{"id":15374,"date":"2025-11-03T21:56:40","date_gmt":"2025-11-03T21:56:40","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=15374"},"modified":"2025-11-03T21:56:41","modified_gmt":"2025-11-03T21:56:41","slug":"portugal-nao-e-o-bangladesh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2025\/11\/03\/portugal-nao-e-o-bangladesh\/","title":{"rendered":"Portugal n\u00e3o \u00e9 o Bangladesh"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A morte da empatia, o sil\u00eancio da pol\u00edtica e o pa\u00eds que se esqueceu do que significa ser decente<\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-vivid-red-color has-text-color\">Por: Tiago Pereira da Silva&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>\u201cUm pa\u00eds come\u00e7a a morrer no dia em que o poder se habitua \u00e0 indiferen\u00e7a.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um pa\u00eds que se vai tornando irreconhec\u00edvel. N\u00e3o pela crise, que \u00e9 c\u00edclica, nem pela pobreza, que h\u00e1 muito foi naturalizada como uma esp\u00e9cie de heran\u00e7a nacional. O que mais fere \u00e9 a eros\u00e3o moral \u2014 a falta de pudor e de sentido \u00e9tico de quem devia governar com consci\u00eancia e fala agora como se estivesse num p\u00falpito de ressentimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos dias, ouvimos uma ministra da Sa\u00fade justificar a morte de uma gr\u00e1vida com uma ligeireza perturbadora: \u201cS\u00e3o gr\u00e1vidas que n\u00e3o t\u00eam dinheiro para ir ao privado, que \u00e0s vezes nem falam portugu\u00eas e que n\u00e3o foram preparadas para chamar o socorro. Por vezes, nem telem\u00f3vel t\u00eam.\u201d As palavras de Ana Paula Martins soaram como um epit\u00e1fio \u00e0 empatia. Como se a trag\u00e9dia pudesse ser explicada pela pobreza das v\u00edtimas; como se morrer de parto fosse uma fatalidade social, um erro de quem nasceu no lado errado do pa\u00eds.&nbsp;Mas a desigualdade n\u00e3o \u00e9 destino. \u00c9 decis\u00e3o. \u00c9 sempre uma escolha pol\u00edtica. Quando uma ministra naturaliza a ideia de que h\u00e1 vidas menos prevenidas, menos instru\u00eddas, menos dignas, est\u00e1, no fundo, a dizer que h\u00e1 vidas menos importantes. E \u00e9 precisamente essa indiferen\u00e7a discreta, burocr\u00e1tica, dita em tom sereno, que mais corr\u00f3i uma democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos dias antes, o Ministro da Presid\u00eancia, Ant\u00f3nio Leit\u00e3o Amaro, declarou que \u201cPortugal fica mais Portugal\u201d, a prop\u00f3sito da lei da nacionalidade. Soou como um slogan travestido de doutrina. De repente, o pa\u00eds que se orgulhava de ser feito de travessias e mesti\u00e7agens, de l\u00ednguas e oceanos, parece querer reduzir-se \u00e0 escala de uma ilha fechada. O discurso nacionalista regressa com luvas de seda e tom administrativo.&nbsp;A extrema-direita agradece. Andr\u00e9 Ventura, Pedro Pinto, Pedro Fraz\u00e3o, Rita Matias \u2014 rostos de um populismo cada vez mais destilado \u2014 encontraram no espa\u00e7o p\u00fablico uma caixa de resson\u00e2ncia. Acusam migrantes, vilipendiam minorias, insultam a diferen\u00e7a. Falam em \u201climpeza\u201d e \u201cordem\u201d como quem invoca uma moral, mas o que realmente desejam \u00e9 um pa\u00eds obediente, homog\u00e9neo e submisso. E o que espanta j\u00e1 nem \u00e9 o discurso dos extremos, \u00e9 a ced\u00eancia dos que se dizem moderados.&nbsp;O PSD transformou-se numa vers\u00e3o executiva da extrema-direita: o mesmo desprezo pelos pobres, a mesma indiferen\u00e7a perante os migrantes, a mesma ideia de autoridade travestida de prud\u00eancia. A diferen\u00e7a \u00e9 apenas de tom. Ventura grita; o PSD articula. Mas a sintaxe \u00e9 a mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uns anos, Augusto Santos Silva levantou-se no Parlamento e pediu: \u201cParem de degradar as institui\u00e7\u00f5es.\u201d Foi acusado de autorit\u00e1rio, de querer censurar o Chega, de n\u00e3o entender a \u201cnova pol\u00edtica\u201d. Na verdade, apenas pressentia o que estava a acontecer: a banaliza\u00e7\u00e3o do insulto, a transforma\u00e7\u00e3o do hemiciclo numa taberna e da democracia num espet\u00e1culo de f\u00faria. O insulto deixou de ser um excesso \u2014 passou a ser estilo. E o resultado \u00e9 um pa\u00eds onde o ru\u00eddo substitui a raz\u00e3o e o \u00f3dio se tornou um idioma.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o essencial desapareceu. N\u00e3o h\u00e1 vis\u00e3o para a escola, nem pol\u00edtica para a habita\u00e7\u00e3o. O ambiente \u00e9 uma nota de rodap\u00e9 e por vezes nem isso. A transi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica \u00e9 tratada como um inc\u00f3modo. As palavras \u201cigualdade\u201d e \u201cjusti\u00e7a social\u201d evaporaram-se dos discursos oficiais. Os minist\u00e9rios s\u00e3o redutos de tecnocratas com alma de gestor, incapazes de imaginar o pa\u00eds para l\u00e1 do Excel. Governam n\u00fameros, n\u00e3o pessoas.&nbsp;E c\u00e1 fora, sente-se o que isso produz. As pessoas est\u00e3o mais \u00e1speras, mais desconfiadas, mais perigosamente descrentes. O rancor tornou-se quotidiano. O \u00f3dio, uma respira\u00e7\u00e3o de fundo. J\u00e1 n\u00e3o se discute: ofende-se. E a pol\u00edtica, que devia ser ant\u00eddoto, tornou-se c\u00famplice.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal est\u00e1 cansado, \u00e9 certo, mas n\u00e3o perdeu a mem\u00f3ria. Ainda h\u00e1 uma ideia moral que resiste feita dos valores de Abril, de fraternidade, de uma no\u00e7\u00e3o de pa\u00eds decente. \u00c9 essa a heran\u00e7a que est\u00e1 a ser tra\u00edda. Quando um governo fala como a oposi\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria, quando o medo se apresenta como programa e a indiferen\u00e7a se veste de compet\u00eancia, o pa\u00eds perde a alma.&nbsp;N\u00e3o \u00e9 preciso ser de esquerda para perceber que isto \u00e9 intoler\u00e1vel. Basta ter dec\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal n\u00e3o \u00e9 o Bangladesh, disse um candidato a primeiro&nbsp;ministro. Ups, parece que tamb\u00e9m candidato nas presidenciais. Pois n\u00e3o. Portugal \u00e9, ou devia ser, o pa\u00eds que n\u00e3o aceita a morte como destino nem o \u00f3dio como argumento. O pa\u00eds que aprendeu que a humanidade n\u00e3o se mede em nacionalidades, mas em gestos.&nbsp;E se quem governa esqueceu essa li\u00e7\u00e3o, cabe-nos record\u00e1-la com palavras, com mem\u00f3ria e, sobretudo, com a coragem de continuar a dizer n\u00e3o. N\u00e3o passar\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte da empatia, o sil\u00eancio da pol\u00edtica e o pa\u00eds que se esqueceu do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15375,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,470],"tags":[228],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto.jpg",1139,681,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto-300x179.jpg",300,179,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto-768x459.jpg",640,383,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto-1024x612.jpg",640,383,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto.jpg",1139,681,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto.jpg",1139,681,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto-1115x681.jpg",1115,681,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto-1024x612.jpg",1024,612,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tiago-foto-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/voz-ativa\/\" rel=\"category tag\">VOZ ATIVA<\/a>","tag_info":"VOZ ATIVA","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15374"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15374"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15374\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15376,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15374\/revisions\/15376"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15375"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}