{"id":16210,"date":"2026-03-05T12:22:16","date_gmt":"2026-03-05T12:22:16","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=16210"},"modified":"2026-03-05T12:22:17","modified_gmt":"2026-03-05T12:22:17","slug":"a-civilizacao-que-o-mundo-prefere-ignorar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/03\/05\/a-civilizacao-que-o-mundo-prefere-ignorar\/","title":{"rendered":"A civiliza\u00e7\u00e3o que o mundo prefere ignorar"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Compreender o Ir\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio acad\u00e9mico, \u00e9 uma necessidade estrat\u00e9gica<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"522\" height=\"488\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/luis-Vidigal_colaboradores.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16148\" style=\"aspect-ratio:1.069672131147541;width:126px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/luis-Vidigal_colaboradores.jpg 522w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/luis-Vidigal_colaboradores-300x280.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 522px) 100vw, 522px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por Lu\u00eds Vidigal<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pa\u00edses que s\u00e3o Estados e h\u00e1 pa\u00edses que s\u00e3o mem\u00f3rias vivas. O Ir\u00e3o pertence claramente \u00e0 segunda categoria. Olhar para ele apenas como um regime, um problema nuclear ou um ator inc\u00f3modo na geopol\u00edtica do M\u00e9dio Oriente \u00e9 cometer um erro perigoso e profundamente m\u00edope. Porque o Ir\u00e3o n\u00e3o nasceu no s\u00e9culo XX, nem sequer no XIX. Ele carrega milhares de anos de continuidade hist\u00f3rica, uma consci\u00eancia civilizacional que raramente existe nas na\u00e7\u00f5es modernas. E ignorar essa mem\u00f3ria \u00e9, hoje, um dos grandes riscos estrat\u00e9gicos do nosso tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito antes de existirem fronteiras nacionais como as conhecemos, o planalto persa j\u00e1 era um ponto de encontro de rotas, culturas, ex\u00e9rcitos e ideias. Quem controlava aquele territ\u00f3rio n\u00e3o controlava apenas uma regi\u00e3o, controlava um cruzamento da hist\u00f3ria. Foi ali que surgiram imp\u00e9rios capazes de governar povos diferentes sem os apagar, como o de Ciro, que preferiu integrar culturas em vez de as destruir, com um modelo pol\u00edtico surpreendentemente sofisticado para a antiguidade. Desde ent\u00e3o, a civiliza\u00e7\u00e3o persa aprendeu algo que moldaria o seu car\u00e1ter para sempre, em que sobreviver \u00e9 mais importante do que vencer.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos, conquistadores passaram por ali, como gregos, \u00e1rabes e mong\u00f3is, mas quase todos acabaram absorvidos pela pr\u00f3pria cultura persa. O poder pol\u00edtico mudava de m\u00e3os, mas a identidade profunda permanecia. Mesmo quando o Isl\u00e3o chegou com os ex\u00e9rcitos \u00e1rabes no s\u00e9culo VII, o resultado n\u00e3o foi a dissolu\u00e7\u00e3o da P\u00e9rsia, mas algo muito mais complexo, de persianiza\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3o em vastas regi\u00f5es do mundo mu\u00e7ulmano. A civiliza\u00e7\u00e3o persa n\u00e3o desapareceu, adaptou-se, infiltrou-se e transformou o que parecia domin\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta longa mem\u00f3ria hist\u00f3rica ajuda a compreender um fen\u00f3meno frequentemente ignorado nas an\u00e1lises ocidentais, pois para muitos iranianos, o s\u00e9culo XX n\u00e3o foi uma era de progresso, mas de humilha\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds nunca foi formalmente colonizado, mas foi constantemente manipulado por pot\u00eancias externas. O petr\u00f3leo, em vez de libertar a na\u00e7\u00e3o, tornou-a alvo permanente de interesses estrangeiros. E quando, em 1951, um governo democraticamente eleito tentou recuperar o controlo desse recurso estrat\u00e9gico, foi derrubado por um golpe apoiado por servi\u00e7os secretos ocidentais. Esse epis\u00f3dio n\u00e3o \u00e9 um detalhe hist\u00f3rico, \u00e9 uma ferida pol\u00edtica que continua aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, a desconfian\u00e7a tornou-se parte do ADN pol\u00edtico iraniano. Para muitos no pa\u00eds, a mensagem foi de que a soberania \u00e9 tolerada apenas enquanto n\u00e3o desafia interesses externos. Quando a revolu\u00e7\u00e3o de 1979 derrubou o regime do X\u00e1, ela n\u00e3o nasceu apenas do fervor religioso, foi o resultado de d\u00e9cadas de ressentimento social, desigualdade e repress\u00e3o. O Isl\u00e3o, na voz de Khomeini, funcionou como linguagem comum de revolta e n\u00e3o como uma \u00fanica causa.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, o Ir\u00e3o construiu um sistema pol\u00edtico peculiar, que mistura institui\u00e7\u00f5es eleitorais com um n\u00facleo teocr\u00e1tico que controla os limites do poder. Um modelo frequentemente visto no exterior apenas como autorit\u00e1rio, mas que internamente se apresenta como um mecanismo de sobreviv\u00eancia nacional num ambiente hostil.<\/p>\n\n\n\n<p>E o sentimento de cerco n\u00e3o \u00e9 uma mera ret\u00f3rica. Logo ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o, o pa\u00eds enfrentou uma guerra devastadora contra o Iraque de Saddam Hussein, apoiado por grande parte da comunidade internacional. O uso de armas qu\u00edmicas contra soldados e civis iranianos, perante o sil\u00eancio global, consolidou uma convic\u00e7\u00e3o profunda, de que o sistema internacional n\u00e3o protege quem n\u00e3o se protege a si pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste contexto que se deve compreender a estrat\u00e9gia iraniana contempor\u00e2nea. O pa\u00eds evita confrontos diretos com grandes pot\u00eancias e aposta numa rede de aliados regionais e numa pol\u00edtica de dissuas\u00e3o. O pol\u00e9mico programa nuclear, visto por muitos como amea\u00e7a global, \u00e9 percebido em Teer\u00e3o como uma garantia de sobreviv\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 apenas tecnologia, \u00e9 uma resposta a s\u00e9culos de mem\u00f3ria estrat\u00e9gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas reduzir o Ir\u00e3o ao seu regime tamb\u00e9m seria um erro grave. O pa\u00eds \u00e9 um mosaico de tens\u00f5es internas, com uma juventude urbana ligada ao mundo digital, uma economia pressionada por san\u00e7\u00f5es, elites religiosas envelhecidas e um nacionalismo profundo que atravessa todas as classes sociais. Debates, protestos e mudan\u00e7as silenciosas ocorrem constantemente sob a superf\u00edcie do sistema pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro perigo est\u00e1 na simplifica\u00e7\u00e3o. Quando uma civiliza\u00e7\u00e3o com milhares de anos de hist\u00f3ria \u00e9 reduzida a caricaturas pol\u00edticas, perde-se a capacidade de antecipar o seu comportamento. E a hist\u00f3ria mostra que o Ir\u00e3o raramente reage como os outros esperam.<\/p>\n\n\n\n<p>Compreender o Ir\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio acad\u00e9mico, \u00e9 uma necessidade estrat\u00e9gica. Porque ignorar a mem\u00f3ria de uma civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9, muitas vezes, o primeiro passo para cometer erros que o mundo acabar\u00e1 por pagar caro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"706\" height=\"697\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao-Luis.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16211\" style=\"aspect-ratio:1.0129124820659972;width:440px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao-Luis.jpg 706w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao-Luis-300x296.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 706px) 100vw, 706px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compreender o Ir\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio acad\u00e9mico, \u00e9 uma necessidade estrat\u00e9gica Por Lu\u00eds Vidigal&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16212,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,622],"tags":[667],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3.jpg",355,210,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3-300x177.jpg",300,177,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3.jpg",355,210,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3.jpg",355,210,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3.jpg",355,210,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3.jpg",355,210,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3.jpg",355,210,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3.jpg",355,210,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3.jpg",355,210,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3.jpg",355,210,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/irao3.jpg",355,210,false]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/o-mundo-em-transicao\/\" rel=\"category tag\">O MUNDO EM TRANSI\u00c7\u00c3O<\/a>","tag_info":"O MUNDO EM TRANSI\u00c7\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16210"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16210"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16210\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16213,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16210\/revisions\/16213"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16212"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16210"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16210"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16210"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}