{"id":14026,"date":"2025-06-03T21:15:32","date_gmt":"2025-06-03T21:15:32","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=14026"},"modified":"2025-06-03T21:24:26","modified_gmt":"2025-06-03T21:24:26","slug":"votos-da-emigracao-e-os-donos-disto-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2025\/06\/03\/votos-da-emigracao-e-os-donos-disto-tudo\/","title":{"rendered":"Votos da emigra\u00e7\u00e3o e os donos disto tudo"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">OPINI\u00c3O &#8211; [Elei\u00e7\u00f5es legislativas maio 2025]<\/h2>\n\n\n\n<p><em>30 de Maio de 2025<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><em>Francisco Melro<\/em><\/h3>\n\n\n\n<p>Na an\u00e1lise que fiz, h\u00e1 poucos dias, aos resultados das legislativas de 2025 em territ\u00f3rio nacional (<em>Imigra\u00e7\u00e3o<\/em><em> e Luta de classes: olhemos para a economia<\/em>), deixei de lado o impacto das componentes n\u00e3o econ\u00f3micas da realidade portuguesa: \u201c<em>esque\u00e7amos, por favor e pelo menos para este efeito, as conversas sobre o S\u00f3crates, a troika, o Passos Coelho e o Costa. Olhemos para a economia\u201d<\/em>, escrevi ent\u00e3o. O conhecimento dos resultados eleitorais junto da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa, com a vit\u00f3ria incontest\u00e1vel do Chega, exige que olhemos para os impactos de tudo o resto, ou seja, o que os contestat\u00e1rios mais radicais, apelidam por sistema.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Uma parte significativa do apoio ao Chega por parte dos emigrantes portugueses ser\u00e1 certamente explicada por raz\u00f5es econ\u00f3micas: falta de oportunidades em territ\u00f3rio nacional e desesperan\u00e7a quanto \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, sobretudo pelos mais jovens, empurram-nos para que procurem melhor vida noutros pa\u00edses.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise das estat\u00edsticas da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa revela fluxos m\u00e9dios anuais de cerca de 35 mil sa\u00eddas permanentes, no per\u00edodo compreendido entre o in\u00edcio de 2011 e o final de 2023, predominantemente por parte de pessoas com menos de 35 anos. Os fluxos de emigra\u00e7\u00e3o foram mais elevados no per\u00edodo da troika, recuando posteriormente, mas reganharam novo f\u00f4lego a partir de 2021, retomando n\u00edveis acima 30 mil sa\u00eddas anuais, estimando-se que esta tend\u00eancia tenha sido mantida em 2024. Entre 2011 e 2024, ter\u00e3o sa\u00eddo cerca de 500 mil pessoas em idade activa.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:23px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"849\" height=\"495\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14028\" style=\"aspect-ratio:1.715151515151515;width:573px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E-1.jpg 849w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E-1-300x175.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E-1-768x448.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 849px) 100vw, 849px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Mas a manifesta\u00e7\u00e3o do descontentamento pol\u00edtico, por via eleitoral, na emigra\u00e7\u00e3o s\u00f3 emergiu nos \u00faltimos anos, nas vota\u00e7\u00f5es posteriores a 2019. A an\u00e1lise da dimens\u00e3o dos seus impactos, as suas especificidades e a sua diferente distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica obrigam-nos a uma abordagem mais fina desses resultados. Se bem que esse impacto seja de forma quase transversal a todas as regi\u00f5es, surgem elementos que sugerem a interven\u00e7\u00e3o de outras raz\u00f5es, para al\u00e9m da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>De facto, as vagas de emigra\u00e7\u00e3o mais recentes, envolvem jovens com n\u00edveis de qualifica\u00e7\u00e3o elevados, destinados a novas regi\u00f5es de emigra\u00e7\u00e3o portuguesas. Mas \u00e9 nas regi\u00f5es da \u201cvelha\u201d emigra\u00e7\u00e3o nacional, na Su\u00ed\u00e7a, no Brasil, na B\u00e9lgica, em Fran\u00e7a e no Luxemburgo, aparentemente menos afectados pelos desenvolvimentos mais recentes da economia portuguesa, que o Chega obteve vit\u00f3rias mais retumbantes.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:16px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"837\" height=\"539\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E22.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14029\" style=\"aspect-ratio:1.5528756957328387;width:562px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E22.jpg 837w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E22-300x193.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E22-768x495.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 837px) 100vw, 837px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:17px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Constata-se que os resultados eleitorais n\u00e3o resultaram essencialmente de perdas do PS e do PSD para o Chega mas sim do acr\u00e9scimo significativo do n\u00famero de eleitores. A soma dos votos do PS e do PSD manteve-se relativamente constante desde 2019, com trocas de votos do PS para o PSD de 2022 para 2025, pelo que a vota\u00e7\u00e3o no Chega na emigra\u00e7\u00e3o nos anos de 2024 e de 2025 vem essencialmente dos novos eleitores, novos emigrantes ou anteriores abstencionistas. Refira-se que a vota\u00e7\u00e3o nos pequenos partidos foi em 2025 pouco significativa e ao n\u00edvel de anteriores elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:15px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"795\" height=\"497\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14030\" style=\"aspect-ratio:1.5995975855130784;width:529px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E3.jpg 795w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E3-300x188.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E3-768x480.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E3-400x250.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 795px) 100vw, 795px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:24px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>De facto, regista-se de 2019 para 2025 uma subida significativa do n\u00famero de inscritos para votar, em sintonia com o crescimento da comunidade portuguesa emigrante, mas o crescimento da participa\u00e7\u00e3o efectiva nas elei\u00e7\u00f5es, \u00e9 muito mais significativo, passando de 158 mil votantes em 2019 para cerca de 353 mil em 2025, ou seja, mais 194 250, cerca de 2 vezes e meia superior, acr\u00e9scimo acima dos novos emigrantes permanentes sa\u00eddos nesse per\u00edodo. Refira-se que o conjunto das novas inscri\u00e7\u00f5es n\u00e3o foi al\u00e9m de 118 mil.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:21px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"862\" height=\"576\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14031\" style=\"aspect-ratio:1.4965277777777777;width:522px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E5.jpg 862w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E5-300x200.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E5-768x513.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 862px) 100vw, 862px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:22px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Outro dado digno de an\u00e1lise diz respeito \u00e0 subida substancial do n\u00famero de votos nulos entre os votos recebidos, que passou de uma percentagem inferior a 20% em 2022 para n\u00edveis muito mais elevados, acima de 30 por cento nos anos de 2024 e de 2025, anos em que o Chega predominou na vota\u00e7\u00e3o emigrante. Tendo em conta o conjunto dos resultados v\u00e1lidos, ser\u00e1 razo\u00e1vel concluir que a vota\u00e7\u00e3o no Chega seria muito mais expressiva na aus\u00eancia deste n\u00famero t\u00e3o significativo de votos nulos.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:23px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"857\" height=\"570\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14032\" style=\"aspect-ratio:1.5035087719298246;width:475px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E6.jpg 857w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E6-300x200.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E6-768x511.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 857px) 100vw, 857px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>A natureza da anula\u00e7\u00e3o dos votos, associada a n\u00e3o envio de documentos comprovativos e a procedimentos incorrectos no envio dos mesmos, poder\u00e1 derivar do facto de muitos emigrantes estarem a votar pela primeira vez e\/ou de n\u00edveis menos elevados de literacia, dificultando a interpreta\u00e7\u00e3o das instru\u00e7\u00f5es recebidas pelos emigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise da distribui\u00e7\u00e3o regional dos votos anulados revela n\u00edveis particularmente significativos de percentagens de votos anulados nas regi\u00f5es de emigra\u00e7\u00e3o \u201chist\u00f3rica\u201d das Am\u00e9ricas e da Europa, pelo que os resultados globais na emigra\u00e7\u00e3o, no pressuposto de se tratar de novos eleitores anteriormente abstencionistas e com menos n\u00edveis de literacia, poderiam ser bem mais dram\u00e1ticos, na aus\u00eancia destas anula\u00e7\u00f5es. O PS e o PSD desapareceriam do universo de deputados eleitos pela emigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:17px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"879\" height=\"600\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E7.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14033\" style=\"aspect-ratio:1.465;width:563px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E7.jpg 879w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E7-300x205.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/E7-768x524.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 879px) 100vw, 879px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:28px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>O sentido de voto, numa perspectiva de protesto por desesperan\u00e7a, dos novos emigrantes poder\u00e1 ter uma explica\u00e7\u00e3o predominantemente de natureza s\u00f3cio-econ\u00f3mica, similar ao dos portugueses residentes em territ\u00f3rio nacional. Mas os da \u201cvelha\u201d emigra\u00e7\u00e3o t\u00eam de ser analisados numa outra perspectiva. Mesmo que as suas op\u00e7\u00f5es possam tamb\u00e9m estar influenciadas pelos seus contactos com cidad\u00e3os residentes, sobretudo familiares, e por vindas espor\u00e1dicas a Portugal, as suas escolhas por um Partido que faz do combate \u00e0 emigra\u00e7\u00e3o a sua principal bandeira, chocam-nos e surpreendem-nos, sobretudo aos mais antigos que conhecemos e acompanh\u00e1mos as perip\u00e9cias que rodearam as suas sa\u00eddas \u201ca salto\u201d, no caso europeu, e a sua adapta\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses da emigra\u00e7\u00e3o que, grosso modo, os foram acolhendo e integrando ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta vaga anti-sistema vinda da comunidade emigrante reflecte o ambiente geral que se vive nas Am\u00e9ricas e na velha Europa, de Trump, Bolsonaro, Le Pen e outros. Basta ouvir falar o brasileiro que foi eleito pela Chega por fora da Europa, ou emigrante portugu\u00eas que foi eleito pela Europa. O sotaque acentuado do primeiro revela que, muito provavelmente, se trata at\u00e9 de um emigrante com liga\u00e7\u00f5es distantes a Portugal. Mas ambos estar\u00e3o a reproduzir bem o alinhamento dos emigrantes que os elegeram: querem varrer o socialismo de Portugal, o PS1, que dizem j\u00e1 ter ido, e o PS2, o PSD, que ir\u00e1 de seguida. Ou seja, o mesmo sentido dos votos pedidos pelo Chega em territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Estaremos assim confrontados com uma batalha prolongada, de grande f\u00f4lego. Ser\u00e1 indispens\u00e1vel conter e inverter esta tend\u00eancia de desgaste cont\u00ednuo do sistema democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m de pol\u00edticas econ\u00f3mica activas conducentes a um ambiente mais favor\u00e1vel para um investimento inovador gerador de oportunidades de emprego mais bem remuneradas, capazes de dissuadir emigra\u00e7\u00f5es indesejadas, ser\u00e1 necess\u00e1rio que o sistema democr\u00e1tico passe a dar-se ao respeito.<\/p>\n\n\n\n<p>As crises pol\u00edticas derivadas de comportamentos, ou suspeitas dos mesmos, pouco \u00e9ticos de governantes e de agentes pr\u00f3ximos, causam perturba\u00e7\u00e3o e descredibilizam a democracia perante os cidad\u00e3os. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel um chefe de gabinete de Primeiro-Ministro ter 70 mil euros em numer\u00e1rio no gabinete do mesmo nem um Primeiro-Ministro receber aven\u00e7as de empresas no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es. Nem \u00e9 poss\u00edvel que nos gabinetes de um ministro os assessores se envolvam em confrontos f\u00edsicos nem que um assessor do Primeiro-Ministro surja associado a um neg\u00f3cio municipal estranho manipulado por um vigarista de baixo calibre. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o convivemos bem com o facto de, no neg\u00f3cio de aquisi\u00e7\u00e3o nacional de submarinos, uma empresa alem\u00e3 ter sido condenada na Alemanha por corrup\u00e7\u00e3o sem ter sido identificada a contraparte nacional que ter\u00e1 sido corrompida. Nem com as transi\u00e7\u00f5es para as administra\u00e7\u00f5es de empresas p\u00fablicas privatizadas de pol\u00edticos envolvidos nos respectivos processos de privatiza\u00e7\u00e3o. Nem o enriquecimento s\u00fabito de alguns pol\u00edticos. Muito menos podemos ignorar os desgastes no sistema democr\u00e1tico associados \u00e0 crise financeira, com os BPP, BPN e BES, nem com a infind\u00e1vel saga dos julgamentos de S\u00f3crates e de Ricardo Esp\u00edrito Santo. Cada vez que S\u00f3crates aparece em cena, o PS perde mais uns milhares de votos. O PSD tamb\u00e9m n\u00e3o ganha grande coisa quando aparece o Miguel Relvas. Basta ouvir os coment\u00e1rios nos espa\u00e7os p\u00fablicos quando S\u00f3crates surge no espa\u00e7o p\u00fablico a mandar bitaites. E para sorte dos T\u00e1voras, o S\u00f3crates n\u00e3o perde qualquer oportunidade, sobretudo em per\u00edodo eleitoral, para dar nas vistas, para que ningu\u00e9m se esque\u00e7a dele. Mais sensato \u00e9 o Dias Loureiro que permanece longe dos holofotes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas para al\u00e9m destes e doutros epis\u00f3dios, ocorridos com o PS, o PSD e o CDS, h\u00e1 a pr\u00e1tica permanente dos grandes partidos quando chegam ao poder, seja na Administra\u00e7\u00e3o Central, seja nas Regi\u00f5es e Munic\u00edpios ou em qualquer organismo p\u00fablico. Mal \u00e9 eleito, o Partido torna-se dono disto tudo, ocupa todos os lugares, desalojando opositores e n\u00e3o alinhados para darem lugar aos seus, independentemente das qualifica\u00e7\u00f5es dos que entram e dos que saem. S\u00e3o procedimentos que foram sendo introduzidos, inicialmente, um pouco \u00e0s escondidas, mas que agora j\u00e1 s\u00e3o pr\u00e1ticas normalizadas, publicamente assumidas. Vemos ministros ou ministras, alguns e algumas de credibilidade muito reduzida, assumirem publicamente o direito de nomearem e afastarem quem bem entendem, a partir do crit\u00e9rio da fidelidade partid\u00e1ria. O recente afastamento escandaloso de Fernando Ara\u00fajo de CEO do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade e a sua substitui\u00e7\u00e3o por um qualquer ligado ao PSD que veio a revelar-se de enorme incompet\u00eancia, \u00e9 o exemplo vivo desta conduta dos novos donos disto tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Escolher dirigentes de cargos p\u00fablicos com base na fidelidade partid\u00e1ria, independentemente das qualifica\u00e7\u00f5es, desacredita os dirigentes pol\u00edticos perante os cidad\u00e3os e perante os trabalhadores p\u00fablicos, penalizando a capacidade e a operacionalidade dos organismos e a qualidade dos servi\u00e7os prestados. De resto, esta prepot\u00eancia \u00e9 habitualmente prosseguida dentro dos organismos p\u00fablicos, promovendo os da mesma cor, em preju\u00edzo de terceiros, mesmo que sem v\u00ednculos partid\u00e1rios, por vezes com requintes de revanchismo, contaminado o ambiente de trabalho e a qualidade do desempenho do conjunto dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s cerca de 50 anos de viv\u00eancia democr\u00e1tica, os cidad\u00e3os foram observando estes procedimentos abusivos e atentat\u00f3rios dos interesses nacionais. A cr\u00edtica social a essas pr\u00e1ticas prepotentes acompanhou sempre as suas manifesta\u00e7\u00f5es, conduzindo ao afastamento de muitos cidad\u00e3os da vida pol\u00edtica e \u00e0 absten\u00e7\u00e3o eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o Chega aparece a dizer que \u00e9 \u201c<em>preciso<\/em><em> derrubar o sistema<\/em>\u201d que \u201c<em>andam<\/em><em> todos a gamar<\/em>\u201d, que \u201c<em>s\u00e3o todos<\/em><em> corruptos<\/em>\u201d, que \u201c<em>n\u00e3o h\u00e1<\/em><em> seguran\u00e7a<\/em>\u201d, que atribui aos imigrantes, que \u201c<em>vivemos numa bandalheira<\/em>\u201d, para depois partir para as suas propostas, que deixam impl\u00edcita a vontade de substituir a democracia por um sistema anti-democr\u00e1tico, e para as solu\u00e7\u00f5es delirantes e demag\u00f3gicas que contrap\u00f5e para os problemas do Pa\u00eds, sabe que existe descontentamento com dimens\u00e3o suficiente para vir em seu apoio. \u201c<em>\u00c9<\/em><em> o \u00fanico que diz as verdades<\/em>\u201d, ouvimos dizer aos seus apoiantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Este caldo cultural mina os alicerces da democracia e, neste momento de encruzilhada da economia portuguesa e de grandes conflitos internacionais, provoca uma eros\u00e3o social que cria obst\u00e1culos cont\u00ednuos e crescentes ao acolhimento popular das adequadas pol\u00edticas p\u00fablicas democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>As redes sociais e os programas televisivos especializados em investiga\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o, com destaque a CMTV, onde vai chegando informa\u00e7\u00e3o sa\u00edda dos processos em investiga\u00e7\u00e3o, e o prolongamento destes processos por parte do MP amplificam este descontentamento. O mesmo sucede sobre a ocorr\u00eancia de crimes que ocupam novelas televisivas di\u00e1rias de dura\u00e7\u00e3o cont\u00ednua ao longo de semanas e meses, criando uma sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda outro descontentamento que assola adicionalmente muitos cidad\u00e3os. A aus\u00eancia de debate sobre as implica\u00e7\u00f5es no dom\u00ednio da Defesa nacional, no apoio \u00e0 Ucr\u00e2nia contra a agress\u00e3o russa e contra as amea\u00e7as emergentes \u00e0s democracias europeias, bem como o sil\u00eancio c\u00famplice portugu\u00eas e europeu contra as campanhas de exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o palestiniana levada a cabo por Netanyahu, com o apoio americano e com o suporte da maioria da popula\u00e7\u00e3o judaica, descredibilizam todos os discursos da democracia em defesa da Democracia e dos Direitos Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>A invers\u00e3o pol\u00edtica em Portugal ter\u00e1 de ter por refer\u00eancia a \u00e9tica, a dedica\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o da causa p\u00fablica, e a defesa e o respeito intransigentes dos valores democr\u00e1ticos, dos Direitos Humanos e da Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Portugal e a n\u00edvel internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de alarme p\u00fablico nas hostes dos grandes partidos, a leveza com que os grandes partidos democr\u00e1ticos est\u00e3o a abordar os desafios, com a pressa do PS em mudar de l\u00edder e do PSD prosseguir sem sobressaltos a sua marcha habitual, revelam que pouco ir\u00e1 mudar por estas bandas. As mesmas ideias, as mesmas inten\u00e7\u00f5es, por parte dos novos dirigentes, os mesmos comportamentos, por parte do grosso do Partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Esperem pelo Salvador. Vem a\u00ed o Almirante!<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto DESTAQUE &#8211; Excerto de Nathalie Afonso Dell Omo  pintura sobre a Di\u00e1spora e L\u00edngua Portuguesa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OPINI\u00c3O &#8211; [Elei\u00e7\u00f5es legislativas maio 2025] 30 de Maio de 2025 Francisco Melro Na an\u00e1lise&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14035,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,99],"tags":[296],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso.jpg",939,467,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso-300x149.jpg",300,149,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso-768x382.jpg",640,318,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso.jpg",640,318,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso.jpg",939,467,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso.jpg",939,467,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso.jpg",939,467,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso-800x467.jpg",800,467,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso.jpg",939,467,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/nathalie-Afonso-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a>","tag_info":"OPINI\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14026"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14026"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14026\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14037,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14026\/revisions\/14037"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14035"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14026"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14026"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14026"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}