{"id":17101,"date":"2026-06-16T23:45:11","date_gmt":"2026-06-16T23:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=17101"},"modified":"2026-06-16T23:45:17","modified_gmt":"2026-06-16T23:45:17","slug":"os-novos-velhos-do-desterro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/06\/16\/os-novos-velhos-do-desterro\/","title":{"rendered":"Os Novos Velhos do Desterro"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Num Portugal em Constru\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"462\" height=\"437\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Joaquim-Candido-Machado.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16893\" style=\"aspect-ratio:1.05720823798627;width:148px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Joaquim-Candido-Machado.jpg 462w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Joaquim-Candido-Machado-300x284.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 462px) 100vw, 462px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Joaquim C\u00e2ndido Machado<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"\">&#8220;Hoje \u00e9 sempre o primeiro dia do resto das nossas vidas.&#8221; \u2014 S\u00e9rgio Godinho<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Portugal conhece bem o significado do desterro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Conhece-o atrav\u00e9s dos milhares de homens e mulheres que partiram em busca de p\u00e3o, de trabalho e de dignidade. Conhece-o atrav\u00e9s dos emigrantes que deixaram para tr\u00e1s a sua terra, a sua fam\u00edlia e os seus afetos para procurar uma vida melhor. Conhece-o atrav\u00e9s dos exilados pol\u00edticos, dos que passaram pelo Tarrafal, dos que conheceram as pris\u00f5es de Peniche e de todos aqueles que sofreram por acreditarem na liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Conhece-o atrav\u00e9s da saudade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Por isso surpreende-me que surjam entre n\u00f3s os novos Velhos do Desterro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">S\u00e3o aqueles que olham para quem chega e veem primeiro uma amea\u00e7a. Aqueles que transformam o medo numa pol\u00edtica e a desconfian\u00e7a numa identidade. Muitas vezes mostram-se fortes com os fracos, mas tornam-se simples instrumentos dos poderosos. Aqueles que acreditam que Portugal se protege afastando os que o procuram, esquecendo que a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria foi tantas vezes uma hist\u00f3ria de partida, de procura e de esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A nossa hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 simples.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">\u00c9 uma hist\u00f3ria feita de grandezas e de injusti\u00e7as, de coragem e de sofrimento. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Somos herdeiros de feitos extraordin\u00e1rios, mas tamb\u00e9m de erros profundos. <\/h4>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"\">Somos filhos dos emigrantes e dos exilados. Somos filhos dos escravos e daqueles que participaram no com\u00e9rcio de escravos. Somos filhos da liberdade conquistada e das opress\u00f5es que a antecederam. A maturidade de um povo n\u00e3o consiste em esconder estas contradi\u00e7\u00f5es, mas em enfrent\u00e1-las com verdade e maturidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A cultura portuguesa nunca foi uma fortaleza fechada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Cam\u00f5es compreendeu-o antes de todos. Nos Lus\u00edadas, o Velho do Restelo representa o medo perante o desconhecido, a tenta\u00e7\u00e3o de recusar a viagem e de permanecer na seguran\u00e7a das certezas antigas. Os novos Velhos do Desterro s\u00e3o seus descendentes. N\u00e3o receiam apenas a viagem. Receiam o encontro. Receiam aqueles que chegam de longe e que trazem consigo novas experi\u00eancias, novas culturas e novas formas de olhar o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Mas Portugal nunca cresceu pelo medo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Nem a cultura portuguesa nasceu isolada do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Shakespeare n\u00e3o era portugu\u00eas, mas ajudou-nos a compreender a condi\u00e7\u00e3o humana nas suas grandezas e fragilidades, nas suas ambi\u00e7\u00f5es, medos, amores e contradi\u00e7\u00f5es. Ao l\u00ea-lo, reconhecemo-nos porque os grandes dramas humanos n\u00e3o t\u00eam nacionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Cervantes tamb\u00e9m n\u00e3o era portugu\u00eas, mas Dom Quixote continua a caminhar ao nosso lado. Entre o sonho e a realidade, entre a coragem e a ilus\u00e3o, entre aquilo que o mundo \u00e9 e aquilo que poderia ser, encontramos uma das perguntas fundamentais da exist\u00eancia humana. Portugal sempre viveu um pouco desse esp\u00edrito quixotesco: a capacidade de sonhar para al\u00e9m do horizonte sem perder totalmente o contacto com a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Fernando Pessoa ensinou-nos o desassossego. Recusou as respostas f\u00e1ceis e mostrou que a identidade humana \u00e9 sempre mais rica do que as defini\u00e7\u00f5es estreitas. E quando escreveu que a sua p\u00e1tria era a l\u00edngua portuguesa, n\u00e3o estava a falar de uma fronteira. Estava a falar de uma comunidade de cultura, mem\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Am\u00e1lia deu voz ao povo an\u00f3nimo. Ao povo que lavava no rio, ao povo do trabalho duro, da pobreza, da dignidade silenciosa e da resist\u00eancia quotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco recordou-nos que toda a vida \u00e9 uma viagem. &#8220;Vim de longe para aqui chegar&#8221; \u00e9 mais do que uma can\u00e7\u00e3o. \u00c9 a hist\u00f3ria de cada pessoa que procura o seu lugar no mundo. \u00c9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria dos emigrantes, dos exilados e daqueles que procuram uma nova oportunidade. E \u00e9 um convite \u00e0 consci\u00eancia cr\u00edtica, \u00e0 capacidade de um pa\u00eds olhar para si pr\u00f3prio sem ilus\u00f5es e sem medo da verdade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Zeca Afonso cantou a liberdade, mas cantou tamb\u00e9m a amizade, a igualdade e a fraternidade. Lembrou-nos que uma sociedade justa n\u00e3o se constr\u00f3i contra os outros, mas com os outros.<\/h4>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"\">E Chico Buarque ajuda-nos a compreender que a l\u00edngua portuguesa \u00e9 maior do que qualquer fronteira. Entre Portugal e o Brasil existe uma hist\u00f3ria complexa, por vezes dolorosa, mas existe tamb\u00e9m uma heran\u00e7a comum de palavras, afetos e humanidade. A l\u00edngua portuguesa tornou-se um espa\u00e7o de encontro entre povos diferentes que continuam a reconhecer-se uns nos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">S\u00e9rgio Godinho recorda-nos algo essencial: hoje \u00e9 sempre o primeiro dia do resto das nossas vidas. A frase parece simples, mas cont\u00e9m uma profunda verdade humana. Nenhum indiv\u00edduo, nenhum povo e nenhuma na\u00e7\u00e3o est\u00e3o condenados a repetir eternamente o passado. A vida \u00e9 transforma\u00e7\u00e3o, aprendizagem e possibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Talvez seja essa uma das li\u00e7\u00f5es mais importantes da experi\u00eancia portuguesa. Somos herdeiros da nossa hist\u00f3ria, mas n\u00e3o seus prisioneiros. Podemos reconhecer os erros sem ficar presos a eles. Podemos honrar a mem\u00f3ria sem deixar de construir o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A explos\u00e3o de liberdade do 25 de Abril justificou plenamente os sofrimentos de todos aqueles que acreditaram na liberdade, nos campos de pris\u00e3o, no ex\u00edlio, na clandestinidade e na resist\u00eancia silenciosa de tantos portugueses an\u00f3nimos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Mas talvez n\u00e3o tenhamos ido t\u00e3o longe quanto poder\u00edamos. O apego excessivo \u00e0s ideologias, \u00e0s certezas absolutas e \u00e0s divis\u00f5es herdadas do passado impediu-nos, por vezes, de compreender plenamente a complexidade da nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. <\/h4>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"\">Tamb\u00e9m as religi\u00f5es, quando esquecem a sua dimens\u00e3o humanista e se transformam em instrumentos de separa\u00e7\u00e3o, podem contribuir para essa incompreens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A maturidade de uma democracia n\u00e3o consiste em escolher entre mem\u00f3rias opostas, mas em aprender a integr\u00e1-las. N\u00e3o consiste em repetir velhas divis\u00f5es, mas em criar novas possibilidades de encontro.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Talvez o maior desafio de Portugal continue a ser esse: transformar a mem\u00f3ria em sabedoria e a liberdade em responsabilidade.<\/h4>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"\">Ser portugu\u00eas nunca significou pertencer a uma ra\u00e7a ou a um sangue.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Significou participar numa hist\u00f3ria, numa cultura e numa comunidade humana em permanente constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Quando governos e partidos dedicam mais energia a afastar os que nos procuram do que a integr\u00e1-los, deixam de agir com a confian\u00e7a de uma na\u00e7\u00e3o madura e passam a falar a linguagem do medo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A for\u00e7a de uma na\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mede pela altura dos seus muros, mas pela confian\u00e7a que tem em si pr\u00f3pria para acolher, integrar e construir um destino comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Porque um povo que esquece o seu pr\u00f3prio desterro corre o risco de perder a mem\u00f3ria de si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">E Portugal, quando \u00e9 fiel ao melhor da sua hist\u00f3ria, n\u00e3o escolhe o medo. Escolhe o horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Porque hoje \u00e9 sempre o primeiro dia do resto das nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">E o resto das nossas vidas deve servir para fazer aquilo que nunca foi feito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num Portugal em Constru\u00e7\u00e3o Joaquim C\u00e2ndido Machado &#8220;Hoje \u00e9 sempre o primeiro dia do resto&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16723,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[459,455],"tags":[771],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao.jpg",320,203,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao-300x190.jpg",300,190,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao.jpg",320,203,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao.jpg",320,203,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao.jpg",320,203,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao.jpg",320,203,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao.jpg",320,203,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao.jpg",320,203,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao.jpg",320,203,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao.jpg",320,203,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/cantores-de-intervencao.jpg",320,203,false]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/curtas\/\" rel=\"category tag\">CURTAS<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/tribuna-2\/\" rel=\"category tag\">TRIBUNA<\/a>","tag_info":"TRIBUNA","comment_count":"0","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17101"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17101"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17101\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17102,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17101\/revisions\/17102"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}