{"id":13135,"date":"2024-11-28T16:45:59","date_gmt":"2024-11-28T16:45:59","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=13135"},"modified":"2024-11-28T16:46:02","modified_gmt":"2024-11-28T16:46:02","slug":"coca-cola-e-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2024\/11\/28\/coca-cola-e-democracia\/","title":{"rendered":"Coca Cola e Democracia"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">OPINI\u00c3O &#8211; <strong>Vender democracia, hamb\u00fargueres e at\u00e9 meias de\u00a0<em>nylon\u00a0<\/em>para as senhoras<\/strong><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-post-date\"><time datetime=\"2024-11-28T16:45:59+00:00\">28 de Novembro, 2024<\/time><\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"421\" height=\"399\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/carlos-M-gomes-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13143\" style=\"aspect-ratio:1.055137844611529;width:173px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/carlos-M-gomes-3.jpg 421w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/carlos-M-gomes-3-300x284.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 421px) 100vw, 421px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Carlos Matos Gomes<\/h3>\n\n\n\n<p>As for\u00e7as americanas que permaneceram na Europa ap\u00f3s a Segunda Guerra trouxeram os seus produtos como os europeus haviam feito com os ind\u00edgenas durante a sua expans\u00e3o pelos continentes. Al\u00e9m das notas de d\u00f3lar europeu, n\u00e3o convert\u00edvel, os americanos trouxeram as suas roupas, jeans e meias de vidro, de&nbsp;<em>nylon<\/em>, can\u00e7\u00f5es e discos, hamburgueres, tabaco com filtro, creme Ponds para a pele das senhoras e Brylcreem para abrilhantar a cabeleira dos homens, preservativos e a sua democracia de mercado e toda a liberdade, desde que os movimentos sociais n\u00e3o interviessem nos lucros dos neg\u00f3cios. A&nbsp;<em>Coca Cola<\/em>&nbsp;foi considerada a bebida da Democracia e da Liberdade. Onde havia&nbsp;<em>Coca Cola<\/em>&nbsp;havia democracia! No Portugal de Salazar n\u00e3o havia&nbsp;<em>Coca Cola<\/em>, logo n\u00e3o existia democracia, exceto em Mo\u00e7ambique por causa dos sul-africanos. Os suseranos locais. Em Angola vendia-se a&nbsp;<em>Fanta<\/em>, uma zurrapa ainda pior.<\/p>\n\n\n\n<p>A ret\u00f3rica de impor a democracia para impedir que uma ditadura comunista se implantasse foi o prato forte da propaganda dos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra e da ado\u00e7\u00e3o da doutrina Truman, de&nbsp;<em>d\u00e9tente<\/em>, em que os Estados Unidos tanto invocavam o perigo do comunismo enquanto ideologia, como o perigo da expans\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica enquanto competidor estrat\u00e9gico. O argumento era utilizado segundo as conveni\u00eancias. Tratava-se de dom\u00ednio territorial.<\/p>\n\n\n\n<p>O pragmatismo da pol\u00edtica americana, isto \u00e9, a aus\u00eancia de valores de refer\u00eancia, de escr\u00fapulos, substitu\u00eddos pelos interesses, e o desprezo pelos direitos humanos que caracterizaram a \u201cdoutrina Kissinger\u201d, fizeram que esta sombria personagem emergisse simultaneamente como o mestre do golpe do Chile e dos massacres no Camboja e tamb\u00e9m como o padrinho da \u201cdemocracia portuguesa\u201d tendo o embaixador Carlucci como lugar-tenente e o major Melo Antunes como o agente local.<\/p>\n\n\n\n<p>O golpe do 25 de Novembro foi financiado pelos Estados Unidos, com transfer\u00eancias feitas atrav\u00e9s da Internacional Socialista, que suportaram os novos \u00f3rg\u00e3os de propaganda. Assim, de cor:&nbsp;<em>Jornal Novo<\/em>,&nbsp;<em>Luta<\/em>,&nbsp;<em>Tempo,<\/em>&nbsp;<em>Europeu&nbsp;<\/em>entre outros foram criados com fundos americanos, assim como a UGT foi financiada pelos sindicatos americanos e europeus. Tamb\u00e9m armas foram fornecidas e ainda hoje n\u00e3o se lhe conhece o paradeiro. Todas estas afirma\u00e7\u00f5es est\u00e3o provadas e constam de documentos e publica\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis pelo p\u00fablico. N\u00e3o h\u00e1 desculpa para invocar ignor\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ser\u00e1, com certeza, esta a narrativa oficial de&nbsp;<em>cosi fan tutte<\/em>\u200a\u2014\u200aisto \u00e9, os outros europeus tamb\u00e9m abdicaram da sua autonomia e os mais dispon\u00edveis foram premiados\u200a\u2014\u200aque vai ser cantada sucessivamente e a v\u00e1rias vozes na Assembleia da Rep\u00fablica. As lenga-lenga carregar\u00e3o as cores negras do perigo comunista (que tinha sido arredado em Agosto \u00e0 margem do Acordo de Hels\u00ednquia) e do levantamento nacional dos bons portugueses contra o totalitarismo (a\u00e7\u00e3o do ELP\/MDLP e do clero ultramontano, devidamente olvidado\u200a\u2014\u200aPacheco de Amorim representar\u00e1 o ELP, mas vir\u00e1 algu\u00e9m da arquidioceses de Braga? Ou Nuno Melo tomar\u00e1 esse encargo?), uma narrativa que esconde o fabuloso neg\u00f3cio da desnacionaliza\u00e7\u00e3o da banca, das Parecerias Publico-Privadas, do saque aos fundos europeus destinados a forma\u00e7\u00e3o profissional, do desordenamento do territ\u00f3rio, em particular no litoral, para constru\u00e7\u00e3o e corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existem narrativas oficiais que n\u00e3o representem rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a num dado momento. Mas, neste caso, a narrativa oficial \u00e9 t\u00e3o mal cozida, ou cosida, assim se refira um mau cozinhado ou uma pe\u00e7a de roupa com os fundilhos esga\u00e7ados que o povo teve de ser exclu\u00eddo, n\u00e3o fosse algu\u00e9m gritar que o rei ia nu. A imposi\u00e7\u00e3o de uma narrativa oficial que exclua o povo ser\u00e1 sempre uma a\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria que assenta na cobardia de quem a promove como um ato de f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa oficial do 25 de Novembro que vai ser apresentada na liturgia na Assembleia da Rep\u00fablica \u00e9 um ato de cobardia e de vergonhosa humilha\u00e7\u00e3o. De cobardia pela n\u00e3o assun\u00e7\u00e3o do papel de gente por conta que desempenharam os celebrados e homenageados, e de vergonhosa humilha\u00e7\u00e3o por se apresentarem como homens livres quando foram meros&nbsp;<em>caddies,<\/em>&nbsp;os carregadores do saco com os tacos do golfista.<\/p>\n\n\n\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o do dia foi encenada para ser um espet\u00e1culo de Televis\u00e3o sem surpresas. Um&nbsp;<em>reality show<\/em>&nbsp;no qual os convidados se prestar\u00e3o ao papel de figurantes graciosos e com as deixas preparadas. Os generais far\u00e3o v\u00e9nias aos ministros que os ofenderam, sem contin\u00eancias nem apertos de m\u00e3o, os deputados que advogam os interesses dos banqueiros falar\u00e3o sobre democracia e justi\u00e7a social, os m\u00e9dicos que operam nas clinicas privadas falar\u00e3o da democracia e do servi\u00e7o nacional de sa\u00fade. Um almirante gritar\u00e1 da ponte de comando: Sus, a eles, aos infi\u00e9is russos! Do p\u00falpito no centro do palco sair\u00e1, repetido a v\u00e1rias vozes, um serm\u00e3o conhecido, a que os crentes dir\u00e3o \u00e2men com a cerviz baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns figurantes nacionais\u200a\u2014\u200amenores, porque os maiores est\u00e3o todos mortos, caso de Kissinger, Carlucci e Melo Antunes\u200a\u2014\u200aemoldurar\u00e3o as galerias como fantasmas e o facto mais significativo, segundo a comunica\u00e7\u00e3o social, \u00e9 que a banda da GNR tocar\u00e1 o hino nacional duas vezes. Talvez fosse de propor que uma das interven\u00e7\u00f5es fosse substitu\u00edda pel\u2019&nbsp;<em>Os Vampiros<\/em>, do Zeca Afonso.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m parece que o autor e principal animador da cerim\u00f3nia dos mansos a que Vasco Pulido Valente designou pelos&nbsp;<em>Devoristas<\/em>, ter\u00e1 sido Nuno Melo, um menino de oiro (homenagem a Agustina Bessa-Lu\u00eds) que \u00e9 uma garantia de patriotismo e coragem. No livro<em>&nbsp;Os Americanos e Portugal<\/em>, de Bernardino Gomes, do Partido Socialista, j\u00e1 falecido, e de Tiago Moreira de S\u00e1, que j\u00e1 foi do PSD e agora \u00e9 eurodeputado do Chega, a tramoia do 25 de Novembro est\u00e1 muito bem explicada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mim, propunha que a cerim\u00f3nia terminasse com um magusto oferecido pela associa\u00e7\u00e3o de bancos e pela embaixada dos Estados Unidos, uns porque que tiveram este ano lucros nunca vistos, e os outros porque andam de vit\u00f3ria em vit\u00f3ria desde o Iraque \u00e0 Ucr\u00e2nia, prova de que o 25 de Novembro valeu a pena.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma nota final e pessoal, custa-me ver uma personagem por quem tenho respeito e estima envolvidas nesta farsa. \u00c9 que n\u00e3o se pode estar ao servi\u00e7o do mesmo Kissinger que chefiou o golpe do Chile, que autorizou a invas\u00e3o de Timor Leste pela Indon\u00e9sia e dar da cara pela independ\u00eancia de Timor e aben\u00e7oar o 25 de Novembro e os seus vis\u00edveis resultados de aumento de desigualdades e de injusti\u00e7as. Acredito em raz\u00f5es de lealdade para com algu\u00e9m que ele muito admirava e em que confiava. Melo Antunes. Sem nunca ter sido \u00edntimo, nem seguidor pol\u00edtico de Melo Antunes, julgo que este n\u00e3o se prestaria a caucionar esta cerim\u00f3nia manhosa com a sua presen\u00e7a esf\u00edngica.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OPINI\u00c3O &#8211; Vender democracia, hamb\u00fargueres e at\u00e9 meias de\u00a0nylon\u00a0para as senhoras Carlos Matos Gomes As&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12866,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[605,99],"tags":[518],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2.jpg",909,514,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2-300x170.jpg",300,170,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2-768x434.jpg",640,362,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2.jpg",640,362,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2.jpg",909,514,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2.jpg",909,514,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2.jpg",909,514,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2.jpg",909,514,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/CMG-OPINAIA2-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/25-de-novembro\/\" rel=\"category tag\">25 de novembro<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a>","tag_info":"OPINI\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13135"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13135"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13135\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13144,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13135\/revisions\/13144"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12866"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13135"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13135"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13135"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}