{"id":13824,"date":"2025-03-19T12:26:47","date_gmt":"2025-03-19T12:26:47","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=13824"},"modified":"2025-03-19T12:26:49","modified_gmt":"2025-03-19T12:26:49","slug":"mulheres-negras-em-marcha-contra-o-racismo-a-violencia-e-pelo-bem-viver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2025\/03\/19\/mulheres-negras-em-marcha-contra-o-racismo-a-violencia-e-pelo-bem-viver\/","title":{"rendered":"Mulheres negras em marcha contra o racismo, a viol\u00eancia e pelo bem viver"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ind\u00edcios para um curr\u00edculo antirracista<\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-post-date\"><time datetime=\"2025-03-19T12:26:47+00:00\">19 de Mar\u00e7o, 2025<\/time><\/div>\n\n\n<p>Nubia Regina Moreira<sup>2<\/sup> ORCID: <a href=\"http:\/\/orcid.org\/0000-0001-6171-6756\">http:\/\/orcid.org\/0000-0001-6171-6756<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Tha\u00eds Teixeira Cardoso<sup>3<\/sup> ORCID: <a href=\"http:\/\/orcid.org\/\">http:\/\/orcid.org\/<\/a><a href=\"https:\/\/orcid.org\/0000-0002-0130-3316\">0000-0002-0130-3316<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resumo: <\/strong>Esse artigo se prop\u00f5e a pensar como o lema da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Viol\u00eancia e o pelo Bem Viver (2015) como uma proposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-pol\u00edtica de um novo pacto civilizat\u00f3rio para sociedade brasileira proveniente do ac\u00famulo da luta antirracista e feminista negra. Trazemos as organiza\u00e7\u00f5es das mulheres, representadas aqui pela Marcha, como produtoras de uma gram\u00e1tica que converge para uma pedagogia feminista negra. Tomaremos a Carta das Mulheres Negras, fruto da Marcha das Mulheres Negras, como campo emp\u00edrico; nela, as mulheres negras, elaboram significados do Bem Viver, de ancestralidade, e reiteram o rompimento com o racismo e todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o, incluindo o campo educacional. H\u00e1 nesse processo uma correspond\u00eancia com as experi\u00eancias e conhecimentos produzidos por ativistas negras como instrumentos de formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Operamos no primeiro momento com as no\u00e7\u00f5es de pedagogia feminista e interseccionalidade como recurso de compreens\u00e3o do protagonismo das mulheres negras e do entrela\u00e7amento de distintas formas de diferencia\u00e7\u00f5es e desigualdades reciprocamente. No entanto, no segundo momento, ao deslocarmos a interseccionalidade, daremos lugar a uma narrativa de assun\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica curricular centrada na diferen\u00e7a, ampliando as perguntas que se fazem nos processos de aproxima\u00e7\u00e3o e distanciamento com as lutas e produ\u00e7\u00f5es das mulheres negras em dire\u00e7\u00e3o a uma educa\u00e7\u00e3o feminista antirracista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Curr\u00edculo. Diferen\u00e7a. Interseccionalidade. Educa\u00e7\u00e3o antirracista. Marcha das Mulheres Negras.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">1&nbsp; INTRODU\u00c7\u00c3O<\/h1>\n\n\n\n<p>O movimento de mulheres negras brasileiras institu\u00eddo em forma de f\u00f3runs, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais e associa\u00e7\u00f5es cient\u00edfico-acad\u00eamicas tem apresentado \u00e0 sociedade brasileira as demandas antirracistas e de g\u00eanero que se antagonizam aos efeitos hist\u00f3ricos do racismo que constituem a condi\u00e7\u00e3o e posi\u00e7\u00f5es de sujeitos homens e mulheres negros e n\u00e3o-negros.<\/p>\n\n\n\n<p>As ativistas negras cientes das opress\u00f5es de ra\u00e7a e g\u00eanero que as colocam em condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social resolvem marchar em 2015 contra o Racismo, a<\/p>\n\n\n\n<p>Viol\u00eancia e pelo Bem Viver, para apresentar um projeto pol\u00edtico de amplia\u00e7\u00e3o da democracia brasileira e propor um novo pacto civilizat\u00f3rio<sup>4<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte desse processo foi gestado durante os anos de 1990 quando no Brasil setores do movimento de mulheres come\u00e7aram a se denominar, feministas negras<sup>5<\/sup>. As demandas do feminismo negro s\u00e3o identificadas na atua\u00e7\u00e3o e luta contra as opress\u00f5es de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero que fazem parte do cotidiano das mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p>O feminismo negro \u00e9 pensado como uma demanda que se constituiu antagonizando-se a uma ordem monol\u00edtica que pretensamente foi carregada pelo movimento feminista e negro. Considera-se, portanto, que o feminismo negro se situa na fronteira entre o feminismo hegem\u00f4nico, dito branco e de classe m\u00e9dia, e o movimento negro. No entanto, as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres negras s\u00e3o parte de um processo anterior \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o feministas negras, nome que ser\u00e1 hegemonizado pelo movimento de mulheres negras nas disputas tanto na arena pol\u00edtica quanto na acad\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para deixar nosso artigo mais did\u00e1tico vamos dividi-lo da seguinte forma: na primeira sess\u00e3o faremos uma apresenta\u00e7\u00e3o das possibilidades pol\u00edticas e epist\u00eamicas do feminismo negro articulado ao florescer p\u00fablico da produ\u00e7\u00e3o cultural, pol\u00edtica e educacional das intelectuais negras. Decorre da\u00ed a pertin\u00eancia em trazer a pedagogia feminista negra como uma gram\u00e1tica gestada a partir das experi\u00eancias coletivas de mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p>No segundo momento como uma efetiva\u00e7\u00e3o do ativismo das mulheres negras traremos a carta escrita pelas mulheres negras ap\u00f3s a Marcha contra o racismo,  viol\u00eancia e pelo Bem-viver porque ela serve como nosso campo emp\u00edrico, por meio da qual demonstraremos como as mulheres negras preocupadas com os efeitos do racismo e sexismo na vida das popula\u00e7\u00f5es negras produzem sentidos e significados de uma educa\u00e7\u00e3o antirracista ao mobilizarem as no\u00e7\u00f5es de bem viver, ancestralidade e constante luta para o fim do racismo.<\/p>\n\n\n\n<p>No percurso do texto a ideia de pedagogia feminista negra como uma a\u00e7\u00e3o pratico-pedag\u00f3gica estar\u00e1 em di\u00e1logo com a epistemologia feminista negra que indica as experi\u00eancias das mulheres negras como uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica-anal\u00edtica que possibilita interpretar as opress\u00f5es de ra\u00e7a, classe, g\u00eanero e sexualidade as quais interferem diretamente na vida das mulheres negras. Dessa feita fica evidente que a no\u00e7\u00e3o de interseccionalidade ser\u00e1 mobilizada para evidenciar como a Marcha expressa o protagonismo das ativistas negras.<\/p>\n\n\n\n<p>Na esteira dos encaminhamentos do texto faremos um deslocamento da no\u00e7\u00e3o de interseccionalidade como ferramenta estrat\u00e9gico-anal\u00edtica para darmos espa\u00e7os a possibilidade de operar com uma pol\u00edtica curricular centrada na diferen\u00e7a que se desenrola em negocia\u00e7\u00f5es em volta das pr\u00e1ticas de articula\u00e7\u00f5es que deslizam em torno de uma educa\u00e7\u00e3o antirracista, por meio da mobiliza\u00e7\u00e3o de sentido de outro curr\u00edculo que se pense para al\u00e9m da escola.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">2&nbsp; A PEDAGOGIA FEMINISTA NEGRA<\/h1>\n\n\n\n<p>A pedagogia feminista negra a qual nos referimos se constituiu como uma gram\u00e1tica criada no interior do feminismo negro. Tal pedagogia \u00e9 manifestada por meio de posturas, a\u00e7\u00f5es, e textos que s\u00e3o resultados da atua\u00e7\u00e3o das mulheres negras localizadas em diferentes espa\u00e7os da sociedade. Obviamente que essa pedagogia \u00e9 constitu\u00edda e constitui a forma\u00e7\u00e3o de uma epistemologia feminista negra produzida a partir da experi\u00eancia da vida das mulheres negras e dos grupos subalternizados.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de compromisso da pedagogia feminista negra com as lutas antirracista e da opress\u00e3o de g\u00eanero que instituem o feminismo negro como um <em>topos <\/em>pol\u00edtico das demandas provenientes das experi\u00eancias do sujeito coletivo mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas experi\u00eancias s\u00e3o constituintes de falas que, em certa medida, criam um significado discursivo das marcas, traumas e dores que sustentam as mulheres negras como narradoras de si mesmas, frente as opress\u00f5es causadas pelo racismo e sexismo. Como um ant\u00eddoto \u00e0s opress\u00f5es as mulheres negras se organizaram politicamente em forma de f\u00f3runs, institui\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais para combater as desigualdades que precarizam as suas vidas e da comunidade negra.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao tomar a experi\u00eancia como um componente potente da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entendo-a como um significante que n\u00e3o abarca plenamente as m\u00faltiplas experi\u00eancias intersubjetivamente reciprocamente relacionada entre os sujeitos. Entendemos a experi\u00eancia como uma no\u00e7\u00e3o que hegemoniza um conjunto de experi\u00eancias de vidas humanas particularmente dispersas que como hegemonia que se coloca como uma tentativa de ser uma tecnologia em torno da qual se monta uma performance.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia como forma de descobrimento ou como uma possibilidade de narrar-se, inventar-se e de se representar, fez e faz parte da gram\u00e1tica pol\u00edtica das feministas e, particularmente, das feministas negras que trouxeram para a pr\u00e1tica ativista, processos de subjetiva\u00e7\u00e3o nas esferas p\u00fablica e no mundo da vida por meio dos seus testemunhos, dores e opress\u00f5es. A experi\u00eancia \u00e9 como uma ferramenta pol\u00edtica que as colocam no jogo das negocia\u00e7\u00f5es da vida como insurgentes sujeito pol\u00edtico feminista negro.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a experi\u00eancia \u00e9 constitu\u00edda atrav\u00e9s da subjetividade adquirida por meio das pr\u00e1ticas sociais, ent\u00e3o a identidade das mulheres negras se constitui dentro da hist\u00f3ria do sujeito, na qual a experi\u00eancia por meio do feminino e da negritude ganha representa\u00e7\u00f5es sociais no construto do sujeito pol\u00edtico. As subjetividades das mulheres negras (CHAVES, 2008) se constroem na tomada de consci\u00eancia de si, e esse processo est\u00e1 presente, por exemplo, na constru\u00e7\u00e3o da identidade, aqui constitu\u00edda em grupos, mas tamb\u00e9m presente na forma como as mulheres negras constroem sua autorrepresenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Como nos ensina Keisha-Khan Perry (2006) em seu estudo realizado sobre a organiza\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e0 frente da associa\u00e7\u00e3o de moradores da Gamboa de Baixo em Salvador que relata o protagonismo assumido por essas mulheres em prol de melhorias e negocia\u00e7\u00e3o com o poder p\u00fablico que impedisse a remo\u00e7\u00e3o das suas fam\u00edlias para outros locais da cidade, \u00e9 ilustrativo e reitera no par\u00e1grafo abaixo a experi\u00eancia dessas mulheres:<\/p>\n\n\n\n<p>Constituem um exemplo de como a pedagogia feminista negra \u00e9 uma pr\u00e1tica pol\u00edtica e um aprender fazendo pol\u00edtica no dia-a-dia; o conhecimento delas em bairros populares tem sido ampliado a partir dessa participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (como por exemplo, sua leitura e escrita e o tour pela cidade de Salvador com os l\u00edderes comunit\u00e1rios), os movimentos sociais s\u00e3o fontes importantes de educa\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o para o movimento de liberta\u00e7\u00e3o negra ( por exemplo, discutindo literaturas sobre a sua ancestralidade Africana); e os conhecimentos que as mulheres negras adquirem com suas experi\u00eancias pr\u00e1ticas beneficiam- nas individual e coletivamente. (p.180).<\/p>\n\n\n\n<p>A pedagogia feminista negra \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que se movimenta em dire\u00e7\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento, sugere um deslocamento da postura no fazer cient\u00edfico que hegemonicamente tem adotado como norma no processo de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento uma cis\u00e3o entre a teoria e experi\u00eancia. De modo contr\u00e1rio as intelectuais negras se prop\u00f5em outras formas de interpreta\u00e7\u00e3o do mundo que tratam de temas e de outros modos de interrogar o mundo, as pr\u00e1ticas institucionais, o fazer cient\u00edfico e a sua valida\u00e7\u00e3o. A epistemologia feminista negra que se alicer\u00e7a o perspectivismo na experi\u00eancia como construtora da pol\u00edtica da voz e da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tanto um ato pol\u00edtico que se assume como tamb\u00e9m acad\u00eamico te\u00f3rico \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria das mulheres negras como uma narrativa feminista negra. O pensamento feminista negro denunciou o racismo e o eurocentrismo da narrativa feminista cl\u00e1ssica, que generalizou as experi\u00eancias sociais das mulheres brancas e silenciou outras vozes. (GONZALEZ, 1984; HOOKS, 2015). Coloca em evid\u00eancia a necessidade de um <strong>pensamento interseccional <\/strong>na discuss\u00e3o epistemol\u00f3gica, pois os estere\u00f3tipos racistas influenciam o pensamento cient\u00edfico tanto quanto os estere\u00f3tipos sexistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo do perspectivismo feminista, Collins (2019) prop\u00f5e o conceito de <strong><em>outsider within <\/em><\/strong>(\u201cforasteira de dentro\u201d) para se referir \u00e0 perspectiva epistemol\u00f3gica das mulheres negras acad\u00eamicas, que se situam \u00e0 margem do campo de pesquisa e na fronteira e intersec\u00e7\u00e3o de diversos campos (dentro dos quais s\u00e3o socializadas, educadas etc.). Essa posi\u00e7\u00e3o \u201cmarginal\u201d \u00e9 vista como uma vantagem epist\u00eamica, que as permite ver certas coisas invis\u00edveis a outros sujeitos, sendo, portanto, uma perspectiva de grande potencial para as ci\u00eancias sociais como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s, a Marcha das Mulheres Negras \u00e9 a express\u00e3o dos saberes te\u00f3ricos e pol\u00edticos fruto das produ\u00e7\u00f5es das intelectuais negras situadas em espa\u00e7os institucionais, ou n\u00e3o, proponentes de pautas que fomentam pol\u00edticas p\u00fablicas para os campos da educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a p\u00fablica, sa\u00fade, meio ambiente e etc. Refor\u00e7amos a Marcha como um exemplo de pedagogias feministas de mulheres negras que expressam a partir e por meio dos seus corpos, as motiva\u00e7\u00f5es, os desejos e as articula\u00e7\u00f5es das lutas coletivas que intencionam a melhoria da qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o negra e de todos os segmentos da sociedade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">3&nbsp;&nbsp; MARCHA DAS MULHERES NEGRAS CONTRA O RACISMO, A VIOL\u00caNCIA E O BEM-VIVER<\/h1>\n\n\n\n<p>Em 2015 a realiza\u00e7\u00e3o da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Viol\u00eancia e pelo Bem Viver realizada no dia 18 de novembro tamb\u00e9m pode ser traduzida como uma pol\u00edtica do lugar de fala j\u00e1 que na Carta das Mulheres Negras, documento produzido pela Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Organiza\u00e7\u00f5es de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) apresenta os princ\u00edpios que alicer\u00e7am o conjunto de reivindica\u00e7\u00f5es expressa na Carta das mulheres Negras. Chamo de princ\u00edpios o Pacto de Consenso que antecipa a carta como um conjunto de reivindica\u00e7\u00f5es propostas pelas Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Negras Brasileiras. Essas a\u00e7\u00f5es gestadas no seio das organiza\u00e7\u00f5es das mulheres negras autodenominadas feministas negras, ou n\u00e3o, \u00e9 resultado de quatro d\u00e9cadas de ativismo protagonizado pelas mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3.1&nbsp; Primeiro princ\u00edpio:<\/h2>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, mulheres negras do Brasil, irmanadas com as mulheres do mundo afetadas pelo racismo, sexismo, lesbofobia, transfobia e outras formas de discrimina\u00e7\u00e3o, estamos em marcha. <strong>Inspiradas em nossa ancestralidade, somos portadoras de um legado que afirma um novo pacto civilizat\u00f3rio <\/strong>(AMNB, 2015, p. 163 &#8211; grifo meu).<\/p>\n\n\n\n<p>Ancestralidade \u00e9 a capacidade que n\u00f3s, mulheres negras, desenvolvemos ao aprendermos umas com as outras a ter a capacidade de nos posicionarmos como sujeitos hist\u00f3ricos que carregam em seus corpos experi\u00eancias compartilhadas no processo que as constituem a partir das dimens\u00f5es do \u201ceu\u201d e do \u201cn\u00f3s\u201d pol\u00edtico (CESTARI, 2015), numa sociedade plurirracial, profundamente colonizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Um novo pacto civilizat\u00f3rio baseado num consenso requer que a dor ancestral que as mulheres negras carregam seja presente na hist\u00f3ria como mat\u00e9ria prima capaz de ressignificar a exist\u00eancia das mulheres marcadas pelo racismo, sexismo e classismo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3.2&nbsp; Segundo princ\u00edpio:<\/h2>\n\n\n\n<p>Somos meninas, adolescentes, jovens, adultas, idosas, heterossexuais, l\u00e9sbicas, transexuais, transg\u00eaneros, quilombolas, rurais, mulheres negras das florestas e das \u00e1guas, moradoras das favelas, dos bairros perif\u00e9ricos, das palafitas, sem teto, em situa\u00e7\u00e3o de rua. Somos trabalhadoras dom\u00e9sticas, prostitutas\/profissionais do sexo, artistas, profissionais liberais, trabalhadoras rurais, extrativistas do campo e da floresta, marisqueiras, pescadoras, ribeirinhas, empreendedoras, culinaristas, intelectuais, artes\u00e3s, catadoras de materiais recicl\u00e1veis, yalorix\u00e1s, pastoras, agentes de pastorais, estudantes, comunicadoras, ativistas, parlamentares, professoras, gestoras e muitas mais. (AMNB, 2015, p.163).<\/p>\n\n\n\n<p>O desenrolar do feminismo negro brasileiro possibilitou o reconhecimento da heterogeneidade de condi\u00e7\u00e3o e posi\u00e7\u00e3o que as mulheres negras se inserem<strong>. <\/strong>A categoria mulheres negras \u00e9 composta por contradi\u00e7\u00f5es que se verificam a partir das diferentes posi\u00e7\u00f5es do sujeito. O \u201cn\u00f3s\u201d pol\u00edtico diz respeito a esta contradi\u00e7\u00e3o, pois existe uma m\u00faltipla identifica\u00e7\u00e3o do sujeito no discurso, ent\u00e3o nos apresenta um sujeito paradoxal; ele \u00e9 o sujeito que se constitui a partir dessas m\u00faltiplas identifica\u00e7\u00f5es, de intersec\u00e7\u00f5es, \u00e9 mut\u00e1vel e n\u00e3o possui uma identidade fixa, como tamb\u00e9m nos informa Moreira (2007). O <em>eu <\/em>e o <em>n\u00f3s <\/em>constituem-se enunciados coletivos nesta enuncia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; assim, vozes-mulheres de negras (CESTARI, 2015) d\u00e3o lugar a uma representa\u00e7\u00e3o o lugar de serem ouvidas, romper com o sil\u00eancio e romper com estere\u00f3tipos discursivos (e ressignificar corpos).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3.3&nbsp; Terceiro princ\u00edpio<\/h2>\n\n\n\n<p>Em Marcha, n\u00f3s mulheres negras reafirmamos:<\/p>\n\n\n\n<p>Condi\u00e7\u00e3o de protagonistas, oferecemos ao Estado e \u00e0 Sociedade brasileiros nossas experi\u00eancias como forma de construirmos coletivamente uma outra din\u00e2mica de vida e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por meio da supera\u00e7\u00e3o do racismo, do sexismo e de todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o, respons\u00e1veis pela nega\u00e7\u00e3o da humanidade de mulheres e homens negros. (AMNB, 2015, p.162).<\/p>\n\n\n\n<p>O protagonismo das mulheres \u00e9 fruto da constitui\u00e7\u00e3o do feminismo negro brasileiro, herdeiro das organiza\u00e7\u00f5es das mulheres negras inseridas nas redes do movimento negro, blocos culturais, terreiros etc., que escrevem a hist\u00f3ria da luta de supera\u00e7\u00e3o do racismo, do sexismo por meio das experi\u00eancias de vidas das mulheres negras, difundidas por meio das narrativas orais, escritas, imag\u00e9ticas produzidas por essas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>O feminismo negro \u00e9 fruto de experi\u00eancias de lutas sociais conduzidas por organiza\u00e7\u00f5es institucionalizadas e\/ou aut\u00f4nomas que orientam a organiza\u00e7\u00e3o das mulheres negras, com o intuito de manter uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no campo feminista. (MOREIRA, 2011). A busca das mulheres negras por um espa\u00e7o pol\u00edtico pr\u00f3prio das mulheres negras nasce como uma resposta das mulheres negras as m\u00faltiplas opress\u00f5es que sobre elas se abatem. (CESTARI, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>Apontamos que, por meio do percurso de constitui\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de um formato do feminismo negro, algumas distin\u00e7\u00f5es como forma\u00e7\u00e3o escolar, acesso aos bens culturais descortinaram a multiplicidade de posi\u00e7\u00f5es de sujeitos e de vozes de mulheres negras. Essas posi\u00e7\u00f5es funcionam como agenciadoras de novas demandas ao mesmo tempo em que propiciam a amplia\u00e7\u00e3o e movimenta\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o das feministas negras em espa\u00e7os mais amplos das negocia\u00e7\u00f5es feministas, seja em n\u00edvel nacional ou internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Devo esclarecer que:<\/p>\n\n\n\n<p>[&#8230;] As mulheres negras, como sujeitos identit\u00e1rios e pol\u00edticos, s\u00e3o resultado de uma articula\u00e7\u00e3o de heterogeneidades, resultante de demandas hist\u00f3ricas, pol\u00edticas, culturais, de enfrentamento das condi\u00e7\u00f5es adversas estabelecidas pela domina\u00e7\u00e3o ocidental euroc\u00eantrica ao longo dos s\u00e9culos de escravid\u00e3o, expropria\u00e7\u00e3o colonial e da modernidade racializada e racista em que vivemos. (WERNECK apud CARDOSO, 2012, p.59).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3.4&nbsp; Quarto princ\u00edpio:<\/h2>\n\n\n\n<p>As Mulheres Negras, estamos em Marcha para exigir o fim do racismo e da viol\u00eancia que se manifestam no genoc\u00eddio dos jovens negros; na sa\u00fade, onde a mortalidade materna entre mulheres negras est\u00e1 relacionada \u00e0 dificuldade do acesso a esses servi\u00e7os, \u00e0 baixa qualidade do atendimento aliada \u00e0 falta de a\u00e7\u00f5es e de capacita\u00e7\u00e3o de profissionais de sa\u00fade voltadas especificamente para os riscos a que as mulheres negras est\u00e3o expostas; da seguran\u00e7a p\u00fablica cujos operadores e operadoras decidem quem deve viver e quem deve morrer mediante a omiss\u00e3o do Estado e da sociedade para com as nossas vidas negras. (AMNB, 2015, p.163).<\/p>\n\n\n\n<p>A necropol\u00edtica ou o necropoder como Mbembe conceitua, diz sobre as formas \u201cpelas quais no mundo contempor\u00e2neo, as armas de fogo s\u00e3o dispostas com o objetivo de provocar a destrui\u00e7\u00e3o em massa de grupos sociais e criar mandos de morte\u201d, formas \u00fanicas e novas de exist\u00eancia social, nas quais v\u00e1rias popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o submetidas a condi\u00e7\u00f5es de vida que lhes conferem o estatuto de \u201cmortos vivos\u201d. (MBEMBE, 2018, p.72).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se inspirar na realidade palestina ou do regime apartheid, Mbembe parece querer expor a situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e descartabilidade da popula\u00e7\u00e3o negra, em especial, a juventude negra perif\u00e9rica, cuja condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia e de permanente dor pressup\u00f5e \u201cpoder e capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer\u201d. (MBEMBE, 2018, p.5).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3.5&nbsp; Quinto princ\u00edpio:<\/h2>\n\n\n\n<p>Marchamos pelo direito \u00e0 vida, pelo direito \u00e0 humanidade, pelo direito a ter direitos e pelo reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as. Marchamos por justi\u00e7a, equidade, solidariedade e bem-estar que s\u00e3o valores inegoci\u00e1veis, diante da pluralidade de vozes que coabitam o planeta e reivindicam o Bem Viver. (AMNB, 2015, 163).<\/p>\n\n\n\n<p>O Bem Viver segundo Acosta \u00e9 um ordenamento social que difere do capitalismo, pois se fundamenta\u201d \u201c na vig\u00eancia dos Direitos Humanos e dos Direitos da Natureza, inspirado na reciprocidade e na solidariedade\u201d. (p. 22, edi\u00e7\u00e3o kindle).<\/p>\n\n\n\n<p>O Bem Viver como uma pratica comunit\u00e1ria prega fortalecimento das pr\u00e1ticas ancestrais e locais que foram perturbadas pela a\u00e7\u00e3o colonial. Ciente dessa perturba\u00e7\u00e3o que alterou as formas de fazeres dos povos origin\u00e1rios, das popula\u00e7\u00f5es negras em di\u00e1spora, o Bem Viver reside tamb\u00e9m na percep\u00e7\u00e3o da coexist\u00eancia entre o praticas alteradas pela a\u00e7\u00e3o colonial e com as outras formas que j\u00e1 existem como fruto do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>O Bem-Viver como viv\u00eancia comunit\u00e1ria, presente como um dos princ\u00edpios da Marcha das Mulheres Negras insere em sua pauta a diversidade de g\u00eanero, de ra\u00e7a, de classe e de orienta\u00e7\u00e3o sexual como pilares na constru\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento alternativo ao modelo capitalista.<\/p>\n\n\n\n<ul>\n<li><strong>MULHERES NEGRAS: <\/strong>da interseccionalidade a assun\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica curricular centrada na diferen\u00e7a<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A escravid\u00e3o foi um processo que marcou a hist\u00f3ria das mulheres negras sublevando-as a condi\u00e7\u00e3o de construtoras de formas de resist\u00eancia, forjando suas mentes e corpos como l\u00f3cus da pol\u00edtica. As mulheres negras muito precocemente foram impelidas a se movimentarem nos espa\u00e7os dos poss\u00edveis, mesmo quando escravizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Observa-se que as lutas contra a hegemonia estabelecida pela escravid\u00e3o n\u00e3o retrataram de forma suficientemente plaus\u00edvel a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o feminina. Entretanto, Werneck (2010, p. 80) salienta que estas lutas \u201ctiveram expressiva participa\u00e7\u00e3o de mulheres em diferentes posi\u00e7\u00f5es, especialmente, a partir de sua capacidade de circula\u00e7\u00e3o entre diferentes grupos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o feminina neste per\u00edodo fora notadamente bem demarcada em diversos momentos seja na execu\u00e7\u00e3o de of\u00edcios em centros urbanos, como amas de leite, parceiras sexuais dos senhores, trabalhadora dom\u00e9stica, no desenvolvimento de atividades agr\u00edcolas, atividades de com\u00e9rcio e prostitui\u00e7\u00e3o. E, como forma de resistir a essa condi\u00e7\u00e3o muitas mulheres se suicidaram, aquilombaram, abortaram como forma resist\u00eancia e de evitar que os seus sofressem tamb\u00e9m viol\u00eancia. (GENNARI, 2011).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como os homens, as mulheres tamb\u00e9m estavam vulner\u00e1veis e propensas a este regime de \u201copress\u00e3o\u201d. Entretanto, \u00e9 acrescida outra forma de viol\u00eancia, o abuso sexual, a condi\u00e7\u00e3o de \u201creprodutora\u201d, mutila\u00e7\u00f5es e estupros, ficando demarcada, inclusive, a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica destas por rela\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio, controle e repress\u00e3o neste per\u00edodo (DAVIS, 2016). A mulher, pouco discutida nos documentos oficiais, \u00e9 envolta em um silenciamento que demarca a \u201caus\u00eancia\u201d de sua representatividade social e denuncia a pervers\u00e3o e\/ou hipocrisia desta sociedade. (NASCIMENTO, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a participa\u00e7\u00e3o feminina no per\u00edodo escravocrata, mesmo que de menor representatividade pol\u00edtica, existiu, e, muitas mulheres ocuparam papel de destaque e lideran\u00e7a, a exemplo dos quilombos. No final da escravid\u00e3o, por exemplo, a luta feminina continuou abarcando outros moldes de transforma\u00e7\u00e3o social demarcando um movimento social, pol\u00edtico e representativo da mulher negra nesse cen\u00e1rio. (ARA\u00daJO; SOUZA, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras discuss\u00f5es surgidas ap\u00f3s o per\u00edodo supracitado situavam a luta por igualdade racial e, posteriormente, a emancipa\u00e7\u00e3o da mulher, negra, enquanto sujeito pol\u00edtico nesse espa\u00e7o. O seu reconhecimento seria uma forma de estabelecimento de uma identidade pr\u00f3pria, constru\u00edda em espa\u00e7os de troca, reorganiza\u00e7\u00e3o e ressignifica\u00e7\u00e3o em um movimento de luta pol\u00edtica contra o racismo, machismo, capitalismo e a instituir-lhes uma condi\u00e7\u00e3o humana. (MENEZES; SILVA, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>O feminismo produziu um significativo impacto na vida das mulheres que repercutiu em toda sociedade uma vez que este movimento fomentou a uma cr\u00edtica te\u00f3rica as estruturas pol\u00edticas e formas de organiza\u00e7\u00e3o social vigentes, colaborando-se assim, para a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade plural, multifacetada, cindindo com a ideia de uma identidade comum a homens e mulheres. (HALL, 2006).<\/p>\n\n\n\n<p>Caberia o intento de rasurar aqui a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o que possu\u00edmos de identidade propondo-nos a interrogar acerca de como a mesma se constituiu, as situa\u00e7\u00f5es nas quais ela se afirma, e sob quais condi\u00e7\u00f5es, no caso destas mulheres supracitadas. E, em se tratando do estabelecimento de alian\u00e7as concentrando a uni\u00e3o de v\u00e1rias identidades, faz-se \u00fatil entender o espectro pol\u00edtico que as estabeleceu. (BUTLER, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p>O pensamento feminista negro possibilitou uma transforma\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica no que diz respeito \u00e0s rela\u00e7\u00f5es interpretadas naquele contexto como desiguais de poder possibilitando ativar epistemologias nas quais o conhecimento acerca da realidade seja question\u00e1vel. Cabendo, portanto, compreender como o poder se organiza e funciona. (COLLINS, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da mulher negra as interseccionalidades <em>g\u00eanero, ra\u00e7a e classe <\/em>refletem bem a experi\u00eancia de ser mulher notadamente bem demarcada no tempo, sobretudo, no per\u00edodo colonial em que esta enquanto agente pol\u00edtico atuou por meio de estrat\u00e9gias discursivas visando transformar socialmente a sua realidade. (ARA\u00daJO; SOUZA, 2014). Alguns autores destacam, inclusive, a compreens\u00e3o do atravessamento das condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais na vida desta mulher. (ARA\u00daJO; SOUZA, 2014; MENEZES; SILVA, 2015). Concebo o lugar de fala destas como um a priori, um <em>topos<br><\/em> de onde se inicia toda e qualquer pesquisa. Todas as pessoas possuem lugar de fala at\u00e9 porque nossos interesses de pesquisa surgem a partir das nossas viv\u00eancias e experi\u00eancias. \u00c9 na esteira de equival\u00eancia das lutas e produ\u00e7\u00f5es destas mulheres negras que nos propomos a pensar a constru\u00e7\u00e3o de um curr\u00edculo antirracista.<\/p>\n\n\n\n<p>A constru\u00e7\u00e3o deste curr\u00edculo nos leva ao intento de compreender dentro do pr\u00f3prio movimento feminista o emaranhado de processos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e ideol\u00f3gicos perpassados por rela\u00e7\u00f5es complexas de poder a fim de refletirmos a assun\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o da \u201cdiferen\u00e7a\u201d neste \u00ednterim. (BRAH, 2006). J\u00e1 sabemos que o signo \u201cmulher\u201d assume diferentes significados e contornos, \u201cseu fluxo semi\u00f3tico assume significados espec\u00edficos em discursos de diferentes \u201cfeminilidades\u201d onde vem a simbolizar trajet\u00f3rias, circunst\u00e2ncias materiais e experi\u00eancias culturais hist\u00f3ricas particulares\u201d. (BRAH, 2006, p. 341).<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a como rela\u00e7\u00e3o social \u00e9 organizada, constitu\u00edda a partir de discursos econ\u00f4micos, culturais, pol\u00edticos e pr\u00e1ticas institucionais. A sistematicidade na qual essas rela\u00e7\u00f5es se estabelecem \u00e9 sempre contingencial. Nela, as categorias diferenciais s\u00e3o historicamente articuladas por regimes de poder variados em macro e micro poder. \u201cO conceito de diferen\u00e7a, ent\u00e3o, se refere \u00e0 variedade de maneiras como discursos espec\u00edficos da diferen\u00e7a s\u00e3o constitu\u00eddos, contestados, reproduzidos e resignificados. (BRAH, 2006, p. 374)\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O curr\u00edculo precisa ser pensado, ent\u00e3o, a partir do desenvolvimento de uma pol\u00edtica centrada na diferen\u00e7a. Para tal, propomos um curr\u00edculo emancipador na medida em que fomente o di\u00e1logo entre as narrativas da modernidade e as conting\u00eancias cotidianas. (MACEDO, 2007). \u201cEsse curr\u00edculo emancipador, que d\u00e1 sentido \u00e0 educa\u00e7\u00e3o como projeto, precisa apostar na negocia\u00e7\u00e3o de sentidos entre as narrativas do Iluminismo e seus \u201coutros culturais\u201d com os quais tamb\u00e9m dialogamos diariamente. (MACEDO, 2007, p.56)\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao abarcar a constru\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica intercultural no \u00e2mbito da pol\u00edtica curricular estaremos tencionando as pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas centradas no racismo e, ao mesmo tempo, a rasurar com a ideia de uma identidade un\u00edvoca manter-se congelando as diferen\u00e7as no \u00e2mbito escolar e, mesmo, fora deste. O intento aqui seria gestar propostas educacionais mais condizentes com a realidade sociocultural \u201cdestas mulheres\u201d &#8211; grifo nosso, recordando sempre que a identidade e a diferen\u00e7a seriam produzidas e disputadas a partir de sistemas de significa\u00e7\u00e3o entremeados pelo poder. (MACEDO, 2006).<\/p>\n\n\n\n<p>Um curr\u00edculo que se construa a partir de uma pol\u00edtica centrada na diferen\u00e7a possibilita-nos produzir outras significa\u00e7\u00f5es, negociar seus muitos sentidos, com outros elementos culturais e narrativas produzidas num espa\u00e7o-tempo de pr\u00e1ticas negociadas na fronteira <em>entre-lugar <\/em>onde as identidades, neste caso, destas \u201cdistintas feminilidades negras\u201d \u2013 grifo nosso, sejam forjadas, negociadas e alternativas pol\u00edticas e te\u00f3ricas possam vir a se estabelecer atrav\u00e9s da luta pol\u00edtica destas. (MACEDO, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 salutar perceber que n\u00e3o t\u00e3o somente o lugar da diferen\u00e7a precisa ser pensado, debatido, contemplado nos curr\u00edculos. \u00c9 preciso avan\u00e7ar para al\u00e9m da aceita\u00e7\u00e3o, contempla\u00e7\u00e3o e o reconhecimento destas ditas \u201cdiferen\u00e7as\u201d. Logo, quando falamos de rela\u00e7\u00f5es humanas estamos falando de um palco de tens\u00f5es, conflitos, dissensos, disputas e jogos de poder. N\u00e3o basta assim reconhecer meramente a partir de movimentos te\u00f3ricos e pol\u00edticos as no\u00e7\u00f5es de centro, margem e fronteira. \u00c9 preciso compreender que os corpos n\u00e3o s\u00e3o inertes, passivos e est\u00e1veis. Estes, est\u00e3o circunscritos em rela\u00e7\u00f5es de poder. A diferen\u00e7a, portanto, ser\u00e1 sempre contingencial, relacional e provis\u00f3ria. (LOURO, 2013).<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 estabelecida por sujeitos, logo, ela n\u00e3o preexiste. Esta \u00e9 estabelecida por um sujeito em rela\u00e7\u00e3o a um outro e acaba imprimindo marcas em alguns destes corpos. Essas marcas s\u00e3o legitimadas por saberes e pol\u00edticas que atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas sociais e pedagogias culturais se legitimam momentaneamente. Portanto, cabe refletir acerca destas inscri\u00e7\u00f5es, n\u00e3o naturalizando as diferen\u00e7as. (LOURO, 2008). Ao refletirmos a pr\u00e1tica escolar, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel observar que a escola \u00e9 um local que produz diferen\u00e7as, distin\u00e7\u00f5es e desigualdades e, atrav\u00e9s de seus discursos e condutas, produz identifica\u00e7\u00f5es de <em>g\u00eanero, ra\u00e7a, classe. <\/em>Logo, essa pr\u00e1tica \u00e9 por sua pr\u00f3pria natureza, pol\u00edtica, contingente, transformadora e subversiva, cabendo-nos desestabilizar os conformismos que naturalizam determinadas condutas neste \u00e2mbito interferindo em seus jogos de poder. (LOURO, 1997).<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe compreender nesse jogo da diferen\u00e7a que as pretens\u00f5es normativas que perpassam as diferen\u00e7as culturais e a vida em sociedade de maneira ampla n\u00e3o devem ser minadas. O que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 julgar essas pretens\u00f5es normativas no sentido de produzir novas formas de pensar a normatividade por meio de coaliz\u00f5es abertas, compreensivas que possibilitem avaliar o mundo em que vivemos, chamando a aten\u00e7\u00e3o para a relev\u00e2ncia do antagonismo como uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica potente, din\u00e2mica e produtiva. (BUTLER, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao assumirmos a escolha da ado\u00e7\u00e3o de um curr\u00edculo que dialogue e negocie na pr\u00e1tica com as diferen\u00e7as isso n\u00e3o significa deixar de perceber, observar as rela\u00e7\u00f5es de poder que lhe subjazem, exige-nos negociar com outro em um lugar-tempo pass\u00edvel de tradu\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as percebendo que as estruturas de sentidos que lhe subjazem s\u00e3o contingenciais, transit\u00f3rias, sendo imposs\u00edvel fech\u00e1-las em definitivo. (MACEDO; BARREIROS, 2006).<\/p>\n\n\n\n<p>Uma sociedade democr\u00e1tica se estabelece num terreno indecid\u00edvel e esta \u00e9 sempre marcada por pluralismos que j\u00e1 nos mostram a precariedade que \u00e9 tentar signific\u00e1-la tendo por base algum fundamento que tenha a pretens\u00e3o de ser universal e esta \u00e9 a grande ferramenta para que uma democracia por vir possa se dar em um terreno fluido, no qual v\u00e1rias diferen\u00e7as transitem e disputem a hegemonia do poder. Qualquer pretensa estabilidade identit\u00e1ria s\u00f3 poder\u00e1 vir a se constituir politicamente de forma transit\u00f3ria, cindida, na qual instabilidades e vazios perpassem essa constitui\u00e7\u00e3o onde o fluxo de significantes seja livre e, at\u00e9 ca\u00f3tico, estabelecido por meio de decis\u00f5es pol\u00edticas sempre contingenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>A identidade \u00e9 uma \u201ccostura de posi\u00e7\u00e3o\u201d, como diria Butler (2015), que se assume de maneira sempre transit\u00f3ria por meio de atos de identifica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se consolidam, n\u00e3o se encerram ou se solidificam, o que nos imprime a necessidade de nos implicarmos com projetos sociais mais respons\u00e1veis e menos ut\u00f3picos, entendendo que estes servir\u00e3o a um determinado contexto, lugar e pessoas, mas que n\u00e3o, necessariamente, servir\u00e1 a outras realidades e contextos, conforme, inclusive, reiteram as autoras supracitadas neste estudo que se prop\u00f5em a investigar cientificamente a pol\u00edtica curricular tendo por base uma proposta p\u00f3s-estruturalista, p\u00f3s-colonialista e feminista que plaina em um terreno pol\u00edtico sempre transit\u00f3rio, contingente e prec\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">5&nbsp; CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/h1>\n\n\n\n<p>O feminismo negro nos apresenta variadas possibilidades epist\u00eamicas e pol\u00edticas. Este movimento toma corpo com a produ\u00e7\u00e3o das intelectuais negras que gesta uma gram\u00e1tica pr\u00f3pria na esteira de uma pedagogia feminista negra que opera por meio de experi\u00eancias coletivas de mulheres negras. \u00c9 ilustrativa e significativa a carta escrita pelas mulheres negras ap\u00f3s a Marcha contra o racismo, contra a viol\u00eancia e em defesa do bem-viver uma vez que possibilita-nos refletir o ac\u00famulo de sentidos e significados produzidos e disputados em torno de uma educa\u00e7\u00e3o antirracista.<\/p>\n\n\n\n<p>A vis\u00e3o hegem\u00f4nica de uma experi\u00eancia feminina precisa ser vista como palco de disputas e antagonismos, mesmo porque, as experi\u00eancias femininas s\u00e3o tanto plurais, quanto s\u00e3o as demandas vivenciadas pelas mulheres negras, ind\u00edgenas, quilombolas, etc. (CARNEIRO, 2003; COLLINS, 2019; MOREIRA, 2017, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p>Poder\u00edamos interpretar essas experi\u00eancias coletivas de mulheres negras pensando as opress\u00f5es de <em>ra\u00e7a, classe e g\u00eanero e sexualidade <\/em>que as interceptam e impactam diretamente em seus modos de vida. Nesse sentido, caberia o intento de produzir um deslocamento no jogo pol\u00edtico da diferen\u00e7a que ao deslocar a no\u00e7\u00e3o de interseccionalidade abre espa\u00e7o para operarmos com uma pol\u00edtica curricular centrada na diferen\u00e7a que possibilite-nos negociar na pr\u00e1tica por meio de articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sempre contingenciais, em constante disputa, o que permita-nos operar com jogos de poder que produzam outros sentidos para o campo do curr\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe observar ainda, com crit\u00e9rio, que as diferen\u00e7as <em>ra\u00e7a, classe, g\u00eanero e sexualidades <\/em>ao serem vistas enquanto essencializadas, mais vertical acaba sendo o poder, o que colabora com a constru\u00e7\u00e3o de discursos de nega\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais contra hegem\u00f4nicos e com a luta pelo reconhecimento do curr\u00edculo enquanto um campo complexo de disputas de sentidos. \u00c9 necess\u00e1rio produzir um deslocamento neste jogo de poder que colabore por romper com os essencialismos e subverta a ideia de uma identidade, feminina e negra por exemplo, como fixa, un\u00edvoca, uma vez que esta \u00e9 sempre o resultado de uma articula\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria, estrat\u00e9gica, inconclusa, plural e, muitas vezes, subversiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma ess\u00eancia feminina negra que possua fundamento pleno ou estrutura fixa que a constitua uma identidade estanque. A identidade feminina negra constitui-se atrav\u00e9s de rela\u00e7\u00f5es contextuais, provis\u00f3rias e contingenciais em interc\u00e2mbio com o que acontece a todo instante e, por esta raz\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel predefini-la, premold\u00e1-la ou limit\u00e1-la. Lembrando que ao apresentarmos aqui enquanto campo emp\u00edrico, a marcha das mulheres negras, faz-se relevante compreender que este conjunto de reinvindica\u00e7\u00f5es aqui interpretadas, enquanto princ\u00edpios, n\u00e3o possui um sentido pronto, acabado e final.<\/p>\n\n\n\n<p>Por esta raz\u00e3o cabe o intento de desenvolver pol\u00edticas curriculares que possuam em seu bojo o di\u00e1logo intercultural a fim de produzir um curr\u00edculo que favore\u00e7a ao reconhecimento da diferen\u00e7a. Para tal, faz-se necess\u00e1rio cindir com o eurocentrismo, com as dicotomias e operar mudan\u00e7as epistemol\u00f3gicas, pol\u00edticas e culturais profundas no campo educacional transgredindo-se assim, com a racionalidade moderna, possibilitando que pensamentos de fronteiras ocupem outros espa\u00e7os com os seus saberes, suas hist\u00f3rias e culturas. (MACEDO; MACEDO, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p>Caberia, ent\u00e3o, produzir um deslocamento das estruturas sociais ou econ\u00f4micas a fim de fragment\u00e1-las ao campo de indecidibilidade para que outras vozes emerjam no jogo da diferen\u00e7a uma vez que s\u00e3o os sujeitos que de acordo com as suas posi\u00e7\u00f5es que articulam as estruturas. (MACEDO, 2009).<\/p>\n\n\n\n<p>As tens\u00f5es provocadas pelos debates \u00e9tnico-raciais, de g\u00eaneros e sexualidades articuladas, ou, imbricadas \u00e0s classes, refor\u00e7aram o aprofundamento das cr\u00edticas aos valores modernos. O debate feminista pode ser considerado como o mais eloquente do momento por propor uma epistemologia e pr\u00e1tica pol\u00edtica. Observa-se que estas categorias n\u00e3o se relacionam necessariamente entre si, os debates se estabeleceram de forma forjada e separada o que nos aponta as disputas na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento e na condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nesse \u00ednterim. (SCOTT, 1995).<\/p>\n\n\n\n<p>A interdepend\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es de poder demonstradas nos estudos das interseccionalidades permite-nos compreender que a identidade \u00e9 entrecortada, atravessada por muitos vieses que impacta a experi\u00eancia de ser humano. As experi\u00eancias das \u201cmulheres de cor\u201d, por exemplo, representam um espectro de um fen\u00f4meno que \u00e9 por si s\u00f3 muito mais complexo. (CRENSHAW, 1989; 2002).<\/p>\n\n\n\n<p>As interseccionalidades <em>ra\u00e7a, classe, g\u00eanero e sexualidade <\/em>enquanto instrumento de luta pol\u00edtica se articulam atrav\u00e9s de paradigmas de opress\u00e3o que se caracterizam por diferentes matrizes de domina\u00e7\u00e3o nas quais essas interseccionalidades tem sua origem, seu desenvolvimento e inser\u00e7\u00e3o e, por esta raz\u00e3o, configura-se em uma \u201carma pol\u00edtica\u201d que nos possibilita pensar acerca das condi\u00e7\u00f5es sociais nas quais o conhecimento \u00e9 produzido e, principalmente, entender a import\u00e2ncia de utilizar o conhecimento acerca do pensamento feminista negro para, inclusive, ampliar esse debate pensando em outros projetos que envolvam justi\u00e7a social. (COLLINS, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Os sujeitos coletivos, a exemplo das mulheres negras, articulam discursos contra hegem\u00f4nicos por meio de pr\u00e1ticas identificat\u00f3rias. Logo, partindo da ideia de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade por meio de uma constru\u00e7\u00e3o discursiva num horizonte por vir seria necess\u00e1rio tencionar as particularidades esvaziando o sentido original destas demandas visando incorporar demandas outras que se originam de outras formas, mas que se reconhe\u00e7am nessa particularidade. Os lugares a serem ocupados na sociedade ser\u00e3o sempre espa\u00e7os provis\u00f3rios, contingentes, que descortinam as hegemonias e a ordem vigentes. (BURITY, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto contempor\u00e2neo apresenta perspectivas pol\u00edticas cada vez mais conservadoras com forte acento numa perspectiva cultural hegem\u00f4nica e tradicionalista. Portanto, cabe-nos produzirmos espa\u00e7os de problematiza\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo que perpassem por uma perspectiva multicultural deste, tornando poss\u00edvel o reconhecimento das diferen\u00e7as n\u00e3o as pormenorizando, cabendo, inclusive, fomentar atrav\u00e9s de articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, reflex\u00f5es e debates acerca das identidades de <em>ra\u00e7a, classe, g\u00eanero e sexualidades <\/em>\u2013 (grifo das autoras) desestabilizando propostas hegem\u00f4nicas e monoculturais, operando com hibridiza\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias e multiculturais. (IVENICKI, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o curr\u00edculo seria pass\u00edvel de ser entendido, interpretado como um espa\u00e7o oportuno para o jogo pol\u00edtico de negocia\u00e7\u00e3o com as diferen\u00e7as, operando com variados discursos culturais sejam eles de domina\u00e7\u00e3o\/resist\u00eancia que acontecem a todo momento e, por esta raz\u00e3o, a luta pol\u00edtica seja t\u00e3o importante justamente por nos possibilitar diminuir o controle e deixar emergir o sentido de sua exclus\u00e3o. \u00c9 na emerg\u00eancia dos interst\u00edcios que essa negocia\u00e7\u00e3o agon\u00edstica ocorrer\u00e1 de forma complexa, deslizando a qualquer tentativa de fixa\u00e7\u00e3o, defini\u00e7\u00e3o, fechamento, n\u00e3o \u00e9 passado ou presente, aqui ou l\u00e1, a pr\u00f3pria indecidibilidade apresenta a sua possibilidade e pot\u00eancia num lugar-tempo devir.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup>1<\/sup> Esses s\u00e3o lemas da Marcha da Mulheres Negras contra o Racismo, a viol\u00eancia e pelo Bem Viver que ocorreu em Bras\u00edlia, no dia 18 de novembro de 2015, com a participa\u00e7\u00e3o de mais de 50 mil pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>2<\/sup> Professora Titular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) Vit\u00f3ria da Conquista, BA, Brasil. E-mail: <a href=\"mailto:nubia.moreira@uesb.edu.br\">nubia.moreira@uesb.edu.br<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><sup>3<\/sup> Mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Vit\u00f3ria da Conquista, BA, Brasil. E-mail: <a href=\"mailto:thaiscardosopsi@yahoo.com.br\">thaiscardosopsi@yahoo.com.br<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><sup>4<\/sup>O ano de 2020 foi desafiador para a luta antirracista, devido sucessivas pr\u00e1ticas de racismo contra pessoas negras somada a um contexto de pandemia do covid-19. Mesmo com as restri\u00e7\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o, isolamento social impostas como medidas de conten\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o do v\u00edrus, o que se viu televisionado e veiculado pelas m\u00eddias sociais foi o avan\u00e7o da viol\u00eancia policial brutal contra homens negros. Caso emblem\u00e1tico foi o assassinato de George Floyd pela pol\u00edcia estadunidense e, aqui no Brasil, do caso Jo\u00e3o Alberto, assassinado por dois seguran\u00e7as do supermercado Carrefour em Porto Alegre, RS. Atos como esses associados a um contexto de desmantelamento dos servi\u00e7os p\u00fablicos, a exemplo do SUS, que deixa desassistida a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, que \u00e9, em sua maioria, negra. Decorrente de todo um ac\u00famulo de luta antirracista desenvolvida por diversos segmentos das organiza\u00e7\u00f5es do movimento negro e de mulheres negras, que se re\u00fanem para formar a Coaliza\u00e7\u00e3o Negra.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>5<\/sup> Tem sido corrente nas pesquisas sobre o feminismo negro no Brasil o fato de parcela das mulheres negras organizadas a aceita\u00e7\u00e3o tardia da identifica\u00e7\u00e3o com o feminismo. As mulheres negras n\u00e3o enxergavam nas pautas feministas as suas demandas, principalmente, aquelas referentes a racializa\u00e7\u00e3o dos seus corpos.. (MOREIRA, 2018; CARDOSO, 2012).<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo cient\u00edfico publicado na Revista Cadernos de Pesquisa &#8211; Brasil<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"144\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cadernos-1024x144.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13826\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cadernos-1024x144.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cadernos-300x42.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cadernos-768x108.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cadernos.jpg 1078w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ind\u00edcios para um curr\u00edculo antirracista Nubia Regina Moreira2 ORCID: http:\/\/orcid.org\/0000-0001-6171-6756 Tha\u00eds Teixeira Cardoso3 ORCID: http:\/\/orcid.org\/0000-0002-0130-3316&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13825,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[470],"tags":[38],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo.jpg",1839,737,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo-300x120.jpg",300,120,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo-768x308.jpg",640,257,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo-1024x410.jpg",640,256,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo-1536x616.jpg",1536,616,true],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo.jpg",1839,737,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo-1115x715.jpg",1115,715,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo-1024x410.jpg",1024,410,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cracismo-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/voz-ativa\/\" rel=\"category tag\">VOZ ATIVA<\/a>","tag_info":"VOZ ATIVA","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13824"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13824"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13824\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13827,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13824\/revisions\/13827"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13825"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13824"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13824"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13824"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}