{"id":10830,"date":"2024-02-14T22:47:36","date_gmt":"2024-02-14T22:47:36","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=10830"},"modified":"2024-02-14T22:47:39","modified_gmt":"2024-02-14T22:47:39","slug":"a-extrema-direita-faz-parte-do-sistema-nao-se-assustem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2024\/02\/14\/a-extrema-direita-faz-parte-do-sistema-nao-se-assustem\/","title":{"rendered":"A extrema-direita faz parte do sistema \u2014 n\u00e3o se assustem!"},"content":{"rendered":"\n<p>OPINI\u00c3O &#8211; Artigo de Carlos Matos Gomes<a href=\"https:\/\/cmatosgomes46.medium.com\/?source=post_page-----5b389fb4208e--------------------------------\"><\/a><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-post-date\"><time datetime=\"2024-02-14T22:47:36+00:00\">14 de Fevereiro, 2024<\/time><\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O autor tem vindo a aprofundar a sua abordagem ao tema da extrema-direita e associa-lhe agora outro bem relevante, o da democracia &#8220;Temos de pensar o que queremos significar com a palavra democracia antes de falar de perigos para a democracia. J\u00e1 agora, o BCE \u00e9 uma entidade defensora da democracia? E os cidad\u00e3os foram europeus foram chamados a pronunciar-se sobre o colossal aumento de despesas com armamentos que est\u00e1 a ser posto em pr\u00e1tico tendo a Alemanha como ponta de lan\u00e7a?&#8221;\u00a0Interroga\u00e7\u00f5es que t\u00eam desenvolvimento neste artigo inicialmente publicado no Medium.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/cmatosgomes46.medium.com\/?source=post_page-----5b389fb4208e--------------------------------\">Carlos Matos Gomes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p id=\"bcab\">As campanhas eleitorais que se est\u00e3o a desenvolver em v\u00e1rios pa\u00edses europeus t\u00eam um tema central que as m\u00e1quinas de propaganda se encarregam de dramatizar at\u00e9 ao limite, a bem das audi\u00eancias e do entorpecimento dos cidad\u00e3os em geral: a extrema-direita entra nas contas para os governos ditos democr\u00e1ticos e \u00e9 um perigo para a democracia ou n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"6005\">A quest\u00e3o lembra-me as sess\u00f5es de luta-livre americana, em que h\u00e1 sempre um vil\u00e3o e os resultados est\u00e3o decididos \u00e0 partida. Todos, os lutadores, o \u00e1rbitro e os empres\u00e1rios, os locutores e comentadores, os treinadores fazem parte do espet\u00e1culo. Os jogos que as televis\u00f5es portuguesas t\u00eam apresentado em direto s\u00e3o programas de entretenimento e adormecimento: fazem de conta que existe um mau da fita e que este coloca em perigo a liberdade de decis\u00e3o dos cidad\u00e3os e a sua interven\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es tomadas em seu nome. <\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:23px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"444\" height=\"327\" data-id=\"10831\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10831\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg 444w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre-300x221.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 444px) 100vw, 444px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">J\u00e1 em meados do s\u00e9culo passado a luta livre-americana conquistava p\u00fablicos no pa\u00eds<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"6005\">O mau da fita representa o seu papel de arruaceiro e o p\u00fablico assobia, ou aplaude.<\/h2>\n\n\n\n<p id=\"c334\">O jornal El Pa\u00eds publicou a 10 de fevereiro um texto de Andr\u00e9a Rizzi, editor de assuntos globais sobre as \u201cdemocracias cativas das minorias\u201d. O artigo tem interesse por ser um exemplo da pasta de hamb\u00farguer que \u00e9 hoje em dia o recheio do pensamento dominante dos dirigentes europeus e dos fazedores de opini\u00e3o europeia sobre o conceito de \u201cdemocracia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"bae4\">O autor tem um bem guarnecido curr\u00edculo europeu. Editor-chefe da sec\u00e7\u00e3o Internacional e vice-diretor da sec\u00e7\u00e3o de Opini\u00e3o do El Pa\u00eds, licenciado em Direito (La Sapienza, Roma), mestre em Jornalismo e em Direito da UE. Est\u00e1, pois, habilitad\u00edssimo a promover a fal\u00e1cia sobre a democracia que trouxe a Europa at\u00e9 ao impasse em que vive e da qual n\u00e3o sair\u00e1 porque est\u00e1 em morte cerebral. Tal como os pol\u00edticos europeus, o jornalista tem um pensamento redondo e liso sobre o regime que os poderes dominantes impuseram como sendo o padr\u00e3o de democracia e que conduz \u00e0 frase resumo dos populistas: eles s\u00e3o todos iguais. De facto, se n\u00e3o s\u00e3o, s\u00e3o ramos do mesmo tronco.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"4177\">Andr\u00e9a Rizzi escreve sobre os inimigos que amea\u00e7am a democracia \u201ca incapacidade de construir pol\u00edticas de Estado sobre quest\u00f5es b\u00e1sicas permite que grupos minorit\u00e1rios em posi\u00e7\u00f5es influentes obtenham enormes retornos e que os regimes autorit\u00e1rios observam com alegria esta fraqueza das democracias polarizadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d50c\">N\u00e3o sei o que seja uma democracia polarizada, mas sei que se os atuais dirigentes europeus s\u00e3o incapazes de construir pol\u00edticas, isto \u00e9, dar respostas a problemas da vida em sociedade sobre quest\u00f5es b\u00e1sicas, \u00e9 natural que surjam alternativas. A quest\u00e3o \u00e9, pois, de aptid\u00e3o e compet\u00eancia para definir pol\u00edticas e realiz\u00e1-las. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"d50c\">Os inimigos da democracia s\u00e3o os que corrompem por dentro o seu princ\u00edpio matricial, a participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os.<\/h2>\n\n\n\n<p id=\"5d7b\">O autor, como est\u00e1 na moda, reduz o essencial do conceito de democracia ao voto em representantes. \u00c9 uma redu\u00e7\u00e3o deliberada e falaciosa. \u00c9 a corrup\u00e7\u00e3o do conceito de democracia que os grupos dominantes promovem atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o social, porque lhes permite validar o seu dom\u00ednio com a \u201cvontade popular\u201d. \u00c9 pura manipula\u00e7\u00e3o, que tem fundamentos te\u00f3ricos \u2014 leia-se&nbsp;<em>Capitalismo, Socialismo, Democracia<\/em>, um livro do economista austr\u00edaco Joseph A. Schumpter (basta ir ao Google) \u2014 para ficar a saber como o autor (muito respeitado) restringiu a democracia a um mero arranjo organizacional de sele\u00e7\u00e3o de elites que competem entre si pelo voto do povo atrav\u00e9s de uma disputa eleitoral que lhes permite legitimar as suas decis\u00f5es. \u00c9 o que se chama uma conce\u00e7\u00e3o \u201cprocedimental\u201d e minimalista da democracia, mas \u00e9 a conce\u00e7\u00e3o em vigor e consolidada.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a62b\">Dentro destas baias, que s\u00e3o a B\u00edblia das elites ocidentais, Andr\u00e9a Rizzi considera que o \u201cprotesto dos tratores que est\u00e1 a abalar v\u00e1rios cantos da Europa p\u00f5e em evid\u00eancia problemas importantes das democracias, cujos equil\u00edbrios de poder e mecanismos de funcionamento s\u00e3o muitas vezes t\u00e3o fr\u00e1geis que a a\u00e7\u00e3o determinada de uma minoria numa posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica \u00e9 suficiente para provocar rea\u00e7\u00f5es pol\u00edticas transcendentais\u201d. A estabilidade \u00e9 o bem supremo a ser garantido a todo o custo pela \u201cdemocracia\u201d. N\u00e3o se mudam os sapatos, h\u00e1, sim, que adaptar os p\u00e9s! Na realidade o que os protestos, mesmo que sejam de uma minoria, evidenciam \u00e9 o resultado de uma pol\u00edtica, entendida como a aplica\u00e7\u00e3o de uma ideologia a uma sociedade, em que os cidad\u00e3os nada de fundamental decidem. Em que o essencial dos interesses est\u00e1 definido \u00e0 partida, \u00e9 imut\u00e1vel e assenta em dois pilares: a propaganda e a finan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ecf1\">O protesto dos agricultores tem as mesmas causas do protesto dos candidatos a comprar casa, dos doentes \u00e0 espera de consulta, dos reformados a prop\u00f3sito das pens\u00f5es, dos motoristas de cami\u00f5es, dos pol\u00edcias, dos m\u00e9dicos e enfermeiros do SNS. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"ecf1\">Tem uma origem conhecida e escamoteada pela propaganda (informa\u00e7\u00e3o \u00e9 coisa que n\u00e3o existe): a ditadura da finan\u00e7a. <\/h2>\n\n\n\n<p id=\"ecf1\">O Banco central Europeu, essa democr\u00e1tica institui\u00e7\u00e3o, empresta dinheiro apenas aos bancos a 2% de juros, estes emprestam dinheiro aos que querem abrir um neg\u00f3cio, comprar uma casa, adquirir um bem, a 8% (os valores ser\u00e3o mais ou menos estes). O agricultor vende um quilo de um produto a um valor X a uma empresa de grande distribui\u00e7\u00e3o, que o vende ao p\u00fablico a 5X e mantem o diferencial no banco a render a 90 dias. O banco empresta esse dinheiro a 8X. Pessoal dos servi\u00e7os nacionais de sa\u00fade protestam em toda a Europa porque a sua fal\u00eancia proporciona o desenvolvimento dos neg\u00f3cios da medicina privada, geradora de investimentos da banca e de avultados lucros. N\u00e3o h\u00e1 votos que legitimem esta ditadura. Mas este regime \u00e9 apresentado como essencialmente democr\u00e1tico e o que o amea\u00e7a, segundo o pensamento dominante, \u00e9 a extrema-direita! N\u00e3o \u00e9. \u00c9 a usura, um velho termo ca\u00eddo em desuso que nenhum partido do \u201carco da governa\u00e7\u00e3o\u201d, e muito menos a extrema-direita, aqui em Portugal o Chega e a Iniciativa Liberal, a vers\u00e3o\u00a0<strong>hard<\/strong>\u00a0e a vers\u00e3o\u00a0<strong>soft<\/strong>\u00a0do neoliberalismo, prev\u00ea eliminar ou limitar.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"51f0\">O editorialista do EL Pa\u00eds reconhece que \u201co protesto agr\u00e1rio \u00e9 not\u00e1vel como mobiliza\u00e7\u00e3o e que esta, infelizmente, \u00e9 instrumentalizada pela direita, mas como j\u00e1 conseguiu um forte impacto no debate pol\u00edtico, as institui\u00e7\u00f5es de Bruxelas far\u00e3o concess\u00f5es\u201d. Pois far\u00e3o, como sempre fazem, como o far\u00e3o com a habita\u00e7\u00e3o, ou com a sa\u00fade, mas n\u00e3o far\u00e3o concess\u00f5es em nome da democracia, nem para satisfazer uma justa pretens\u00e3o, mas porque s\u00e3o m\u00e1quinas de girar e centrifugar o dinheiro que proporciona lucros e poder \u00e0s oligarquias financeiras e atirar dinheiro para a multid\u00e3o faz parte das receitas vindas da antiguidade de os nobres o lan\u00e7arem m\u00e3os cheias de moedas \u00e0queles cujos protestos causam maior impacto. Os subs\u00eddios aos agricultores acabar\u00e3o por ir parar \u00e0 banca, atrav\u00e9s da infla\u00e7\u00e3o que provocam (as empresas de distribui\u00e7\u00e3o e a banca jamais abdicar\u00e3o das suas percentagens de lucro), e o mesmo acontece com a habita\u00e7\u00e3o, os subs\u00eddios \u00e0 compra de casa cujos juros os \u201cliberais\u201d prop\u00f5em que sejam pagos pelo governos, ficando o Estado a subsidi\u00e1-los a bem dos lucros da banca e da \u201cfinanciariza\u00e7\u00e3o\u201d da pol\u00edtica, da sujei\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica \u00e0 finan\u00e7a. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"51f0\">O jogo de protestos e negocia\u00e7\u00f5es est\u00e1 viciado \u00e0 partida e n\u00e3o \u00e9 de democracia que se trata.<\/h2>\n\n\n\n<p id=\"03fb\">A direita aproveita-se dessa causa? Perguntem \u00e0 direita se tem um programa financeiro alternativo ao sistema banc\u00e1rio cujo v\u00e9rtice \u00e9 o FED (o banco central dos EUA), a que se juntam o Banco Mundial e o FMI, ou \u00e0 bolsa de Wall Street. No debate entre o Raimundo do PCP e o Ventura do Chega, este demagogo perguntou a Raimundo se ele era contra o Euro. N\u00e3o sendo o Euro o fundo quest\u00e3o, o que acontece que o BCE \u00e9, porque o emite a um dado valor que contempla os interesses dos usur\u00e1rios (dos banqueiros e financeiros) contra o dos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5864\">O perigo do crescendo da extrema-direita que o editorialista refere, sem nunca explicar o que materializa o perigo, \u00e9 o de ela introduzir uma viol\u00eancia descontrolada que perturbe a velocidade mais conveniente ao d\u00ednamo do sistema financeiro, uma velocidade que este determina atrav\u00e9s dos governos e dos partidos pol\u00edticos tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"fb84\">A manuten\u00e7\u00e3o da extrema-direita europeia no limbo em que ainda se encontra resulta da avalia\u00e7\u00e3o da sua utilidade que os grandes grupos financeiros fazem, pois s\u00e3o eles que a financiam, como financiam os partidos tradicionais: \u00c9 mais vantajoso ter perto do poder uma extrema-direita xen\u00f3foba que provoque a rejei\u00e7\u00e3o de emigrantes, com o consequente aumento do custo da hora de trabalho e a obriga\u00e7\u00e3o dos europeus realizarem tarefas pesadas, sujas e mal pagas, ou mant\u00ea-la afastada de forma a garantir uma reserva de m\u00e3o-de-obra atrav\u00e9s da emigra\u00e7\u00e3o? Quando \u00e9 que a extrema-direita deve ser utilizada para promover agita\u00e7\u00e3o social (greves de m\u00e9dicos e enfermeiros, de motoristas, de pol\u00edcias, de agricultores, ju\u00edzes e procuradores) que passem a ser mais vantajosas do que investimentos na constru\u00e7\u00e3o civil, na explora\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas, na hotelaria ou turismo? <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"fb84\">A aproxima\u00e7\u00e3o da extrema-direita do poder resulta da an\u00e1lise que os seus investidores fazem da sua utilidade na realiza\u00e7\u00e3o das suas estrat\u00e9gias e n\u00e3o do seu perigo.<\/h2>\n\n\n\n<p id=\"5d90\">Adianta o comentador do El Pa\u00eds \u201cque na hist\u00f3ria recente da Europa h\u00e1 v\u00e1rios casos de meia d\u00fazia de assentos parlamentares que exercem uma influ\u00eancia absurda, ou de setores muito minorit\u00e1rios que, por uma raz\u00e3o ou outra, t\u00eam uma capacidade de press\u00e3o exorbitante.\u201d E mais: \u201cIsto \u00e9 democracia, dir-se-\u00e1.\u201d Pois \u00e9, digo eu, e tamb\u00e9m: o que n\u00e3o \u00e9 democracia \u00e9 a pol\u00edtica (e a democracia) ser determinada por meia d\u00fazia de assentos n\u00e3o parlamentares, ocupados por desconhecidos sentados em cadeiras ergon\u00f3micas \u00e0 volta de mesas de tampo brilhante, em sal\u00f5es insonorizados no topo de arranhas c\u00e9us, ou em\u00a0<em>bunkers<\/em>\u00a0isolados das vistas e dos ouvidos dos cidad\u00e3os, onde t\u00eam lugar os governadores dos bancos centrais, que ningu\u00e9m elegeu, ou os membros da elite dos clubes financeiros, do tipo Bieldberg, ou os m\u00e1gicos manipuladores dos centros de estudos, os\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0de grandes funda\u00e7\u00f5es que t\u00eam multimilion\u00e1rios como patrocinadores, ou os administradores dos grandes fundos de investimentos que dominam as bolsas de valores. A democracia \u00e9 evitar a tirania dos que nos determinam o valor do dinheiro que temos e recebemos, o quanto podemos comprar com ele, quanto temos de pagar por uma casa, por um quilo de batatas, por um litro de azeite, por uma semana de f\u00e9rias, por uma opera\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, por um medicamento, um livro, ou um casaco. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"5d90\">E, dado que o artigo tamb\u00e9m refere a guerra na Ucr\u00e2nia, democracia \u00e9 ter direito a saber as causas e poder intervir na decis\u00e3o de a Europa meter a cabe\u00e7a no la\u00e7o que a estrangular\u00e1.<\/h2>\n\n\n\n<p id=\"255a\">Considera o autor, como muitos comentadores de largo espetro televisivo que nos Estados Unidos o desbloqueamento da ajuda \u00e0 Ucr\u00e2nia se transformou numa prova\u00e7\u00e3o devido \u00e0 mera \u201cpolitiquice\u201d entre Democratas e Republicanos. \u00c9 n\u00e3o perceber (ou n\u00e3o querer que os outros percebam) nada dos americanos: os oligarcas que governam os Estados Unidos desde a funda\u00e7\u00e3o \u2014 os \u201cgloriosos&nbsp;<em>foundig fathers\u201d<\/em>&nbsp;\u2014 agiram sempre e apenas de acordo com os seus interesses, o impasse n\u00e3o \u00e9 politiquice, \u00e9 conflito de interesses entre grupos olig\u00e1rquicos, n\u00e3o existe nenhuma disfun\u00e7\u00e3o no topo de pol\u00edtica dos EUA, o que menos incomoda os pol\u00edticos americanos \u00e9 o direito, a raz\u00e3o, ou o interesse dos outros. E o mesmo se diga da quest\u00e3o do genoc\u00eddio dos palestinianos. O que interessa aos EUA \u00e9 manter o dom\u00ednio no Medio Oriente atrav\u00e9s de Israel sem ultrapassar o limite em que surjam acusados de cumplicidade por outros atores pol\u00edticos importantes, de ponderar quando as vantagens do apoio ao massacre passam a ser menores do que os inconvenientes. Pura an\u00e1lise de vantagens e inconvenientes. A observa\u00e7\u00e3o da atitude das democracias europeias perante a guerra na Ucr\u00e2nia e o genoc\u00eddio na Palestina exp\u00f5e o conceito em vigor de democracia europeia: os cidad\u00e3os podem reclamar (n\u00e3o muito alto), mas a pol\u00edtica europeia em nada se alterar\u00e1. Atirar dinheiro para calar reivindica\u00e7\u00f5es, sim, \u00e9 democr\u00e1tico, considerar as vozes que questionam as decis\u00f5es fundamentais n\u00e3o \u00e9!<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"985f\">A a\u00e7\u00e3o das minorias n\u00e3o \u00e9 contra a democracia, \u00e9 o resultado de pol\u00edticas decididas sem interven\u00e7\u00e3o dos instrumentos da democracia: a consulta e a participa\u00e7\u00e3o.<\/h2>\n\n\n\n<p id=\"5b9e\">A fraqueza das denominadas democracias europeias do p\u00f3s Segunda Guerra n\u00e3o est\u00e1 na maldade dos americanos, dos russos, dos chineses, ou dos guerrilheiros que disparam sobre os barcos que se dirigem ao canal do Suez, est\u00e1 no regime de ditadura financeira, no servilismo dos dirigentes europeus aos interesses da finan\u00e7a, na nega\u00e7\u00e3o dos valores que a Europa do p\u00f3s-guerra foi considerando seus depois de s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o e de colonialismo de imposi\u00e7\u00e3o de um poder baseado na for\u00e7a e na convic\u00e7\u00e3o da superioridade cultural.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"9737\">A decad\u00eancia das democracias europeias tem hoje um centro interpretativo, com figuras e cenas ao vivo \u2014 tipo&nbsp;<em>sex shop<\/em>&nbsp;\u2014 em Israel. A Europa pode rever-se hoje nesse espelho. O nazismo nasceu da fraqueza dos que se diziam democratas e afinal eram obedientes funcion\u00e1rios p\u00fablicos, como declararam no tribunal de Nuremberga.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"872b\">Por fim a quest\u00e3o exemplar da agricultura europeia e da pol\u00edtica da Uni\u00e3o Europeia. De acordo com o Eurosat, em 2019 o setor agr\u00edcola ocupava 9,5 milh\u00f5es de europeus e 3,8 milh\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o alimentar, a agricultura contribu\u00eda com 1,3% do PIB europeu. A UE atribuiu ao conjunto de 27 pa\u00edses 38,2 mil milh\u00f5es de euros \u00e0 pol\u00edtica agr\u00edcola, 13,8 mil milh\u00f5es para desenvolvimento rural e 2,4 mil milh\u00f5es ao mercado de produtos agr\u00edcolas. No total 54, 4 mil milh\u00f5es. H\u00e1 pouco, a mesma UE atribuiu 50 mil milh\u00f5es \u00e0 Ucr\u00e2nia. Em conclus\u00e3o: Os agricultores s\u00e3o uns chatos antidemocratas e os ucranianos chefiados por Zelenski uns democratas de primeira apanha!<\/p>\n\n\n\n<p id=\"e9ea\">Os v\u00e1rios protestos que ocorrem na Europa podem estar a ser conduzidos pela extrema-direita, mas a extrema-direita apenas est\u00e1 a geri-los em nome de outros interesses. Nunca colocou em causa o poder do BCE, nem as guerras em que a Europa se envolveu seguindo os EUA no Iraque, na S\u00edria, no Afeganist\u00e3o, no Kosovo, na Ucr\u00e2nia e na Palestina, nunca colocou em causa os muros no M\u00e9xico, nem em Gaza, nem as despesas colossais com o rearmamento da Europa, nem a inevit\u00e1vel desindustrializa\u00e7\u00e3o da Europa causada pelo aumento do pre\u00e7o da energia devido \u00e0s san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia, sobre as quais os cidad\u00e3os europeus n\u00e3o foram, democraticamente, chamados a discutir. A extrema-direita faz parte de um \u201csistema\u201d em que \u201cdemocracia\u201d passou a ser uma palavra sem sentido, em que o r\u00f3tulo n\u00e3o corresponde ao conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"8c7a\">Estas \u201cimparidades\u201d pagam-se caro. A solu\u00e7\u00e3o habitual para resolver os grandes impasses \u00e9 uma grande guerra de destrui\u00e7\u00e3o de bens materiais e humanos. O discurso da guerra j\u00e1 est\u00e1 na ordem do dia nos dirigentes europeus e n\u00e3o \u00e9 por acaso que falam sempre de armas nucleares. A extrema-direita tamb\u00e9m n\u00e3o amea\u00e7a esta solu\u00e7\u00e3o, apoia-a. Faz parte da NATO.<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo no El Pais <a href=\"https:\/\/elpais.com\/opinion\/2024-02-10\/democracias-cautivas-de-las-minorias.html?source=post_page-----5b389fb4208e------\">Democracias  cautivas  de las minorias <\/a><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"387\" height=\"386\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/matos-gomes23.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10832\" style=\"aspect-ratio:1.0025906735751295;width:257px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/matos-gomes23.jpg 387w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/matos-gomes23-300x300.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/matos-gomes23-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 387px) 100vw, 387px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Carlos Matos Gomes<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 investigador de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea de Portugal. Publicou, em co-autoria com Aniceto Afonso, os livros Guerra Colonial, Os Anos da Guerra Colonial e Portugal e a Grande Guerra. Desde 1983, escreve obras de fic\u00e7\u00e3o (incluindo romances, contos, gui\u00f5es de filmes e s\u00e9ries de TV), sob o pseud\u00f3nimo\u00a0<strong>Carlos<\/strong>\u00a0Vale Ferraz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OPINI\u00c3O &#8211; Artigo de Carlos Matos Gomes O autor tem vindo a aprofundar a sua&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10831,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[238,99,470],"tags":[26,27],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg",444,327,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre-300x221.jpg",300,221,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg",444,327,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg",444,327,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg",444,327,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg",444,327,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg",444,327,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg",444,327,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg",444,327,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre.jpg",444,327,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lluta-livre-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/voz-ativa\/\" rel=\"category tag\">VOZ ATIVA<\/a>","tag_info":"VOZ ATIVA","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10830"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10830"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10830\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10833,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10830\/revisions\/10833"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10831"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10830"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10830"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10830"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}