{"id":16102,"date":"2026-02-17T10:16:52","date_gmt":"2026-02-17T10:16:52","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=16102"},"modified":"2026-02-17T10:16:54","modified_gmt":"2026-02-17T10:16:54","slug":"marco-rubio-um-portento-de-ignorancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/02\/17\/marco-rubio-um-portento-de-ignorancia\/","title":{"rendered":"Marco Rubio, um portento de ignor\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que Marco Rubio veio fazer \u00e0 Alemanha foi &#8220;pintar a manta&#8221;<\/h2>\n\n\n\n<p><br>Por Jo\u00e3o Gomes, in Facebook 15.02.2026, original <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/photo?fbid=1331544018737267&amp;set=a.11178054738029\">AQUI<\/a> | Editado NSF<\/p>\n\n\n\n<p>[<strong>Recomendado por Helena Rato para o NSF<\/strong>]<\/p>\n\n\n\n<p><br>H\u00e1 declara\u00e7\u00f5es pol\u00edticas infelizes. H\u00e1 declara\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. E depois h\u00e1 aquelas que parecem ter sido escritas por um argumentista nost\u00e1lgico do s\u00e9culo XIX, preso entre mapas cor-de-rosa e fantasias imperiais. As recentes interven\u00e7\u00f5es de Marco Rubio, feitas em solo alem\u00e3o perante representantes europeus, pertencem a esta \u00faltima categoria. Retratar a descoloniza\u00e7\u00e3o como um \u201cplano comunista sinistro\u201d que destruiu 500 anos de imp\u00e9rios ocidentais n\u00e3o \u00e9 apenas uma mentira hist\u00f3rica. \u00c9 uma proeza de gin\u00e1stica intelectual que ignora s\u00e9culos de transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f3micas e morais. Um verdadeiro portento &#8211; mas de ignor\u00e2ncia.<br><\/p>\n\n\n\n<p>A descoloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o caiu do &#8220;c\u00e9u vermelho&#8221;. Comecemos pelo b\u00e1sico: a descoloniza\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX n\u00e3o foi um gui\u00e3o redigido em Moscovo. Foi o resultado de din\u00e2micas estruturais profundas, aceleradas pela devasta\u00e7\u00e3o da Segunda Guerra Mundial. As pot\u00eancias europeias estavam economicamente exaustas, militarmente fragilizadas e moralmente desacreditadas depois de duas guerras globais.<br>A cria\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas consagrou o princ\u00edpio da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos. Subitamente, aquilo que durante s\u00e9culos fora tratado como administra\u00e7\u00e3o ultramarina passou a ser descrito, com desconforto crescente, como domina\u00e7\u00e3o colonial.<br>Sim, alguns movimentos de liberta\u00e7\u00e3o adotaram matrizes socialistas. Era a linguagem ideol\u00f3gica dispon\u00edvel para quem procurava mobiliza\u00e7\u00e3o internacional e apoio material durante a Guerra Fria. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Mas confundir instrumento geopol\u00edtico com causa hist\u00f3rica \u00e9 como confundir o f\u00f3sforo com o inc\u00eandio.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><br>Os imp\u00e9rios n\u00e3o ru\u00edram porque um &#8220;comit\u00e9 secreto comunista&#8221; decidiu apertar um bot\u00e3o. Ru\u00edram porque j\u00e1 n\u00e3o eram sustent\u00e1veis &#8211; financeiramente, militarmente, politicamente e, cada vez mais, moralmente. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que foi, afinal, o colonialismo?<\/h2>\n\n\n\n<p><br>Durante meio mil\u00e9nio, imp\u00e9rios como o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, o Imp\u00e9rio Franc\u00eas, o Imp\u00e9rio Portugu\u00eas e o Imp\u00e9rio Espanhol expandiram-se pelo globo. Levaram com\u00e9rcio, religi\u00e3o, infraestruturas e sistemas administrativos. Tamb\u00e9m levaram trabalho for\u00e7ado, hierarquias raciais, expropria\u00e7\u00e3o de terras e escravatura transatl\u00e2ntica. A economia de vastas regi\u00f5es assentou durante s\u00e9culos em sistemas que hoje seriam inequivocamente classificados como viola\u00e7\u00f5es massivas dos direitos humanos. Invocar nostalgicamente esse per\u00edodo como se fosse apenas uma idade de ouro civilizacional exige uma seletividade hist\u00f3rica quase art\u00edstica.<br>E os Estados Unidos? S\u00e3o um pequeno detalhe?<br>H\u00e1 um pormenor curioso nesta narrativa imperial de Marco Rubio: os pr\u00f3prios Estados Unidos nasceram de uma revolta anticolonial. As Treze Col\u00f3nias brit\u00e2nicas romperam com o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico na Guerra da Independ\u00eancia dos Estados Unidos, consagrando na Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia dos Estados Unidos o princ\u00edpio de que os povos t\u00eam direito a libertar-se de governos opressivos.<br>Parte substancial do territ\u00f3rio americano esteve tamb\u00e9m sob controlo franc\u00eas, vendido aos EUA na c\u00e9lebre Compra da Luisiana, heran\u00e7a do antigo Imp\u00e9rio Colonial Franc\u00eas. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Portanto, a maior pot\u00eancia mundial contempor\u00e2nea \u00e9 produto direto de um processo de descoloniza\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ironia das ironias: se aplic\u00e1ssemos o racioc\u00ednio simplista de que \u201cdescoloniza\u00e7\u00e3o = plano comunista\u201d, ter\u00edamos de reescrever 1776 como uma conspira\u00e7\u00e3o marxista avan\u00e7ada &#8211; o que seria c\u00f3mico porque Marx ainda nem tinha nascido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><br>Colonizadores do resto do Mundo<\/h2>\n\n\n\n<p>E o comunismo nos EUA? Bem, se algu\u00e9m quiser insistir na associa\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica entre descoloniza\u00e7\u00e3o e comunismo, conv\u00e9m recordar que, nas d\u00e9cadas de 1940 e 1950, os EUA viveram o Macarthismo, liderado pelo senador Joseph McCarthy. A ca\u00e7a \u00e0s bruxas anticomunista atingiu artistas, acad\u00e9micos, funcion\u00e1rios p\u00fablicos e militares. O comunismo, longe de ser matriz fundadora americana, foi tratado como amea\u00e7a existencial.<br>Como tratar a nostalgia imperial como pol\u00edtica externa? O que resta, ent\u00e3o, das declara\u00e7\u00f5es inflamadas em solo alem\u00e3o de Marco Rubio? Talvez uma tentativa de galvanizar uma identidade ocidental sob a ideia de decl\u00ednio &#8211; um discurso que op\u00f5e uma idade imperial gloriosa a uma suposta decad\u00eancia multipolar.<br>Mas o mundo mudou. A ascens\u00e3o de novos polos de poder, o fim formal dos imp\u00e9rios coloniais e a consolida\u00e7\u00e3o do direito internacional n\u00e3o s\u00e3o acidentes hist\u00f3ricos. S\u00e3o transforma\u00e7\u00f5es estruturais. Sugerir que a solu\u00e7\u00e3o para a complexidade do s\u00e9culo XXI \u00e9 um regresso simb\u00f3lico a l\u00f3gicas imperiais n\u00e3o revela for\u00e7a estrat\u00e9gica. Revela incapacidade de compreender a evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da atual administra\u00e7\u00e3o do EUA. Revela o qu\u00e3o pequenos s\u00e3o os seus dirigentes. Revela, sobretudo, que o que Marco Rubio veio fazer \u00e0 Alemanha foi &#8220;pintar a manta&#8221; para &#8211; mais uma vez &#8211; submeter a Europa \u00e0s tentativas desesperadas de Trump para se safar das suas recentes escolhas pol\u00edticas: na tentativa de absorver as economias dos mais fracos e dos menos fracos. Na pr\u00e1tica, de serem os EUA os &#8220;colonizadores do resto do Mundo&#8221;.<br>Se isto \u00e9 lideran\u00e7a intelectual, ent\u00e3o estamos perante um fen\u00f3meno raro: a ignor\u00e2ncia elevada a instrumento ret\u00f3rico. E nisso, reconhe\u00e7a-se, h\u00e1 um certo, mas triste talento.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ilustra\u00e7\u00e3o in Jo\u00e3o Gomes<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"622\" height=\"923\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco-rubui.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16104\" style=\"aspect-ratio:0.6738894907908992;width:246px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco-rubui.jpg 622w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco-rubui-202x300.jpg 202w\" sizes=\"(max-width: 622px) 100vw, 622px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:43px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que Marco Rubio veio fazer \u00e0 Alemanha foi &#8220;pintar a manta&#8221; Por Jo\u00e3o Gomes,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16103,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,236,121],"tags":[749],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2.jpg",618,475,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2-300x231.jpg",300,231,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2.jpg",618,475,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2.jpg",618,475,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2.jpg",618,475,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2.jpg",618,475,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2.jpg",618,475,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2.jpg",618,475,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2.jpg",618,475,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/marco2-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/mundo\/\" rel=\"category tag\">MUNDO<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/causas\/tribuna\/\" rel=\"category tag\">TRIBUNA<\/a>","tag_info":"TRIBUNA","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16102"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16102"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16102\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16105,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16102\/revisions\/16105"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16103"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16102"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16102"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16102"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}