{"id":10961,"date":"2024-02-27T16:40:14","date_gmt":"2024-02-27T16:40:14","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=10961"},"modified":"2024-02-27T16:40:18","modified_gmt":"2024-02-27T16:40:18","slug":"praticas-transnacionais-num-entreposto-comercial-da-rota-da-seda-argelinos-e-egipcios-em-yiwu-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2024\/02\/27\/praticas-transnacionais-num-entreposto-comercial-da-rota-da-seda-argelinos-e-egipcios-em-yiwu-china\/","title":{"rendered":"Pr\u00e1ticas transnacionais num entreposto comercial da \u201cRota da Seda\u201d: argelinos e eg\u00edpcios em Yiwu (China)"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">BIBLIOTECA DAS IDEIAS  <\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">ECONOMIA<\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"http:\/\/Universit\u00e9 d\u2019Aix-Marseille (AMU) \u2013 Marselha \u2013 Fran\u00e7a. said.belguidoum@wanadoo.fr\">Said Belguidoum<\/a><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"http:\/\/Laboratoire Interdisciplinaire, Solidarit\u00e9s, Soci\u00e9t\u00e9s, Territoires \u2013 Universit\u00e9 de Toulouse II \u2013 Jean-Jaur\u00e8s \u2013 Fran\u00e7a. olivier.pliez@univ-tlse2.fr\">Olivier Pliez<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/A \u201cRota da Seda\u201d \u00e9 uma met\u00e1fora que n\u00f3s utilizamos para destacar este tipo de mundializa\u00e7\u00e3o discreta que articula atrav\u00e9s das redes diferentes mercados pelo mundo, e especificamente para nosso objeto de estudos, os mercados Asi\u00e1ticos, os do Oriente M\u00e9dio, de Dubai e dos pa\u00edses do Magreb.\">Rota da Seda<\/a> | <a href=\"http:\/\/Tradu\u00e7\u00e3o de Marcos Roberto Mariano Pina \u2013 Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia \u2013 PPGS \u2013 Universidade Federal de S\u00e3o Carlos \u2013 UFSCar \u2013 S\u00e3o Carlos \u2013 Brasil.\">Tradu\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"540\" height=\"385\" data-id=\"10962\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10962\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu.jpg 540w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu-300x214.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:37px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Resumo: Yiwu \u00e9 um dos mais importantes mercados grossistas do mundo. Ao mesmo tempo um distrito industrial e um bairro urbano cosmopolita. Esta cidade da prov\u00edncia de Zhejiang, tr\u00eas horas distante de trem de Shangai, consolidou-se depois dos anos 2000 como uma das principais pra\u00e7as de sa\u00edda para as \u201cnovas rotas da seda\u201d fornecedoras de <em>small commodities <\/em>para grande parte do mercado mundial. Este artigo tem como objetivo compreender melhor como a partir destas rotas foi poss\u00edvel se estabelecer na Arg\u00e9lia e no Egito mercados com influ\u00eancia nacional e com conex\u00f5es internacionais, e como se consolidam estes entrepostos transnacionais e a presen\u00e7a desses comerciantes, donos de restaurantes, tradutores, compradores e migrantes \u00e1rabes. Esta \u00e9 uma mundia- liza\u00e7\u00e3o informal, por\u00e9m poderosa, que se desenha e insere a \u00c1frica do Norte nas redes globais do com\u00e9rcio transnacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Palavras-chave: China; mundo \u00e1rabe; rotas transnacionais; mundializa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Transnational practices in a \u201cSilk Road\u201d trading post: Algerians and Egyp- tians in Yiwu (China)<\/h2>\n\n\n\n<p>Abstract: <em>Yiwu (China) is one of the biggest wholesale markets in the world. Both an industrial district and a cosmopolitan urban neighborhood, this city of the Zhejiang province, South of Shangai, three hours of train away from it, has positioned itself since the 2000s as one of the major starting places for the \u201cnew silk ro- ads\u201d, supplying in small commodities a vast part of the world\u2019s market. This article aims at better understanding how, from these routes, trading places have been created in Algeria and Egypt with a national influence and international connections, and how a transnational trading post is built up, where the presence of Arab entrepreneurs, restaurant owners, translators, purchasers or migrants is set to be- come a permanent feature. It is an inconspicuous globalization that is shaping up, anchoring North Africa into the global networks of transnational exchanges.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Key Words: <em>China; Arab World; Transnational Routes; Globalizations.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Dezenas de milhares de comerciantes do mundo inteiro v\u00eam se abastecer em Yiwu, considerado o mais importante mercado atacadista do mundo no setor de artigos de baixo custo. Ainda que distante do modelo da cidade global, a influ\u00eancia de Yiwu n\u00e3o deixa de ser mundial. Simultaneamente distrito indus- trial e bairro urbano cosmopolita, estud\u00e1-la fornece um ponto de partida para a identifica\u00e7\u00e3o e o rastreamento das rotas e dos espa\u00e7os urbanos discretos de instala\u00e7\u00e3o das redes \u00e1rabes da mundializa\u00e7\u00e3o por baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Yiwu \u00e9 uma cidade da prov\u00edncia de Zhejiang que est\u00e1 situada 280 km a su- deste de Shangai e se firmou no in\u00edcio dos anos 2000 como um dos pontos de partida para as novas \u201cRotas da Seda\u201d, fornecendo vestimentas de baixo pre\u00e7o e produtos de consumo corriqueiros (<em>small commodities<\/em>) para uma grande parte do mercado global.<\/p>\n\n\n\n<p>As pesquisas que realizamos por mais de tr\u00eas anos5 na Arg\u00e9lia e no Egito demonstram o crescimento de import\u00e2ncia de Yiwu, que se firmou como um<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>Este trabalho de campo foi realizado em conjunto entre 11 e 18 de julho de 2012 em Yiwu (China). Ele se inscreve em uma pesquisa em curso sobre as rotas, as redes sociais e os mercados transnacionais entre o mundo \u00e1rabe (Arg\u00e9lia e Egito) e a China. Ele se apoia em dois programas: Espa\u00e7os Urbanos Transnacionais da Arg\u00e9lia Contempor\u00e2nea \u2013 EUTAC \u2013 e AIRD-STDF ECOMIG (Economic Crisis, Migration and Development in Egypt), coordenado por Sophie Bava, que financiou a miss\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>dos principais destinos de empres\u00e1rios argelinos do setor de varejo, superando pra\u00e7as comerciais como Marselha (cujo papel se tornou marginal) e sobretudo as do Oriente M\u00e9dio e Dubai. Esses empres\u00e1rios do varejo, atores essenciais no novo dinamismo comercial urbano, partiram em busca das rotas das mercado- rias, colocando em cena redes eficazes e discretas de abastecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconstruir essas novas \u201cRotas da Seda\u201d nos permitir\u00e1 compreender melhor como a partir delas foi poss\u00edvel surgir na Arg\u00e9lia mercados de influ\u00eancia nacional e conex\u00f5es internacionais. Temos como exemplo duas localidades no leste da Arg\u00e9lia, El Eulma e A\u00efn Fakroun, que ilustraram o florescimento deste novo tipo de cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A visita de campo teve dois grandes objetivos:<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li>Estudar as transforma\u00e7\u00f5es em Yiwu, notadamente no bairro \u201cex\u00f3tico\u201d, polo do com\u00e9rcio com os pa\u00edses \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanos, e um observat\u00f3rio privi- legiado da constru\u00e7\u00e3o local de um mercado transnacional.<\/li>\n\n\n\n<li>Pesquisar os comerciantes argelinos e eg\u00edpcios para conhecer melhor as trajet\u00f3rias, os perfis e as formas de estrutura\u00e7\u00e3o de suas redes. Para al\u00e9m da observa\u00e7\u00e3o do local, a visita de campo engendrou novas quest\u00f5es sobre es- ses empres\u00e1rios, donos de restaurantes, tradutores, compradores e migrantes, sobre sua adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade chinesa e sobre a consolida\u00e7\u00e3o de sua presen\u00e7a l\u00e1.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Yiwu, o entreposto mundial de <em>small commodities<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Yiwu \u00e9 hoje uma cidade multimilion\u00e1ria que acomoda pelo menos 1,5 milh\u00e3o de migrantes vindos de todas as regi\u00f5es da China (Guiheux, 2013). Ela \u00e9 percebida e pensada, sobretudo, como um <em>show room <\/em>em escala global, especializada na venda por atacado de artigos de baixo custo, como eletrodom\u00e9sticos, itens de papelaria, roupas, brinquedos e objetos religiosos. A melhor maneira de descre- v\u00ea-la \u00e9 enumerando seus superlativos: a \u00e1rea onde se encontram os mercados ultrapassa os 4.300.000 km\u00b2, 62.000 boxes oferecem 400.000 tipos de mercadorias trazidas por 100.000 fornecedores, e 35 feiras ocorrem l\u00e1 anualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Yiwu \u00e9 provavelmente \u00fanica tanto por sua amplitude quanto pela diversidade dos produtos ofertados. \u00c9 visitada por uma multiplicidade de compradores transnacionais, que frequentemente v\u00eam com pouco dinheiro, mas que aqui encontram maior variedade de produtos e podem abastecer seus cont\u00eaineres com diferentes mercadorias em vez de com apenas um tipo, como ocorre em outros mercados asi\u00e1ticos. Yiwu se tornou conhecida durante os anos 1990 como um dos maiores centros de falsifica\u00e7\u00e3o na China, onde em m\u00e9dia 80-90% de todas as mercadorias ofertadas infringiam leis de propriedade intelectual e mantinham conex\u00f5es fortes com mercados similares no Paraguai, no M\u00e9xico e na Tail\u00e2ndia. Como seus pre\u00e7os permanecem imbat\u00edveis, os compradores continuam vindo de todo o mundo, tanto os comerciantes que j\u00e1 disp\u00f5em de uma situa\u00e7\u00e3o estabelecida quanto aqueles que buscam fazer fortuna com o pequeno com\u00e9rcio transnacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o de mercadorias \u00e9 uma ind\u00fastria que prosperou em Yiwu como em outras regi\u00f5es da China (Mu Guo, 2010). A sua International Trade City (ITC), composta por um total de 42.600 lojas de f\u00e1brica, a maior parte delas com menos de 10 m\u00b2, forneceu a vitrine e a porta de acesso \u00e0s mercadorias pro- duzidas nos distritos industriais da regi\u00e3o de Yiwu, um ano ap\u00f3s a ades\u00e3o da China \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) em 2001. Pelo menos tr\u00eas quartos das transa\u00e7\u00f5es comerciais efetuadas na cidade concentram-se ali, bem como em alguns outros lugares de Yiwu. No ano de 2011, o mercado de Yiwu foi dividido em seis partes, que figuram entre as mais importantes fontes de mer- cadorias das redes da mundializa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica por baixo (o mercado Huan- gyuan de roupas, com 5.000 lojas, aberto em 2011; as ITC I, com 10.000 lojas, aberta em 2002; II, com 8.000 lojas; III, com 6.000 lojas; IV, com 16.000 lojas; e V, com 7.000 lojas, aberta em 2011), al\u00e9m das ruas especializadas de com\u00e9rcio, somando um total de mais de 170.000 lojas de f\u00e1brica de fornecedores chineses. Durante a d\u00e9cada de 1970 Yiwu era apenas mais uma cidade industrial na China, entre in\u00fameras outras, especializada na confec\u00e7\u00e3o de artigos de baixo custo, conforme a doutrina econ\u00f3mica da \u00e9poca, que estabelecia \u201cuma cidade, um produto\u201d. Contudo, em decorr\u00eancia da abertura econ\u00f3mica promovida por Deng Xiaoping em 1979, iniciou-se a concorr\u00eancia entre as cidades, que passaram a buscar clientes chineses, agora em um novo cen\u00e1rio de produ\u00e7\u00e3o concorrencial. Neste contexto, impulsionada pelos operadores comerciais e pelos poderes p\u00fablicos locais, j\u00e1 no ano de 1982 Yiwu se firmou como um mercado atacadista capaz de atrair as ind\u00fastrias especializadas antes dispersas pela zona rural de Zhejiang.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1990 se concluiu uma nova etapa deste processo quando os operadores respons\u00e1veis pelos mercados de Yiwu firmaram parcerias com operadores comerciais particulares de outras prov\u00edncias chinesas. No transcorrer dos anos 2000 j\u00e1 havia sido criada uma rede com quase 50 mercados na Rep\u00fablica Po- pular da China que dependiam diretamente de Yiwu. O contexto de crise finan- ceira nos pa\u00edses do Sudeste asi\u00e1tico (1997) e o ingresso da China junto \u00e0 OMC favoreceu a amplia\u00e7\u00e3o do n\u00famero de operadores comerciais internacionais que chegava ao pa\u00eds. Rapidamente Yiwu ampliou sua influ\u00eancia no com\u00e9rcio transnacional, e at\u00e9 os dias de hoje ao menos dois ter\u00e7os de todas as vendas que realiza t\u00eam por destino o mercado mundial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 1 <\/strong>&#8211; Os principais pa\u00edses importadores de produtos de Yiwu (2002-2011)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Posi\u00e7\u00e3o<\/strong><strong><\/strong><\/td><td><strong>2002<\/strong><strong><\/strong><\/td><td><strong>2006<\/strong><strong><\/strong><\/td><td><strong>2009<\/strong><strong><\/strong><\/td><td><strong>2011<\/strong><strong><\/strong><\/td><\/tr><tr><td>1\u00ba<\/td><td>EAU<\/td><td>EUA<\/td><td>EUA<\/td><td>EU<\/td><\/tr><tr><td>2\u00ba<\/td><td>R\u00fassia<\/td><td>EAU<\/td><td>EAU<\/td><td>ASEAN<\/td><\/tr><tr><td>3\u00ba<\/td><td>EUA<\/td><td>R\u00fassia<\/td><td>Alemanha<\/td><td>Ir\u00e3<\/td><\/tr><tr><td>4\u00ba<\/td><td>Coreia do Sul<\/td><td>Ucr\u00e2nia<\/td><td>Espanha<\/td><td>\u00cdndia<\/td><\/tr><tr><td>5\u00ba<\/td><td>Ucr\u00e2nia<\/td><td>Coreia do Sul<\/td><td>R\u00fassia<\/td><td>Egito<\/td><\/tr><tr><td>6\u00ba<\/td><td>Jap\u00e3o<\/td><td>Alemanha<\/td><td>Reino Unido<\/td><td>EAU<\/td><\/tr><tr><td>7\u00ba<\/td><td>Ar\u00e1bia Saudita<\/td><td>Espanha<\/td><td>It\u00e1lia<\/td><td>Ar\u00e1bia Saudita<\/td><\/tr><tr><td>8\u00ba<\/td><td>&nbsp;<\/td><td>Reino Unido<\/td><td>Brasil<\/td><td>Brasil<\/td><\/tr><tr><td>9\u00ba<\/td><td>&nbsp;<\/td><td>Panam\u00e1<\/td><td>Ir\u00e3<\/td><td>Iraque<\/td><\/tr><tr><td>10\u00ba<\/td><td>&nbsp;<\/td><td>Brasil<\/td><td>\u00cdndia<\/td><td>Arg\u00e9lia<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>Fonte: Yiwu Customs <a href=\"http:\/\/en.onccc.com\/\">(h<\/a>t<a href=\"http:\/\/en.onccc.com\/\">tp:\/\/en.onccc.com, <\/a>2002; <a href=\"http:\/\/old.echinacities.com\/\">http:\/\/old.echinacities.com, <\/a>2006; <a href=\"http:\/\/www.yiwumarketguide.com\/\">http:\/\/www.yiwumarketguide.com\/, <\/a>2009; <a href=\"http:\/\/www.yiwu-sourcing-agent.com\/\">http:\/\/www.yiwu-sourcing-agent.com, <\/a>2011).<\/p>\n\n\n\n<p>Abreviaturas: EAU: Emirados \u00c1rabes Unidos; EUA: Estados Unidos da Am\u00e9rica; UE: Uni\u00e3o Europeia; ASEAN: Association of South East Asian Nations.<\/p>\n\n\n\n<p>Gra\u00e7as ao aumento do pre\u00e7o do petr\u00f3leo nos \u00faltimos anos a demanda por bens de consumo no chamado mundo \u00e1rabe cresceu e influenciou as taxas de exporta\u00e7\u00e3o da China para esta regi\u00e3o, sobretudo posteriormente aos atentados de 11 de setembro, que encorajaram o afastamento dos importadores \u00e1rabes dos EUA e da Uni\u00e3o Europeia em busca de novas fontes de abastecimento. Em 2005 o volume de transa\u00e7\u00e3o comercial sino-\u00e1rabe era de 51,2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, qua- se dez vezes maior do que o observado em 1995, e em 2008 aumentou para 133 bilh\u00f5es de <a href=\"http:\/\/Cheng Donghong, Study and Revelations on China-Arab States, Economic and Trade Relationships. A Discussion on China-Arab States, Economic and Trade Forum \u2013 english.news.cn \u2013 2011-09-07 \u2013 http:\/\/ news.xinhuanet.com\/english2010\/china\/2011-09\/07\/c_131112714.htm.\">d\u00f3lares<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu-se, assim, uma oportunidade para as exporta\u00e7\u00f5es de artigos de bai- xo custo de Yiwu na dire\u00e7\u00e3o dos vastos mercados consumidores no Oriente M\u00e9dio e na \u00c1frica do Norte. Entre estes novos mercados dois pa\u00edses entraram na lista dos dez principais importadores de Yiwu a partir de 2002, a saber, Emirados \u00c1rabes Unidos e Ar\u00e1bia Saudita. Em 2011 j\u00e1 eram mais seis pa\u00edses, com o ingresso do Ir\u00e3, do Egito, do Iraque e da Arg\u00e9lia. Esta caracter\u00edstica nos faz pensar que o papel das grandes plataformas de revenda, como Dubai, entrou em decl\u00ednio em favor de rela\u00e7\u00f5es diretas entre as fontes de abasteci- mento e os compradores.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe historicamente uma rela\u00e7\u00e3o comercial entre Yiwu e o Golfo \u00c1rabe e P\u00e9rsico, particularmente com Dubai, que foi por muitos anos a principal inter- face entre China e mundo \u00e1rabe. Todavia, no decorrer dos anos 2000 cresceu o n\u00famero dos comerciantes que viajavam diretamente a Yiwu, sozinhos ou em pequenos grupos, contornando os intermedi\u00e1rios de Dubai a fim de conseguir pre\u00e7os mais baixos. A maior parte dos comerciantes \u00e1rabes relatam trajet\u00f3rias similares para o estabelecimento da China entre seus destinos de compra. Por exemplo, os compradores transnacionais da \u00c1frica do Norte, nos anos 1980, encontravam-se em Marselha, posteriormente na Turquia, nos Emirados \u00c1rabes Unidos e no Sul asi\u00e1tico (no final da d\u00e9cada de 1990). Eles entraram na China por etapas, depois de algumas viagens iniciais a Hong Kong, chegando \u00e0 parte continental em Guangzhou e Yiwu (Belguidoum; Pliez, 2012).<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Imers\u00e3o em Yiwu e seu \u201cbairro mu\u00e7ulmano\u201d<\/h1>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil dizer com precis\u00e3o quantos \u00e1rabes vivem ou transitam por Yiwu, mas a intensidade das liga\u00e7\u00f5es comerciais entre a cidade e os pa\u00edses <a href=\"http:\/\/De acordo com o Departamento de Com\u00e9rcio e Coopera\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica Estrangeira de Yiwu e sua dire- toria de Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio.\">\u00e1rabes<\/a> mostrou que no ano de 2011 ao menos 70% de seus 11.000 residentes es- trangeiros eram \u00e1rabes7, e que 200.000 compradores advindos do mundo \u00e1rabe visitam a cidade <a href=\"http:\/\/Orlando Crowcroft, 200,000 Arab shoppers visit Yiwu every year. City\u2019s market is a magnet for buyers looking for bargains, Business News Editor, June 2011, Gulf News.\">anualmente<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos urbanos, esta din\u00e2mica de mercado culmina em especializa\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o que as autoridades da cidade tentam organizar de alguma maneira. No fim da d\u00e9cada de 1990 surgiu um pequeno bairro em Binwang, pr\u00f3ximo ao primeiro centro de exposi\u00e7\u00e3o (atualmente fechado para restaura\u00e7\u00e3o), que se especializou no com\u00e9rcio com o mundo \u00e1rabe e mu\u00e7ulmano. Foi tamb\u00e9m na fronteira desse bairro que as autoridades decidiram instalar os escrit\u00f3rios de imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O bairro possui diferentes nomes, <em>sanmao chu <\/em>(distrito econ\u00f3mico n\u00famero 3) \u00e9 a sua designa\u00e7\u00e3o administrativa oficial. Os chineses o chamam com frequ\u00eancia de <em>alabo fan dian <\/em>(restaurante \u00e1rabe); os pr\u00f3prios \u00e1rabes o chamam de <em>maedah <\/em>(mesa), em uma refer\u00eancia ao primeiro restaurante eg\u00edpcio que foi constru\u00eddo no local. A prefeitura de Yiwu recentemente veio a rebatizar o bairro como Exotic Street, uma tentativa de destacar seu aspecto cosmopolita, voltado ao lazer e \u00e0 vida noturna, tanto para os comerciantes de passagem como para os residentes estrangeiros ou chineses, apagando as marcas identit\u00e1rias mais fortes associadas ao lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>O bairro Exotic Street \u00e9 composto por in\u00fameras ilhas atravessadas por cinco ruas paralelas repletas de lojas em cujos letreiros encontram-se caracteres nos idiomas chin\u00eas, \u00e1rabe e ingl\u00eas. O centro do bairro se localiza em uma grande pra\u00e7a para onde confluem as ruas, com restaurantes e hot\u00e9is uigures, \u00e1ra- bes e turcos. Essas ilhas se ligam umas \u00e0s outras atrav\u00e9s de ruas e ruelas que se cruzam e formam pequenas pra\u00e7as. Lojas de roupas, de tecidos, de artigos religiosos (uma rua inteira dedicada a este tipo com\u00e9rcio), escrit\u00f3rios de des- pachantes, hot\u00e9is, restaurantes e sal\u00f5es de cabeleireiro se sucedem pelas ruas. Todas as lojas s\u00e3o de comerciantes chineses, eg\u00edpcios, turcos, s\u00edrios e libaneses. O ambiente urbano \u00e9 muito particular: letreiros em \u00e1rabe e em chin\u00eas, restau- rantes de comida <em><a href=\"http:\/\/Alimentos que podem ser consumidos pelos isl\u00e2micos, a partir dos crit\u00e9rios de prepara\u00e7\u00e3o estipulados pela lei da Xaria (NT).\">hallal<\/a><\/em>, p\u00fablico numeroso e cosmopolita, que se distingue pelas vestimentas e pelo idioma falado, como uigures, huis, paquistaneses, \u00e1rabes, turcos e africanos. Fuma-se o narguil\u00e9 e bebe-se o ch\u00e1 ou o caf\u00e9 nos terra- \u00e7os dos restaurantes; nas carrocinhas come-se espetinhos com carne (hallal); os ambulantes e os cambistas ocupam as cal\u00e7adas, onde diferentes sotaques \u00e1rabes se escutam e se misturam.<\/p>\n\n\n\n<p>Argelinos, eg\u00edpcios, iraquianos, s\u00edrios, libaneses e iemenitas: as nacionalidades principais presentes em Yiwu t\u00eam os seus pr\u00f3prios hot\u00e9is e restaurantes, que servem tamb\u00e9m como ponto de encontro para v\u00e1rios comerciantes de passagem pela cidade. N\u00e3o apenas nos restaurantes, mas tamb\u00e9m nos sal\u00f5es de cabeleireiro e barbearias (encontramos pelo menos quinze deles pelo bairro) os comerciantes e os residentes se encontram, fazem neg\u00f3cios ou simplesmente se informam das novidades. Os gerentes das lojas s\u00e3o estrangeiros ou chineses, mas os funcion\u00e1rios s\u00e3o basicamente chineses, uigures ou huis mu\u00e7ulmanos e se comunicam em \u00e1rabe (All\u00e8s, 2011). \u00c9 em especial no fim do dia, quando a ITC fecha suas portas e o mercado noturno se instala, que o bairro se anima, que os restaurantes e seus terra\u00e7os se enchem, quase sempre at\u00e9 tarde da noite, gra\u00e7as \u00e0s diferen\u00e7as de fuso hor\u00e1rio com os locais de origem de seus visitantes. O perambular pelos pavilh\u00f5es de exposi\u00e7\u00e3o d\u00e1 ent\u00e3o lugar \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es ao redor das mesas dos restaurantes durante os momentos de sociabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O bairro condensa as atividades de Yiwu, um microcosmo onde se encontram os comerciantes de passagem e os novos migrantes, que tamb\u00e9m est\u00e3o por toda a cidade. Assim, entre a Exotic Street e o Mercado de Futian, ao longo dos dois quil\u00f3metros da avenida, como no interior da malha urbana que ela atravessa, as lojas e os escrit\u00f3rios de neg\u00f3cios, os letreiros em \u00e1rabe denunciam a sua presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Retratos e trajet\u00f3rias dos empres\u00e1rios migrantes do Egito e da Arg\u00e9lia<\/h1>\n\n\n\n<p>A descoberta de Yiwu pelos comerciantes argelinos ocorreu no fim dos anos 1990, quando figuras pioneiras, vindas de El Eulma, abriram ali seus escrit\u00f3rios. Em geral o trabalho de <em>trading <\/em>que realizam consiste em acompanhar os compradores junto aos fornecedores, atuar como tradutores, participar das negocia\u00e7\u00f5es, lidar com a papelada alfandeg\u00e1ria, verificar a conformidade da mercadoria e seu armazenamento em cont\u00eaineres, organizar o transporte mar\u00edtimo e servir de fiador junto aos fornecedores em rela\u00e7\u00e3o ao prazo de paga- mento das mercadorias.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como acontece com eg\u00edpcios, s\u00edrios, libaneses e turcos, que s\u00e3o as nacionalidades mais numerosas em Yiwu, um restaurante foi aberto por um despachante de Eulmi. Inicialmente chamado El Andaloucia, posteriormente \u00e0 mudan\u00e7a de propriet\u00e1rios chamado Tassili e depois El Bahdja, o restaurante desempenhou um papel central no apoio aos comerciantes de passagem pela ci- dade. Foi fechado em 2011 devido a uma opera\u00e7\u00e3o de renova\u00e7\u00e3o urbana empreendida naquela parte do bairro, e desde ent\u00e3o o \u00fanico restaurante gerido por um argelino n\u00e3o mais reabriu. Contudo, pontos de encontro para os argelinos surgiram rapidamente \u00e0 sua volta, em uma lanchonete e em dois hot\u00e9is chineses em frente \u00e0 Exotic Street.<\/p>\n\n\n\n<p>Os comerciantes transit\u00f3rios s\u00e3o numerosos, o que n\u00e3o surpreende, uma vez que existem na Arg\u00e9lia 34.000 importadores registrados e 80% de todos os bens de consumo n\u00e3o alimentares daquele pa\u00eds prov\u00eam da China. A presen\u00e7a deles em Yiwu \u00e9 cont\u00ednua por todo o ano, mesmo se \u00e9 na \u00e9poca das grandes feiras que a aflu\u00eancia de pessoas atinge seu <a href=\"Fonte: Alf\u00e2ndega argelina\">pico<\/a>. A dura\u00e7\u00e3o de suas estadias varia, mas raramente excede dez dias, que \u00e9 o tempo m\u00ednimo necess\u00e1rio para que se inteirem das novidades, fa\u00e7am as encomendas e \u00e0s vezes chequem suas cargas. O recurso aos despachantes, chamados traders, permite agilizar essas transa\u00e7\u00f5es. Os que chegam pela primeira vez ter\u00e3o inevitavelmente um contato e um endere\u00e7o na cidade, e tendo este apoio na chegada fecham suas encomendas mais rapidamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Cresce cada vez mais o n\u00famero de <em>traders <\/em>argelinos, cujo montante dificil- mente podemos precisar, que v\u00eam se instalar em Yiwu. Outros jovens origin\u00e1- rios de regi\u00f5es do Leste da Arg\u00e9lia (Setif, Bordj Bou Arredj, Constantina) ou da Cab\u00edlia e de Argel seguem o exemplo daqueles pioneiros que chegaram de El Eulmi. O n\u00famero destes jovens atinge algumas centenas11. Depois dos eg\u00edpcios, s\u00edrios, libaneses e turcos, os argelinos s\u00e3o a comunidade mais importante. Uma primeira tipologia pode ser delineada para eles12. H\u00e1 dois tipos de atores constitutivos dessa comunidade dos permanentes: s\u00e3o os grandes <em>traders <\/em>con- solidados e a mir\u00edade de rec\u00e9m-chegados tentando a sorte. Uma vintena dos grandes escrit\u00f3rios conhecidos pertencem aos primeiros migrantes argelinos que chegaram \u00e0 cidade no in\u00edcio dos anos 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses comerciantes lidam com os grandes neg\u00f3cios de exporta\u00e7\u00e3o para a Arg\u00e9lia e mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es com uma importante clientela. Empregam m\u00e3o de obra local e jovens (parentes e amigos) vindos de seu pa\u00eds natal. H\u00e1 dois ou tr\u00eas anos vem se desenvolvendo uma nova gera\u00e7\u00e3o de pequenos <em>traders <\/em>que entram em concorr\u00eancia com os grandes escrit\u00f3rios, mas ao mesmo tempo se aproveitam do volume dos fluxos comerciais com a Arg\u00e9lia para tentar abrir espa\u00e7o para seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios. Vindos diretamente da Arg\u00e9lia, s\u00e3o filhos ou ir- m\u00e3os de importadores e \u201caprenderam o of\u00edcio\u201d com algum parente instalado em Guangzhou ou Kuala Lumpur, na Mal\u00e1sia. Sua instala\u00e7\u00e3o comp\u00f5e um quadro estrat\u00e9gico que permite \u00e0 empresa familiar ter um ponto de apoio permanente na China. Enquanto esperam dispor de uma lista de clientes regulares, eles operam ilegalmente, sem nenhum tipo de documenta\u00e7\u00e3o, em sociedade com despachantes chineses ou trabalhando para grandes <em>traders <\/em>argelinos. S\u00e3o dezenas os <em>traders <\/em>sem documenta\u00e7\u00e3o que atuam por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>Os eg\u00edpcios s\u00e3o os desbravadores de Yiwu, o primeiro grupo em tamanho \u2013 ainda que seja dif\u00edcil estimar com precis\u00e3o sua dimens\u00e3o \u2013 e o destino principal dos produtos importados desde Yiwu por um pa\u00eds \u00e1rabe no ano de 2011. Identificamos no seio deste grupo perfis muito parecidos com os da comunidade argelina, por\u00e9m os eg\u00edpcios s\u00e3o mais numerosos e t\u00eam trajet\u00f3rias diversifica- das. Possuem pelo menos sete restaurantes na Exotic Street e foram eles os respons\u00e1veis pelo florescimento deste tipo de atividade, como ilustra o Maedah, o primeiro restaurante do g\u00eanero no bairro. Seus restaurantes atraem n\u00e3o apenas os conterr\u00e2neos de passagem na cidade, mas tamb\u00e9m numerosos cidad\u00e3os de<\/p>\n\n\n\n<ol type=\"1\">\n<li>Fomos informados de que haveria, com certeza, mais de quinhentos.<\/li>\n\n\n\n<li>Baseamo-nos em numerosas conversas, sob a forma de entrevistas livres e de entrevistas semiestrutura- das (tivemos oportunidade de realizar uma dezena).<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>outros pa\u00edses \u00e1rabes que n\u00e3o podem contar com a presen\u00e7a de restaurantes de seu pa\u00eds no local, como \u00e9 o caso dos argelinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes, seus gerentes foram pioneiros no com\u00e9rcio transnacional, ten- do tido uma primeira experi\u00eancia migrat\u00f3ria em pa\u00edses do Golfo P\u00e9rsico e \u00c1ra- be, onde firmaram os primeiros contatos que os levaram \u00e0 China, especialmente Yiwu, no in\u00edcio dos anos 2000. Alguns dos primeiros propriet\u00e1rios de restau- rantes, at\u00e9 meados dos anos 2000, j\u00e1 exerciam antes esta mesma atividade; mas a maioria veio para Yiwu para diversificar suas atividades econ\u00f4micas, dedi- cando-se \u00e0 importa\u00e7\u00e3o. Em um setor t\u00e3o concorrencial, muitos deles afirmam que se tornou mais vantajoso e relevante abrir um restaurante em parceria com um s\u00f3cio chin\u00eas, que serve de \u201claranja\u201d em troca de pagamento pelo servi\u00e7o prestado. Isso lhes permitiu lucrar com receitas extraordin\u00e1rias resultantes da internacionaliza\u00e7\u00e3o da cidade durante os anos 2000, sem terem de efetuar as m\u00faltiplas viagens que a fun\u00e7\u00e3o de importador requer.<\/p>\n\n\n\n<p>Os gerentes dos restaurantes ficam no local durante tr\u00eas ou quatro anos e depois passam o controle do estabelecimento para um membro de sua fam\u00edlia ou repassam o neg\u00f3cio, ou ainda o fecham, para \u00e0s vezes reabri-lo em segui- da. Nesse caso, frequentemente ele sobe de categoria. A m\u00e3o de obra \u00e9 local (chinesa) e familiar, contando com membros jovens da fam\u00edlia do propriet\u00e1rio, que j\u00e1 possuem experi\u00eancia migrat\u00f3ria, tendo deixado o Cairo e a regi\u00e3o do Delta do Nilo para ir para Yiwu. Estes v\u00eam de in\u00edcio provisoriamente, com um visto de visitante que precisa ser renovado em Hong Kong a cada tr\u00eas meses, mas a recorr\u00eancia dessas viagens incita alguns deles a abrir seus pr\u00f3prios restaurantes e caf\u00e9s, com aux\u00edlio da experi\u00eancia e de empr\u00e9stimos financeiros do patr\u00e3o. Muitos locais foram abertos dessa maneira desde 2005, por\u00e9m fecharam com a mesma rapidez.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de meados dos anos 2000 a frequenta\u00e7\u00e3o de Yiwu s\u00f3 fez crescer e com ela tamb\u00e9m o n\u00famero daqueles que buscam aventurar-se no com\u00e9rcio transnacional. Os primeiros eg\u00edpcios que foram at\u00e9 l\u00e1 tomaram conhecimento da cidade atrav\u00e9s de canais de comunica\u00e7\u00e3o variados. Muitos eram antigos emigrados da regi\u00e3o do Golfo que se tornaram empreendedores transnacio- nais; outros costumavam negociar com empresas fornecedoras europeias, que deslocaram parte de sua produ\u00e7\u00e3o para a China e abandonaram certos setores de atividade, preferindo lucrar com a diversidade dos produtos fabricados nas pequenas e m\u00e9dias ind\u00fastrias locais. N\u00e3o querendo perder compradores, es- sas empresas os convidavam para visitar a China e conhecer suas novas uni- dades produtivas, fazendo ao mesmo tempo que despertasse neles o interesse por Yiwu, onde poderiam encontrar outros acess\u00f3rios imprescind\u00edveis para seu<\/p>\n\n\n\n<p>ramo de atividades. Outros foram diretamente sondados pelos intermedi\u00e1rios chineses ou pela c\u00e2mara de com\u00e9rcio chinesa no Egito, uma vez que j\u00e1 possu\u00ed- am uma posi\u00e7\u00e3o de destaque entre os importadores do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo mais recente e importante, que garante a Yiwu parte majorit\u00e1ria de sua frequenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 constitu\u00eddo por um conjunto muito mais heterog\u00eaneo de indiv\u00edduos e pequenos grupos que tentam a \u201caventura das importa\u00e7\u00f5es\u201d com um primeiro neg\u00f3cio apoiado na coleta de fundos entre familiares ou grupos do mesmo povoado. Assim, como no caso dos primeiros donos de restaurantes, esses importadores chegam a Yiwu depois de uma experi\u00eancia internacional pr\u00e9via. As jovens gera\u00e7\u00f5es se inserem em um movimento mais amplo de democratiza\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de importador, que, mesmo com o perigo de perderem o capital investido em compras arriscadas, acaba beneficiando os pioneiros do movimento, alguns dos quais se reconverteram na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os aos importadores. In\u00fameras gera\u00e7\u00f5es de importadores e <em>traders <\/em>se acotovelam em Yiwu e no com\u00e9rcio transnacional. Os grupos homog\u00eaneos dos primeiros anos da rota chinesa v\u00e3o se estratificando e se diversificando em outros grupos que se beneficiam da presen\u00e7a uns dos outros.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Yiwu, rumo ao estabelecimento duradouro de um entreposto comercial global?<\/h1>\n\n\n\n<p>O modelo de Yiwu fez escola no mundo inteiro. Estigmatizada por institui- \u00e7\u00f5es econ\u00f3micas internacionais \u2013 Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) \u2013, figurando na lista priorit\u00e1ria de vigil\u00e2ncia do United States Trade Representative (USTR) e da Uni\u00e3o Europeia, devido ao papel que a cidade desempenha na propaga\u00e7\u00e3o dos produtos falsificados tanto nos pa\u00edses do norte quanto do sul, ela est\u00e1 na origem da forma\u00e7\u00e3o de mercados populares de import\u00e2ncia nacional e transnacional com milhares de comer- ciantes e compradores.<\/p>\n\n\n\n<p>Yiwu \u00e9 representativa das novas formas locais de governan\u00e7a de mercados e cidades que surgiram gra\u00e7as ao contexto da transnacionaliza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio. Espa\u00e7os nos quais a intensidade das transa\u00e7\u00f5es comerciais cresce mesmo em per\u00edodos de crise. A forma\u00e7\u00e3o deste tipo de cidade-mercado, impulsionada pela liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica da China nos anos 1970, \u00e9 bem conhecida gra\u00e7as ao grande n\u00famero de trabalhos que foram feitos pelos economistas, que demonstraram que a sua internacionaliza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou antes mesmo de a China aderir oficialmente \u00e0 OMC no ano de 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje a cidade oferece condi\u00e7\u00f5es de hospitalidade a compradores que v\u00eam de todas as partes do mundo, marcando a passagem do \u201cempres\u00e1rio-migrante\u201d ao \u201cturista-comercial\u201d, com toler\u00e2ncia \u00e0s transa\u00e7\u00f5es l\u00edcitas e il\u00edcitas, e uma articula\u00e7\u00e3o estreita entre desenvolvimento econ\u00f3mico e urbano local. Centenas de negociantes estrangeiros vivem na cidade, animando suas redes internacionais e os mercados intermedi\u00e1rios, que se multiplicam dentro e fora do territ\u00f3- rio chin\u00eas, criados pela iniciativa de comerciantes pioneiros que a frequentavam. Dez anos ap\u00f3s as primeiras instala\u00e7\u00f5es de comerciantes migrantes em Yiwu, assistimos a um processo de constitui\u00e7\u00e3o de um entreposto comercial perma- nente. Ocorreu o mesmo com Belsunce a partir dos anos 1970, santu\u00e1rio do com\u00e9rcio transnacional do Magreb (Tarrius, 1995). Hoje em dia estes espa\u00e7os se multiplicam na \u00c1sia oriental (Bertoncello et al., 2009), impulsionados por uma popula\u00e7\u00e3o jovem (22 a 35 anos), empreendedora e disposta a se fixar nestas regi\u00f5es, conforme sugerem certos ind\u00edcios. A disponibilidade de moradia e a remunera\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel (2,5% de comiss\u00e3o para cada transa\u00e7\u00e3o realizada) permitem alugar apartamentos e se estabelecer de forma est\u00e1vel na sociedade chine- sa. A metade de nossos entrevistados j\u00e1 est\u00e1 na China h\u00e1 mais de cinco anos, e nenhum deles demonstra a m\u00ednima inten\u00e7\u00e3o de retornar ao seu pa\u00eds de origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferentemente dos pioneiros que aprenderam o idioma chin\u00eas no decorrer de seu trabalho, as novas gera\u00e7\u00f5es iniciam cursos de chin\u00eas em escolas privadas assim que chegam ao pa\u00eds. Encontramos em Yiwu uma dezena de cursos inten- sivos, cujo pre\u00e7o \u00e9 de 800 euros, com carga hor\u00e1ria de 180 horas em seis meses de curso. Se o aprendizado met\u00f3dico da l\u00edngua \u00e9 um signo revelador desta dis- posi\u00e7\u00e3o para se estabelecer na China, os casamentos com chinesas aparecem como elementos ainda mais tang\u00edveis desta disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois de nossos entrevistados acabaram se casando com chinesas \u2013 mul\u00e7umanas, eles fizeram quest\u00e3o de afirmar. Este seria um sinal da sua vontade de se fixar no local permanentemente? Uma coisa \u00e9 certa, a presen\u00e7a argelina j\u00e1 ultrapassou a fase da simples prospec\u00e7\u00e3o. Esses primeiros casamentos com mulheres chinesas facilitam a integra\u00e7\u00e3o social e criam novas bases numa sociedade onde, diferentemente da Fran\u00e7a, que \u00e9 um pa\u00eds tradicional da emigra\u00e7\u00e3o argelina, esses novos migrantes n\u00e3o possuem ou possuem apenas poucas refer\u00eancias culturais. Essencialmente baseadas nos neg\u00f3cios, as liga\u00e7\u00f5es com a sociedade chinesa permanecem ainda limitadas. A religi\u00e3o e a frequenta\u00e7\u00e3o das mesquitas13 aparecem como pontes poss\u00edveis usadas para atenuar os efeitos da alteridade numa sociedade \u00e0 qual, pelo menos por enquanto, esses empres\u00e1rios migrantes parecem n\u00e3o ter dificuldade de se adaptar.<\/p>\n\n\n\n<ol type=\"1\">\n<li>As associa\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 mesquita da cidade oferecem atividades desportivas, como os torneios de futebol, por exemplo.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h1>\n\n\n\n<p>ALL\u00c8S, \u00c9lisabeth. Choses vues \u00e0 Yiwu. <em>Outre-Terre <\/em>\u2013 <em>Revue europ\u00e9enne de g\u00e9opolitique,<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>n. 30 (4)<em>, <\/em>2011, p. 411-412.<\/p>\n\n\n\n<p>BELGUIDOUM, Said; PLIEZ, Olivier. Construire une route de la soie entre l\u2019Alg\u00e9rie et la Chine. <em>Diaspora, Histoire et Soci\u00e9t\u00e9s<\/em>, n. 20, 2012, p. 115-130.<\/p>\n\n\n\n<p>BERTONCELLO, Brigitte; BREDELOUP, Sylvie; PLIEZ, Olivier. Hong Kong, Guagzhou, Yiwu: de nouveux comptoirs africains en Chine. <em>Critique Internationale<\/em>, n. 34 (3), 2009, p. 105-121.<\/p>\n\n\n\n<p>GUIHEUX, Gilles. Travailleurs migrants du pr\u00eat-\u00e0-porter en Chine. Flexibilit\u00e9s et oppor- tunit\u00e9s. <em>Revue Europ\u00e9enne des Migrations Internationales<\/em>, v. 28(4), 2012, p. 27-42.<\/p>\n\n\n\n<p>MU Guo. The Yiwu Model of China\u2019s Exhibition Economy. <em>Provincial China<\/em>, v. 2(1), 2010, p. 91-115.<\/p>\n\n\n\n<p>PLIEZ, Olivier. Toutes les Routes de la Soie m\u00e8nent \u00e0 Yiwu (Chine). <em>L\u2019Espace G\u00e9ographique<\/em>, v. 39(2), 2010, p. 132-145.<\/p>\n\n\n\n<p>TARRIUS, Allan. Naissance d\u2019une colonie: un comptoir comercial \u00e0 Marseille. <em>Revue <\/em><em>Europ\u00e9enne de Migrations Internationales<\/em>, v. 11(1), 1995, p. 21-52.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/WWW.PERSEE.FR\/WEB\/REVUES\/HOME\/PRESCRIPT\/ARTICLE\/\">HTTP:\/\/WWW.PERSEE.FR\/WEB\/REVUES\/HOME\/PRESCRIPT\/ARTICLE\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>REMI_0765-0752_1995_NUM_11_1_1442; acesso em 20 fev. 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>Recebido em: 01\/06\/2014 Aprovado em: 30\/06\/2014<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como citar este artigo:<\/h2>\n\n\n\n<p>BELGUIDOUM, Said, PLIEZ, Olivier. Pr\u00e1ticas transnacionais em um entreposto comer- cial da \u201cRota da Seda\u201d: argelinos e eg\u00edpcios em Yiwu (China). <em>Contempor\u00e2nea <\/em>\u2013 Revista de Sociologia da UFSCar. S\u00e3o Carlo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BIBLIOTECA DAS IDEIAS ECONOMIA Said Belguidoum Olivier Pliez Rota da Seda | Tradu\u00e7\u00e3o Resumo: Yiwu&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10962,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[519],"tags":[521,522],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu.jpg",540,385,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu-300x214.jpg",300,214,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu.jpg",540,385,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu.jpg",540,385,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu.jpg",540,385,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu.jpg",540,385,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu.jpg",540,385,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu.jpg",540,385,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu.jpg",540,385,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/yiwu-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/biblioteca-das-ideias\/\" rel=\"category tag\">BIBLIOTECA DAS IDEIAS<\/a>","tag_info":"BIBLIOTECA DAS IDEIAS","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10961"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10961"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10961\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10963,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10961\/revisions\/10963"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}