{"id":16903,"date":"2026-05-14T08:49:55","date_gmt":"2026-05-14T08:49:55","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=16903"},"modified":"2026-05-14T08:52:27","modified_gmt":"2026-05-14T08:52:27","slug":"conhecer-dalton-trevisan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/05\/14\/conhecer-dalton-trevisan\/","title":{"rendered":"Conhecer Dalton Trevisan"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ai, me d\u00e1 vontade de morrer<\/h2>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Excerto de Isabel Salema, P\u00fablico, 10\/12\/2024<\/h4>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">&#8220;[Ele] n\u00e3o tem piedade de seus personagens. N\u00e3o os desculpa, n\u00e3o os embeleza, nem ameniza seus horrores&#8221;<\/h3>\n\n\n\n<p>Conhecido como O Vampiro de Curitiba, t\u00edtulo de um livro de 1965 que se tornou a sua alcunha, Dalton Trevisan tinha uma lend\u00e1ria avers\u00e3o \u00e0 imprensa e viveu quase em reclus\u00e3o em Curitiba, a capital do Paran\u00e1. A sua \u00faltima entrevista data de 1972, lembrava esta ter\u00e7a-feira a Folha de S\u00e3o Paulo. O her\u00f3i do seu livro que se viria a tornar famoso recebeu como nome de guerra \u201cNelsinho, o Delicado\u201d. Tamb\u00e9m era vampiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O Vampiro de Curitiba, conto que na edi\u00e7\u00e3o da portuguesa da Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua tem cerca de 100 p\u00e1ginas, come\u00e7a com uma interjei\u00e7\u00e3o: \u201cAi, me d\u00e1 vontade de morrer. Veja, a boquinha dela est\u00e1 pedindo beijo \u2014 beijo de virgem \u00e9 mordida de bicho-cabeludo. Voc\u00ea grita vinte e quatro horas e desmaia feliz. \u00c9 uma que molha o l\u00e1bio com a ponta da l\u00edngua para ficar mais excitante. Por que Deus fez da mulher o suspiro do mo\u00e7o e o sumidouro do velho? N\u00e3o \u00e9 justo para um pecador como eu. Ai\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Considerado o maior contista moderno do Brasil, mereceu estas palavras do j\u00fari do Pr\u00e9mio Cam\u00f5es quando lhe foi atribu\u00eddo o galard\u00e3o: &#8220;Dalton Trevisan significa uma op\u00e7\u00e3o radical pela literatura enquanto arte da palavra. Tanto nas suas incessantes experimenta\u00e7\u00f5es com a l\u00edngua portuguesa, muitas vezes em oposi\u00e7\u00e3o a ela mesma, quanto na sua dedica\u00e7\u00e3o ao fazer liter\u00e1rio sem concess\u00f5es \u00e0s distrac\u00e7\u00f5es da vida pessoal e social.\u201d Os seus contos conquistaram o mundo, com tradu\u00e7\u00f5es para diferentes l\u00ednguas, como ingl\u00eas, espanhol, franc\u00eas e italiano.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias as listas que aconselham as suas melhores obras. O escritor Jos\u00e9 Rentes de Carvalho, no pref\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o da Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua, aconselha, al\u00e9m do conto que faz a capa, A Guerra Conjugal (1969), Mist\u00e9rios de Curitiba (1968), O Rei da Terra (1972), O P\u00e1ssaro de Cinco Asas (1974), A Polaquinha (1985), o seu \u00fanico romance, e Novelas Nada Exemplares (1959), considerada, at\u00e9 h\u00e1 pouco, a sua primeira obra.<\/p>\n\n\n\n<p>O seu melhor conto, entre mais de 40 obras, n\u00e3o ser\u00e1 O Vampiro de Curitiba, mas conv\u00e9m-lhe como biografia, defendia a escritora Alexandra Lucas Coelho, numa reportagem em Curitiba realizada no ano seguinte \u00e0 atribui\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9mio Cam\u00f5es, quando era correspondente do P\u00daBLICO no Rio de Janeiro e foi \u00e0 procura do \u201cmais invis\u00edvel escritor brasileiro\u201d. A Noite da Paix\u00e3o (1999) \u00e9 apontado como o melhor conto do vampiro. \u201cA sua Curitiba vai do vampiro Nelsinho a babar por carne de mo\u00e7a nos anos 50 \u00e0 drogada que rouba por uma pedra agora, ao par de adolescentes que faz um aborto. \u00c9 a cidade-rapina em que um homem morre \u00e0 vista de todos, enquanto tudo lhe \u00e9 roubado (Uma Vela para Dario). A cidade \u00e0 beira-rio onde os b\u00eabados lembram elefantes, lentos, disformes (Cemit\u00e9rio de Elefantes).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Escritor, um ser maldito&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bNascido a 14 de Junho de 1925 em Curitiba, Dalton J\u00e9rson Trevisan licenciou-se em Direito e chegou a exercer advocacia, antes de se virar para os jornais e para a escrita. Foi jornalista especializado na \u00e1rea criminal e cr\u00edtico de cinema. Come\u00e7ou a publicar em 1945, mas mais tarde renegaria os seus dois livros de juventude: Sonata sempre ao Luar (1945) e Sete anos de Pastor (1948). Foi na revista liter\u00e1ria Joaquim, de que foi fundador e editor entre 1946 e 1948, que surgiu o material das suas primeiras obras. A publica\u00e7\u00e3o brasileira havia de tornar-se farol para toda uma gera\u00e7\u00e3o de escritores, reunindo ensaios e contos de autores como Ant\u00f3nio C\u00e2ndido, M\u00e1rio de Andrade e Carlos Drummond de Andrade.<\/p>\n\n\n\n<p>Noutra reportagem aqui publicada em 2020 \u2014 lembremos que Trevison \u00e9 um escritor de culto \u2014, a jornalista Isabel Lucas descrevia que Trevisan, tal como o vampiro das suas hist\u00f3rias, existia sorrateiro em Curitiba, cidade que trabalhava literariamente em textos cheios de ironia, viol\u00eancia, erotismo, com grande economia de palavras, muito pr\u00f3ximos da poesia. Os protagonistas das suas hist\u00f3rias s\u00e3o pessoas \u00e0 margem, uma \u201cCuritiba menor&#8221;, na designa\u00e7\u00e3o de alguns cr\u00edticos. Lembrava-se ent\u00e3o uma das raras entrevistas que deu, publicada em 1968, em que Dalton Trevisan definia o seu trabalho como contista: \u201cO escritor \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o merece nenhuma confian\u00e7a. Um amigo chega e me conta as maiores dores; eu escuto com aten\u00e7\u00e3o, mas estou \u00e9 recolhendo material para mais um conto. E eu sei disso na hora. Surge ent\u00e3o a m\u00e1 consci\u00eancia. Sei que estou fazendo assim e n\u00e3o desejaria fazer, mas n\u00e3o h\u00e1 outro jeito. O escritor \u00e9 um ser maldito.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u200bDepois do hiato que se seguiu \u00e0s obras renegadas, lan\u00e7ou Novelas Nada Exemplares, no final dos anos 50, pelo qual recebeu o seu primeiro Pr\u00e9mio Jabuti de Literatura. Seis anos depois, chegou O Vampiro de Curitiba. Venceria mais tr\u00eas vezes o Jabuti, a \u00faltima delas em 2011. Em 1996, recebeu o Pr\u00e9mio Minist\u00e9rio da Cultura de Literatura pelo conjunto da sua obra. Dividiu com Bernardo Carvalho o Pr\u00e9mio Portugal Telecom de Literatura em 2003 com o livro Pico na Veia. Com O An\u00e3o e a Ninfeta voltaria a vencer, em 2012, o Pr\u00e9mio Portugal Telecom, agora sozinho, na categoria de conto e de cr\u00f3nica.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo ano em que lhe atribu\u00edram o Cam\u00f5es, foi tamb\u00e9m distinguido com o Pr\u00e9mio Machado de Assis, oferecido desta vez pela Academia Brasileira de Letras, igualmente pelo conjunto da obra. A academia classificou-o como &#8220;um dos mais importantes narradores da fic\u00e7\u00e3o brasileira contempor\u00e2nea\u201d, recordava esta ter\u00e7a-feira o portal de not\u00edcias da Globo. Trevisan, acrescenta a institui\u00e7\u00e3o, \u00e9 \u201cportador de uma linguagem predominantemente interiorizante, por\u00e9m sens\u00edvel \u00e0s movimenta\u00e7\u00f5es sociais&#8221;, &#8220;um contista personal\u00edssimo navegando contra a corrente institucional do conto&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>As hist\u00f3rias de Trevisan chegaram \u00e0 televis\u00e3o e ao cinema brasileiro. A Guerra Conjugal, de 1969, por exemplo, foi adaptada ao cinema por Joaquim Pedro de Andrade, em 1975.<\/p>\n\n\n\n<p>Dalton Trevisan esteve naturalmente ausente na cerim\u00f3nia de entrega do Cam\u00f5es, que decorreu no Rio de Janeiro, tinha o escritor 87 anos, mas n\u00e3o recusou o pr\u00e9mio, que descreveu como \u201co pr\u00e9mio dos pr\u00e9mios\u201d, e enviou uma mensagem: \u201cOs muitos anos, ai de mim, j\u00e1 me impedem de receber pessoalmente o pr\u00e9mio. [\u2026] Nunca jamais pensei merecer tamanha distin\u00e7\u00e3o. A consci\u00eancia das minhas limita\u00e7\u00f5es como escritor proibiu-me sonhos mais altos. E agora, sem aviso, o pr\u00e9mio Cam\u00f5es.\u201d Como tamb\u00e9m escreveu o cr\u00edtico liter\u00e1rio Gon\u00e7alo Mira no P\u00daBLICO, o conto, o g\u00e9nero liter\u00e1rio que Dalton mais pratica, \u00e9 em si mesmo um g\u00e9nero quase marginal: \u201cQue se tenha feito ler, que tenha granjeado elogios quase un\u00e2nimes da cr\u00edtica, a ponto de ter ganho em 2012 o Pr\u00e9mio Cam\u00f5es, s\u00e3o feitos not\u00e1veis para um contista.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Dalton Trevisan sabe que a literatura est\u00e1 muito al\u00e9m da \u00e9tica, recordou Jos\u00e9 Castello, escritor e cr\u00edtico liter\u00e1rio brasileiro, tamb\u00e9m depois da atribui\u00e7\u00e3o do Cam\u00f5es. \u201c[Ele] n\u00e3o tem piedade de seus personagens. N\u00e3o os desculpa, n\u00e3o os embeleza, nem ameniza seus horrores. Tampouco se d\u00e1 ao trabalho de lhes poupar as apar\u00eancias com o recurso das met\u00e1foras, ou dos paradoxos. Sua fic\u00e7\u00e3o caminha em direc\u00e7\u00e3o oposta a de outra magn\u00edfica contista de sua gera\u00e7\u00e3o, a paulista Lygia Fagundes Telles, que escreve movida pela delicadeza e por uma gritante intui\u00e7\u00e3o. Dalton n\u00e3o: ele trabalha aos golpes, com for\u00e7a e precis\u00e3o, como um escultor \u2014 ou, talvez mesmo, como um boxeador. Fosse poeta (talvez seja um poeta e ainda n\u00e3o consigamos ver isso), estaria mais pr\u00f3ximo de algu\u00e9m como Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, que foi um homem apaixonado pelo concreto, pelos ossos e pelas s\u00ednteses.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em quase 80 anos de carreira, lembrava recentemente a revista brasileira Quatro Cinco Um, Trevisan construiu uma traject\u00f3ria singular na literatura brasileira, uma vez que reeditava constantemente os pr\u00f3prios escritos. No ano passado, deixou de renegar as suas duas primeiras obras, escritas pouco depois de fazer 20 anos, como a Sonata ao Luar, escreveu a revista Piau\u00ed quando o escritor fez 99 anos, no meio de outra reportagem em Curitiba. \u201cS\u00f3 para a Antologia pessoal\u201d, lan\u00e7ada em Abril de 2023, lembrou a sua agente Fabiana Faversani, \u201ca gente j\u00e1 mandou oitenta emendas dele para a editora.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ai, me d\u00e1 vontade de morrer Excerto de Isabel Salema, P\u00fablico, 10\/12\/2024 &#8220;[Ele] n\u00e3o tem&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16904,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[459,450],"tags":[410],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan.jpg",998,584,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan-300x176.jpg",300,176,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan-768x449.jpg",640,374,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan.jpg",640,375,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan.jpg",998,584,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan.jpg",998,584,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan.jpg",998,584,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan.jpg",998,584,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/dalton-trevisan-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/curtas\/\" rel=\"category tag\">CURTAS<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/livros\/\" rel=\"category tag\">LIVROS<\/a>","tag_info":"LIVROS","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16903"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16903"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16903\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16906,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16903\/revisions\/16906"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16904"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}