{"id":17117,"date":"2026-06-22T19:53:21","date_gmt":"2026-06-22T19:53:21","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=17117"},"modified":"2026-06-22T20:34:50","modified_gmt":"2026-06-22T20:34:50","slug":"trampolim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/06\/22\/trampolim\/","title":{"rendered":"Trampolim"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Toda a gente, ao que parece, precisa de um pobre pior que si para poder dormir digno<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"468\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/JOSE-PENDAO_COLABORADOR-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17137\" style=\"aspect-ratio:1.641025641025641;width:176px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/JOSE-PENDAO_COLABORADOR-3.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/JOSE-PENDAO_COLABORADOR-3-300x183.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Por Jos\u00e9 Pend\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"\">Um trampolim, disse o primeiro-ministro, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/luismontenegro?__cft__[0]=AZZGLnVuRm5rXhFS1Sbqi8QoZzXw1ePjXjgwx8lcwbch_ELcpZr1yjc1Egrmb2t7fRhwM2Grgse3Hi2rISLXk1txFP0e4593-q9Jbo51-07TvG9RLSzh44Q-ul-BJRhcTJVe1a5DCHxmK4Ek1flFwUhRqqEU3xXGFYd_n9OoFOzc9sU7qBJ52FbVAfxZqlDh_JLk7dcPsWAWub2ZVAWg8m7OxwoTc639-TCDU_7q-_iDGA&amp;__tn__=-]K-y-R\">Lu\u00eds Montenegro<\/a>. N\u00e3o um subs\u00eddio, n\u00e3o um apoio, n\u00e3o uma presta\u00e7\u00e3o: um trampolim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Parei na palavra como quem para na rua diante de uma montra bem composta, e dei por mim a admir\u00e1-la. Porque \u00e9 preciso reconhecer o talento. \u00c9 necess\u00e1rio um certo g\u00e9nio (n\u00e3o pol\u00edtica, g\u00e9nio) para pegar num corte de crit\u00e9rios e devolv\u00ea-lo ao pa\u00eds transformado num exerc\u00edcio de gin\u00e1stica ol\u00edmpica. O cidad\u00e3o n\u00e3o \u00e9 amparado: \u00e9 projetado para cima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">E n\u00e3o ficou por a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Ao trampolim somou-se o elevador (para quem prefira ascender sem esfor\u00e7o atl\u00e9tico) e, do lado contr\u00e1rio, a armadilha, que foi o nome escolhido para aquilo que o apoio social era at\u00e9 anteontem. Conv\u00e9m medir o que esta troca de palavras nos pede. O mesmo Estado que durante trinta anos assinou o cheque \u00e9 agora, por confiss\u00e3o pr\u00f3pria, quem armou o cepo, e apresenta-se, sem mudar de cara, como a m\u00e3o que nos vem soltar dele. Sim, leram bem: o culpado candidatou-se a salvador, e nem sequer teve de trocar de gabinete.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Reparem na eleg\u00e2ncia da engenharia (e digo-o sem ironia, ou quase): toda esta arquitetura de imagens ascensionais assenta num pressuposto que ningu\u00e9m teve de enunciar, porque vinha embutido na pr\u00f3pria figura de estilo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Um trampolim s\u00f3 atira ao alto quem l\u00e1 chega j\u00e1 com balan\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Um elevador s\u00f3 faz falta a quem n\u00e3o quer subir as escadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">E um incentivo s\u00f3 se oferece a quem se suspeita de ainda n\u00e3o estar a tentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Em cada met\u00e1fora luminosa de mobilidade social vai escondido, como o bicho na fruta mais lustrosa, o velho desabafo de taberna: o homem est\u00e1 l\u00e1 em baixo porque lhe apetece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Conv\u00e9m, a esta altura, apresentar a personagem central de todo o enredo. N\u00e3o \u00e9 o primeiro-ministro, n\u00e3o \u00e9 a ministra, n\u00e3o \u00e9 sequer o senhor deputado, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/AndreAmaralVentura?__cft__[0]=AZZGLnVuRm5rXhFS1Sbqi8QoZzXw1ePjXjgwx8lcwbch_ELcpZr1yjc1Egrmb2t7fRhwM2Grgse3Hi2rISLXk1txFP0e4593-q9Jbo51-07TvG9RLSzh44Q-ul-BJRhcTJVe1a5DCHxmK4Ek1flFwUhRqqEU3xXGFYd_n9OoFOzc9sU7qBJ52FbVAfxZqlDh_JLk7dcPsWAWub2ZVAWg8m7OxwoTc639-TCDU_7q-_iDGA&amp;__tn__=-]K-y-R\">Andr\u00e9 Ventura<\/a>, que jura, sem corar, que um quinto do Rendimento Social de Inser\u00e7\u00e3o \u00e9 fraude, n\u00famero que tem a virtude rara de n\u00e3o constar de lado nenhum a n\u00e3o ser da sua pr\u00f3pria convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A personagem central \u00e9 uma palavra: subsidiodepend\u00eancia. Reparem na sua confe\u00e7\u00e3o. Termina em &#8220;-depend\u00eancia&#8221;, como hero\u00edna, como tabaco, como jogo (sufixo cl\u00ednico, de bata branca) que transforma um pobre num doente e a pobreza numa reca\u00edda. \u00c9 uma palavra que descreve com enorme precis\u00e3o uma enfermidade para a qual, teimosamente, n\u00e3o se encontra o corpo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Porque os n\u00fameros, esses, s\u00e3o de uma indelicadeza not\u00e1vel. O RSI paga, em m\u00e9dia, cerca de cento e cinquenta e seis euros por m\u00eas (a uns trezentos euros de dist\u00e2ncia do limiar da pobreza) que \u00e9 o ponto onde a pobreza apenas come\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Chega hoje a cento e setenta e dois mil pessoas; chegava a meio milh\u00e3o h\u00e1 quinze anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Pesa menos de um por cento da despesa da Seguran\u00e7a Social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">H\u00e1 quem viva \u00e0 grande \u00e0 custa do Estado neste pa\u00eds, e f\u00e1-lo com instrumentos consideravelmente mais sofisticados do que cento e cinquenta e seis euros. Mas reserv\u00e1mos a palavra terminada em &#8220;-depend\u00eancia&#8221; precisamente para a parcela mais barata, mais fiscalizada e mais minguada da conta. \u00c9 uma economia simb\u00f3lica admir\u00e1vel: gasta-se a suspeita onde menos custa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A ministra, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/MariaDoRosario13?__cft__[0]=AZZGLnVuRm5rXhFS1Sbqi8QoZzXw1ePjXjgwx8lcwbch_ELcpZr1yjc1Egrmb2t7fRhwM2Grgse3Hi2rISLXk1txFP0e4593-q9Jbo51-07TvG9RLSzh44Q-ul-BJRhcTJVe1a5DCHxmK4Ek1flFwUhRqqEU3xXGFYd_n9OoFOzc9sU7qBJ52FbVAfxZqlDh_JLk7dcPsWAWub2ZVAWg8m7OxwoTc639-TCDU_7q-_iDGA&amp;__tn__=-]K-y-R\">Maria do Ros\u00e1rio<\/a>, que recusa li\u00e7\u00f5es de moral, e faz bem, que a moral anda cara, convocou Arist\u00f3teles para a defesa. A autossufici\u00eancia, disse, \u00e9 o fim e o que h\u00e1 de melhor. \u00c9 verdade. \u00c9 tamb\u00e9m verdade que o fil\u00f3sofo dispunha de escravos para lhe tratarem da autossufici\u00eancia, e que nunca teve de escolher, num mesmo dia, entre a renda e o dentista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">J\u00e1 a escassez, dizem-nos os que estudam estas coisas em vez de as decretar, n\u00e3o rouba ao homem a vontade: rouba-lhe a largura de banda. A mente ocupada a sobreviver at\u00e9 ao fim do m\u00eas \u00e9 uma mente que decide pior, n\u00e3o porque seja inferior, mas porque est\u00e1 cheia. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p class=\"\">Quem nunca contou moedas confunde a sua pr\u00f3pria folga com virtude. \u00c9 um erro compreens\u00edvel. \u00c9 o mais antigo de todos.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"\">E aqui, porque seria c\u00f3modo, e eu desconfio do c\u00f3modo, conv\u00e9m recusar a divis\u00e3o simples. A taberna mental n\u00e3o \u00e9 propriedade exclusiva de uma certa direita, por mais que ela a frequente com assiduidade de cliente habitual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A esquerda tem a sua pr\u00f3pria adega, onde se destila o coitadinho, esse pobre de estima\u00e7\u00e3o que existe sobretudo para enobrecer quem dele se compadece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">E h\u00e1 um terceiro balc\u00e3o, o mais triste de todos, onde se sentam os pr\u00f3prios benefici\u00e1rios, que, quando inquiridos, se apressam a explicar que eles, esses sim, s\u00e3o diferentes; que os verdadeiros parasitas existem, claro, e est\u00e3o &#8220;ali no caf\u00e9&#8221;, numa mesa que ningu\u00e9m nunca consegue apontar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p class=\"\">Toda a gente, ao que parece, precisa de um pobre pior que si para poder dormir digno.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"\">\u00c9 este o servi\u00e7o que a l\u00edngua nos presta, e por isso dev\u00edamos pagar-lhe melhor. Cada uma destas palavras \u00e9 uma pequena porta a fechar-se com educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Trampolim, para que o corte pare\u00e7a impulso. Incentivo, para que a desconfian\u00e7a pare\u00e7a pedagogia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Responsabiliza\u00e7\u00e3o, para que a puni\u00e7\u00e3o pare\u00e7a maturidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">M\u00e9rito, para que a sorte pare\u00e7a car\u00e1cter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Dignidade, sobretudo dignidade, a palavra-coringa, com que se justifica dar e com que se justifica negar, conforme o dia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p class=\"\">Constru\u00edmos, a pouco e pouco, um vocabul\u00e1rio inteiro com uma \u00fanica fun\u00e7\u00e3o: tornar respeit\u00e1vel o ato de n\u00e3o dar.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"\">N\u00e3o decidimos, em rigor, que os mais pobres eram o nosso inimigo. Fomos mais civilizados do que isso. Limit\u00e1mo-nos a encontrar as palavras certas (limpas, modernas, quase ternas) que nos deixam olhar para o outro lado sem deixar de nos considerar gente de consci\u00eancia. A PSU n\u00e3o inaugura este idioma; apenas o codifica em Di\u00e1rio da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Resta-me, e a v\u00f3s, o pequeno inc\u00f3modo de reparar que tamb\u00e9m este texto \u00e9 feito de palavras. E que a diferen\u00e7a entre as minhas e as deles talvez n\u00e3o seja a inoc\u00eancia \u2014 seja apenas que as minhas n\u00e3o v\u00eam com for\u00e7a de le<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda a gente, ao que parece, precisa de um pobre pior que si para poder&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17138,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[238,751],"tags":[785],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos.jpg",553,339,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos-300x184.jpg",300,184,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos.jpg",553,339,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos.jpg",553,339,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos.jpg",553,339,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos.jpg",553,339,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos.jpg",553,339,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos.jpg",553,339,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos.jpg",553,339,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos-540x339.jpg",540,339,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trampolim_jogos-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/inclusao\/\" rel=\"category tag\">INCLUS\u00c3O<\/a>","tag_info":"INCLUS\u00c3O","comment_count":"0","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17117"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17117"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17117\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17139,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17117\/revisions\/17139"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17138"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17117"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}