prias. Foi-nos confidenciado que isso ocorria, especialmente, sempre que falava o Papa. Para al\u00e9m disto, haveria abertura para a visualiza\u00e7\u00e3o dos jogos do futebol europeu, o que nunca tivemos oportunidade de confirmar.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-7 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"656\" height=\"360\" data-id=\"7625\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba13.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7625\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba13.jpg 656w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba13-300x165.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 656px) 100vw, 656px\" \/><figcaption>Radio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" data-id=\"7626\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Fiat_125_Special_1971_18869446682-1-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7626\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Fiat_125_Special_1971_18869446682-1-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Fiat_125_Special_1971_18869446682-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Fiat_125_Special_1971_18869446682-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Fiat_125_Special_1971_18869446682-1-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Fiat_125_Special_1971_18869446682-1-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Fiat 125, os carros do partido e do Estado<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Visitas e Festival da Can\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Na nossa perman\u00eancia e desloca\u00e7\u00f5es a p\u00e9 em Tirana, fomos uma vez \u00e0 Casa da Juventude, local de conv\u00edvio situado no centro da cidade, onde fomos olhados com curiosidade e alguns sorrisos, pareceram-me ir\u00f3nicos, por parte de alguns dos jovens presentes (o Nico confidenciou-nos na altura que tinham alguns problemas com a juventude), de outra vez visit\u00e1mos a casa onde foi constitu\u00eddo o PTA, noutra fomos ver uma exposi\u00e7\u00e3o de pinturas de artistas que tinham sido enviados para o campo, noutra fomos a uma escola secund\u00e1ria assistir ao que, supostamente, seria uma reuni\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o da juventude local do PTA (uma aula de \u201ccatequese\u201d onde um sujeito mais velho, de ponteiro na m\u00e3o, despejava doutrina e ralhava aos mi\u00fados), noutras visit\u00e1mos algumas f\u00e1bricas, onde \u00e9ramos recebidos com um pequeno beberete, e numa noite assistimos num cineteatro ao Festival da Can\u00e7\u00e3o Albanesa, transmitido pela televis\u00e3o para toda a Alb\u00e2nia. Fiquei sentado ao lado de representantes chineses com quem n\u00e3o troquei qualquer olhar nem, muito menos, palavra.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Segurimi<\/h2>\n\n\n\n<p>Nas nossas caminhadas de fim do dia pelo centro de Tirana, esbarr\u00e1vamos com grandes desfiles espont\u00e2neos, envolvendo milhares de pessoas, passeando de bra\u00e7o dado, em filas transversais cont\u00ednuas, conversando animadamente. N\u00e3o sei de que conversavam mas todos sabiam que a Segurimi nunca os abandonava.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre que viaj\u00e1vamos para fora de Tirana, faz\u00edamo-lo divididos por 2 viaturas Fiat conduzidas por agentes da Segurimi.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As primeiras reac\u00e7\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p>Cada um olhou para o que observou \u00e0 sua maneira. O Jo\u00e3o era o mais cr\u00edtico nas nossas conversas, tecendo coment\u00e1rios negativos radicais, o Manuel o mais tolerante , encontrando justifica\u00e7\u00f5es ou desvalorizando o que nos chocasse. Eu encontrava-me a meio caminho mas controlava o que dizia, como dizia, onde dizia e quando dizia. O Z\u00e9 Carlos mantinha-se quase sempre em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse, estava ansioso por me aperceber da vida quotidiana na Alb\u00e2nia, a liga\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ao regime, das rela\u00e7\u00f5es da sociedade com os seus dirigentes e as suas institui\u00e7\u00f5es. As minhas recorda\u00e7\u00f5es mais vivas v\u00eam dos momentos e epis\u00f3dios que me proporcionaram alguma informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 sobre esses que tamb\u00e9m agora me irei focar.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Afastados da realidade<\/h2>\n\n\n\n<p>Nunca tivemos oportunidade de tomar contacto com a realidade tal como era vista e sentida pelos cidad\u00e3os. Nunca entr\u00e1mos em qualquer habita\u00e7\u00e3o, nada soubemos sobre os seus n\u00edveis de conforto ou sobre a qualidade de vida dos que as habitavam. Muito menos soubemos sobre a sua satisfa\u00e7\u00e3o ou sobre as suas expectativas. Nunca convers\u00e1mos com ningu\u00e9m fora do controle de algu\u00e9m do partido. A excep\u00e7\u00e3o foi a minha parceira no baile da passagem de ano, de que falarei mais abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cimento para os &#8220;cogumelos&#8221;<\/h2>\n\n\n\n<p>Embora tamb\u00e9m houvesse pequenas vivendas nos bairros hist\u00f3ricos, Tirana encontrava-se povoada por torres de apartamentos com o tijolo \u00e0 mostra. N\u00e3o se via nem cimento nem pinturas no exterior destas torres. Perante a nossa curiosidade, os nossos acompanhantes esclareceram-nos que se tratava de uma arquitectura de novo tipo, de estilo alban\u00eas. Na minha leitura silenciosa, tratava-se simplesmente de car\u00eancia de cimento, usado intensivamente na constru\u00e7\u00e3o dos \u201ccogumelos\u201d que povoavam os campos, em parceria com enormes espig\u00f5es de ferro apontados para os c\u00e9us, ambos estrategicamente justificados por raz\u00f5es de defesa, perante o perigo de invas\u00e3o a\u00e9rea estrangeira. Os cogumelos serviriam de abrigo defensivo, os espig\u00f5es ajudariam a neutralizar um eventual lan\u00e7amento de paraquedistas. Os dirigentes acreditavam que a invas\u00e3o viria pelos c\u00e9us. Em diversos locais, eram identific\u00e1veis portas na montanha que dariam acesso a abrigos escavados, eventualmente equipados com meios de defesa.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-9 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"610\" height=\"407\" data-id=\"7615\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba6.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-7615\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba6.webp 610w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba6-300x200.webp 300w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"610\" height=\"458\" data-id=\"7614\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba7.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-7614\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba7.webp 610w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba7-300x225.webp 300w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><figcaption>Bunkers<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">No Bloco, com Ramiz Alia<\/h2>\n\n\n\n<p>A generalidade dos habitantes vestia-se modestamente e os vestu\u00e1rios denunciavam uso intensivo. Havia muitas fardas. Alguns usavam gabardines de estilo Gestapo. Pelo menos, de Inverno. Os quadros do partido usavam fatos, progressivamente mais finos \u00e0 media que sub\u00edamos na hierarquia, culminando nos vistosos fatos de tecidos de alta qualidade de Enver Hodja, vindos de Paris ou de It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>A zona habitacional de Tirana reservada aos dirigentes de topo, era uma esp\u00e9cie de Quinta da Marinha, sem piscinas \u00e0 vista, com controle de acesso com cancela gerida por militares armados. Era conhecida popularmente por Bloco, como descobri muitos anos mais tarde. Ali entr\u00e1mos num dos dias, convidados para um almo\u00e7o em casa de Ramiz Alia, \u00e0 \u00e9poca ministro da Cultura, posteriormente Presidente da Alb\u00e2nia, sucedendo a Enver Hoxha.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-11 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"564\" height=\"510\" data-id=\"7617\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/ramiz.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7617\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/ramiz.jpeg 564w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/ramiz-300x271.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 564px) 100vw, 564px\" \/><figcaption>Alia e Hoxha<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"429\" height=\"272\" data-id=\"7616\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba-19bloco.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7616\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba-19bloco.jpg 429w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba-19bloco-300x190.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 429px) 100vw, 429px\" \/><figcaption>Bloco<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Privil\u00e9gios dos dirigentes<\/h2>\n\n\n\n<p>A zona era ocupada por vivendas com pequenos jardins \u00e0 volta. Admito que a de Ramiz Alia fosse das mais bem apetrechadas. Dispunha de uma pequena sala de cinema, onde assistimos, a seguir ao almo\u00e7o, em ante-estreia, \u00e0 exibi\u00e7\u00e3o de um filme alban\u00eas, apresentada pelo respectivo realizador, sobre um epis\u00f3dio da luta de guerrilhas na Alb\u00e2nia. A habita\u00e7\u00e3o dispunha de uma equipa de apoio, cozinha e limpezas, e ainda de jardineiro. Ramiz Alia tinha ao seu dispor uma viatura e um motorista e creio que todos os gastos associados \u00e0 sua utiliza\u00e7\u00e3o, bem como os da habita\u00e7\u00e3o, seriam assumidos pelo Estado, privil\u00e9gios que manteria enquanto permanecesse na c\u00fapula dirigente, teoricamente, para sempre, apesar do risco de cair em desgra\u00e7a ou de insurrei\u00e7\u00e3o por parte da popula\u00e7\u00e3o, como neste caso veio a acontecer, embora bastante mais tarde. Interroguei-me sobre a quanto equivaleriam em Portugal os custos associados a este n\u00edvel de vida.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ler Ismail Kadare<\/h2>\n\n\n\n<p>A propaganda albanesa dizia que os dirigentes ganhavam apenas 1,5 vezes o sal\u00e1rio de um oper\u00e1rio. Sem questionar esta converg\u00eancia salarial, que nunca pude confirmar, interroguei-me, logo na altura, para que \u00e9 que estes dirigentes precisavam de sal\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o Bloco e a vida da casta que governava a Alb\u00e2nia, a rela\u00e7\u00e3o entre eles e deles com os cidad\u00e3os em geral, vale a pena ler dois livros de Ismail Kadare a <em>Filha de Agam\u00e9mnon e o Sucessor, <\/em>este \u00faltimo em torno do assassinato de Mehemet Sehu, \u00e0 altura Primeiro-Ministro. \u00c9 extraordinariamente ilustrativo e Kadare sabe muito bem do que fala. Era deputado e expoente m\u00e1ximo da componente cultural dessa nomenclatura, a quem eram tolerados alguns \u201cdesalinhamentos\u201d e alguma liberdades, devido ao seu prest\u00edgio internacional.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-13 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"213\" height=\"334\" data-id=\"7618\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/kadare\u03011.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7618\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/kadare\u03011.jpg 213w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/kadare\u03011-191x300.jpg 191w\" sizes=\"(max-width: 213px) 100vw, 213px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"504\" height=\"544\" data-id=\"7619\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/kadar3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7619\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/kadar3.jpg 504w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/kadar3-278x300.jpg 278w\" sizes=\"(max-width: 504px) 100vw, 504px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A resigna\u00e7\u00e3o silenciosa dos &#8220;de baixo&#8221;<\/h2>\n\n\n\n<p>Sobre a rela\u00e7\u00e3o dos \u201cde baixo\u201d com os de cima, observei epis\u00f3dios de diferente tipo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas rela\u00e7\u00f5es dentro da estrutura, guardo a mem\u00f3ria da atitude beata da governanta da casa ao escutar uma palestra televisiva de Enver Hodja, bebendo com ar efusivo e extasiado cada palavra, juntando as m\u00e3os e lan\u00e7ando alguns esgares aqui e ali. Chocou-me mas depois deu-me pena, aderindo \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o radical do Jo\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Num outro epis\u00f3dio, em Elbasan, principal complexo industrial da Alb\u00e2nia, supostamente com milhares de oper\u00e1rios, de que n\u00e3o me apercebi na visita, quando o primeiro secret\u00e1rio do Comit\u00e9 do PTA deste complexo industrial, oper\u00e1rio, vestido de oper\u00e1rio e com ar disso, nos dava civilizadamente as boas vindas numa das f\u00e1bricas, o respons\u00e1vel regional que nos acompanhava cortou-lhe a palavra, porque j\u00e1 estar\u00edamos atrasados para o almo\u00e7o, deixando-o de boca aberta e cabe\u00e7a baixa, perante a humilha\u00e7\u00e3o. Chocou-me a atitude do dirigente e a resigna\u00e7\u00e3o silenciosa do oper\u00e1rio. Nas minhas expectativas, o dirigente regional nunca se atreveria a tal perante um dirigente oper\u00e1rio e este n\u00e3o deixaria passar a afronta, rebelando-se e dizendo o que tinha a dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste complexo industrial de Elbasan constatei que a maquinaria pela qual \u00edamos passando exibia a sua origem com etiquetas em chin\u00eas e que muita estava com ar abandonado, sem ningu\u00e9m a operar. Ter\u00e1 sido um dos pre\u00e7os pagos pela ruptura com a China. Muitos t\u00e9cnicos chineses abandonaram a Alb\u00e2nia nesse per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O livro das aprecia\u00e7\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p>Numa outra situa\u00e7\u00e3o, na visita a uma exposi\u00e7\u00e3o de pinturas de artistas enviados para o campo, quando o artista que nos servia de guia apontava para uma das pinturas, explicando que se tratava de uma pequena ilha grega, o Nico deu-lhe uma forte palmada na m\u00e3o e uma agressiva reprimenda em alban\u00eas, corrigindo-o que se tratava de territ\u00f3rio alban\u00eas. Pelo que deduzi, era uma daquelas situa\u00e7\u00f5es de disputa entre os dois pa\u00edses.&nbsp; Aqui tamb\u00e9m , o artista humilhado levou e calou. Nesta visita tivemos um encontro imprevisto. No final da visita fomos convidados a escrever a nossa aprecia\u00e7\u00e3o sobre a exposi\u00e7\u00e3o no respectivo livro. Terminada a tarefa, afast\u00e1mo-nos e eis que vemos o Nico correr em direc\u00e7\u00e3o ao livro, fech\u00e1-lo abruptamente e retir\u00e1-lo da frente de um dos visitantes presentes que, aparentemente, se prepararia para escrever a sua aprecia\u00e7\u00e3o. Tratar-se-ia de um membro da embaixada russa que pretenderia recolher informa\u00e7\u00e3o a nosso respeito.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Shkodra, futebol e resist\u00eancia passiva<\/h2>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m na visita a Shkodra, cidade do Norte junto a um lago com o mesmo nome que faz fronteira com Montenegro, ap\u00f3s o jantar no hotel onde dormimos, estando sentados no \u00e1trio da entrada, observ\u00e1mos que um dos motoristas que nos tinham levado de Tirana, sem se aperceber da nossa presen\u00e7a, apalpou grosseiramente uma das mulheres que nos tinha servido ao jantar, sem que esta esbo\u00e7asse qualquer protesto, limitando-se a escapar assustada rapidamente dali, perante o sorriso trocista do agressor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m foi em Shkodra que assisti aos primeiros momentos de desalinhamento, ainda que passivos, por parte da popula\u00e7\u00e3o. O dirigente desta regi\u00e3o que nos recebeu e nos foi acompanhando em diversos eventos e que exibia&nbsp; sempre uma pistola \u00e0 cintura, levou-nos a ver um jogo de futebol entre o clube local e o clube de Vlora, cidade portu\u00e1ria do sul do pa\u00eds. Como cheg\u00e1mos atrasados, as bancadas j\u00e1 estavam cheias, pelo que tivemos de ir for\u00e7ando a passagem para alcan\u00e7ar o camarote do dirigente no topo da bancada, o que se revelou dif\u00edcil, porque os espectadores faziam-se despercebidos e demoravam quanto podiam para corresponder. E \u00e0 sa\u00edda, a cena repetiu-se. Os espectadores sa\u00edram primeiro e foi o cabo dos trabalhos para que o carro em que segu\u00edamos conseguisse atravessar a multid\u00e3o. Apesar das buzinadelas e dos protestos enraivecidos do dirigente e do motorista, os cidad\u00e3os faziam-se de surdos, sem olhar, continuando a sua marcha como se nada se passasse. Refira-se que n\u00e3o vi mais nenhuma viatura a abandonar o recinto. N\u00e3o me apercebi da raz\u00e3o do dirigente andar ostensivamente armado, nem me atrevi a perguntar.<\/p>\n\n\n\n<p>O jogo da bola era de qualidade similar aos da segunda divis\u00e3o portuguesa, que conhecia bem do acompanhamento dos jogos do Uni\u00e3o de Tomar.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A cho\u00e7a de Enver<\/h2>\n\n\n\n<p>A visita a Schkodra foi bastante preenchida, proporcionando-nos uma visita, uma boa confraterniza\u00e7\u00e3o e uma boa almo\u00e7arada numa cooperativa agr\u00edcola e uma visita a uma antiga mesquita que tinha sido transformada em pavilh\u00e3o desportivo. Os albaneses tinham-se declarado constitucionalmente ateus, reprimindo todas as manifesta\u00e7\u00f5es e agentes religiosos e convertendo os templos em espa\u00e7os de utiliza\u00e7\u00e3o diversa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Assistimos ainda a uma sess\u00e3o de variedades nocturna, com cantores e uma pequena pe\u00e7a de teatro num cineteatro, caricaturando os dirigentes russos que rodeavam Estaline no momento da sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cantores foram apresentados dizendo o seu nome e o t\u00edtulo art\u00edstico. Pelo que percebi, havia t\u00edtulos hierarquizados para os artistas, j\u00e1 que voltei a observar id\u00eantica apresenta\u00e7\u00e3o no Festival da Can\u00e7\u00e3o da Alb\u00e2nia e em alguns programas de televis\u00e3o. O cantor que ganhou o Festival da Can\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de Festival de S. Remo mas muito mais rasca, ter\u00e1 interpretado um tema que, supostamente falaria de uma cho\u00e7a que foi habitada por Enver Hoxha durante a guerrilha. O referido int\u00e9rprete pertencia \u00e0 elite destas categorias art\u00edsticas. S\u00f3 podia.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-15 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"689\" data-id=\"7620\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba11-1024x689.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7620\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba11-1024x689.jpeg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba11-300x202.jpeg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba11-768x516.jpeg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba11.jpeg 1154w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Mausul\u00e9u &#8211; Enver Hoxha<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" data-id=\"7629\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/bunkers-hoje-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7629\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/bunkers-hoje-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/bunkers-hoje-300x225.jpeg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/bunkers-hoje-768x576.jpeg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/bunkers-hoje.jpeg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Bunkers hoje<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O baile do minist\u00e9rio<\/h2>\n\n\n\n<p>Foi no baile de passagem de ano que vivemos o momento mais tenso da nossa opera\u00e7\u00e3o especial. Na v\u00e9spera, fomos convidados para o jantar e o baile do Minist\u00e9rio da Defesa, o que lan\u00e7ou o alarme nas hostes, j\u00e1 que dois da comitiva, o Manuel e o Z\u00e9 Carlos, n\u00e3o sabiam dan\u00e7ar. A quest\u00e3o tornava-se ainda mais s\u00e9ria pelo facto do Manuel ser o chefe oficial da nossa comitiva e, por isso, dificilmente escaparia \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o do p\u00e9 de dan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Dado o alarme, organiz\u00e1mos um treino de dan\u00e7a num dos quartos. Lig\u00e1mos o r\u00e1dio para uma esta\u00e7\u00e3o jugoslava que passava m\u00fasica e Jo\u00e3o e eu fizemos de professores e pares de dan\u00e7a dos outros dois. A sess\u00e3o durou toda a noite mas os resultados foram desastrosos. Mas l\u00e1 fomos para o embate.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o t\u00ednhamos levado nem roupa nem fatos adequados ao momento e lembro-me de ter rapado frio. N\u00e3o podia ir de canadiana para o baile.<\/p>\n\n\n\n<p>Fomos convidados para a mesa do ministro, partilhando o espa\u00e7o com as suas duas filhas  e respectivos maridos e com o Nico, claro, sen\u00e3o n\u00e3o haveria qualquer di\u00e1logo. N\u00e3o me recordo do que comemos e bebemos, embora devamos ter bebido vinho tinto, como era habitual.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os quartos vigiados<\/h2>\n\n\n\n<p>A um dado momento, as duas filhas do ministro levantaram-se e convidaram-nos,  ao Jo\u00e3o e a mim, para dan\u00e7ar. Estranh\u00e1mos o facto do Manel ter sido preterido, j\u00e1 que os albaneses se revelaram muito intransigentes nesta coisa das hierarquias. A viatura do Manuel era sempre a primeira, o Manuel tinha direito a pantufas no quarto, era sempre o primeiro em tudo. S\u00f3 havia uma explica\u00e7\u00e3o: sabiam que o Manuel n\u00e3o sabia dan\u00e7ar. T\u00ednhamos os quartos vigiados, o que j\u00e1 antev\u00edamos.<\/p>\n\n\n\n<p>As minhas dan\u00e7as com uma das filhas, de que n\u00e3o me lembro o nome, correu muito bem. Deveria ter a minha idade, era bastante descontra\u00edda, conversadora, dan\u00e7ava bem e tinha vivido durante algum tempo em Paris, onde se tinha licenciado em medicina dent\u00e1ria, pelo que convers\u00e1mos em franc\u00eas. Exercia medicina no Hospital de Tirana. Mantive, sempre prudentemente, conversas de circunst\u00e2ncia. Mas tive pena de n\u00e3o ter sido mais ousado. Creio que teria havido abertura para outros temas mais interessantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A irm\u00e3 tinha um perfil similar, pelo que relatou o Jo\u00e3o.&nbsp; Tamb\u00e9m estudara em Paris, luxo reservado aos filhos da nomenclatura. Sobre a vida social da nomenclatura, das rela\u00e7\u00f5es desta com os seus filhos e deste conjunto com a sociedade, vale a pena ler o livro atr\u00e1s referido de Ismail Kadar\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Grupos rivais na lideran\u00e7a do PTA<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas o ponto historicamente mais relevante da nossa visita acabou por acontecer na parte final do evento. Terminadas as dan\u00e7as, envolvendo sempre os mesmos pares, e regressados \u00e0 mesa, estabeleceu-se uma amena conversa, animada pelo ministro, sobre a crise recente no PTA, em 1976, com diverg\u00eancias e expuls\u00f5es, intimamente associadas \u00e0s diverg\u00eancias com os chineses.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a narrativa, o Ministro alban\u00eas da Defesa, de regresso de uma visita \u00e0 China, tinha \u00e0 sua espera no aeroporto um grande aparato militar que comandou de seguida triunfalmente numa manifesta\u00e7\u00e3o de for\u00e7a pelas ruas de Tirana. O Ministro da Defesa estaria em diverg\u00eancia com as posi\u00e7\u00f5es oficiais e pr\u00f3ximo das posi\u00e7\u00f5es chinesas. O grupo que apoiava Enver interpretou esta manifesta\u00e7\u00e3o de for\u00e7a como uma manobra intoler\u00e1vel de intimida\u00e7\u00e3o e lan\u00e7ou uma campanha visando isolar os cabecilhas dissidentes, a&nbsp; partir das bases partid\u00e1rias, identificando, isolando e neutralizando cada um dos seus apoiantes. No final, ca\u00edram sobre os cabecilhas com o apoio massivo do Partido, entretanto depurado. Terminada a narrativa ministerial, o Jo\u00e3o resolveu fazer um aditamento com um \u201c<em>E depois\u2026\u201d, fazendo um gesto de corte de pesco\u00e7o com a m\u00e3o aberta.<\/em> Instalou-se um sil\u00eancio sepulcral, enterrei-me pela cadeira abaixo e pensei \u201cisto vai dar bronca\u201d. Troc\u00e1mos olhares e vimos que est\u00e1vamos todos na mesma onda, excepto o Jo\u00e3o que continuou com um ar natural.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o houve mais conversa e o jantar e festa acabaram quase de seguida. Seguimos em sil\u00eancio nas viaturas para a vivenda e nenhum de n\u00f3s falou sobre o tema quando cheg\u00e1mos aos quartos. S\u00f3 volt\u00e1mos ao assunto quando estivemos s\u00f3s e depois j\u00e1 mais \u00e0 vontade, no regresso a Portugal. Que aconteceu um ou dois dias depois. A rela\u00e7\u00e3o do Nico connosco nunca mais voltou ao que era.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Comida e bebida \u00e0 parte<\/h2>\n\n\n\n<p>Numa das nossas visitas fomos a Durres, uma cidade no Adri\u00e1tico perto de Tirana. Passe\u00e1mos pela praia mas era Inverno e n\u00e3o dava para tomar banho. Foi-nos dito que fora uma est\u00e2ncia de f\u00e9rias da nomenclatura sovi\u00e9tica, antes da ruptura. Em Durres visit\u00e1mos um coliseu romano arruinado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os vinhos albaneses n\u00e3o eram maus. Bebiam-se. Lembro-me de ter bebido um tinto de casta Cabernet Sauvignon. Nas recep\u00e7\u00f5es e no in\u00edcio e final das refei\u00e7\u00f5es era usual beber raki, cognac\/aguardente local, e fazer sauda\u00e7\u00f5es<em>, guezuar<\/em> (n\u00e3o sei se \u00e9 assim que se escreve mas \u00e9 assim que se diz, lembro-me que <em>faleminderit<\/em> significava obrigado). O pequeno almo\u00e7o inclu\u00eda sempre uma malga de iogurte caseiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Num dos dias almo\u00e7\u00e1mos em casa dum casal de brasileiros que trabalhava na R\u00e1dio Tirana. Comemos uma boa feijoada \u00e0 brasileira e convivemos bem, como sempre acontece entre irm\u00e3os. N\u00e3o me pareceram muito felizes por estarem na Alb\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-17 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"388\" data-id=\"7628\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba16hoxha-1-1024x388.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7628\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba16hoxha-1-1024x388.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba16hoxha-1-300x114.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba16hoxha-1-768x291.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba16hoxha-1-1536x582.jpg 1536w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/alba16hoxha-1.jpg 1575w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Texto Francisco Melro | Editado CR\/Sem Fronteiras<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MUNDO | DOSSI\u00ca Alb\u00e2nia Hoje (6) \u2013 25 de julho 2022 | DEBATE | Opini\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7637,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[377,238],"tags":[370],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1.jpg",1062,494,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1-300x140.jpg",300,140,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1-768x357.jpg",640,298,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1-1024x476.jpg",640,298,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1.jpg",1062,494,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1.jpg",1062,494,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1.jpg",1062,494,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1-800x494.jpg",800,494,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1-1024x476.jpg",1024,476,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/AL1-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/albania-2022\/\" rel=\"category tag\">ALB\u00c2NIA 2022<\/a> <a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a>","tag_info":"DESTAQUE","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7636"}],"collection":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7636"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7636\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7638,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7636\/revisions\/7638"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7637"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7636"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7636"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}