{"id":14630,"date":"2025-08-13T15:20:20","date_gmt":"2025-08-13T15:20:20","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=14630"},"modified":"2025-08-13T15:48:51","modified_gmt":"2025-08-13T15:48:51","slug":"a-primeira-deportacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2025\/08\/13\/a-primeira-deportacao\/","title":{"rendered":"A Primeira Deporta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Algarve, s\u00e9culo XXI. O mar j\u00e1 n\u00e3o trazia ouro, pimenta ou canela. Trazia marroquinos<\/h2>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">por Tiago Silva, professor dos ensinos b\u00e1sicos e universit\u00e1rio<\/h4>\n\n\n\n<p><a><\/a>Sonhei que estava na caravela de Colombo. N\u00e3o por voca\u00e7\u00e3o mar\u00edtima, mareio-me na fila da balsa para a Trafaria, mas porque os sonhos t\u00eam esta crueldade de nos dar responsabilidades para as quais n\u00e3o estamos preparados. N\u00e3o era navegador nem cart\u00f3grafo, isso s\u00e3o profiss\u00f5es que exigem destreza, estudo ou paci\u00eancia &#8211; era \u201cbra\u00e7o direito\u201d. Um cargo inventado para quem quer o prest\u00edgio do poder sem a chatice das culpas. A minha principal fun\u00e7\u00e3o era encostar-me \u00e0 amurada, copo de vinho na m\u00e3o e dizer coisas t\u00e3o \u00fateis como: \u201cMeu Capit\u00e3o, se calhar \u00e9 melhor virar um pouco mais \u00e0 esquerda\u201d ou \u201ctalvez dev\u00eassemos rumar a um s\u00edtio onde n\u00e3o nos matem.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Cheg\u00e1mos \u00e0s Antilhas, o que, para quem vinha de Palos de la Frontera \u00e9 como chegar a Espinho vindo de Massam\u00e1: semelhante dist\u00e2ncia moral, mas com mais calor e menos prociss\u00f5es. A praia, de areia fina e mar azul\u00edssimo, estava povoada por amer\u00edndios que nos receberam com a hospitalidade de festa da aldeia: sorrisos abertos, frutas nas m\u00e3os e a educada curiosidade de quem ainda n\u00e3o foi apresentado \u00e0s doen\u00e7as europeias. Um deles, com um espanhol de fazer corar certos deputados da nossa Assembleia, perguntou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vieram s\u00f3 homens?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sim, s\u00f3 homens. Porqu\u00ea? \u2014 respondeu Colombo, imaginando que ia receber um cabaz de boas-vindas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o v\u00e3o-se embora. Deportados. Aqui n\u00e3o aceitamos desembarques de machos armados sem mulheres nem crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Colombo ficou im\u00f3vel. Eu, por dentro, j\u00e1 me ria: era a primeira deporta\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria e n\u00e3o houve tempo sequer para uma lei org\u00e2nica. O resto, como se sabe, n\u00e3o foi t\u00e3o engra\u00e7ado. Quando os conquistadores chegaram, havia \u2014 dependendo da fonte \u2014 cerca de setenta milh\u00f5es de ind\u00edgenas nas Am\u00e9ricas. Um s\u00e9culo e meio depois, restavam pouco mais de tr\u00eas milh\u00f5es e meio. Em certas regi\u00f5es, como entre Lima e Paita, a popula\u00e7\u00e3o passou de dois milh\u00f5es para quatro mil fam\u00edlias em menos de dois s\u00e9culos. Quatro mil fam\u00edlias! N\u00famero que, como sabemos, em Lisboa mal chega para encher um centro comercial num s\u00e1bado \u00e0 tarde. Mais espantoso \u00e9 que, perante esta hecatombe, o arcebispo Li\u00f1\u00e1n y Cisneros tenha declarado que os \u00edndios \u201cse escondiam para n\u00e3o pagar tributos\u201d. Talvez fosse isso: fuga ao fisco em larga escala. Ou talvez fosse a impossibilidade de pagar quando j\u00e1 n\u00e3o havia vivos suficientes para contar moedas. Havia, claro, leis de \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d impec\u00e1veis, dignidade no papel, servid\u00e3o na pr\u00e1tica. A mesma destreza legislativa que ainda hoje nos assiste: decretos impecavelmente redigidos, aplicados com o entusiasmo de quem prefere n\u00e3o estragar o verniz.<\/p>\n\n\n\n<p>E j\u00e1 que falamos de travessias for\u00e7adas, passemos do Caribe ao Atl\u00e2ntico Sul. Nunca nos ensinaram na escola, mas em 1840 a maior cidade negra do mundo n\u00e3o ficava em \u00c1frica: chamava-se Rio de Janeiro. N\u00e3o era Lagos, nem Luanda, nem Cartum \u2014 era a capital imperial brasileira, feita de ruas, igrejas e senzalas. Um feito digno de manual, obtido com a simplicidade habitual: arrancar milh\u00f5es de pessoas das suas terras, separar fam\u00edlias, vender crian\u00e7as, empilh\u00e1-las em por\u00f5es de navio com menos espa\u00e7o do que um voo low-cost em promo\u00e7\u00e3o. Depois, no destino, trabalho at\u00e9 ao colapso. Curioso: quando vinham involuntariamente, a log\u00edstica era impec\u00e1vel. Navios prontos, rotas calculadas, economia florescente. Agora, quando v\u00eam voluntariamente, fugindo de guerra e fome, \u201cn\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es\u201d. Talvez seja isso: a Hist\u00f3ria prefere passageiros sem bilhete de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>O sonho deu ent\u00e3o um salto no tempo e no mapa: Algarve, s\u00e9culo XXI. O mar j\u00e1 n\u00e3o trazia ouro, pimenta ou canela. Trazia marroquinos. E, ironia das urnas, a terra que mais votou num partido chamado Chega queria que eles\u2026 partissem. \u00c9 o primeiro partido que transforma o pr\u00f3prio nome numa ordem de expuls\u00e3o. Observei os rec\u00e9m-chegados. Tinham a express\u00e3o serena de quem ainda n\u00e3o percebeu a especialidade da casa. N\u00e3o sabiam que aterrar no Algarve com passaporte estrangeiro, mas sem um tost\u00e3o no bolso, \u00e9 como entrar num bar de prov\u00edncia vestido de drag queen: ningu\u00e9m diz nada, at\u00e9 algu\u00e9m dizer. No sonho, tentei consol\u00e1-los: ser deportado n\u00e3o \u00e9 o fim. Colombo foi, e acabou com feriado em seu nome. Quem sabe, daqui a quinhentos anos, haja um Dia Nacional do Marroquino, com ranchos folcl\u00f3ricos a dan\u00e7ar ao som de castanholas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas acordei antes do desfecho. Fiquei apenas com a sensa\u00e7\u00e3o de que a Hist\u00f3ria \u00e9 como o mar: repete-se em ondas, sempre com a mesma espuma, mas tingida de cores diferentes. E que, em qualquer s\u00e9culo, h\u00e1 sempre quem receba o estrangeiro com um sorriso nos l\u00e1bios\u2026 e a m\u00e3o j\u00e1 a apontar para a sa\u00edda.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"586\" height=\"545\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/tiago-_colaborador.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14631\" style=\"aspect-ratio:1.075229357798165;width:192px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/tiago-_colaborador.jpg 586w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/tiago-_colaborador-300x279.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 586px) 100vw, 586px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tiago Silva, Professor <\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1020\" height=\"592\" data-id=\"14636\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/colombo-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14636\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/colombo-1.jpg 1020w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/colombo-1-300x174.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/colombo-1-768x446.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1020px) 100vw, 1020px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-white-background-color has-background\">O &#8220;Descobrimento da Am\u00e9rica&#8221; refere-se \u00e0\u00a0<mark>chegada de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo \u00e0 Am\u00e9rica em 12 de outubro de 1492, a servi\u00e7o da Espanha<\/mark>.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algarve, s\u00e9culo XXI. 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