{"id":8758,"date":"2022-12-21T19:01:47","date_gmt":"2022-12-21T19:01:47","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=8758"},"modified":"2025-01-09T19:40:05","modified_gmt":"2025-01-09T19:40:05","slug":"tribuna-o-que-e-o-fascismo-i-definicoes-e-abordagens","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/12\/21\/tribuna-o-que-e-o-fascismo-i-definicoes-e-abordagens\/","title":{"rendered":"TRIBUNA | O que \u00e9 o fascismo (i) Defini\u00e7\u00f5es e abordagens"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-post-date\"><time datetime=\"2022-12-21T19:01:47+00:00\">21 de Dezembro, 2022<\/time><\/div>\n\n\n<p class=\"has-black-background-color has-background\"><mark>TRIBUNA SF | Quando falamos de fascismo, do que \u00e9 estamos a falar?<\/mark><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<figure class=\"wp-block-post-featured-image\"><img width=\"1161\" height=\"696\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo.jpg\" class=\"attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image\" alt=\"repensar fascismo\" decoding=\"async\" style=\"object-fit:cover;\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo.jpg 1161w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-300x180.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-768x460.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1161px) 100vw, 1161px\" loading=\"lazy\" \/><\/figure>\n\n\n<div style=\"height:17px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">por Carlos Martins (*)<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CMr-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8759\" width=\"211\" height=\"217\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CMr-1.jpg 371w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CMr-1-291x300.jpg 291w\" sizes=\"(max-width: 211px) 100vw, 211px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Entre as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX e os anos 2010, a investiga\u00e7\u00e3o internacional pareceu ter chegado a um consenso relativamente alargado sobre quem eram os fascistas. Ainda que algumas historiografias nacionais pudessem ser uma exce\u00e7\u00e3o (por exemplo, alguns autores italianos, como Enzo Colloti, e da Am\u00e9rica do Sul), e que a carateriza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de algumas organiza\u00e7\u00f5es pudesse ser ainda alvo de discuss\u00e3o (a Heimwehr austr\u00edaca era ou n\u00e3o fascista?), uma parte consider\u00e1vel dos historiadores anglo-sax\u00f3nicos, e n\u00e3o s\u00f3, partilhava algumas no\u00e7\u00f5es sobre o \u201cfascismo gen\u00e9rico\u201d&nbsp; (fen\u00f3meno alargado a que se convencionou chamar assim devido ao car\u00e1ter pioneiro do caso italiano), e sobre que variantes nacionais exibiam as carater\u00edsticas centrais que lhes permitiam ser inseridas no fen\u00f3meno \u201cgen\u00e9rico\u201d. As defini\u00e7\u00f5es e abordagens, claro, poderiam variar de autor para autor. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assim, por exemplo, para Roger Griffin, autor que foi bastante influenciado por George Mosse, o fascismo \u00e9 um \u201cultranancionalismo palingen\u00e9tico\u201d, isto \u00e9, uma variante radical de nacionalismo que procura o renascimento da comunidade nacional (esta \u00e9, talvez, a defini\u00e7\u00e3o em torno da qual existe um consenso mais alargado). <\/strong>(**)<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Stanley Payne utiliza antes uma descri\u00e7\u00e3o tipol\u00f3gica baseada nas componentes ideol\u00f3gicas, nas nega\u00e7\u00f5es do fascismo e nas quest\u00f5es de estilo e organiza\u00e7\u00e3o (este autor coloca grande \u00eanfase no \u201cvitalismo\u201d fascista). Roger Eatwell, por sua vez, chama a aten\u00e7\u00e3o para o objetivo fascista de criar uma comunidade hol\u00edstica (isto \u00e9, homog\u00e9nea), bem como um \u201chomem novo\u201d e uma \u201cnova elite\u201d. Michael Mann apresentou tamb\u00e9m a sua defini\u00e7\u00e3o, baseada nos conceitos de nacionalismo, estatismo, transcend\u00eancia, \u201cpurifica\u00e7\u00e3o\u201d (da comunidade nacional), e o recurso a organiza\u00e7\u00f5es paramilitares. Mesmo Robert Paxton, que se foca menos na ideologia e mais nas pr\u00e1ticas, tamb\u00e9m escreveu uma hist\u00f3ria do fascismo que permite delimitar a sua classifica\u00e7\u00e3o. No geral, associada a estas abordagens est\u00e1 a ideia de que \u00e9 poss\u00edvel distinguir os fascistas daqueles que defendiam projetos autorit\u00e1rios de natureza diversa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente, contudo, as abordagens transnacionais, influenciadas por trabalhos pioneiros como o de Federico Finchelstein, e resumidas numa obra editada por Arnd Bauerk\u00e4mper e Grzegorz Rossoli\u0144ski-Liebe, poder\u00e3o ter tornado todas estas quest\u00f5es um pouco irrelevantes. <\/p>\n\n\n\n<p>As abordagens transnacionais, menos preocupadas com classifica\u00e7\u00f5es, prestam, assim, mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 transfer\u00eancia de ideias e pr\u00e1ticas al\u00e9m das fronteiras nacionais, \u00e0s perce\u00e7\u00f5es que os contempor\u00e2neos tinham relativamente a conceitos contestados, como o do pr\u00f3prio \u201cfascismo\u201d, \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o dos modelos fascistas em diferentes contextos nacionais, \u00e0s hibridiza\u00e7\u00f5es que resultaram do cruzamento de influ\u00eancias fascistas com influ\u00eancias vindas de outros lugares, etc. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>No limite, ao prestar mais aten\u00e7\u00e3o aos aspetos din\u00e2micos da ideol\u00f3gica, ser\u00e1 poss\u00edvel concordar com Michel Dobry, que rejeita que seja poss\u00edvel encontrar uma defini\u00e7\u00e3o \u201cest\u00e1tica\u201d de fascismo, claramente destrin\u00e7ada de outras ideologias autorit\u00e1rias da sua \u00e9poca. <\/strong>(**)<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, em autores como Chris Millington (influenciado por Dobry na sua hist\u00f3ria do fascismo franc\u00eas), \u00c1ngel Alcalde F\u00e9rn\u00e1ndez (que escreveu sobre o papel dos ex-combatentes), ou entre alguns dos que escreveram na recente antologia <em>Rethinking Fascism<\/em> (editada, entre outros, por Michele Andrea), as diferen\u00e7as entre os fascistas e aqueles que s\u00e3o tradicionalmente vistos como n\u00e3o-fascistas como que se esbatem. Um outro estudo de interesse, da autoria de Salvatore Garau, ao substituir a no\u00e7\u00e3o de \u201cm\u00ednimo fascista\u201d pela de \u201cm\u00e1ximo fascista\u201d pode tamb\u00e9m contribuir para tornar mais difuso o nosso entendimento do que \u00e9 ou n\u00e3o fascismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-luminous-vivid-amber-background-color has-background\">O meu contributo acad\u00e9mico entra precisamente neste ponto. Na minha tese de doutoramento, publicada com o t\u00edtulo <em>From Hitler to Codreanu: The Ideology of Fascist Leaders, <\/em>no seguimento do que foi escrito por autores como Griffin e Payne, reitero a necessidade de utilizar uma defini\u00e7\u00e3o de fascismo que nos permita saber que carater\u00edsticas espec\u00edficas este fen\u00f3meno incorporou, mas que ao mesmo tempo seja suficientemente flex\u00edvel para abarcar o dinamismo ideol\u00f3gico e analisar as influ\u00eancias fascistas sobre projetos autorit\u00e1rios alternativos, que adotaram parcialmente algumas das suas componentes. (**)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No fim de contas, se n\u00e3o soubermos ao certo aquilo com que estamos a lidar quando falamos de fascismo, n\u00e3o compreenderemos os perigos concretos que este fen\u00f3meno representa e nunca seremos capazes de lhe fazer frente. <\/strong>(**)<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, se n\u00e3o reconhecermos o dinamismo ideol\u00f3gico, que levou a que advers\u00e1rios ou aliados do fascismo se deixassem por ele influenciar, ficaremos com uma perce\u00e7\u00e3o limitada de como os fen\u00f3menos pol\u00edticos funcionam e dos perigos adicionais que o fascismo pode representar ao inspirar projetos pol\u00edticos alternativos que, mesmo sem apresentar todas as suas carater\u00edsticas, v\u00eam nele uma potencial fonte de ideias para destruir a democracia. A abordagem mais indicada para perscrutar o conte\u00fado ideol\u00f3gico do fascismo, capaz de abarcar tanto o dinamismo como o lado mais est\u00e1tico, \u00e9, como defendo na minha tese, a abordagem conceptual morfol\u00f3gica, apresentada num estudo pioneiro de Michel Freeden. Esta abordagem procura focar-se nos conceitos pol\u00edticos que, num dado padr\u00e3o ideol\u00f3gico, se interligam entre si para criar um significado \u00fanico, exibindo cada um destes conceitos diferentes graus de relev\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da ideologia fascista, os principais conceitos que fazem parte da sua ideologia s\u00e3o os seguintes (os conceitos centrais s\u00e3o assinalados a negrito, ao passo que os conceitos que lhes s\u00e3o adjacentes e os ajudam a adquirir um significado s\u00e3o assinalados entre aspas): <\/p>\n\n\n\n<ul><li>o <strong>nacionalismo<\/strong>, visto que os fascistas idolatravam a na\u00e7\u00e3o, que viam como portadora &nbsp;de uma \u201cmiss\u00e3o hist\u00f3rica\u201d (que por vezes se traduzia no \u201cimperialismo\u201d) e que algumas variantes concebiam em termos \u201cracistas\u201d; <\/li><li>o objetivo do refor\u00e7o do poder do <strong>estado<\/strong>, que em diferentes graus est\u00e1 presente em todas as variantes amadurecidas da ideologia, mesmo que pare\u00e7a irrelevante em algumas manifesta\u00e7\u00f5es iniciais de fascismo, e que tem por fun\u00e7\u00e3o trazer a \u201cordem\u201d e a \u201charmonia\u201d \u00e0 comunidade nacional; <\/li><li>a ideia de criar uma <strong>s\u00edntese<\/strong>, isto \u00e9, uma \u201cunidade\u201d nacional em que os opostos sejam conciliados, o que remeteria tanto para a \u201cconcilia\u00e7\u00e3o de classes\u201d como para a \u201cconcilia\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduo e coletivo\u201d (em muitas variantes, mas n\u00e3o todas, o \u201ccorporativismo\u201d \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o apresentada para se atingir esta unidade); <\/li><li>a pretensa <strong>revolu\u00e7\u00e3o<\/strong>, que ultrapassaria a decad\u00eancia do presente e que se pautaria pela cria\u00e7\u00e3o radical de uma \u201cnova era\u201d hist\u00f3rica e de um \u201chomem novo\u201d, que recuperasse os valores viris e marcais e o \u201cvitalismo\u201d aparentemente perdido; <\/li><li>o culto da <strong>autoridade<\/strong> &nbsp;do novo \u201cl\u00edder\u201d e das novas \u201celites\u201d, que se deveriam destacar pelos seus feitos \u201cher\u00f3icos\u201d e que assim conquistariam o direito de liderar a comunidade nacional; <\/li><li>a avalia\u00e7\u00e3o positiva da <strong>viol\u00eancia<\/strong>, uma vez que os fascistas, influenciados pelo \u201cDarwinismo social\u201d viam o mundo como um lugar de \u201ccombate\u201d, em que aos mais fortes competia conquistar o seu lugar ao sol. (**)<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m disto, importa referir que, na ideologia fascista, a \u201cliberdade\u201d surge como um conceito marginal ou que, quando efetivamente referido, aparece com uma conce\u00e7\u00e3o radicalmente diferente da do liberalismo (para os fascistas, \u201cliberdade\u201d seria a a\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo que se encontra integrado na comunidade nacional). <\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, refiram-se tr\u00eas contradi\u00e7\u00f5es que parecem ser centrais na ideologia fascista: <\/p>\n\n\n\n<ul><li>a contradi\u00e7\u00e3o entre o \u201cindiv\u00edduo\u201d, que pela sua a\u00e7\u00e3o individual e \u201cher\u00f3ica\u201d se destaca dos demais, e o \u201ccoletivo\u201d (contradi\u00e7\u00e3o que \u00e9 resolvida quando os fascistas substitu\u00edam o conceito de \u201cindiv\u00edduo\u201d pelo de \u201cpersonalidade\u201d, que representa o \u201chomem\u201d que age individualmente, mas no contexto da comunidade nacional coletiva); <\/li><li>a contradi\u00e7\u00e3o entre a pretensa \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d e a \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d, uma vez que os apelos \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o radical da sociedade, paradoxalmente, v\u00eam sempre acompanhados de apelos ao respeito pela ordem e por algumas tradi\u00e7\u00f5es; <\/li><li>a contradi\u00e7\u00e3o entre \u201celitismo\u201d e \u201cpopulismo\u201d, que nunca \u00e9 resolvida, uma vez que, no fascismo, o desprezo elitista pelo povo convive com uma certa admira\u00e7\u00e3o pelas potencialidades desse mesmo povo, do qual o l\u00edder precisa para encontrar a sua legitimidade carism\u00e1tica e que as novas elites deveriam moldar e comandar. (**)<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Com esta defini\u00e7\u00e3o, o fascismo surge como algo de mais concreto, que se distingue de outras ideologias, por exemplo, pela extens\u00e3o do radicalismo pretensamente \u201crevolucion\u00e1rio\u201d da renova\u00e7\u00e3o da comunidade nacional e pelo objetivo de substituir as elites tradicionais por \u201cnovas\u201d elites \u201cher\u00f3icas\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, com o recurso \u00e0 abordagem conceptual, conseguiremos compreender tamb\u00e9m o dinamismo, as transforma\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas de diversas variantes, bem como a forma como outros projetos pol\u00edticos autorit\u00e1rios foram influenciados pelo fascismo, adotando alguns dos seus conceitos ou reformulando-os e criando padr\u00f5es ideol\u00f3gicos h\u00edbridos. \u00c9 inclusivamente o caso de conceitos como o de \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d e de \u201cnovas elites\u201d, utilizado por muitos conservadores antidemocr\u00e1ticos que se inspiraram no fascismo sem, no entanto, terem um projeto verdadeiramente radical de substitui\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e classes tradicionais. Deve igualmente referir-se que, para complementar esta defini\u00e7\u00e3o baseada no conte\u00fado ideol\u00f3gico, \u00e9 importante ter uma no\u00e7\u00e3o de quais eram as pr\u00e1ticas fascistas (para ler mais sobre a praxeologia fascista e a forma como a a\u00e7\u00e3o fascista foi condicionada pelo contexto hist\u00f3rico em que teve lugar, veja-se Sven Reichardt, que tem uma interpreta\u00e7\u00e3o que \u00e9, em alguns aspetos, contr\u00e1ria \u00e0 que aqui defendemos, mas que \u00e9 relevante conhecer e que, num estudo sobre o dinamismo ideol\u00f3gico, pode complementar a abordagem conceptual). <\/p>\n\n\n\n<p>Assim, os diversos movimentos e partidos fascistas caraterizaram-se pelo: <\/p>\n\n\n\n<ul><li>culto da chefia carism\u00e1tica; <\/li><li>pela cria\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es para a juventude (faixa et\u00e1ria que viam como propensa para a cria\u00e7\u00e3o do \u201cnovo\u201d); <\/li><li>pelos apelos \u00e0 a\u00e7\u00e3o direta e aos m\u00e9todos violentos na luta contra os advers\u00e1rios pol\u00edticos, que inclu\u00edam a cria\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es paramilitares; <\/li><li>pela ado\u00e7\u00e3o de todo um conjunto de rituais, s\u00edmbolos e liturgias (como o do culto dos mortos, etc); <\/li><li>pela tentativa de mobiliza\u00e7\u00e3o constante das massas, etc (algumas destas pr\u00e1ticas foram parcialmente adotadas por projetos autorit\u00e1rios alternativos). (**)<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>J\u00e1 nos m\u00e9todos para alcan\u00e7ar o poder pol\u00edtico, os fascistas recorriam tanto aos legais como aos extralegais, e combinavam um discurso populista e anti sist\u00e9mico com a tentativa de criar alian\u00e7as com as elites conservadoras, sem as quais n\u00e3o conseguiram alcan\u00e7ar o poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Para rematar, refiro que, na minha investiga\u00e7\u00e3o sobre o fascismo, encontram-se tr\u00eas ideias centrais que referirei de seguida, e para as quais a abordagem conceptual pode ser \u00fatil:<\/p>\n\n\n\n<p>1 &#8211; \u00e9 poss\u00edvel utilizar uma defini\u00e7\u00e3o precisa de fascismo, que nos permite destrin\u00e7ar quem \u00e9 fascista de quem n\u00e3o \u00e9, sem deixar de levar em conta o dinamismo e aquilo a que o historiador David D. Roberts chamou as \u201cintera\u00e7\u00f5es fascistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>2 \u2013 como defende Constantin Iordachi, \u00e9 fundamental que variantes de fascismo aparentemente irrelevantes (e que nunca se aproximaram do poder) sejam t\u00e3o estudadas quanto as variantes mais conhecidas, inclusivamente as que surgiram fora do continente europeu (algo referido por Federico Finchelstein). De Eric Campbell da Austr\u00e1lia a George Mercouris da Gr\u00e9cia, passando por Jorge Von Mar\u00e9es do Chile, todas estas variantes nos permitem saber mais sobre as carater\u00edsticas ideol\u00f3gicas que o fascismo poderia assumir e sobre as raz\u00f5es que explicam o seu sucesso ou fracasso.<\/p>\n\n\n\n<p>3 \u2013 em rela\u00e7\u00e3o com o ponto 1, organiza\u00e7\u00f5es (como a Croix de Feu do Coronel de La Rocque) e regimes (como os de Salazar em Portugal, do rei Carlos II da Rom\u00e9nia, etc) que n\u00e3o s\u00e3o tradicionalmente vistos como fascistas na historiografia internacional devem tamb\u00e9m ser colocados no centro da investiga\u00e7\u00e3o, uma vez que, ao integrar elementos de inspira\u00e7\u00e3o fascista, eles passaram por aquilo a que Ismael Saz chamou de \u201cfasciza\u00e7\u00e3o\u201d e, nunca se tornando totalmente fascistas, deram origem a resultados h\u00edbridos que fazem, \u00e0 sua maneira, parte da hist\u00f3ria do fascismo e que importa conhecer (o conceito de \u201chibridiza\u00e7\u00e3o\u201d tem sido &nbsp;explorado por Aristotle Kallis e Ant\u00f3nio Costa Pinto).<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>(*) Carlos Martins,  autor do livro <strong>Fascismos: Para Al\u00e9m de Hitler e Mussolini<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>(**) destaque de edi\u00e7\u00e3o SF<\/p>\n\n\n\n<p>Imagem de destaque <em>Image from Unite the Right rally in Charlottesville, August 2017, courtesy of Anthony Crider\/Flickr.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TRIBUNA SF | Quando falamos de fascismo, do que \u00e9 estamos a falar? por Carlos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8760,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,174,121],"tags":[400],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo.jpg",1161,696,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-300x180.jpg",300,180,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-768x460.jpg",640,383,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-1024x614.jpg",640,384,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo.jpg",1161,696,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo.jpg",1161,696,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-1115x696.jpg",1115,696,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-1024x614.jpg",1024,614,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/repensar-fascismo-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/especial-sf\/dossies\/\" rel=\"category tag\">DOSSI\u00caS<\/a> <a href=\"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/causas\/tribuna\/\" rel=\"category tag\">TRIBUNA<\/a>","tag_info":"TRIBUNA","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8758"}],"collection":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8758"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8758\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8763,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8758\/revisions\/8763"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8760"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}