{"id":14826,"date":"2025-09-01T11:10:31","date_gmt":"2025-09-01T11:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=14826"},"modified":"2025-09-01T11:11:02","modified_gmt":"2025-09-01T11:11:02","slug":"a-causa-palestiniana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2025\/09\/01\/a-causa-palestiniana\/","title":{"rendered":"A causa palestiniana"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Em Setembro de 1983, Gilles Deleuze escreveu este texto, que n\u00e3o perdeu atualidade<\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-post-date\"><time datetime=\"2025-09-01T11:10:31+00:00\">1 de Setembro, 2025<\/time><\/div>\n\n\n<p>A causa palestiniana \u00e9, antes de mais, a soma total das injusti\u00e7as que este povo sofreu e continua a sofrer. Estas injusti\u00e7as incluem actos de viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m os ilogismos, os falsos racioc\u00ednios, as falsas garantias que pretendem compens\u00e1-los ou justific\u00e1-los.<br>(\u2026) Do in\u00edcio ao fim, tratar-se-\u00e1 de agir como se o povo palestiniano n\u00e3o s\u00f3 j\u00e1 n\u00e3o devesse existir, como nunca tivesse existido.<br>Os conquistadores estavam entre aqueles que sofreram o maior genoc\u00eddio da hist\u00f3ria. Os sionistas causaram um mal absoluto a este genoc\u00eddio. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Mas transformar o maior genoc\u00eddio da hist\u00f3ria num mal absoluto \u00e9 uma vis\u00e3o religiosa e m\u00edstica, n\u00e3o hist\u00f3rica. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o impede o mal; pelo contr\u00e1rio, espalha-o, faz com que outros inocentes o sofram, exige repara\u00e7\u00f5es que fa\u00e7am esses outros sofrer parte do que os judeus sofreram (expuls\u00e3o, guetiza\u00e7\u00e3o, desaparecimento como povo). Com meios &#8220;mais frios&#8221; que o genoc\u00eddio, querem alcan\u00e7ar o mesmo resultado.<br>Os EUA e a Europa deviam repara\u00e7\u00f5es aos judeus. E fizeram com que essas repara\u00e7\u00f5es fossem pagas por um povo que, para dizer o m\u00ednimo, nada teve a ver com isso, singularmente inocente de qualquer Holocausto e que nem sequer tinha ouvido falar dele. \u00c9 aqui que come\u00e7a o grotesco, assim como a viol\u00eancia. O sionismo, e depois o Estado de Israel, exigir\u00e3o que os palestinianos os reconhe\u00e7am legalmente. Mas ele, o Estado de Israel, nunca deixar\u00e1 de negar a pr\u00f3pria exist\u00eancia de um povo palestiniano. Nunca falaremos dos palestinianos, mas dos \u00e1rabes da Palestina, como se ali se tivessem encontrado por acaso ou por engano. E, mais tarde, agiremos como se os palestinianos expulsos viessem de fora; n\u00e3o falaremos da primeira guerra de resist\u00eancia que travaram sozinhos. Vamos fazer com que sejam descendentes de Hitler, uma vez que n\u00e3o reconheceram o direito de Israel. Mas Israel reserva-se o direito de negar a sua exist\u00eancia de facto. \u00c9 aqui que come\u00e7a uma fic\u00e7\u00e3o que se iria espalhar cada vez mais e pesar sobre todos aqueles que defendiam a causa palestiniana. Esta fic\u00e7\u00e3o, esta aposta de Israel, era retratar como anti-semitas todos aqueles que contestassem as condi\u00e7\u00f5es de facto e as ac\u00e7\u00f5es do Estado sionista. Esta opera\u00e7\u00e3o est\u00e1 enraizada na pol\u00edtica de sangue frio de Israel em rela\u00e7\u00e3o aos palestinianos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Israel nunca escondeu o seu objectivo desde o in\u00edcio: esvaziar o territ\u00f3rio palestiniano. E, melhor ainda, fingir que o territ\u00f3rio palestiniano estava vazio, sempre destinado aos sionistas. Era de facto coloniza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o no sentido europeu do s\u00e9culo XIX: os habitantes do pa\u00eds n\u00e3o seriam explorados, seriam expulsos. Os que permanecessem n\u00e3o seriam transformados numa for\u00e7a de trabalho dependente do territ\u00f3rio, mas sim numa for\u00e7a de trabalho m\u00f3vel e isolada, como se fossem imigrantes for\u00e7ados a viver num gueto. Desde o in\u00edcio, a terra foi comprada com a condi\u00e7\u00e3o de que estivesse vazia de ocupantes ou pudesse ser esvaziada. Tratou-se de um genoc\u00eddio, mas de um genoc\u00eddio em que o exterm\u00ednio f\u00edsico permaneceu subordinado \u00e0 evacua\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica: sendo geralmente apenas \u00e1rabes, os palestinianos sobreviventes foram obrigados a misturar-se com os outros \u00e1rabes. O exterm\u00ednio f\u00edsico, confiado ou n\u00e3o a mercen\u00e1rios, est\u00e1 perfeitamente presente. Mas n\u00e3o \u00e9 genoc\u00eddio, dizem, dado que n\u00e3o \u00e9 o &#8220;objetivo final&#8221;: na verdade, \u00e9 um meio entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p><br>A cumplicidade dos Estados Unidos com Israel n\u00e3o decorre apenas do poder de um lobby sionista. Elias Sanbar demonstrou claramente como os <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Estados Unidos redescobriram em Israel um aspecto da sua hist\u00f3ria: o exterm\u00ednio dos ind\u00edgenas, que, tamb\u00e9m aqui, foi apenas em parte directamente f\u00edsico. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Tratava-se de criar um v\u00e1cuo, como se nunca tivessem existido indianos, a n\u00e3o ser em guetos que os tornariam imigrantes de dentro. Em muitos aspetos, os palestinianos s\u00e3o os novos indianos, os indianos de Israel. A an\u00e1lise marxista indica os dois movimentos complementares do capitalismo: impor constantemente limites a si pr\u00f3prio, dentro dos quais desenvolve e explora o seu pr\u00f3prio sistema; sempre empurrar ainda mais esses limites, ultrapassando-os para recome\u00e7ar em maior escala ou com maior intensidade a sua pr\u00f3pria funda\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Empurrar os limites foi o acto do capitalismo americano, do sonho americano, assumido por Israel, e do sonho de um Grande Israel em territ\u00f3rio \u00e1rabe, \u00e0 custa dos \u00e1rabes.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>[ Dans Deux R\u00e9gimes de fous, textes et entretiens 1975-1995, \u00c9ditions de Minuit, 2003, p. p. 221-223. ]<\/p>\n\n\n\n<p>Reproduzido por Marco C\u00f4t\u00e9, Universidade do Quebec, Montreal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Setembro de 1983, Gilles Deleuze escreveu este texto, que n\u00e3o perdeu atualidade A causa&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14827,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,443],"tags":[258],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze.jpg",493,326,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze-300x198.jpg",300,198,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze.jpg",493,326,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze.jpg",493,326,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze.jpg",493,326,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze.jpg",493,326,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze.jpg",493,326,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze.jpg",493,326,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze.jpg",493,326,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze.jpg",493,326,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/gilles-deleuze-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/palestina\/\" rel=\"category tag\">PALESTINA<\/a>","tag_info":"PALESTINA","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14826"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14826"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14826\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14828,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14826\/revisions\/14828"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14827"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}