{"id":10955,"date":"2024-02-27T16:42:47","date_gmt":"2024-02-27T16:42:47","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=10955"},"modified":"2024-02-27T16:42:50","modified_gmt":"2024-02-27T16:42:50","slug":"da-ignorancia-autocentrada-ocidental-sobre-maome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2024\/02\/27\/da-ignorancia-autocentrada-ocidental-sobre-maome\/","title":{"rendered":"Da ignor\u00e2ncia autocentrada ocidental sobre Maom\u00e9"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">NSF &#8211; BIBLIOTECA DAS IDEIAS<\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">RELIGI\u00c3O<\/mark><\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-vivid-red-background-color has-text-color has-background\"><em>Reflex\u00f5es em torno da obra de Virgil Gheorghiu La vie de Mahomet<\/em>. <\/p>\n\n\n\n<p><em>From Western self-centered ignorance about Mohamed:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Reflections on the work of Virgil Gheorghiu La vie de Mahomet<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/cehum.elach.uminho.pt\/researchers\/71?fbclid=IwAR1f_le-1ROX2wykxwyqAHm8k2GoJoRilxEkzjnSnLdFgvXjqT2gHol9x38\">Clara Costa Oliveira<\/a><\/h3>\n\n\n\n<div style=\"height:23px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"445\" height=\"238\" data-id=\"10958\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10958\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg 445w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA-300x160.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Resumo<\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo pretende contribuir para um conhecimento mais s\u00e9rio de Maom\u00e9 na cultura ocidental, onde v\u00e1rios seguidores da sua f\u00e9 vivem, mas onde a ignor\u00e2ncia sobre os seus preceitos contribui, por vezes, para uma vis\u00e3o puramente negativa. Recorrendo a obras hist\u00f3ricas e teol\u00f3gicas das religi\u00f5es do Livro, tem como principal fundamenta\u00e7\u00e3o a obra de um te\u00f3logo ortodoxo sobre o profeta fundador isl\u00e2mico, que recorreu a uma pesquisa invulgar sobre Maom\u00e9, C. V. Gheorghiu. A sua condi\u00e7\u00e3o de marginalizado criou-lhe uma grande sensibilidade para compreender a persegui\u00e7\u00e3o constante a que Maom\u00e9 foi sujeito em quase toda a sua vida. A sua toler\u00e2ncia para as outras religi\u00f5es monote\u00edstas e a sua estrat\u00e9gia pol\u00edtico-militar possibilitaram-lhe a conquista r\u00e1pida da Ar\u00e1bia.<\/p>\n\n\n\n<p>Palavras- Chaves: Maom\u00e9; mu\u00e7ulmanos; Georghiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Summary<\/p>\n\n\n\n<p>This article aims to contribute to a more serious knowledge of Muhammad in Western culture, where several followers of his faith live, but where ignorance about his precepts sometimes contributes to a purely negative view. Using historical and theological works from the religions of the Book, its main foundation is the work of an orthodox theologian on the Islamic founding prophet, who used unusual research on Muhammad, C. V. Gheorghiu. His marginalized condition created him a great sensitivity to understand the constant persecution to which Muhammad was subjected almost throughout his life. His tolerance for other monotheistic religions and his political-military strategy enabled him to quickly conquer Arabia.<\/p>\n\n\n\n<p>Keywords: Muhammad; Muslims; Georghiu.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Considera\u00e7\u00f5es iniciais<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com forma\u00e7\u00e3o de base em Filosofia e com um enorme interesse por quest\u00f5es teol\u00f3gicas, a leitura dos livros sagrados de religi\u00f5es e de filosofias de vida (como o budismo, confucionismo, etc) foi empreendida ao longo da minha vida de forma regular, bem como obras de te\u00f3logos de v\u00e1rias religi\u00f5es, e de espiritualidade, de renome. A leitura do Alcor\u00e3o marcou-me pela sua exorta\u00e7\u00e3o direta, n\u00e3o narrativa, sobretudo, como no juda\u00edsmo-budismo, hindu\u00edsmo (<em>Vedas<\/em>), judaica e\/ou interpretativa (<em>Talmud<\/em>, e outros textos m\u00edsticos, por exemplo: Jacobs 1976). H\u00e1 um poder orat\u00f3rio no Alcor\u00e3o que me fez compreender como pode facilmente levar a convers\u00f5es r\u00e1pidas, at\u00e9 por ser um livro muito concreto, aplic\u00e1vel \u00e0 vida quotidiana das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura dos livros gn\u00f3sticos, quer judaicos, quer crist\u00e3os, ajudaram-me a compreender a dificuldade destas religi\u00f5es monote\u00edstas se desprenderem de tradi\u00e7\u00f5es id\u00f3latras e animistas profundamente arreigadas nas culturas de todo o mundo (Barnstone 2005). O fasc\u00ednio de Mani pelo cristianismo ajudou-me tamb\u00e9m a ter uma ideia muito concreta do poder do cristianismo no oriente, que aprofundei com leitura de autores ortodoxos, como o caso de Virgil Gheorghiu, autor judeu por nascimento e romeno, por identidade territorial, ortodoxo considerado herege, por muitos, mas indubitavelmente um homem com uma cultura enorme e multifacetada.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste deambular, cerca de vinte anos atr\u00e1s, li <em>A hist\u00f3ria de Deus<\/em>, da te\u00f3loga da comunh\u00e3o anglicana Karen Armstrong, que incide exclusivamente nas 3 religi\u00f5es monote\u00edstas, por ordem de surgimento na hist\u00f3ria da humanidade. A leitura da se\u00e7\u00e3o dedicada ao juda\u00edsmo foi algo penosa, mas n\u00e3o surpreendente, dado ter lido o que tinha sido retirado (e bem, no meu humilde entendimento) da tradi\u00e7\u00e3o dos textos ap\u00f3crifos judeus (imensos) aos quais tive acesso em <em>The Other Bible <\/em>(Barnstone 2005). As v\u00e1rias linhagens do cristianismo n\u00e3o me foram dif\u00edceis de compreender, conseguindo, enquadrar algumas delas num contexto hist\u00f3rico, sem o qual nada \u00e9 pass\u00edvel de compreens\u00e3o. Mas quando comecei a leitura da se\u00e7\u00e3o sobre o islamismo, n\u00e3o conseguia prosseguir na leitura. O Alcor\u00e3o estava lido e relido, conhecia a divis\u00e3o b\u00e1sica entre sunismo e xiismo, possu\u00eda uma vaga ideia do sufismo (que mais tarde aprofundei com leitura sobre Rumi (Shafal 2015), e ainda assim a minha ignor\u00e2ncia era tal que n\u00e3o conseguia seguir o racioc\u00ednio da autora.<\/p>\n\n\n\n<p>Investigando num grupo de migra\u00e7\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o, coordenando um grupo informal de integra\u00e7\u00e3o de migrantes e refugiados, sendo volunt\u00e1ria da UREP (Uni\u00e3o de Refugiados em Portugal), o meu contato com isl\u00e2micos vulgarizou-se, e ouvi, e vejo viver, v\u00e1rias vers\u00f5es do islamismo <em>in loco<\/em>, desde pacifistas a relatos do apelidado islamismo extremado (por relato dos isl\u00e2micos que dele fugiram). Discuti teologia com um professor de sociologia das religi\u00f5es isl\u00e2mico (hoje docente nos EUA) e aprendi muit\u00edssimo sobre o entendimento isl\u00e2mico sobre o cristianismo, que n\u00e3o \u00e9 igual em todas as linhagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo me fez sempre, por\u00e9m, confus\u00e3o nesta religi\u00e3o da submiss\u00e3o a Deus: ser o seu fundador um combatente que em 10 anos empreendeu a conquista e convers\u00e3o de praticamente toda a Ar\u00e1bia. Sangue nas m\u00e3os existe em todas as religi\u00f5es, mas n\u00e3o necessariamente na dos seus fundadores, como no caso de Jesus de Nazar\u00e9. Como podia haver linhagens pacifistas de uma religi\u00e3o cujo fundador fora um guerreiro? A vis\u00e3o dos mu\u00e7ulmanos que conhe\u00e7o era a de uma m\u00e1 compreens\u00e3o da minha parte, mas estava perante leituras (minha e deles) altamente enviesadas, obviamente. A leitura da obra mencionada no subt\u00edtulo deste artigo esclareceu-me sobre a profunda ignor\u00e2ncia na qual vivemos face ao profeta Mohamed, e tentarei articular as principais aprendizagens que obtive nesta obra face a um mundo que vive imerso em discuss\u00f5es est\u00e9reis sobre nada que realmente importe no que diz respeito a estas mat\u00e9rias. Perdoar-me-\u00e3o aqueles que considerarem este artigo simplista; ele pretende ser escrito para a popula\u00e7\u00e3o com uma cultura m\u00e9dia-alta, no ocidente altamente dessacralizado (Girard 1972).<\/p>\n\n\n\n<p>Il n\u2019y a pas de Dieu, bien entendu, pour pl\u00e1cer des obstacles fascinants sous les pas des fid\u00e8les, mais il n\u2019ya pas non plus de Loi pour se substituer \u00e0 Dieu dans ce r\u00f4le, comme s\u2019imaginent les fausses sagesses dans notre culture est entich\u00e9e [\u2026]. A ce spectacle, nous sommes tendus de conclure que la pens\u00e9e critique n\u2019est jamais qu\u2019une entreprise de justification personnelle et qu\u2019il faut renoncer \u00e0 elle car elle ne fait que dresser les hommes les uns contre les autres [\u2026]. Ce en\u2019est pas l\u2019hasard qui loge la poudre dans l\u2019oeil habile \u00e0 r\u00e9perer la paille. La perspicacit\u00e9 du critique est r\u00e9elle. La paille est bien dans l\u2019oeil de ce fr\u00e8re que je condamne. Mais je ne vois pas que ma propre condamination re-produit les traits structurels de l\u2019acte condamnable, sous une forme soulign\u00e9e par l\u2019impuissance m\u00eame de cette perspicacit\u00e9 \u00e0 se retourner contre elle-m\u00eame. A chaque niveau de cette spirale, le juge s\u2019imagine qu\u2019il \u00e9chappe au jugement qu\u2019il porte sur les autres (Girard 1978: 602; 603; 587-588).<\/p>\n\n\n\n<p><em>Um multimigrante multimarginalizado: Constantin Virgil Gheorghiu<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Filho de, e ele pr\u00f3prio, sacerdote ortodoxo romeno, casado com mulher judia, este homem esteve preso v\u00e1rias vezes, pelos nazis alem\u00e3es, por sovi\u00e9ticos e por norte-americanos. Foi sujeito a tortura, fome, etc, tendo a sua aldeia natal e seus habitantes (onde se inclu\u00eda seu pai) desaparecido numa das famosas limpezas estalinistas. Conheceu v\u00e1rios pa\u00edses, quer por ter sido deportado por quest\u00f5es de guerra, quer por fuga (ou sua tentativa), quer por tentar encontrar um espa\u00e7o no qual pudesse sentir-se menos estrangeiro de tudo e de todos. N\u00e3o entrando em detalhes sobre este grande te\u00f3logo crist\u00e3o, pois tal n\u00e3o \u00e9 o objetivo do artigo, salientamos o seu conhecimento profundo da Ar\u00e1bia, e de v\u00e1rios de seus pa\u00edses e regi\u00f5es. O cristianismo primitivo come\u00e7ou no m\u00e9dio oriente e espalhou-se rapidamente pela Ar\u00e1bia, n\u00e3o sendo, pois, de admirar essa sua presen\u00e7a (tendo viajado e permanecido em muitos outros pa\u00edses). A\u00ed adquiriu um profundo conhecimento do islamismo, e das m\u00faltiplas facetas. Conheceu <em>in loco<\/em> os lugares das batalhas nas quais o islamismo inicial se foi construindo, tal como o fez em rela\u00e7\u00e3o a outras personagens hist\u00f3ricas como Lutero, por exemplo, al\u00e9m de ter conhecido os locais que Jesus pisou passo a passo, como se pode verificar na bibliografia deste artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa sua cultura inscrita no seu corpo fr\u00e1gil trouxe-lhe dissabores teol\u00f3gicos dentro da ortodoxia romena, que aqui n\u00e3o ser\u00e3o obviamente abordadas, tendo, no entanto, ainda em vida sido reconhecido teologicamente pelos seus chefes hier\u00e1rquicos, ainda que seja olhado de soslaio entre aqueles que deveriam ser todos seus pares. Teologicamente, sintetizando, n\u00e3o \u00e9 um autor consensual no cristianismo ortodoxo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta sua viv\u00eancia multifacetada, proscrita, marginalizada, tornou-o numa pessoa com uma enorme capacidade de tentar perceber a verdade dos outros, mesmo que n\u00e3o a aceitasse como sua. Um enorme respeito e uma vontade de compreens\u00e3o que o levou a fundamentar com um enorme rigor toda a sua pesquisa hist\u00f3rica, neste caso, sobre a vida de Maom\u00e9. Trata-se, todavia, de um autor com cren\u00e7as crist\u00e3s profundas e isso reflete-se no acentuar de determinados aspetos, mas quem trabalha no paradigma da complexidade (Morin 1992) sabe que n\u00e3o h\u00e1 investigadores neutros, e desde que o leitor o saiba, tamb\u00e9m ele \u00e9 capaz de ser hermeneuta daquilo que lhe \u00e9 descrito. Da\u00ed as fontes serem t\u00e3o importantes. Na obra em quest\u00e3o s\u00e3o exaustivas, e da\u00ed o reconhecimento mundial desta biografia traduzida em v\u00e1rias l\u00ednguas, nomeadamente em \u00e1rabe.<\/p>\n\n\n\n<p>Kuhn definiu [paradigma] como uma representa\u00e7\u00e3o que \u00e9 partilhada por uma comunidade cient\u00edfica, pressupondo premissas, pr\u00e9-conceitos e m\u00e9todos, que condicionam quais as quest\u00f5es mais relevantes na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e a melhor forma de lhes responder. Quando surgem dificuldades na resolu\u00e7\u00e3o destas quest\u00f5es \u00e9 originada uma crise que leva lentamente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um novo paradigma, que se caracteriza por uma mudan\u00e7a descont\u00ednua, um progresso por saltos, ou seja, uma revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica[\u2026]. Este paradigma vem, assim, assumir a rede rizom\u00e1tica [no sentido deleuziano] das rela\u00e7\u00f5es e dos fen\u00f4menos. Um pensar complexo reconhece a exist\u00eancia de movimento, incertezas, riscos e fatores desconhecidos, em qualquer processo de investiga\u00e7\u00e3o\/interven\u00e7\u00e3o. Distingue-se, portanto, da investiga\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, que unifica (reduz) o que \u00e9 m\u00faltiplo, quantifica (separa) o que \u00e9 qualific\u00e1vel, simplifica o que \u00e9 complexo, para tornar o objeto\/sistema de estudo facilmente manipul\u00e1vel e conhecido [\u2026].<\/p>\n\n\n\n<p>Investiga\u00e7\u00e3o em complexidade promove, pelo contr\u00e1rio, interpreta\u00e7\u00f5es a partir do local e do singular, valoriza a refer\u00eancia \u00e0 hist\u00f3ria em qualquer descri\u00e7\u00e3o ou explica\u00e7\u00e3o, estuda a situa\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica de um dado contexto, reconhece a impossibilidade de isolar unidades elementares \u00fanicas e, como tal, a necessidade de vincular o conhecimento de qualquer elemento ao conhecimento das partes a que pertencem, assumindo-se que o todo nunca \u00e9 igual \u00e0 soma das partes [\u2026] (Saavedra; Oliveira 2019:513).<\/p>\n\n\n\n<p><em>Maom\u00e9, migrante antes de nascer, profeta fora da sua terra<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7amos com algumas refer\u00eancias de enquadramento hist\u00f3rico da vida geogr\u00e1fica de Maom\u00e9 pois foram elas que nos permitiram perceber as capacidades invulgares deste personagem que, sem nada nem ningu\u00e9m, conseguiu fundar uma das religi\u00f5es com mais impacto em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua vida, circularmente o seu destino o levou v\u00e1rias vezes \u00e0 tribo e zona geogr\u00e1fica de seu av\u00f4 paterno, homem de Meca que fazia parte de um grupo n\u00e3o assin\u00e1vel de homens que procuravam O deus, n\u00e3o totalmente satisfeitos com o culto polite\u00edsta e animista reinante em Meca, nem t\u00e3o pouco com os ensinamentos das tribos judias e crist\u00e3s que habitavam na Ar\u00e1bia, embora respeitando todas elas, at\u00e9 por uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia f\u00edsica e material; possu\u00eda um lugar de prest\u00edgio dentro de Meca, n\u00e3o sendo, por\u00e9m, um dos seus maiores vultos. Nas suas viagens de neg\u00f3cios procurava encontrar esse deus, que seria um, acima de todos os outros, ou talvez \u00fanico; morreu sem o saber. Um dos seus filhos foi o pai de Maom\u00e9 que faleceu antes do nascimento do profeta, numa doen\u00e7a que o fez perecer numa viagem de neg\u00f3cios, habitando em Medina.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua m\u00e3e decidiu ir ter com seu sogro a Meca e a\u00ed nasceu a crian\u00e7a, e nela passou grande parte da sua inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e primeiros anos de adultez (tenhamos em conta que estas divis\u00f5es s\u00e3o correntes na linguagem atual, n\u00e3o fazendo grande sentido na cultura e \u00e9poca hist\u00f3rica na qual se situa: Ar\u00e1bia do seculo VII d.e.c). Os seus primeiros anos foram, por\u00e9m, vividos entre bedu\u00ednos que acolhiam a sua ama de leite, tendo tido v\u00e1rios irm\u00e3os de leite desta ama, que ter\u00e3o um papel importante na sua vida, j\u00e1 como chefe militar e pol\u00edtico do Isl\u00e3o. Os bedu\u00ednos eram n\u00f4mades, e, portanto, a sua vida consistiu num percorrer a Ar\u00e1bia de fio a pavio, com idas frequentes a Meca, mas mantendo tamb\u00e9m algum contato com as tribos de seu sangue existentes em Medina, sempre que por l\u00e1 se encontrava. Tal fazia parte da obriga\u00e7\u00e3o da ama, mas mais fundo que isso, essa era (\u00e9?) a regra na Ar\u00e1bia: la\u00e7os de sangue s\u00e3o comunit\u00e1rios, os indiv\u00edduos existem nos direitos e deveres daqueles a quem pertencem por sangue. A convers\u00e3o dos bedu\u00ednos trouxe aos mu\u00e7ulmanos um n\u00famero significativo de pessoas, consolidando a sua import\u00e2ncia na Ar\u00e1bia.<\/p>\n\n\n\n<p>Le moment donc les B\u00e9douins rencontrent un proph\u00e8te, ils le suivent et accrochent \u00e0 sa croyance [\u2026]. Mahomet se rend chez ces hommes pour leur offir le Paradis. En \u00e9change, il leur demande de devenir musulmans, c\u2019est-\u00e0-dire de s\u2019abandonner \u00e0 la volont\u00e9 divine\u2019. Si il ne r\u00e9ussit pas \u00e0 les all\u00e9cher en leur promettant le Paradis, l\u2019islam sera an\u00e9anti. La Mecqe affamera M\u00e9dine par le blocus [como veremos, neste texto], comme si elle s\u2019assi\u00e9geait. Or on ne peut briser le blocus qu\u2019avec des B\u00e9douins. Le Paradis d\u00e9peint par le Coran ressemble \u00e0 une affiche dont les vives couleurs doivent s\u00e9duire les B\u00e9douins et les convaincre \u00e0 tout abandonner; plus sp\u00e9cialement, de r\u00e9noncer \u00e0 leur amiti\u00e9 avec la Mecque (Gheorghiu 1999:195).<\/p>\n\n\n\n<p><em>Meca<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Todos n\u00f3s sabemos que a peregrina\u00e7\u00e3o a Meca pelo menos uma vez na vida \u00e9 um dos princ\u00edpios institu\u00eddos por Maom\u00e9 aos mu\u00e7ulmanos, mas n\u00e3o, por\u00e9m, por ser a cidade natal do profeta. A peregrina\u00e7\u00e3o a esta cidade \u00e9 bastante anterior \u00e0 exist\u00eancia desta religi\u00e3o. Estabelecer uma similitude entre a peregrina\u00e7\u00e3o de judeus a Jerusal\u00e9m e de mu\u00e7ulmanos a Meca constitui uma incorre\u00e7\u00e3o. Com efeito, a peregrina\u00e7\u00e3o a Meca prende-se desde tempos imemori\u00e1veis \u00e0 cren\u00e7a de a\u00ed estar uma pedra colocada por Abra\u00e3o, reconhecido pela maioria dos \u00e1rabes (de qualquer forma espiritual) como o primeiro homem monote\u00edsta. No s\u00e9culo VII existia institu\u00eddo h\u00e1 muito tempo uma hierarquia de limpeza, manuten\u00e7\u00e3o f\u00edsica, por exemplo, do espa\u00e7o envolvendo essa pedra (Caaba), sob responsabilidade sobretudo dos coraixitas, que possu\u00edam, portanto, um papel preponderante, em termos de estatuto, dentro da cidade. Nesse espa\u00e7o murado se centrava o culto id\u00f3latra de toda a Ar\u00e1bia, misturando pr\u00e1ticas animistas com culto de antepassados, pr\u00e1ticas sacrificiais sagradas ancestrais que as duas primeiras religi\u00f5es monote\u00edstas nem se atreviam a combater. Este tipo de pr\u00e1ticas sagradas sempre foi de \u00edndole comunit\u00e1ria (demonstrado pela antropologia), unindo-a. Segundo Girard (1972, 1978), o que os livros sagrados do juda\u00edsmo e cristianismo (sobretudo) fazem \u00e9 denunciar este mecanismo ritualista que sacrifica animais ou pessoas para uni\u00e3o das comunidades humanas pr\u00e9-monote\u00edstas.<\/p>\n\n\n\n<p>C\u2019est l\u2019unit\u00e9 d\u2019une communaut\u00e9 qui s\u2019affirme dans l\u2019acte sacrificiel [\u2026].<\/p>\n\n\n\n<p>Nous voyons bien que les rites fun\u00e9raires comme premi\u00e8re \u00e9bauche et mod\u00e8le de toute culture subsequente. Tout s\u2019\u00e9difie sur la mort transfigur\u00e9e, sacralis\u00e9e et dissimul\u00e9e. Nous voyons comment, \u00e0 partir du m\u00e9canisme victimaire et des prier\u00e8s \u00e9bauches de sacralisation qui tendent \u00e0 s\u2019\u00e9tendre \u00e0 tous les morts de la communaut\u00e9 [\u2026] amenant les hommes \u00e0 traiter tous leurs cadavres non tant comme des morts que comme des \u00e8tres transcendants \u00e0 la vie et \u00e0 la mort,&nbsp; tout-puissants sur eux tant pour le mal que pour le bien, soit donc \u00e0 les consumer rituellement pour absorber leur puissance, soit \u00e0 les traiter morts comme si ils \u00e9taient vivants ou en atente d\u2019une autre vie et leur donner une d\u00e9meure correspondant \u00e0 l\u2019id\u00e9e qu\u2019on se fait d\u2019eux (Girard 1978:38; 117).<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, judeus e crist\u00e3os viviam sobretudo fora de Meca em cidades onde todos se ligavam por sangue, como em toda a Ar\u00e1bia. V\u00e1rias vezes foram atacados pelos id\u00f3latras, como a cidade crist\u00e3 de Addis-Adaba, onde 20.000 crist\u00e3os ortodoxos foram chacinados por se terem recusado \u00e0 convers\u00e3o id\u00f3latra, por um chefe abiss\u00ednio. Esta ocorr\u00eancia, em especial, criara em muitos \u00e1rabes um respeito pelo cristianismo, nomeadamente nas pessoas que procuravam formas espirituais diferentes, como o j\u00e1 mencionado av\u00f4 de Maom\u00e9, que inclusivamente chegou a visitar monges e eremitas crist\u00e3os, sem, por\u00e9m, se converter. Num dos momentos de grande persegui\u00e7\u00e3o dos primeiros mu\u00e7ulmanos em Meca, o profeta orienta a ida de seus disc\u00edpulos para a Abiss\u00ednia (actual Eti\u00f3pia), territ\u00f3rio ent\u00e3o crist\u00e3o, onde s\u00e3o recebidos em paz (e onde alguns se convertem ao cristianismo, mas poucos), sobretudo ap\u00f3s a recita\u00e7\u00e3o da 19\u00aa sutra do Alcor\u00e3o, que enaltece a Virgem Maria e o profeta Jesus;&nbsp; \u201cLe Negus (rei da Abiss\u00ednia) et l\u2019assistance chr\u00e9tienne pleurent d\u2019\u00e9motion en entendant les arabes v\u00e9n\u00e9rer J\u00e9sus et la Sainte Vierge\u201d (Gheorghiu 1999:124).<\/p>\n\n\n\n<p>Com a convers\u00e3o de Maom\u00e9 via apari\u00e7\u00e3o do anjo Gabriel, a sua persegui\u00e7\u00e3o come\u00e7ou, de forma gradual. Durante algum tempo, apenas Maom\u00e9 e sua primeira mulher (durante a vida desta mulher, dez anos mais velha que seu esposo, e com fortuna, Maom\u00e9 foi monog\u00e2mico) eram os \u00fanicos mu\u00e7ulmanos em Meca. A convers\u00e3o \u00e0 nova religi\u00e3o foi extraordinariamente lenta nos primeiros anos, tendo alguns dos mu\u00e7ulmanos sido convertidos por la\u00e7os de sangue, como um irm\u00e3o de leite, e um filho adotivo, de Maom\u00e9. Mas houve convers\u00f5es inesperadas, como a de Omar, conhecido como \u201co homem de quem o diabo tem medo\u201d; este ep\u00edteto advinha de ser uma das poucas pessoas que se atrevia a deambular por um territ\u00f3rio que se acreditava estar infectado de dem\u00f4nios, sem que nada lhe acontecesse, afirmando-se, inclusive, ter visto e destru\u00eddo alguns.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande miss\u00e3o dos mu\u00e7ulmanos era a elimina\u00e7\u00e3o da idolatria; e a sua prega\u00e7\u00e3o p\u00fablica pedia a convers\u00e3o a um s\u00f3 Deus (<em>Allah<\/em>), em cumprimento do 1\u00ba mandamento do Livro, de acordo com a linhagem de Maom\u00e9 e de muitos \u00e1rabes, descendentes, segundo eles, de Ismael, filho de (H)Agar e de Abra\u00e3o. &nbsp;\u201c\u00d3 adeptos do Livro! Porque discutis acerca de Abra\u00e3o se a Tora e o Evangelho s\u00f3 foram revelados depois dele? [\u2026] Abra\u00e3o n\u00e3o foi nem judeu nem crist\u00e3o; foi monote\u00edsta e submisso, pois n\u00e3o estava entre os id\u00f3latras\u201d (Alcor\u00e3o \u2013 parte I 1989:64).<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto os mu\u00e7ulmanos se contavam pelos dedos de uma m\u00e3o, come\u00e7ou por ser ignorado e ris\u00edvel. A principal caracter\u00edstica do profeta, no meu entendimento, era a paci\u00eancia, pr\u00f3prio de algu\u00e9m que proclamava a submiss\u00e3o total a <em>Allah<\/em>, de acordo com as instru\u00e7\u00f5es recebidas pela entidade celestial Gabriel. Assim, todos os dias, ele pregava junto da zona sagrada, e pelas ruas de Meca. Come\u00e7ou a ser inc\u00f4modo, sobretudo quando come\u00e7ou a ter seguidores, ainda que poucos. A sua longa persegui\u00e7\u00e3o come\u00e7ou por lhe atirarem pedras, dejetos e insultos, sem que ele parasse ou ripostasse. Era um impar\u00e1vel conspurcado, em todos os sentidos. Talvez da\u00ed lhe tenha vindo a sua concentra\u00e7\u00e3o na higiene, que durou toda a vida (o seu \u00faltimo pedido em vida, \u00e0s portas da morte, foi que lhe lavassem os dentes). O preceito de lavagem de partes b\u00e1sicas do corpo antes das 5 ora\u00e7\u00f5es di\u00e1rias (pelo menos) \u00e9 algo que revolucionou a sa\u00fade p\u00fablica das popula\u00e7\u00f5es que se convertera ao islamismo. Numa zona geogr\u00e1fica atrita a doen\u00e7as como a c\u00f3lera, isso fez toda a diferen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os judeus j\u00e1 tinham introduzido h\u00e1bitos de sa\u00fade p\u00fablica muito importantes como a defuma\u00e7\u00e3o com ervas de espa\u00e7os onde tivessem morrido pessoas, o afastamento de pessoas com doen\u00e7as que sangrassem, nomeadamente as mulheres durante o seu per\u00edodo menstrual (<em>Lev\u00edtico<\/em>). Os rabinos n\u00e3o sabiam porqu\u00ea, mas tinham evid\u00eancia emp\u00edrica de que o sangue podia ser uma fonte de contamina\u00e7\u00e3o muito grande. Muito provavelmente, os preceitos judeus de n\u00e3o comerem carne de porco nem sangue, adotados por isl\u00e2micos) deriva tamb\u00e9m da experi\u00eancia emp\u00edrica de que esse tipo de carne (excepto se muito bem cozinhada, sabemos hoje) era uma fonte de contamina\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. \u201cDeus proibiu-vos a carne de animal que haja morrido, o sangue, a carne de porco e o que se imolou em nome de outro que n\u00e3o seja Deus\u201d (Alcor\u00e3o \u2013 parte I 1989:155).<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando a Maom\u00e9 e a Meca, a persegui\u00e7\u00e3o foi-se acentuando e ap\u00f3s amea\u00e7as de morte a sua fam\u00edlia e a duas tentativas frustradas de seu assassinato, ele \u00e9 convencido a fugir da cidade ap\u00f3s declara\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de ser um alvo a abater. Foge com um dos primeiros convertidos pela terra interdita dos diabos, mas \u00e9 atacado e ferido. Ainda assim, seu companheiro consegue que se escondam e arranja maneira de miraculosamente transport\u00e1-lo at\u00e9 Medina com ajuda celestial, como v\u00e1rias vezes \u00e9 mencionado na biografia deste profeta.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua entrada na cidade \u00e9 proscrita, e todos os mu\u00e7ulmanos acabam por ser expulsos face \u00e0 escolha da morte (houve alguns que n\u00e3o o fizeram e foram mortos, um deles crucificado). Grande parte da vida de Maom\u00e9 vai consistir em sobreviver a v\u00e1rios tipos de tentativas de assassinato, ou morte por fome, etc, levada a cabo pelos senhores de Meca de ent\u00e3o. Ele, por\u00e9m, nunca desistiu de fazer da cidade a base dos mu\u00e7ulmanos, tendo-o conseguido passados cerca de 10 anos, como veremos posteriormente. Quando o conseguiu, respeitou os crist\u00e3os e os judeus a\u00ed residentes, contrariamente aos id\u00f3latras.<\/p>\n\n\n\n<p>Meca foi considerada santa pelo imp\u00e9rio otomano e anexada \u00e0 Ar\u00e1bia saudita em 1926, sendo hoje proibida a entrada na cidade a n\u00e3o mu\u00e7ulmanos pelos dirigentes sauditas, conhecidos tamb\u00e9m pela sua persegui\u00e7\u00e3o ao cristianismo, para al\u00e9m do seu total posicionamento anti-israelita face ao apoio dado ao povo palestiniano.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante salientar que Meca n\u00e3o era, no s\u00e9culo VII, uma cidade f\u00e9rtil como Medina; com efeito, Meca situa-se num vale para onde confluem v\u00e1rios trilhos do imenso deserto ar\u00e1bico (onde Abra\u00e3o, Ismael, Paulo de Tarso, entre outras personagens das 3 religi\u00f5es do Livro, tiveram que viver: Swindol 2002). Com efeito, se nos livros sagrados destas religi\u00f5es o deserto pode ser tomado como uma met\u00e1fora de per\u00edodos conturbados que levam \u00e0 convers\u00e3o, a especifica\u00e7\u00e3o do deserto da Ar\u00e1bia n\u00e3o deixa d\u00favidas face \u00e0s personagens mencionadas, e outras (como os padres do deserto, na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ortodoxa e anglicana). S\u00f3 os ing\u00e9nuos podem pensar que o deserto representa uma fuga do mundo. Os padres crist\u00e3os do deserto forneceram \u00e0 cultura humana da religi\u00e3o do perd\u00e3o testemunhos preciosos da vida em comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A brother asked Abbah Poemen, \u2018What does it mean to be angry with your brother without a cause? [\u2026] He said, \u2018If your brother hurts you by his arrogance and you angry with him because of this, that is getting angry without a cause. If he pulls out your right eye and cuts off your right hand and you angry with him because of this, that is getting angry without a cause. But if he cuts you off from God \u2013 then you have every right to be angry with him (Williams 2003:31, citando Poemen:118).<\/p>\n\n\n\n<p>Estar na conflu\u00eancia de v\u00e1rias rotas da Ar\u00e1bia fazia, por\u00e9m, de Meca, um local privilegiado na economia daquela zona geogr\u00e1fica dado que se constitu\u00edra como a base do com\u00e9rcio de bens trazidos de todo o lado do m\u00e9dio oriente, e norte de \u00c1frica, pelo menos. Da\u00ed o poder comercial ser a base do poder hier\u00e1rquico da cidade. Meca n\u00e3o produzia bens alimentares de modo a assegurar a sua sobreviv\u00eancia; da\u00ed que a proibi\u00e7\u00e3o de venda de bens aos mu\u00e7ulmanos era por si s\u00f3 o mesmo que uma senten\u00e7a de morte, que, no entanto, se tornou ainda mais expl\u00edcita, como mencionado anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Medina<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de Medina era privilegiada na Ar\u00e1bia, por se situar num o\u00e1sis. A produ\u00e7\u00e3o de bens alimentares vegetais, t\u00e2maras e cereais (base da alimenta\u00e7\u00e3o dos \u00e1rabes, \u00e0 \u00e9poca), bem como a cria\u00e7\u00e3o de animais constitu\u00edam mais valias que tornavam esta cidade um dos pilares de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica. Dos animais era poss\u00edvel extrair leite, carne, peles, etc. O artesanato em peles era muito importante por as noites no deserto serem extraordinariamente frias. A \u00e1gua do o\u00e1sis permitia tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o e linho para as vestes leves t\u00e3o necess\u00e1rias durante o dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta cidade sa\u00edam muitos dos bens queram comercializados em Meca, a uma dist\u00e2ncia de cerca de 400 km, especialmente no m\u00eas das trevas, nome atribu\u00eddos pelos povos da zona durante o tempo no qual se abstinham de ataques entre si, de modo a que as caravanas pudessem circular, quer para vender, quer para comprar. A Meca convergiam muitos povos, por ser uma cidade perto de Medina,<\/p>\n\n\n\n<p>A capital da produ\u00e7\u00e3o era ent\u00e3o um local de riqueza, estendendo-se devido \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que albergava. Os judeus detinham um papel importante na cidade, numa zona espec\u00edfica, mas n\u00e3o demarcada, como aconteceu mais tarde aquando da expuls\u00e3o dos judeus pelos reinos europeus, ditos crist\u00e3os. O seu acolhimento em territ\u00f3rios \u00e1rabes do norte de \u00c1frica (sem problemas de maior) garantiu-lhes a sobreviv\u00eancia; tal \u00e9 ainda vis\u00edvel em Casablanca, por exemplo, onde o bairro judeu ainda existe.<\/p>\n\n\n\n<p>A fuga de Maom\u00e9 para Medina fora negociada pois n\u00e3o se desejava guerra entre as cidades; foi conseguida sobretudo pelos la\u00e7os de sangue que o ligavam \u00e0 cidade das t\u00e2maras, e tamb\u00e9m por vir quase sozinho. &nbsp;Com o decorrer do tempo, por\u00e9m, Medina tornou-se a capital de fuga de praticamente todos os mu\u00e7ulmanos, vindo a constituir-se gradualmente numa comunidade cada vez maior dentro da cidade. Maom\u00e9 era um trabalhador manual que liderou a constru\u00e7\u00e3o do primeiro espa\u00e7o de culto isl\u00e2mico.<\/p>\n\n\n\n<p>Le Proph\u00e8te travaille de ses mains \u00e0 la construction de sa mosqu\u00e9e. Celle-ci sera une des sources d\u2019inspiration pour les mosques post\u00e9rieures. Elle r\u00e9pose sur trois coud\u00e9es de fondation, en pierre. Elle de briques, puis de bois de palmier et de <em>ghargad<\/em>. Elle est couverte de feuilles de palmier, <em>djarid<\/em>. Cela suffit, car tel \u00e9tait l\u2019abri de Moise, <em>arich<\/em>. Le niche qui marque la direction, la qibla, est tourn\u00e9e vers Jerusalem. Aupr\u00e8s de la mosqu\u00e9e s\u2019\u00e9levent bient\u00f4t les maisonnettes des deux femmes [naquele momento] du Proph\u00e8te, Saudah et Aicha. Mahomet bergera provisoirement de pauvres \u00e9migr\u00e9es qui n\u2019ont pas trouv\u00e9 place ailleurs [\u2026]. Plus tard, cette pi\u00e8ce qui la nuit sert de dortoir pour les pauvres et d\u2019\u00e9cole le jour deviendra la premi\u00e8re universit\u00e9 du monde (Georghiu 1999:177, citando Essad Bey:71).<\/p>\n\n\n\n<p>A popula\u00e7\u00e3o em geral come\u00e7ou a n\u00e3o apreciar a presen\u00e7a dos mu\u00e7ulmanos, sobretudo pela convers\u00e3o que incansavelmente tentavam obter; os pobres e os refugiados apreciavam Maom\u00e9, bem como muitos escravos, pois os mu\u00e7ulmanos libertavam-nos ap\u00f3s a convers\u00e3o, tal como fizera o seu chefe, algo muito invulgar mesmo nas outras religi\u00f5es monote\u00edstas (lembro as Cartas de Paulo a Timeu, intercedendo por Tim\u00f3teo, sendo este \u00faltimo escravo do primeiro, a quem escapara para se converter ao cristianismo, tornando-se o disc\u00edpulo com maior visibilidade hist\u00f3rica de Paulo de Tarso). &nbsp;&nbsp;&nbsp;Alguns desses migrantes tornaram-se muito importantes no sustento da comunidade mu\u00e7ulmana, dado terem tido um grande sucesso no com\u00e9rcio. Entretanto, toda a fam\u00edlia do profeta j\u00e1 se encontrava a viver com ele. Notemos que era do interesse de Meca que os mu\u00e7ulmanos sa\u00edssem do seu espa\u00e7o, dado n\u00e3o terem conseguido matar o cabecilha. Se os primeiros fugiram \u00e0s escondidas, posteriormente eram convidados a sair.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve v\u00e1rias brigas com mu\u00e7ulmanos em Medina, no primeiro tempo de di\u00e1spora crescente, tamb\u00e9m por se verificarem convers\u00f5es a um ritmo paulatino, mas cont\u00ednuo. A exist\u00eancia de povos de duas religi\u00f5es monote\u00edstas no meio de maioria id\u00f3latra s\u00f3 era poss\u00edvel pelo respeito pelos la\u00e7os de sangue e pela lei de tali\u00e3o, a \u00fanica existente \u00e0 \u00e9poca na Ar\u00e1bia e cumprida por todos, entre os \u00e1rabes respeitante \u00e0 comunidade, e n\u00e3o ao indiv\u00edduo, como acima explicado.<\/p>\n\n\n\n<p>A origem da lei de tali\u00e3o perde-se na hist\u00f3ria, encontrando-se documentada (por descoberta de documento no s\u00e9culo XX) na P\u00e9rsia, no C\u00f3digo de Amurai (escrito em pedra), datado do s\u00e9culo III a.e.c). Possivelmente posteriormente surge escrita na Tora judaica no Livro do \u00caxodo 21: 24 (a data\u00e7\u00e3o deste livro n\u00e3o agrega consenso, mas rondar\u00e1 os 1600 a.e.c.), sendo uma das normativas legais fornecidas por Deus a Mois\u00e9s para controle da viol\u00eancia entre o povo judaico: &#8220;Olho por olho, dente por dente, m\u00e3o por m\u00e3o, p\u00e9 por p\u00e9&#8221;. O cristianismo e figuras espirituais de outros credos esfor\u00e7aram-se por a relativizar e at\u00e9 por a contradizer. No cristianismo tal \u00e9 mencionado diretamente no Evangelho segundo S. Mateus, 5:38-39, onde Jesus enuncia a sua famosa senten\u00e7a de perd\u00e3o de dar a outra face a quem nos agride. J\u00e1 no s\u00e9culo XX o reformador hindu\u00edsta Gandhi alerta que o cumprimento da lei de tali\u00e3o traz consigo um ciclo de vingan\u00e7a ininterrupto que faria com que no mundo n\u00e3o existisse um \u00fanico ser humano que n\u00e3o fosse cego. O caminho da n\u00e3o viol\u00eancia destes dois mestres levou-os \u00e0 morte, como sabemos, mas potenciou uma compreens\u00e3o do perigo da vingan\u00e7a que ainda n\u00e3o foi aceite em alguns pa\u00edses, onde ainda se aplica a mencionada lei. A vida de Maom\u00e9 demonstra o conhecimento que possu\u00eda do perigo <em>strictu sensu<\/em> desta lei, e dos esfor\u00e7os que fez para evitar o seu cumprimento entre os mu\u00e7ulmanos. \u201cPrescreve-se-vos a lei de tali\u00e3o no homic\u00eddio [\u2026]\u201d (Alcor\u00e3o \u2013 parte I 1989:42).<\/p>\n\n\n\n<p>Na primeira vez que Maom\u00e9 foi atacado em Medina, foi defendido por um dos seus, que levou \u00e0 morte do agressor. Quando restabelecido, a vi\u00fava do falecido tornou-se esposa da v\u00edtima. Esta ser\u00e1 algo que vemos acontecer nos primeiros tempos de expans\u00e3o desta religi\u00e3o, e que tanta estranheza causa ao mundo ocidental. A poligamia encontra-se justificada no pr\u00f3prio Alcor\u00e3o, a ser aplicada nomeadamente no tempo da conquista isl\u00e2mica, e ela ser\u00e1 desenvolvida mais tarde.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3 v\u00f3s que credes! N\u00e3o \u00e9 l\u00edcito tomar em heran\u00e7a as mulheres contra sua vontade, nem impedi-las que contraiam novo matrim\u00f3nio para conservar parte do que lhes destes, a menos que hajam cometido uma torpeza manifesta. Se as odiais, \u00e9 poss\u00edvel que odieis algo em que Deus p\u00f5e um grande bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Se desejais trocar uma esposa por outra e haveis dado a uma delas um quintal, n\u00e3o tomeis nada dele no momento do div\u00f3rcio. Colh\u00ea-lo-\u00edeis com injusti\u00e7a e pecado manifesto? (Alcor\u00e3o\u2013 parte I 1989:80).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao casar com uma mulher, os filhos que ela tivesse passavam a ser posse do novo marido, e era sua obriga\u00e7\u00e3o proteg\u00ea-los, em todos os sentidos. Era tamb\u00e9m uma forma de os educar nos preceitos isl\u00e2micos. O objectivo, por\u00e9m, era sobretudo o de pacifica\u00e7\u00e3o, pelo alargamento dos la\u00e7os de sangue, entre Maom\u00e9 e a tribo de sangue da sua nova esposa, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas outras tentativas de assass\u00ednio foi ele sujeito nesta cidade, por parte dos seus inimigos de Meca e por conluio de algumas tribos, nomeadamente, dos judeus. Al\u00e9m da pobreza em que viviam os mu\u00e7ulmanos, tinham medo de serem extintos. \u201cIl y a la mal\u00e9diction lanc\u00e9e sur les musulmans par les juifs, et la pr\u00e9diction selon laquelle toutes les femmes musulmanes sont vou\u00e9es \u00e0 la sterilit\u00e9. Heuresement, un enfant n\u00e9. Abdallah-bem-Zubair accouche d\u2019un fils, robuste et plein de sant\u00e9. Donc, la race des musulmans n\u2019est pas condamn\u00e9e \u00e0 la sterilit\u00e9 et \u00e0 l\u2019extinction! Les proph\u00e9ties des Juifs \u00e9taient mensong\u00e8res\u201d (Gheorghiu 1999:178, tendo por base Ibn Hicham:150 e seguintes).<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca o conseguiram, sobretudo pela vis\u00e3o estrat\u00e9gica pol\u00edtica de Maom\u00e9, como iremos mencionar; esses atos, para os quais n\u00e3o havia retalia\u00e7\u00e3o, mas antes negocia\u00e7\u00e3o, trouxeram v\u00e1rios aderentes \u00e0 nova religi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos momentos mais complicados ocorreu quando Meca sitiou Medina, e com acordo de povos de cidades vizinhas, n\u00e3o permitindo o escoamento de seus produtos, nem a produ\u00e7\u00e3o de bens aliment\u00edcios, por exemplo, nos campos que circundavam a cidade. O pre\u00e7o de levantamento do cerco era a entrega de Maom\u00e9 e dos mu\u00e7ulmanos, ou a sua morte. O Profeta tenta negociar de v\u00e1rias formas a n\u00e3o necessidade de guerra com os coraixitas, sem efeito. Os mu\u00e7ulmanos tiveram que ir combater pela primeira vez numa despropor\u00e7\u00e3o enorme de pessoas e de apoio militar, como a falta de animais. Mu\u00e7ulmanos guerreiros convertidos tomaram o comando com o profeta e a primeira batalha (de <em>Bader<\/em>) tornou-se famosa para todos os isl\u00e2micos. Ela foi vencida com quase n\u00e3o derramamento de sangue isl\u00e2mico devido \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de anjos em pleno combate. Acreditemos ou n\u00e3o, vencer essa batalha \u00e9 algo inveros\u00edmil pelos padr\u00f5es humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Aux premiers chocs port\u00e9s par les Qoraichites, les musulmans reculent. Mahomet quite son poste de commandemnet, se m\u00e8le aux combatants et arrive aux premiers rangs, Il crie aux fid\u00e8les que tous ceux qui mourront aujourd\u2019hui, dans cteet bataille, monteront directement au Paradis. Les paroles du Proph\u00e8te sont un effet foudroyant [\u2026]. La bataille fait rage. Ardente. Avec des alternatives diverses. A cet instant, deux maradeurs, cach\u00e9s sur la colline et pr\u00eats \u00e0 s\u2019\u00e9lancer sur le champ de bataille pour piller les cadavres apr\u00e8s le combat, voient un nuage qui descend du ciel et touche la terre.<\/p>\n\n\n\n<p>Du nuage descendent des angees arm\u00e9s. Certains sont \u00e0 cheval; d\u2019autres, \u00e0 pied. L\u2019un des maradeurs meurt d\u2019\u00e9motion, en voyant descendre du ciel cette arm\u00e9e d\u2019anges. Coiff\u00e9s de casques aux panaches de couleur, les chevaux des anges portent eux aussi&nbsp; des pompons et des aigrettes de toutes les couleurs. Les anges fantassins et des anges cavaliers, \u00e0 peine decendus des cieux, se rangent en position de combattre aux cot\u00e9s des musulmans, contre les Qoraichites.<\/p>\n\n\n\n<p>A en croire les t\u00e9moins, l\u2019arm\u00e9e c\u00e9leste se composse d\u2019environ cinq mille anges. Toutefois on ne connait pas leur nombre exact; certais anges restent invisibles, afin de pouvoir d\u00e9capiter les paiens sans \u00eatre vus (Gheorghiu &nbsp;1999:212-213).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Conforme foi conseguindo convertidos em Medina, o estatuto de Maom\u00e9 foi gradualmente sendo alterado. Foi a primeira cidade \u00e1rabe onde se criou leis que n\u00e3o provinham de sangue, ou seja, leis pol\u00edticas, tendo por base a religi\u00e3o da submiss\u00e3o, criando por vezes situa\u00e7\u00f5es de conflito interno dentro dos mu\u00e7ulmanos, inclusive, mas permitindo uma sociedade mais organizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mahomet r\u00e9dige une constitution pour la ville autonome et ind\u00e9pendante de M\u00e9dine. Chaque tribu pay\u00e9nne, juive ou musulmane se conduira selon ses lois et ses traditions \u2013 autonome et libre \u2013 \u00e0 cot\u00e9 des autres tribus de la cit\u00e9-\u00e9tat. Cette constitution, commune \u00e0 tous qui habitent M\u00e9dine, sera, par la suite, divis\u00e9e en cinquante-deux articles. Les vingt-cinq premiers ont trait aux musulmans; les vingt-sept autres aux Juifs. La constitution est proclam\u00e9e dans l\u2019an 1 de l\u2019H\u00e9gire, c\u2019est-\u00e0 dire en 623 [\u2026]. \u00c9crite sur des feuilles, comme les livres sacr\u00e9s et comme les lois rev\u00e9l\u00b4\u00b4es par Dieu aux hommes, la constitution de M\u00e9dine est l\u2019oeuvre humainde du Proph\u00e8te. Elle n\u2019est pas dict\u00e9e par l\u2019ange Gabriel, comme le Coran. [\u2026] On ne mete en commun que les forces militaires lorsqu\u2019il s\u2019agit de d\u00e9fendre la ville.&nbsp; Sont communes aussi toutes les questions d\u2019int\u00earet gen\u00e9ral. L\u2019arbitre \u2013 pour l\u2019application de cette constitution est Mahomet [\u2026].<\/p>\n\n\n\n<p>Mahomet, bien qu\u2019il invite au islam tous les hommes, en leur montrant que la plus juste voie est l\u2019abandon \u00e0 Dieu, comme l\u2019a fait Abraham, n\u2019exclut du paradis ni les Juifs ni les chr\u00e9tiens, ni m\u00eame ceux qui trouvent Dieu par d\u2019autres voies que les voies oficielles (Georghiu 1999:182).<\/p>\n\n\n\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o social regida por lei escrita permitir\u00e1 que nos \u00faltimos anos da sua vida, tenha sido negociada a permiss\u00e3o da peregrina\u00e7\u00e3o anual \u00e1rabe a Meca, interdita aos mu\u00e7ulmanos \u00e0 \u00e9poca. Chegaram \u00e0s portas da cidade e n\u00e3o lhes foi permitida a entrada. Negociou ent\u00e3o a peregrina\u00e7\u00e3o no ano seguinte, e conseguiu-o, tendo a popula\u00e7\u00e3o de Meca, no entanto, nos dois dias estipulados, sa\u00eddo da cidade. No final desses dias, os mu\u00e7ulmanos retornaram a Medina.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Maom\u00e9, o estratega pol\u00edtico-militar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que tenha sido aqui exposto resumidamente, a expans\u00e3o militar deste povo foi lenta no in\u00edcio e muito r\u00e1pida no final do dec\u00e9nio que levaram a converter (usualmente pelas armas) a Ar\u00e1bia. A na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe foi das primeiras do mundo e, como assumido por Maom\u00e9, o seu tra\u00e7o de uni\u00e3o era a f\u00e9 comum, e n\u00e3o s\u00f3 o territ\u00f3rio, que somente para um ignorante o pode considerar uniforme. Esta compreens\u00e3o ajuda-nos a perceber algumas das quest\u00f5es geopol\u00edticas atuais que envolvem os pa\u00edses dessa zona, que sabem pertencer \u00e0 grande na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Se os judeus se definem tamb\u00e9m do mesmo modo, o seu territ\u00f3rio flu\u00eddo tornou-se mais definido ap\u00f3s a 2\u00aa guerra, mas est\u00e3o rodeados de vizinhos como os quais n\u00e3o sabem estabelecer la\u00e7os de cordialidade (o que vai contra os preceitos religiosos judeus, ali\u00e1s). Eis um erro que Maom\u00e9 sabia que devia tentar evitar a todo o custo. A cria\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio isl\u00e2mico ocorre ap\u00f3s a morte do profeta, e referimo-nos apenas \u00e0 base da f\u00e9 isl\u00e2mica que desde o seculo VII se mantem. A conquista desse espa\u00e7o territorial em 10 anos foi um fen\u00f4meno que nos devia fazer pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pretendendo ser uma especialista em pol\u00edtica militar, se a dimens\u00e3o guerreira fundacional do Isl\u00e3o (contr\u00e1ria, por exemplo, \u00e0 do cristianismo que cresceu no mart\u00edrio durante mais de 300 anos) sempre me surpreendeu, a expans\u00e3o e rapidez com que se efetuou faz-me pensar que aquele homem tinha efetivamente um dom. Podia n\u00e3o ser profeta, mas foi um grande estrategista militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme se avan\u00e7a de convers\u00e3o em convers\u00e3o, numa primeira fase, para batalha em batalha, numa outra, a personagem de Maom\u00e9 vai-se tamb\u00e9m modificando. A conquista de Meca (onde falece) foi o seu maior trunfo e para a conseguir teve que sacrificar deliberadamente companheiros. Ao analisarmos o seu percurso de chefe militar verificamos a sua tentativa de obter submiss\u00e3o sem ser pela for\u00e7a (armas, fome, etc). Da\u00ed a sua usual estrat\u00e9gia de casar com mulheres de rivais mortos pelos fi\u00e9is de <em>Allah<\/em>, ou por estimular o casamento e alian\u00e7as comerciais entre grupos rivais, selando usualmente pela ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e casamento de pessoas de tribos rivais.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazia-o por vezes ostensivamente, mas usualmente com descri\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gia indireta, com recurso ao \u2018terceiro homem\u2019, muitas vezes personificado por ele, e cuja figura ainda hoje prepondera em grande parte de neg\u00f3cios no mundo isl\u00e2mico, sobretudo naqueles que denotam conflito. Refere-se \u00e0 solicita\u00e7\u00e3o negociadora do conflito por uma terceira pessoa\/comunidade (se o conflito \u00e9 entre comunidades), em quem ambas as partes em desaven\u00e7a confiam. Outra das suas estrat\u00e9gias consistia em utilizar a maledic\u00eancia e o boato para derrotar aliados contra os mu\u00e7ulmanos. Utilizou-a, por exemplo, num momento especialmente cr\u00edtico, aquando da alian\u00e7a aparentemente secreta existente entre os coraixitas de Meca e a comunidade judaica de Medina para captura ou morte de mu\u00e7ulmanos. Os coraixitas garantiram aos Judeus que eles seriam poupados da programada invas\u00e3o de Medina; em troca, os judeus isolariam os mu\u00e7ulmanos dentro da cidade, onde viviam em paz com os mu\u00e7ulmanos, especialmente ap\u00f3s a constitui\u00e7\u00e3o da cidade-estado, j\u00e1 aqui referida. Maom\u00e9, pela calada, fez circular rumores contr\u00e1rios, nunca assumindo que tinha conhecimento deste acordo, n\u00e3o desencadeando nenhum conflito contra os Judeus dentro da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionn\u00e9 par l\u2019exactitude de ces bruits; Mahomet r\u00e9pond: [\u2026] \u2018Peut-\u00eatreleur avons-nous comande d\u2019agir ainsi\u2019 [\u2026].<\/p>\n\n\n\n<p>Ce sont des paroles sibyllines. Elles peuvent \u00eatre interpr\u00e9t\u00e9s de toutes les fa\u00e7ons. Mais le doute et la m\u00e9fiance s\u2019emparent des deux camps. La d\u00e9l\u00e9gation qoraichite qui doit entrer dans M\u00e9dine la nuit suivante, afin de discuter du deuxi\u00e8me front derri\u00e8re les musulmans, prend peur.<\/p>\n\n\n\n<p>Ils ont tous peur d\u2019\u00e8tre faire prisioniers par les Juifs et livr\u00e9s \u00e0 Mahomet. [\u2026] Les Juifs qui sont, eux aussi, fort m\u00e9fiants [\u2026] demandent des otages aux Qoraichites, afin d\u2019\u00eatre surs qu\u2019ils ne seront pas abandonn\u00e9s, une fois le combat commenc\u00e9. [\u2026] Laissant la question sans r\u00e9ponse, les Qoraichites demandent aux Juifs d\u2019attaquer Mahomet par derri\u00e8re, le premier samedi qui doit venir. Les Juifs voient dans cette invitation sacril\u00e8ge que l\u2019intention des Qoraichites de les blesser dans leurs sentiments religieux, pour le livrer ensuite \u00e0 Mahomet. Seuls les ennemis peuvent demander aux Juifs de se battre au samedi (Georghiu 1999:261-262, com cita\u00e7\u00e3o de Ibn Hajar, <em>Isabah<\/em>, nr. 2074).<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, quando os fins justificavam os meios (no seu entender), exigia a submiss\u00e3o devida \u00e0 vontade de <em>Allah<\/em>, via seu profeta (sendo Gabriel o Hermes). Essa submiss\u00e3o podia implicar chacina, embora os seus soldados (e mulheres que os acompanhavam devido \u00e0 for\u00e7a psicol\u00f3gica que lhes davam com os seus gritos e incentivos orais, ajudando fisicamente&nbsp; na batalha se os seus homens tivessem a vida em perigo) estavam proibidos de torturar, saquear totalmente, violar\u2026os usuais horrores colaterais de qualquer guerra. Matar quem mostrava resist\u00eancia \u00e0 f\u00e9 n\u00e3o foi nunca a primeira escolha de Maom\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta linha de atua\u00e7\u00e3o, outra estrat\u00e9gia consistia na tentativa de converter popula\u00e7\u00f5es mais abertas \u00e0 f\u00e9 monote\u00edsta antes de incidir no territ\u00f3rio que lhe interessava especialmente. Primeiro os vizinhos dos territ\u00f3rios mais importantes. Era uma forma de cerco, evidentemente, mas sem ser pela for\u00e7a. Uma press\u00e3o cont\u00ednua que facilitava imenso a conquista pelas armas se necess\u00e1rio, pois n\u00e3o havia por onde fugir. Da\u00ed a import\u00e2ncia da convers\u00e3o dos n\u00f4mades, dif\u00edcil, mas muito importante para o alargamento da f\u00e9 nas tribos e cidades sedent\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2018You won\u2019t built a house starting by the roof and working down, you start with the foundation\u2019. They say \u2018What does that mean?\u2019. He said, \u2018The Foundation is our neighbour whom we must win. The neighboour is where we start [\u2026]\u2019 (Williams 2003:25, citando John the Dwarf 39).<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 no seu processo de morre foi o profeta um estratega; tendo tido tempo para decidir quem lhe sucederia, deixou em aberto uma solu\u00e7\u00e3o que implicaria negocia\u00e7\u00e3o entre os pretendentes mais evidentes. N\u00e3o tendo tido grande sucesso, o islamismo continuou a expandir-se mesmo com divis\u00f5es internas e ocupou na Europa, por exemplo, territ\u00f3rios durante sete s\u00e9culos (como os reinos que constituem a atual Espanha).<\/p>\n\n\n\n<p><em>Outras considera\u00e7\u00f5es<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Estava este artigo quase completo, viajei (de Portugal para um pa\u00eds da Comunidade Europeia) com a obra mencionada no t\u00edtulo a um pa\u00eds europeu, de modo a rever cita\u00e7\u00f5es que poderiam ser mais ajustadas ao que estava j\u00e1 escrito. A escala do voo fez-se num pa\u00eds terceiro, tamb\u00e9m da Comunidade Europeia (Espa\u00e7o Schengen).<\/p>\n\n\n\n<p>De regresso a casa, ap\u00f3s 10 dias, a Europa encontrava-se em alerta m\u00e1ximo de ataque terrorista. O percurso a\u00e9reo era o mesmo que \u00e0 ida. Passei a alf\u00e2ndega; esperei pela indica\u00e7\u00e3o da porta de entrada para o segundo voo enquanto comia; quando ela surgiu, comecei a deslocar-me e surgiu um segundo posto de alf\u00e2ndega. Pensei por quantos postos estariam a passar pessoas que n\u00e3o da Comunidade Europeia. Neste segundo, as m\u00e1quinas eram mais complexas; depois de ter sido revistada 3 vezes minuciosamente ao n\u00edvel corporal, segui para ir buscar a bagagem. Estava sob alerta, a minha pequena bagagem, com uma luz vermelha. Mandaram-me abrir a mala, e foi-me dito que o livro acusara explosivos. Confesso ter tido que me controlar para n\u00e3o me rir. Foi chamada&nbsp; a Pol\u00edcia; vieram dois, e pediram-me que eu pegasse no livro; assim fiz. Nada aconteceu, obviamente, tendo-me depois sido perguntado, pelos pol\u00edcias, de onde vinha e para onde ia (sem inten\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, contudo). Respondi, e mandaram-me seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos queremos viver em seguran\u00e7a, mas atos deste tipo apenas fomentam a indigna\u00e7\u00e3o (e bem) no mundo isl\u00e2mico, e justificam, sem d\u00favida, a necessidade de artigos como este, no seu prop\u00f3sito.<\/p>\n\n\n\n<p><em>BIBLIOGRAFIA:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>ALCOR\u00c3O \u2013 parte I (1989). Mem Martins: Publica\u00e7\u00f5es Europa-Am\u00e9rica, Lda, 2\u00aa ed.<\/p>\n\n\n\n<p>ARMSTRONG, Karen (1994),A History of God.New York: Ballantine Books.<\/p>\n\n\n\n<p>BARNSTONE, Willis (ed.) 2005),The Other Bible \u2013 Ancient Alternative Scriptures; Gnostic Gospels; Dead Sea Scrolls; Visionary Wisdom Texts; Christian Apocryphia; Jewish Pseudopigrapha; Kabbalah<em>. <\/em>New York: Edition Harper Collins.<\/p>\n\n\n\n<p>GHEORGHIU, Constantin Virgil (1965). La jeunesse du docteur Luther. Moragis: Editinons Plon.<\/p>\n\n\n\n<p>GHEORGHIU, Constantin Virgil (1979). Christ au Leban. Moragis: Plon.<\/p>\n\n\n\n<p>GHEORGHIU, Constantin Virgil (1999). La vie de Mahomet. Monaco: Editions du rocher.<\/p>\n\n\n\n<p>GIRARD, R\u00e9n\u00e9 (1972). La violence et le sacr\u00e9. &nbsp;Paris: Editions Bernard Grasset.<\/p>\n\n\n\n<p>GIRARD. R\u00e9n\u00e9 (1978). Des choses cach\u00e9es depuis la fondation du monde. Paris: &nbsp;Editions Bernard Grasset.<\/p>\n\n\n\n<p>JACOBS, Louis (1976). Jewish mystical testimonies. Jerusalem: Keter Publishing House.<\/p>\n\n\n\n<p>MORIN, Edgar (1992). \u201cFrom the Concept of System to the Paradigm of Complexity\u201d. Journal of Social and Evolutionary Systems, v. 15, n\u00ba 4: 371-385.<\/p>\n\n\n\n<p>SAAVEDRA, In\u00eas; OLIVEIRA, CC (2020). \u201cFilosofia da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o formal e complexidade na interven\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria\u201d.&nbsp;Filosofia e Educa\u00e7\u00e3o,&nbsp;v. 11, n\u00ba 3: 509-534.<\/p>\n\n\n\n<p>SHAFAL, Elif (2015). The forty rules of love. London: Pinguin Books.<\/p>\n\n\n\n<p>SWINDOLL Charles S. Paul (2002). A man of grace and grit. Nashville: The W. Publishing Group.<\/p>\n\n\n\n<p>WILLIAMS, Rowan (2003). Silence and honey cakes. The wisdom of the desert. Oxford: Lion Publishing plc.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NSF &#8211; BIBLIOTECA DAS IDEIAS RELIGI\u00c3O Reflex\u00f5es em torno da obra de Virgil Gheorghiu La&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10958,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[519],"tags":[47,216],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg",445,238,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA-300x160.jpg",300,160,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg",445,238,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg",445,238,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg",445,238,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg",445,238,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg",445,238,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg",445,238,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg",445,238,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA.jpg",445,238,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/MECA-400x238.jpg",400,238,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/biblioteca-das-ideias\/\" rel=\"category tag\">BIBLIOTECA DAS IDEIAS<\/a>","tag_info":"BIBLIOTECA DAS IDEIAS","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10955"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10955"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10955\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10964,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10955\/revisions\/10964"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10958"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10955"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10955"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10955"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}