{"id":17074,"date":"2026-06-12T14:02:18","date_gmt":"2026-06-12T14:02:18","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=17074"},"modified":"2026-06-12T14:07:10","modified_gmt":"2026-06-12T14:07:10","slug":"suica-lava-mais-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/06\/12\/suica-lava-mais-branco\/","title":{"rendered":"Su\u00ed\u00e7a lava mais branco"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Faleceu Jean Ziegler o soci\u00f3logo e escritor su\u00ed\u00e7o de esquerda que denunciou nas Na\u00e7\u00f5es Unidas e pelo mundo fora a viol\u00eancia do capitalismo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\">Foi em 1976 que Jean Ziegler atacou frontalmente as elites, com a publica\u00e7\u00e3o de \u201c<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.payot.ch\/Detail\/9782020046831\" target=\"_blank\">Uma Su\u00ed\u00e7a acima de qualquer suspeita<\/a>\u201c. O livro denunciava os lucros das multinacionais su\u00ed\u00e7as \u00e0 custa dos mais pobres, o segredo banc\u00e1rio e a coloniza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es do pa\u00eds pelo mundo financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">&#8220;Ziegler&nbsp;fez mais do que apontar com o dedo para ind\u00fastrias sem escr\u00fapulos morais. Ele identifica a famosa neutralidade pol\u00edtica de seu pa\u00eds como um enorme ativo para gerar dinheiro em si mesma, uma vantagem comercial e diplom\u00e1tica estrutural que permite \u00e0 elite su\u00ed\u00e7a criar espa\u00e7os seguros para que o capital e os capitalistas prosperem, n\u00e3o importando de onde venham ou no que acreditem&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O artigo \u00e9 de\u00a0Atossa\u00a0Araxia\u00a0Abrahamian, publicado por\u00a0El Salto, 0<strong>9-03-2025.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Atossa&nbsp;Araxia&nbsp;Abrahamian&nbsp;\u00e9 correspondente em Nova York e editora s\u00eanior do jornal nigeriano&nbsp;The&nbsp;Nation.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Desde que&nbsp;Che Guevara&nbsp;lhe abriu os olhos h\u00e1 60 anos,&nbsp;Ziegler&nbsp;tem revelado como o bem-estar da&nbsp;Su\u00ed\u00e7a&nbsp;se financia com a morte, o medo e a fome. Seus detratores o consideram um traidor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">No in\u00edcio de 1964,&nbsp;Jean&nbsp;Ziegler, jovem pol\u00edtico su\u00ed\u00e7o, recebeu um telefonema de um homem que dizia falar em nome do revolucion\u00e1rio&nbsp;Ernesto Che Guevara, ent\u00e3o ministro da Ind\u00fastria de Cuba. O homem disse que Che planejava viajar a Genebra para participar da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em ingl\u00eas) e que alguns camaradas haviam sugerido que Jean fosse seu motorista durante a visita. Perguntou a&nbsp;Ziegler&nbsp;se ele estaria dispon\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Hoje,&nbsp;Ziegler&nbsp;tem 90 anos e \u00e9 o intelectual p\u00fablico mais famoso da&nbsp;Su\u00ed\u00e7a. Publicou cerca de trinta livros, foi membro do Parlamento por quase tr\u00eas d\u00e9cadas e, em seu tempo livre, defendeu incansavelmente as causas da esquerda. Suas cr\u00edticas a seu pa\u00eds natal e \u00e0 enorme influ\u00eancia da&nbsp;Su\u00ed\u00e7a&nbsp;sobre o resto do mundo s\u00e3o implac\u00e1veis. Nos anos 1960, no entanto, ele era apenas mais um jovem esquerdista impaciente, \u00e0 espera de uma oportunidade para transformar o mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Ziegler, assim como&nbsp;Che, nasceu em uma fam\u00edlia de profissionais da classe m\u00e9dia alta. E, tal como Che, suas viagens pelo mundo o levaram a desenvolver uma postura radical contra um sistema que via como capitalista, imperialista, colonialista e racista. Por onde passava, testemunhava o impacto negativo desse sistema: no&nbsp;Congo Belga, com a lembran\u00e7a das crian\u00e7as famintas, que o assombrou pelo resto da vida; nas sangrentas guerras de independ\u00eancia da&nbsp;Arg\u00e9lia&nbsp;contra os colonizadores franceses; e no&nbsp;Chipre, onde os brit\u00e2nicos privaram os cidad\u00e3os do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o por d\u00e9cadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Ziegler&nbsp;tamb\u00e9m percebeu os ecos da opress\u00e3o perto de casa: nas bolsas de&nbsp;commodities, onde especuladores manipulavam o pre\u00e7o dos alimentos e do combust\u00edvel extra\u00eddo a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, e nos cofres dos bancos, a poucos passos de sua resid\u00eancia, onde&nbsp;cleptocratas&nbsp;desviavam os recursos naturais dos pa\u00edses produtores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Os su\u00ed\u00e7os h\u00e1 s\u00e9culos se vangloriavam de ter conseguido separar o sangue do dinheiro. Orgulhavam-se de manter os cofres de seus bancos isolados das convuls\u00f5es do mundo exterior. Com&nbsp;Ziegler, surgiu uma figura iconoclasta que os obrigou a considerar o custo moral de suas a\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">&#8220;Pode ser que nos corredores da sede do&nbsp;UBS&nbsp;n\u00e3o corra sangue&#8221;, me disse em uma tarde de junho de 2021. &#8220;Mas \u00e9 como se corresse. O relativo&nbsp;bem-estar dos su\u00ed\u00e7os&nbsp;se financia com a morte, o medo e a fome. Isto aqui \u00e9 a caverna de&nbsp;Ali Bab\u00e1: o ref\u00fagio do mundo. Isso s\u00f3 acontece na Su\u00ed\u00e7a&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Sempre tive a sensa\u00e7\u00e3o de que havia algo estranho no lugar onde cresci, a cidade de&nbsp;Genebra, embora sua localiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o conta toda a hist\u00f3ria. Genebra abriga o segundo maior escrit\u00f3rio das&nbsp;Na\u00e7\u00f5es Unidas, a sede da&nbsp;Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade&nbsp;e centenas de organiza\u00e7\u00f5es internacionais e&nbsp;ONGs, que empregam milhares de diplomatas, c\u00f4nsules, trabalhadores expatriados e suas fam\u00edlias. H\u00e1 in\u00fameras empresas multinacionais. Quase metade da popula\u00e7\u00e3o de Genebra n\u00e3o tem nacionalidade su\u00ed\u00e7a. Sem todos esses estrangeiros, a cidade n\u00e3o teria a import\u00e2ncia que tem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Sou, e sempre serei, parte desse mundo \u00e0 parte, um lugar definido por uma certa aus\u00eancia de ra\u00edzes. Estudei em col\u00e9gios internacionais, onde a hist\u00f3ria que nos ensinavam tinha pouco a ver com as batalhas travadas a poucos passos do p\u00e1tio da escola. Meus pais trabalhavam na&nbsp;ONU: meu pai como economista na&nbsp;Confer\u00eancia sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento, e minha m\u00e3e como int\u00e9rprete de confer\u00eancias para o Secretariado. Suas profiss\u00f5es refor\u00e7aram minha sensa\u00e7\u00e3o de estar sempre um pouco deslocado. Meus colegas de classe pareciam se mudar a cada poucos anos, o que me fazia sentir que eu tamb\u00e9m estava sempre partindo, sem nunca ter ido embora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Mas havia uma raz\u00e3o menos \u00f3bvia para meu desconforto com&nbsp;Genebra. Tinha a ver com as regras: quem as fazia, quem as seguia e os lugares e pessoas a quem n\u00e3o se aplicavam. Grande parte da riqueza de Genebra vem dessa economia espectral da qual \u00e9 uma anfitri\u00e3 fantasmag\u00f3rica, envolta em leis de sigilo, neutralidade, segredo banc\u00e1rio e&nbsp;isen\u00e7\u00f5es fiscais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O cant\u00e3o de&nbsp;Genebra&nbsp;tem apenas meio milh\u00e3o de habitantes, dos quais pouco mais de 200 mil vivem na cidade propriamente dita, mas mais de um ter\u00e7o do com\u00e9rcio global de gr\u00e3os ocorre aqui. Mais da metade dos sacos de caf\u00e9 do mundo &#8220;passa&#8221; pela&nbsp;Su\u00ed\u00e7a, a maioria deles atrav\u00e9s de empresas de Genebra e arredores. O pa\u00eds s\u00f3 teve seu primeiro&nbsp;Starbucks&nbsp;em 2001; alguns meses depois, a empresa come\u00e7ou a comprar seu caf\u00e9 por meio de uma filial su\u00ed\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Genebra&nbsp;h\u00e1 muito tempo \u00e9 um centro estrat\u00e9gico do&nbsp;petr\u00f3leo&nbsp;\u2014 se \u00e9 que se pode chamar de &#8220;centro&#8221; um lugar que nunca armazenou barris. At\u00e9 alguns anos atr\u00e1s, entre 50% e 60% do petr\u00f3leo bruto russo era comercializado a partir da&nbsp;Su\u00ed\u00e7a, principalmente de Genebra, segundo a organiza\u00e7\u00e3o de pesquisa independente&nbsp;Public&nbsp;Eye. Quando o Parlamento su\u00ed\u00e7o votou, a contragosto, por aderir ao regime de san\u00e7\u00f5es da&nbsp;Uni\u00e3o Europeia&nbsp;contra a&nbsp;R\u00fassia&nbsp;ap\u00f3s a&nbsp;invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia por Vladimir Putin, parte desse neg\u00f3cio foi transferida para&nbsp;Dubai.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A&nbsp;Su\u00ed\u00e7a&nbsp;n\u00e3o tem sa\u00edda para o mar. Ainda assim, abriga algumas das maiores empresas de navega\u00e7\u00e3o do mundo, que fretam e operam navios a partir de&nbsp;Genebra&nbsp;enquanto ocultam seus verdadeiros propriet\u00e1rios sob camadas de&nbsp;sigilo empresarial. Essa forma de se posicionar no mundo \u00e9 a maior contribui\u00e7\u00e3o de Genebra para o modo como todos vivemos hoje: a era das exce\u00e7\u00f5es, em que o &#8220;onde&#8221; e o &#8220;quando&#8221; importam menos do que o &#8220;quem&#8221;, o &#8220;quanto&#8221; e o &#8220;por qu\u00ea&#8221;. \u00c9 um mundo no qual a riqueza viaja de forma abstrata, como n\u00fameros em uma tela, opera\u00e7\u00f5es em um terminal. Um mundo em que as fronteiras s\u00e3o tra\u00e7adas n\u00e3o apenas em torno de lugares, mas tamb\u00e9m de pessoas e bens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Ziegler&nbsp;percebeu isso imediatamente e o denunciou repetidas vezes, arriscando seu sustento (e, sem d\u00favida, sua popularidade entre seus compatriotas) uma e outra vez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Das noites com Sartre \u00e0 experi\u00eancia no Congo&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\">Conheci&nbsp;Ziegler&nbsp;em sua casa no pequeno vilarejo de&nbsp;Russin, a poucos quil\u00f4metros de Genebra. Ele me recebeu na porta, vestindo uma cal\u00e7a de moletom cinza e uma camisa branca manchada. Ofereceu-me u\u00edsque, mais u\u00edsque e vinho, antes de aceitar que eu me servisse um copo d\u2019\u00e1gua enquanto esperava em um sof\u00e1 amarelo estofado ao lado da porta do terra\u00e7o. Constru\u00edda sobre um vinhedo \u00edngreme com vista para o lago, sua casa era espa\u00e7osa, mas sem ostenta\u00e7\u00e3o. Todas as superf\u00edcies da sala estavam cobertas de livros, vasos de flores ou fotografias de sua fam\u00edlia. &#8220;Espero que n\u00e3o se importe que eu esteja descal\u00e7o&#8221;, disse ele. &#8220;Recentemente fui pelos ares&#8221;, acrescentou, apontando para a testa enfaixada, &#8220;e assim fico mais confort\u00e1vel&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Ziegler&nbsp;come\u00e7ou sua carreira pol\u00edtica como conservador. Foi membro ativo de um grupo estudantil fundado em 1819 para promover a unidade nacional su\u00ed\u00e7a. Mudou-se para&nbsp;Berna&nbsp;para estudar Direito e, depois, para&nbsp;Paris, onde estudou Sociologia na Sorbonne, em meados dos anos 1950. Entre uma aula e outra, fez amizade com&nbsp;Jean-Paul Sartre&nbsp;e&nbsp;Simone de Beauvoir&nbsp;e, ao longo de noites repletas de fuma\u00e7a e vinho no apartamento da m\u00e3e de Sartre, o casal o introduziu no marxismo e o incentivou a escrever um artigo sobre a guerra da&nbsp;Arg\u00e9lia&nbsp;para a revista&nbsp;Les&nbsp;Temps&nbsp;Modernes, que haviam fundado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Beauvoir&nbsp;se encarregou de transformar o franc\u00eas-su\u00ed\u00e7o-alem\u00e3o de&nbsp;Ziegler&nbsp;em uma prosa mais refinada e liter\u00e1ria. Tamb\u00e9m insistiu para que ele abandonasse seu nome de batismo,&nbsp;Hans, e adotasse&nbsp;Jean, que considerava mais digno.&nbsp;Ziegler&nbsp;passou a se chamar Jean ao se filiar ao&nbsp;Partido Comunista Franc\u00eas&nbsp;e foi expulso como Jean por apoiar a&nbsp;independ\u00eancia da Arg\u00e9lia. No entanto, prestou apoio material \u00e0s causas que defendia ainda sob o nome de Hans: transportando malas com dinheiro em esp\u00e9cie atrav\u00e9s da fronteira franco-su\u00ed\u00e7a para que a&nbsp;Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional&nbsp;o depositasse em&nbsp;Genebra&nbsp;e &#8220;perdendo&#8221; o passaporte (com a inten\u00e7\u00e3o de emprest\u00e1-lo a um camarada) tantas vezes que deixou de parecer um mero descuido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Em 1961,&nbsp;Ziegler&nbsp;respondeu a um an\u00fancio de jornal que procurava franc\u00f3fonos para acompanhar um funcion\u00e1rio brit\u00e2nico em uma miss\u00e3o no que hoje \u00e9 a&nbsp;Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. O pa\u00eds acabara de se tornar independente, mas um&nbsp;golpe de Estado apoiado pela B\u00e9lgica&nbsp;(que queria manter suas concess\u00f5es minerais) e pelos&nbsp;Estados Unidos&nbsp;(que queriam esmagar o comunismo) derrubou o presidente eleito,&nbsp;Patrice Lumumba, e instalou no poder&nbsp;Mobutu&nbsp;Sese&nbsp;Seko. Mobutu era o arqu\u00e9tipo do cleptocrata: um megaloman\u00edaco impiedoso, ferozmente anticomunista, determinado a enriquecer a si mesmo e seus aliados enquanto o povo congol\u00eas sofria. Ele nacionalizou a ind\u00fastria, mas colocou os recursos do pa\u00eds nas m\u00e3os de amigos e familiares, privando os cidad\u00e3os comuns dos frutos da vasta riqueza mineral do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Ziegler&nbsp;se hospedava em um hotel-fortaleza na atual&nbsp;Kinshasa, protegido por altos muros cercados de arame farpado, onde todos os dias crian\u00e7as famintas se reuniam para pedir restos de comida. Um dia, viu os guardas do complexo dispersarem violentamente as crian\u00e7as, que sa\u00edram feridas e sangrando. Partiu-lhe o cora\u00e7\u00e3o testemunhar tal brutalidade. Ao me contar o incidente, sua voz falhou como se tivesse acontecido ontem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Quando descobriu que&nbsp;Mobutu&nbsp;havia desviado somas inimagin\u00e1veis de dinheiro de seu pa\u00eds e&nbsp;as depositado&nbsp;em bancos su\u00ed\u00e7os, a pol\u00edtica tornou-se algo pessoal, intensamente pessoal. &#8220;Durante minha estada, vi crian\u00e7as em condi\u00e7\u00f5es terr\u00edveis&#8221;, disse-me. &#8220;O que me motivou foi saber que Mobutu, que veio a Genebra com esse dinheiro manchado de sangue, causador de tantas mortes em seu pa\u00eds, p\u00f4de agir assim porque a oligarquia su\u00ed\u00e7a permitiu&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Quando&nbsp;Ziegler&nbsp;se encontrou com&nbsp;Che&nbsp;e seus camaradas em Genebra \u2014 com suas boinas e uniformes verde-oliva \u2014, j\u00e1 compartilhava suas ideias. Durante as duas semanas seguintes, aproximou-se dos cubanos, levou-os de carro at\u00e9 o&nbsp;Mont&nbsp;Blanc, traduziu o pouco espanhol que sabia e se colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o deles a qualquer hora do dia. Os revolucion\u00e1rios trouxeram a selva para a cidade, dormindo em redes em quartos compartilhados, bebendo, fumando e discutindo a noite inteira.&nbsp;Ziegler&nbsp;juntou-se a eles e, na \u00faltima noite, tomou coragem para pedir ao Che que o levasse para&nbsp;Cuba&nbsp;para se juntar \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. Era uma noite clara e, do quarto no oitavo andar do&nbsp;Hotel&nbsp;InterContinental, podiam ver o lago&nbsp;L\u00e9man, iluminado ent\u00e3o como agora por letreiros fluorescentes de rel\u00f3gios de luxo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Che&nbsp;apontou para o lago. &#8220;Aqui \u00e9 onde voc\u00ea nasceu e aqui vive o c\u00e9rebro do monstro&#8221;, lembra&nbsp;Ziegler&nbsp;de ele ter dito. &#8220;\u00c9 aqui que voc\u00ea deve travar sua luta&#8221;. Provavelmente, n\u00e3o passava de um pretexto para dissuadir um diletante magricela de ir se deixar matar. Mas&nbsp;Ziegler&nbsp;levou aquilo a s\u00e9rio. Ele sabia que a Su\u00ed\u00e7a abrigava uma engrenagem sist\u00eamica que a tornava especialmente \u00fatil \u00e0s&nbsp;for\u00e7as do capitalismo&nbsp;\u2014 n\u00e3o como protagonista, mas como facilitadora, nos bastidores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um pa\u00eds escudeiro do imperialismo&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\">Alguns anos depois,&nbsp;Ziegler&nbsp;usaria o termo \u201cimperialismo secund\u00e1rio\u201d para definir o&nbsp;modus operandi&nbsp;de seu pa\u00eds. N\u00e3o se tratava do imperialismo de primeira ordem franc\u00eas, brit\u00e2nico ou, mais tarde, estadunidense \u2014 imperialismos com presen\u00e7a militar em solo estrangeiro. O da&nbsp;Su\u00ed\u00e7a&nbsp;era um tipo de influ\u00eancia mais discreta: uma c\u00fapula de empresas multinacionais e financistas que mantinham os pa\u00edses pobres dependentes dos bens, das armas e do dinheiro ocidentais (sobretudo dos&nbsp;Estados Unidos).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Os&nbsp;su\u00ed\u00e7os&nbsp;viabilizavam essas pr\u00e1ticas oferecendo acesso a normas e financiamentos favor\u00e1veis, al\u00e9m de um ambiente empresarial reputado, ordenado e neutro: boas regras, boas leis. Era, de certo modo, uma variante do neg\u00f3cio mercen\u00e1rio. Os su\u00ed\u00e7os j\u00e1 n\u00e3o enviavam tropas para lutar em guerras de conquista alheias, como haviam feito em s\u00e9culos anteriores. Mas, na vis\u00e3o de&nbsp;Ziegler, forneciam a plataforma de lan\u00e7amento para uma vers\u00e3o moderna daquilo. \u201cDepois que vi o que estava acontecendo\u201d, disse-me ele, \u201cn\u00e3o pude deixar de denunciar\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Seu livro&nbsp;Uma Su\u00ed\u00e7a acima de qualquer suspeita&nbsp;foi publicado em 1976. A tese de&nbsp;Ziegler, que ele mant\u00e9m at\u00e9 hoje, \u00e9 que o papel da Su\u00ed\u00e7a no mundo \u00e9 o de c\u00famplice \u2014 uma esp\u00e9cie de serva \u2014 do&nbsp;capitalismo. \u201cNa Su\u00ed\u00e7a, a gest\u00e3o do dinheiro tem um&nbsp;car\u00e1ter&nbsp;quase sacramental\u201d, escreveu&nbsp;Ziegler. \u201cPossuir dinheiro, aceit\u00e1-lo, cont\u00e1-lo, acumul\u00e1-lo, especular e receber s\u00e3o todas atividades que, desde a primeira chegada de refugiados protestantes a Genebra, no s\u00e9culo XVI, foram investidas de uma majestade quase metaf\u00edsica\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A seguir,&nbsp;Ziegler&nbsp;atacou os bancos su\u00ed\u00e7os, as empresas farmac\u00eauticas, os grupos comerciais e as multinacionais, vinculando as corpora\u00e7\u00f5es e as pessoas por tr\u00e1s delas a&nbsp;todo&nbsp;tipo de crime, do tr\u00e1fico de drogas \u00e0s viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos no exterior. \u201c\u00c9 dif\u00edcil imaginar uma atividade humana que n\u00e3o seja financiada por uma institui\u00e7\u00e3o financeira de Genebra, Zurique, Basileia ou Lugano\u201d, escreveu ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Entre os infratores estavam bancos que recebiam malas de dinheiro em esp\u00e9cie das ditaduras de&nbsp;Portugal&nbsp;e da&nbsp;Rep\u00fablica Dominicana; imobili\u00e1rias que ajudavam xeques do&nbsp;Golfo&nbsp;e coron\u00e9is guatemaltecos a comprar apartamentos \u00e0 beira do lago para se esconderem; e subsidi\u00e1rias das empresas estadunidenses&nbsp;Dow&nbsp;Chemical&nbsp;e&nbsp;Honeywell, que supervisionavam as vendas internacionais de napalm e minas terrestres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">As den\u00fancias feitas por&nbsp;Ziegler&nbsp;nesse livro e em outros posteriores (A Su\u00ed\u00e7a lava mais branco&nbsp;e&nbsp;O ouro nazista) lhe renderam nove processos por difama\u00e7\u00e3o em cinco jurisdi\u00e7\u00f5es ao longo das d\u00e9cadas seguintes (a legisla\u00e7\u00e3o su\u00ed\u00e7a sobre difama\u00e7\u00e3o \u00e9 mais favor\u00e1vel aos demandantes do que a dos&nbsp;Estados Unidos). No total, foram impostas a ele indeniza\u00e7\u00f5es por danos no valor de 6,6 milh\u00f5es de francos su\u00ed\u00e7os (CHF), equivalentes a quase sete milh\u00f5es de euros, san\u00e7\u00f5es que o levaram praticamente \u00e0 fal\u00eancia \u2014 ao menos no papel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A neutralidade su\u00ed\u00e7a: um ativo comercial&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\">Ziegler&nbsp;fez mais do que apontar com o dedo para ind\u00fastrias sem escr\u00fapulos morais. Ele identifica a famosa neutralidade pol\u00edtica de seu pa\u00eds como um enorme ativo para gerar dinheiro em si mesma, uma vantagem comercial e diplom\u00e1tica estrutural que permite \u00e0 elite su\u00ed\u00e7a criar espa\u00e7os seguros para que o capital e os capitalistas prosperem, n\u00e3o importando de onde venham ou no que acreditem. A partir da\u00ed, os su\u00ed\u00e7os aprimoram a oferta com concess\u00f5es especiais que v\u00e3o al\u00e9m do que seus vizinhos europeus poderiam oferecer. Hoje, essas vantagens podem incluir uma dedu\u00e7\u00e3o fiscal para os custos de pesquisa e desenvolvimento na&nbsp;ind\u00fastria farmac\u00eautica; dep\u00f3sitos especiais sem custos aduaneiros onde pessoas ricas podem guardar itens de alto valor, como arte e vinho; uma tend\u00eancia a n\u00e3o responsabilizar empresas com sede na&nbsp;Su\u00ed\u00e7a&nbsp;por polui\u00e7\u00e3o e abusos trabalhistas no exterior; e, claro, as r\u00edgidas leis do pa\u00eds contra a divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Muitos pa\u00edses mobilizam suas capacidades como Estados-na\u00e7\u00e3o reconhecidos \u2014 a capacidade de fazer guerra (ou n\u00e3o), arrecadar impostos (ou n\u00e3o), aprovar leis (ou n\u00e3o) e vigiar suas fronteiras (de maneira seletiva) \u2014 como meio de gerar dinheiro. Mas o argumento de&nbsp;Ziegler&nbsp;sempre foi o de que seu pa\u00eds se move muito al\u00e9m de suas possibilidades, em detrimento de todos. Isso, escreve ele, faz da Su\u00ed\u00e7a &#8220;uma associa\u00e7\u00e3o defensiva, n\u00e3o um Estado-na\u00e7\u00e3o no sentido habitual&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O resultado \u00e9 que, embora superficialmente opere como uma&nbsp;democracia direta,&nbsp;ultrapopulista&nbsp;e impulsionada por referendos, o Governo su\u00ed\u00e7o est\u00e1 totalmente nas m\u00e3os do&nbsp;capital internacional. Tamb\u00e9m \u00e9 notavelmente \u00e1gil. Quando os eleitores decidiram em um referendo nacional, em 2019, revisar o sistema fiscal de seu pa\u00eds e eliminar os impostos preferenciais para as multinacionais, os cant\u00f5es individuais tomaram provid\u00eancias e reduziram os impostos a n\u00edvel local: em&nbsp;Basileia, as taxas de imposto de sociedades ca\u00edram de 20% para 13%, enquanto os aumentos de impostos em&nbsp;Genebra&nbsp;foram essencialmente simb\u00f3licos, passando de uma base de 11,6% para 13,9%.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Como&nbsp;Ziegler&nbsp;gosta de dizer: os su\u00ed\u00e7os t\u00eam &#8220;muros&#8221; para que a riqueza seja intoc\u00e1vel. A palavra que ele usa \u00e9 reveladora. Em franc\u00eas, assim como em ingl\u00eas,&nbsp;receleur&nbsp;e&nbsp;fence&nbsp;s\u00e3o palavras com duplo sentido que podem se referir tanto a uma barreira f\u00edsica quanto a um&nbsp;receptor&nbsp;de bens roubados. O muro \u00e9 tanto a fronteira quanto o banqueiro, o fosso e o intermedi\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O muro \u2014 n\u00e3o o rel\u00f3gio de cuco, nem a fondue, nem muito menos o amor fraternal \u2014 \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o ao mundo em que vivemos. Se voc\u00ea souber onde olhar, ver\u00e1 pequenas&nbsp;Su\u00ed\u00e7as&nbsp;em qualquer lugar que v\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A verdadeira origem do segredo banc\u00e1rio&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\">Uma suposi\u00e7\u00e3o muito comum sobre os impostos na Su\u00ed\u00e7a (e em outros para\u00edsos fiscais) \u00e9 que o pa\u00eds reduziu as taxas para atrair empresas. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a&nbsp;Fran\u00e7a&nbsp;e a&nbsp;Alemanha&nbsp;come\u00e7aram a impor impostos progressivos sobre a renda e a heran\u00e7a aos seus cidad\u00e3os, tributando a riqueza com taxas mais altas, enquanto a&nbsp;Su\u00ed\u00e7a&nbsp;n\u00e3o o fez. A not\u00edcia se espalhou por meio de uma campanha publicit\u00e1ria deliberada dirigida aos ricos: o historiador da&nbsp;Universidade de&nbsp;Lausana,&nbsp;S\u00e9bastien&nbsp;Guex, escreve que os bancos imprimiram \u201cfolhetos, circulares, cartas personalizadas e publicidade nos jornais, e enviaram representantes que se aproximaram pessoalmente de seus clientes\u201d.&nbsp;Guex&nbsp;afirma que isso funcionou. A metade do produto interno bruto da Su\u00ed\u00e7a foi para os bancos su\u00ed\u00e7os gra\u00e7as a esses esfor\u00e7os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A&nbsp;Su\u00ed\u00e7a&nbsp;adotou uma estrat\u00e9gia de obstru\u00e7\u00e3o ativa, seja adotando pol\u00edticas federais que impediam negocia\u00e7\u00f5es com outros governos que pudessem responsabilizar os fraudadores fiscais, deixando os bancos su\u00ed\u00e7os se \u201cautorregularem\u201d, ou simplesmente se recusando a tomar medidas en\u00e9rgicas contra essa pr\u00e1tica. Os&nbsp;su\u00ed\u00e7os&nbsp;tamb\u00e9m se beneficiaram de um sistema federal que incentivava os cant\u00f5es a competir n\u00e3o s\u00f3 com entidades estrangeiras, mas tamb\u00e9m entre si, oferecendo aos clientes uma grande variedade de op\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Em 1934, a&nbsp;Su\u00ed\u00e7a&nbsp;adotou sua agora infame legisla\u00e7\u00e3o sobre o segredo banc\u00e1rio. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que voc\u00ea ou\u00e7a falar sobre suas origens \u2014 que at\u00e9&nbsp;Ziegler&nbsp;costuma repetir \u2014 de que ela foi concebida para proteger os estrangeiros da persegui\u00e7\u00e3o por retirar dinheiro de seus pa\u00edses de origem. Alguns judeus alem\u00e3es, pressentindo que problemas estavam por vir, o fizeram, e a&nbsp;Alemanha&nbsp;j\u00e1 havia come\u00e7ado a punir essa fuga de capitais com a pena de morte. Mas o historiador&nbsp;Peter&nbsp;Hug&nbsp;descobriu que essa explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o passava de propaganda revisionista criada nos anos 1960 pelo&nbsp;Credit&nbsp;Suisse. Na verdade, a lei do segredo banc\u00e1rio foi resultado de um enorme esc\u00e2ndalo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A pol\u00edcia francesa recebeu, em 1932, a dica de uma reuni\u00e3o secreta em um apartamento dos&nbsp;Campos El\u00edsios, onde o diretor do banco comercial de&nbsp;Basileia&nbsp;dava conselhos fiscais, sem d\u00favida duvidosos, a membros da alta sociedade francesa. Entre os cerca de 2.000 clientes franceses do banco de Basileia, relutantes em pagar impostos, estavam bispos, generais, editores de jornais, uma d\u00fazia de senadores, um ministro, a esposa de um famoso perfumista e o industrial&nbsp;Armand&nbsp;Peugeot. Sua riqueza, toda sem declarar, totalizava nada menos que um quinto do PIB su\u00ed\u00e7o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Os banqueiros devolveram centenas de milh\u00f5es de francos aos franceses, conscientes de que tais incidentes fariam os clientes perderem a confian\u00e7a e levarem seus neg\u00f3cios a outro lugar. Menos de dois anos depois, o&nbsp;Parlamento&nbsp;su\u00ed\u00e7o tipificou como crime federal a revela\u00e7\u00e3o do titular de uma conta numerada, ocultando assim sua nascente ind\u00fastria banc\u00e1ria durante a maior parte do s\u00e9culo seguinte. De acordo com a nova lei, n\u00e3o era necess\u00e1rio que houvesse uma v\u00edtima para apresentar uma&nbsp;den\u00fancia criminal; na aus\u00eancia de demandante, as acusa\u00e7\u00f5es poderiam ser feitas pelo pr\u00f3prio Estado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Em 2014, 47 governos ao redor do mundo assinaram um acordo exigindo o interc\u00e2mbio autom\u00e1tico de informa\u00e7\u00f5es sobre as contas dos clientes. Sob press\u00e3o internacional, a&nbsp;Su\u00ed\u00e7a&nbsp;finalmente aderiu, mas j\u00e1 havia vencido. Ao longo do s\u00e9culo XX, o pa\u00eds se antecipou e se acomodou \u00e0 natureza cada vez mais deslocalizada da riqueza, transformando-se de um n\u00e3o-Estado para uma esp\u00e9cie de buraco negro entre a globaliza\u00e7\u00e3o e a regula\u00e7\u00e3o. O dinheiro em esp\u00e9cie, o ouro, os t\u00edtulos e outros valores que chegavam a&nbsp;Berna&nbsp;ou&nbsp;Genebra&nbsp;desfrutavam das vantagens de estar em um lugar seguro e, ao mesmo tempo, em um lugar invis\u00edvel. O fato de que a evas\u00e3o fiscal \u2014 ou seja, apresentar deliberadamente declara\u00e7\u00f5es falsas sobre o patrim\u00f4nio ou a renda \u2014 ser tratada na Su\u00ed\u00e7a como um crime civil, e n\u00e3o penal, tamb\u00e9m n\u00e3o lhes era prejudicial. E enquanto o mal-estar se espalhava pela Europa, os banqueiros su\u00ed\u00e7os sempre podiam contar com seu maior ativo comercial: sua neutralidade pol\u00edtica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">As artimanhas da&nbsp;Su\u00ed\u00e7a&nbsp;e sua condi\u00e7\u00e3o de pa\u00eds neutro permitiram que o pa\u00eds sobrevivesse \u00e0&nbsp;Segunda Guerra Mundial&nbsp;com relativamente poucos sobressaltos. Mas essa calma teve um alto custo moral que&nbsp;Ziegler&nbsp;recorda de perto e ao qual dedicou grande parte de sua carreira. Seu livro O ouro&nbsp;nazista&nbsp;oferece um retrato condenat\u00f3rio da cumplicidade dos bancos su\u00ed\u00e7os com o nazismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Quebrar com o&nbsp;car\u00e1ter&nbsp;nacional sempre tem um pre\u00e7o.&nbsp;Ziegler&nbsp;tem 90 anos e ainda paga por isso. Em 1990, foi processado por seis partes diferentes por supostas declara\u00e7\u00f5es difamat\u00f3rias em seu livro&nbsp;Su\u00ed\u00e7a Lava Mais Branco, no qual acusava os bancos su\u00ed\u00e7os de receber dinheiro de traficantes de drogas e outros criminosos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Ziegler, que foi membro do parlamento federal su\u00ed\u00e7o de 1981 a 1999, acabou perdendo sua imunidade parlamentar \u2014 que protege os cargos eleitos de certos tipos de julgamento \u2014 e foi condenado a pagar centenas de milhares de francos em multas. Durante anos, precisou de seguran\u00e7as para proteger sua casa. \u201cAs amea\u00e7as s\u00e3o muito precisas\u201d, declarou ao&nbsp;Los Angeles Times: \u201cSempre me dizem coisas como: &#8216;Ontem seu filho esteve aqui, voc\u00ea esteve l\u00e1&#8217;. \u00c9 uma esp\u00e9cie de desestabiliza\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica\u201d. Sua casa est\u00e1 em nome de sua esposa, Erica, uma historiadora da arte, para que n\u00e3o possam tom\u00e1-la, e os direitos autorais de seus livros continuam sendo penhorados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O ped\u00e1gio de ir contra a corrente&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\">Em 1998,&nbsp;Ziegler&nbsp;foi chamado a depor perante o&nbsp;Congresso dos Estados Unidos&nbsp;sobre o papel que os bancos su\u00ed\u00e7os desempenharam durante a&nbsp;Segunda Guerra Mundial. &#8220;Os su\u00ed\u00e7os comuns sentiam uma profunda antipatia pelos assassinos de massa de Berlim. Odiavam&nbsp;Adolf&nbsp;Hitler&nbsp;e rejeitavam qualquer trato com ele e seus comparsas&#8221;, declarou. &#8220;Infelizmente, essa hostilidade n\u00e3o era compartilhada por alguns membros da classe dirigente, a saber, os diretores do&nbsp;Banco Nacional Su\u00ed\u00e7o, os membros dos conselhos de administra\u00e7\u00e3o dos bancos comerciais e alguns membros do&nbsp;Governo su\u00ed\u00e7o&#8221;, acrescentou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Por suas declara\u00e7\u00f5es, um grupo de conservadores su\u00ed\u00e7os o acusou de trai\u00e7\u00e3o criminal, argumentando que suas &#8220;mentiras mal-intencionadas, falsidades, cal\u00fanias e exageros sem limites&#8221; amea\u00e7avam a seguran\u00e7a do&nbsp;Estado. A acusa\u00e7\u00e3o afirmava que ele estava &#8220;provocando ou colaborando em atividades contra a&nbsp;seguran\u00e7a do Estado&nbsp;por parte de organiza\u00e7\u00f5es estrangeiras ou seus agentes&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Fiquei surpreso que, ap\u00f3s toda uma vida observando os&nbsp;mecanismos do capitalismo,&nbsp;Ziegler&nbsp;ainda estivesse fascinado pela engenhosidade, cinismo e malevol\u00eancia de seus promotores. &#8220;O fato de que este pequeno pa\u00eds, com apenas 42.000 quil\u00f4metros quadrados, dos quais apenas 60% s\u00e3o habit\u00e1veis, com uma popula\u00e7\u00e3o de menos de 10 milh\u00f5es de habitantes, seja um centro extraterritorial t\u00e3o poderoso, e que 27% das fortunas extraterritoriais do mundo sejam geridas em ou a partir da Su\u00ed\u00e7a, \u00e9 simplesmente impressionante&#8221;, me disse ele. Sua indigna\u00e7\u00e3o moral parecia vir acompanhada de espanto. Eu pude entender.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Perguntei a&nbsp;Ziegler&nbsp;se sua luta valeu a pena e se ele sentia que havia feito alguma diferen\u00e7a no sistema contra o qual vinha batalhando por tanto tempo. Afinal, o segredo banc\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo; a lavagem de dinheiro, embora longe de ser erradicada, agora \u00e9 pelo menos um crime penal; e os bancos su\u00ed\u00e7os estavam na defensiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A relev\u00e2ncia desse tipo de hist\u00f3ria \u00e9 uma prova de que ativistas de esquerda como&nbsp;Ziegler&nbsp;influenciaram os debates p\u00fablicos sobre justi\u00e7a, equidade e desigualdade, e que a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre os para\u00edsos fiscais do planeta est\u00e1 crescendo. Mas ainda n\u00e3o est\u00e1 claro qual ser\u00e1 o impacto dessas campanhas na desigualdade real de riqueza e nas pessoas mais pobres do mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Ziegler&nbsp;acredita que seu pa\u00eds cumprir\u00e1 a lei \u00e0 risca, mas n\u00e3o seu esp\u00edrito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"771\" data-id=\"17075\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-1024x771.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17075\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-1024x771.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-300x226.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-768x578.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler.jpg 1213w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faleceu Jean Ziegler o soci\u00f3logo e escritor su\u00ed\u00e7o de esquerda que denunciou nas Na\u00e7\u00f5es Unidas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17075,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[238,449],"tags":[],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler.jpg",1213,913,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-300x226.jpg",300,226,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-768x578.jpg",640,482,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-1024x771.jpg",640,482,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler.jpg",1213,913,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler.jpg",1213,913,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-1115x715.jpg",1115,715,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-1024x771.jpg",1024,771,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ziegler-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/local\/\" rel=\"category tag\">MUNDO<\/a>","tag_info":"MUNDO","comment_count":"0","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17074"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17074"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17074\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17078,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17074\/revisions\/17078"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17075"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}