{"id":16232,"date":"2026-03-06T15:34:50","date_gmt":"2026-03-06T15:34:50","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=16232"},"modified":"2026-03-06T15:34:53","modified_gmt":"2026-03-06T15:34:53","slug":"ala-e-o-estranho-mundo-do-quotidiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/03\/06\/ala-e-o-estranho-mundo-do-quotidiano\/","title":{"rendered":"ALA e o estranho mundo do quotidiano"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil vermos morrer quem nos deu vidas. Entre elas, a nossa tamb\u00e9m.<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"621\" height=\"564\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/mmm.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16233\" style=\"aspect-ratio:1.101063829787234;width:152px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/mmm.jpg 621w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/mmm-300x272.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>P<strong>or Manuel Matos Monteiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A morte do Ant\u00f3nio Lobo Antunes (ALA) n\u00e3o foi surpresa porque anunciada h\u00e1 muito tempo. Vi-o ir fenecendo porque a velhice \u00e9 ingrata com a beleza e o ALA era um belo homem iluminado pelo azul fundo dos olhos, os primeiros a tra\u00ed-lo. Eu tinha sentimentos contradit\u00f3rios relativamente a ele, tantas vezes amargo, tantas vezes\u200b ressabiado com o passado e com os outros. Afetava-me, \u00e0s vezes, perturbava-me bastante.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordo uma conversa intensa sobre ele numa situa\u00e7\u00e3o muito particular: num beliche de um comboio, a fazer o transiberiano. A Teresa calhou na cama ao lado, t\u00ednhamo-nos conhecido 4 esta\u00e7\u00f5es atr\u00e1s. Era de Lisboa, jornalista, a viajar com uma amiga que estava no beliche de baixo. N\u00e3o sei como, cheg\u00e1mos \u00e0 fala sobre o escritor, uma conversa longa madrugada fora, com o mundo a passar depressa do lado de fora da janela. Ela era uma profunda conhecedora da obra do escritor, uma admiradora que ele teria gostado de conhecer. N\u00e3o vejo a Teresa desde ent\u00e3o, cruzamo-nos nas redes sociais (o lado bom da for\u00e7a!) mas sei que foi essa conversa que nos ligou. Foi essa conversa que tornou o ALA mais\u200b pr\u00f3ximo e mais inquietante.<\/p>\n\n\n\n<p>Lia as cr\u00f3nicas dele que me deixavam sempre com o sentimento de \u201ceu j\u00e1 vivi isto, eu j\u00e1 senti isto, eu j\u00e1 pressenti isto\u201d. \u200bRecortava-as para as reler. Juntei-as. A caixa onde as guardava perdeu-se numa muda de casa. As antologias n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. O que me atra\u00eda na sua escrita era o modo como ele tomava o quotidiano\u200b que era\u200b, afinal, extraordin\u00e1rio\u200b. Reconheci nas suas personagens gente com quem j\u00e1 me tinha cruzado\u200b, antecipou-me encontros e situa\u00e7\u00f5es futuras. Por considerar que o banal \u00e9 \u200btudo menos banal, que a rotina tem tra\u00e7os de excecionalidade, reconhecia-me no modo como lidava com o comum. Num outro g\u00e9nero, tamb\u00e9m Ana Lu\u00edsa Amaral (tamb\u00e9m \u200bela ALA!) \u200bse deslumbrava com o dia-a-dia sem hist\u00f3ria. Nela, a palavra era poema. Nele, era a cr\u00f3nica a contar peda\u00e7os da vida vulgar. Da nossa vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Escolhi \u200ba cr\u00f3nica \u200b\u201d\u200bAs pessoas crescidas\u201d porque me lembro do modo como olhava os adultos \u00e0 mesa em conversas cifradas para os mi\u00fados n\u00e3o perceberem (o meu passatempo preferido era adivinhar de quem falavam; depois, o tema desinteressava-me). Reconhe\u00e7o-me, talvez, reconhecemo-nos quando diz: \u201cNunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido\u201d, esse salto para o lado mais inquietante da vida, que \u00e9 o resto &#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil crescer, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser-se crescido.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil vermos morrer quem nos deu vidas. Entre elas, a nossa tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>AS PESSOAS CRESCIDAS<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima \u00e0 medida que a minha idade ia subindo em cent\u00edmetros, marcados na parede pelo l\u00e1pis da m\u00e3e. Primeiro eram apenas sapatos, por vezes descobertos sob a cama, enormes, sem p\u00e9 dentro, e logo cal\u00e7ados por mim para caminhar pela casa, erguendo as pernas como um escafandrista, num estrondo imenso de solas. Depois tomei conhecimento dos joelhos cobertos de fazenda ou de meias de vidro, formando ao redor da mesa debaixo da qual eu gatinhava uma pali\u00e7ada que me impedia de fugir. A seguir vieram as barrigas de onde a voz, a tosse e a autoridade sa\u00edam apesar do esfor\u00e7o in\u00fatil de suspens\u00f3rios e de cintos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar \u00e0 altura da toalha aprendi a distinguir os adultos uns dos outros pelos rem\u00e9dios entre o guardanapo e o copo: as gotas da av\u00f3, os xaropes do av\u00f4, as v\u00e1rias cores dos comprimidos das tias, as caixinhas de prata das pastilhas dos primos, o vaporizador da asma do padrinho que ele recebia abrindo as mand\u00edbulas numa ansiedade de cherne. Compreendi por essa \u00e9poca que tinham o riso desmont\u00e1vel: tiravam as piadas da boca e lavavam-nas, a seguir ao almo\u00e7o, com uma escovinha especial. Aconteceu-me encontr\u00e1-las sob a forma de gargantilhas de dentes num estojo de gengivas cor-de-rosa escondidas por tr\u00e1s do despertador nas manh\u00e3s de domingo, a tro\u00e7arem dos rostos que sem elas envelheciam mil anos de rugas murchas como flores de herb\u00e1rio devorando os l\u00e1bios com as suas pregas conc\u00eantricas.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 capaz pelo meu tamanho de lhes olhar a cara, o que mais me surpreendia neles era a sua estranha indiferen\u00e7a perante as duas \u00fanicas coisas verdadeiramente importantes do mundo: os bichos da seda e os guarda-chuvas de chocolate. Tamb\u00e9m n\u00e3o gostavam de coleccionar gafanhotos, de mastigar estearina nem de dar tesouradas no cabelo, mas em contrapartida possu\u00edam a mania incompreens\u00edvel dos banhos e das pastas dent\u00edfricas e quando se referiam diante de mim a uma parente loira, muito simp\u00e1tica, muito pintada, muito bem cheirosa e mais bonita que eles todos, desatavam a falar franc\u00eas olhando-me de banda com desconfian\u00e7a e apreens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando a parente loira passa a ser referida, em portugu\u00eas, como a desavergonhada da Lu\u00edsa. Provavelmente quando substitu\u00edmos os guarda-chuvas de chocolate por bifes t\u00e1rtaros. Provavelmente quando come\u00e7amos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes. Mas n\u00e3o tenho a certeza: n\u00e3o sei se sou crescido.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que acabei o liceu, andei na faculdade, tratam-me por senhor doutor e h\u00e1 s\u00e9culos que ningu\u00e9m se lembra de me mandar lavar os dentes. Devo ter crescido, julgo eu, porque a parente loira deixou de me sentar ao colo e de me fazer festas no cabelo provocando em mim uma comich\u00e3o no nariz que me tornava l\u00e2nguido e que aprendi mais tarde ser o equivalente do que chamam prazer. O prazer deles, claro, muito menor que o de mastigar estearina ou aplicar tesouradas na franja. Ou rasgar papel pela linha picotada. Ou mostrar um sapo \u00e0 cozinheira e v\u00ea-la tombar de costas, de olhos revirados, derrubando as latas que anunciam Feij\u00e3o, Gr\u00e3o e Arroz e que na realidade cont\u00eam massa, a\u00e7ucar e caf\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Devo ter crescido. Se calhar cresci. Mas o que de facto me apetece \u00e9 convidar a parente loira para jantar comigo no Gambrinus. Pe\u00e7o ao criado que nos traga duas doses de guarda-chuvas de chocolate e enquanto chupamos a bengalinha de pl\u00e1stico mostro-lhe a minha colec\u00e7\u00e3o de gafanhotos numa caixa de cart\u00e3o. Posso estar enganado mas pela maneira como me fazia festas no cabelo, com olhos t\u00e3o jovens como os meus, quase que aposto que ela h\u00e1-de gostar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Lobo Antunes<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/l.facebook.com\/l.php?u=https%3A%2F%2Fwww.bycutout.com%2Fproduct-page%2Fcravo-3d-pregadeira%3Futm_source%3Dmeta%26utm_medium%3Dpaid_social%26utm_campaign%3Dcravos_fev_2026%26utm_content%3Dmanifesto3d_broad%26utm_id%3D120240241857640104%26utm_term%3D120242191405200104%26fbclid%3DIwZXh0bgNhZW0BMABhZGlkAasvpsvF4lhicmlkETFrZjhMdVhyd1FpcThJQk45c3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHvWzDz-8C4tuZq5TqQedlueZB0j1UHpZsjayRp5AbXRQJMnDnvJPT90M5sUu_aem_QZQ5DssEi9MBWlBeyWAFEg&amp;h=AT6qYEMILlVssvLxIvm6_nBqNCkDH0i60MHqx2YG3_rJCa3-ieOHzUvPnTwjr9t8q4Nm91ewgvC70JdEkvL_jjlqUDtuhwuOES8GIVCgzfBWQcmDGhFAaetQJipU1jvFwI0C5mTD&amp;__tn__=%2CmH-R&amp;c[0]=AT7ftp8WRMYvsZ-2GWbb7n-MiurvLR61-ms2ifGx47Xq7kJwmsl0o1c0YIBV19SJ7z230AOFf0joIUlYNv9EFeW_6o_wjZTPJyPPWWjw1H5PToDn3-ZeIlS0cwOlXZkB9xQENjhFiKWAVeBqatvhB7u_6v0huv6Hg7awT5spX6WZd6YndzSjhcUC0ixuTRV3d_dB6jBgNWerl-GOe0rVLeBtpDeFqiOwt5mnSW-3H0zt-gybar39TJNZS-s0j4hY2v8L8Ll9xIZfVMQAieIAjW5_wDneRR5z8UkC7xDJc5-4Zy9uUY8_KT6VtS0f_zblDQo_PAQ-h682EvmEWCVgUYA\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil vermos morrer quem nos deu vidas. 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