{"id":17127,"date":"2026-06-22T14:31:29","date_gmt":"2026-06-22T14:31:29","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=17127"},"modified":"2026-06-22T18:52:27","modified_gmt":"2026-06-22T18:52:27","slug":"israel-e-um-estado-de-supremacia-judaica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/06\/22\/israel-e-um-estado-de-supremacia-judaica\/","title":{"rendered":"Israel \u00e9 um Estado de supremacia judaica"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Entrevista ao historiador Avi Shlaim<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\">\u00c9 uma das figuras mais eminentes do revisionismo que contesta a narrativa oficial, apolog\u00e9tica, da cria\u00e7\u00e3o do Estado judaico. O seu livro, agora sa\u00ed\u00addo em Portugal, \u201cTr\u00eas Mundos. Mem\u00f3rias de Um Judeu \u00c1rabe\u201d, mostra como a coexist\u00eancia entre \u00e1rabes e judeus foi historicamente poss\u00edvel. Fal\u00e1mos com o historiador<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Entrevista ao Expresso &#8211; 27 novembro 2025 22:57 <strong>Lu\u00eds M. Faria<\/strong> Jornalista<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Nascido em 1945 e criado no seio de uma fam\u00edlia judia de classe alta, Avi Shlaim viveu no Iraque at\u00e9 aos cinco anos, quando a guerra e a cria\u00e7\u00e3o de Israel os obrigaram a mudar para esse novo pa\u00eds. Al\u00e9m de as circunst\u00e2ncias materiais da fam\u00edlia jamais terem voltado a ser as mesmas, Shlaim sentia-se menosprezado pelo facto de ser um judeu \u00e1rabe, ao contr\u00e1rio dos l\u00edderes fundadores do pa\u00eds, oriundos da Europa de Leste. Esse sentimento de ex\u00edlio n\u00e3o o abandonou at\u00e9 meados da adolesc\u00eancia, quando foi estudar para Inglaterra. A\u00ed faria toda a sua carreira de historiador, tornando-se uma das figuras mais eminentes na tradi\u00e7\u00e3o do revisionismo que contesta a narrativa oficial, apolog\u00e9tica, da cria\u00e7\u00e3o do Estado judaico. O seu livro agora sa\u00ed\u00addo em Portugal, \u201cTr\u00eas Mundos. Mem\u00f3rias de Um Judeu \u00c1rabe\u201d (Ed. Zigurate) mostra como a coexist\u00eancia entre \u00e1rabes e judeus foi historicamente poss\u00edvel \u2014 de facto, durante mais de um mil\u00e9nio \u2014, desmentindo o mito de uma incompatibilidade essencial, irredut\u00edvel. O Expresso entrevistou-o nas v\u00e9speras de uma visita recente a Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>At\u00e9 que ponto acha que a sua experi\u00eancia familiar e pessoal ajuda a compreender o que se passa hoje em dia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Esta n\u00e3o \u00e9 uma autobiografia convencional. Os tr\u00eas mundos do t\u00edtulo s\u00e3o o Iraque, onde vivi at\u00e9 aos 5 anos; Israel, onde vivi dos 5 aos 15; e Inglaterra, onde estudei dos 15 aos 18. O livro tenta entrela\u00e7ar uma hist\u00f3ria familiar com uma hist\u00f3ria mais ampla \u2014 a da comunidade judaica no Iraque na primeira metade do s\u00e9culo XX. Gosto de pensar nele como uma autobiografia impessoal \u2014 o que, claro, \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o nos termos. Mas h\u00e1 certos temas subjacentes. O sionismo era um movimento de judeus europeus para judeus europeus. Um dia perguntei \u00e0 minha m\u00e3e \u2014 que falava sempre dos maravilhosos amigos mu\u00e7ulmanos que t\u00ednhamos em Bagdade \u2014 se t\u00ednhamos algum amigo sionista. Ela olhou para mim como se fosse uma pergunta bizarra. E disse: \u201cN\u00e3o, n\u00e3o, o sionismo \u00e9 uma coisa asquenaze. N\u00e3o tem nada a ver connosco.\u201d Essa vis\u00e3o era bastante representativa, t\u00edpica da maioria dos judeus no Iraque. Estavam l\u00e1 h\u00e1 dois mil\u00e9nios e meio, quase mil anos antes do surgimento do Isl\u00e3o. Al\u00e9m disso, os l\u00edderes sionistas n\u00e3o tinham interesse nos judeus das terras \u00e1rabes. Tinham uma vis\u00e3o euroc\u00eantrica. Olhavam de cima para os \u00e1rabes e tamb\u00e9m para os judeus \u00e1rabes, como a minha fam\u00edlia \u2014 apenas um pouco menos \u201cprimitivos\u201d do que os outros \u00e1rabes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Depois deu-se a guerra.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O Holocausto mudou tudo, porque eliminou o principal reservat\u00f3rio populacional do futuro Estado judeu. A Ali\u00e1, a imigra\u00e7\u00e3o para Israel, tornou-se a principal prioridade da lideran\u00e7a sionista ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do Estado em 1948. O meu livro \u00e9 uma cr\u00edtica \u00e0 atitude sionista face aos judeus \u00e1rabes. Eu sempre soube que a principal v\u00edtima do sionismo e do Estado de Israel s\u00e3o os palestinianos. Escrevi muitos livros sobre o assunto. Mas ao escrever estas mem\u00f3rias, percebi que havia outra categoria de v\u00edtimas do movimento sionista \u2014 os judeus das terras \u00e1rabes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong><em>\u201cOs l\u00edderes sionistas olhavam de cima para os \u00e1rabes e tamb\u00e9m para os judeus \u00e1rabes, como a minha fam\u00edlia \u2014 apenas um pouco menos \u2018primitivos\u2019 do que os outros \u00e1rabes\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Diria que a sua atitude em rela\u00e7\u00e3o ao sionismo evoluiu com o tempo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Sem d\u00favida. Tinha 5 anos quando cheg\u00e1mos a Israel. Frequentei a escola em Israel. Fui doutrinado em Israel. A vers\u00e3o sionista da hist\u00f3ria apresentava os judeus como v\u00edtimas eternas e dizia que sempre existira antissemitismo no mundo \u00e1rabe e mu\u00e7ulmano. O antissemitismo seria perene, omnipresente, end\u00e9mico, e fora ele que levara os judeus dos pa\u00edses \u00e1rabes a emigrar para Israel. Essa foi a vers\u00e3o que aprendi na escola. E quando servi nas For\u00e7as de Defesa de Israel, em meados da d\u00e9cada de 60, voltei a ser doutrinado. Acreditava genuinamente que n\u00f3s, Israel, \u00e9ramos um pequeno pa\u00eds amante da paz. Rodeado de \u00e1rabes que queriam atirar-nos ao mar. E n\u00e3o t\u00ednhamos outra escolha sen\u00e3o resistir e lutar. Portanto, eu era sionista. Um israelita patriota. Quando rebentou a crise de maio de 1967, estudava Hist\u00f3ria em Cambridge e fui \u00e0 embaixada de Israel em Londres oferecer-me para regressar e combater na guerra que todos sab\u00edamos estar prestes a come\u00e7ar. A guerra terminou em seis dias e nunca mais tive not\u00edcias deles. Esse foi o ponto mais alto da minha identifica\u00e7\u00e3o e liga\u00e7\u00e3o com o sionismo e o Estado de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>O que mudou a seguir?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O meu desencanto com o sionismo desenvolveu-se muito, muito gradualmente ap\u00f3s a Guerra dos Seis Dias. Para resumir uma evolu\u00e7\u00e3o lenta, diria que a guerra de junho de 1967 foi o ponto de viragem. Antes eu acreditava que o ex\u00e9rcito era fiel ao seu nome: For\u00e7as de Defesa. Mas, depois de 1967, tornou-se na for\u00e7a policial brutal de uma pot\u00eancia colonial brutal. E come\u00e7ou o meu desencanto com Israel. Contudo, foi apenas enquanto historiador que mudei de forma radical as minhas opini\u00f5es sobre o sionismo. Tive um ano sab\u00e1tico em Jerusal\u00e9m, em 1981-82, e passei-o todo nos arquivos israelitas. Percebi ent\u00e3o que os registos, os documentos oficiais, contavam uma hist\u00f3ria muito diferente. A propaganda oficial dizia que os l\u00edderes israelitas tinham sempre tentado estender a m\u00e3o \u00e0 paz com os \u00e1rabes, mas n\u00e3o havia com quem falar. Os arquivos do Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros estavam cheios de provas da vontade \u00e1rabe em negociar e da intransig\u00eancia israelita. Portanto, em certo sentido, \u201cradicalizei-me\u201d nos arquivos. Mas, nessa altura, ainda n\u00e3o era antissionista. Era p\u00f3s-sionista. Ou seja, achava que, em 1967, o movimento sionista j\u00e1 tinha atingido o seu objetivo final: existia um Estado judeu vi\u00e1vel e seguro na Palestina, e Israel podia trocar os territ\u00f3rios pela paz com os \u00e1rabes. Mas Israel optou por n\u00e3o o fazer. Decidiu manter os territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Foi isso que alterou a sua forma de olhar para Israel?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Posteriormente, al\u00e9m de p\u00f3s-sionista ou n\u00e3o-sionista, tornei-me antissionista. Porque o comportamento de Israel nas \u00faltimas d\u00e9cadas demonstrou que n\u00e3o tem interesse em alcan\u00e7ar a paz com os palestinianos, que rejeita a solu\u00e7\u00e3o dos dois Estados e que, devido \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o, Israel se tornou num Estado de&nbsp;apartheid. Assim, j\u00e1 n\u00e3o distingo entre o Estado de Israel propriamente dito, dentro das fronteiras pr\u00e9-67, e a Cisjord\u00e2nia e Gaza. H\u00e1 um s\u00f3 regime, do rio ao mar, e \u00e9 um regime de&nbsp;apartheid. Um regime de supremacia judaica. Na minha opini\u00e3o, essa entidade j\u00e1 n\u00e3o tem legitimidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Pode dar-nos alguns exemplos dessas descobertas nos arquivos que mostraram haver uma grande diferen\u00e7a entre a propaganda e a realidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">H\u00e1 v\u00e1rios exemplos, mas o mais marcante da diferen\u00e7a entre a linha oficial e a realidade da pol\u00edtica externa israelita diz respeito ao rei Abdullah da Jord\u00e2nia. A vers\u00e3o oficial dizia que todos os \u00e1rabes eram hostis a Israel, que todos foram \u00e0 guerra em 1948 para destruir o rec\u00e9m-nascido Estado de Israel. A minha investiga\u00e7\u00e3o mostrou que Abdullah, durante d\u00e9cadas \u2014 desde o in\u00edcio dos anos 1920 \u2014 manteve um di\u00e1logo constante com o movimento sionista. Em 1947, tinha chegado a um acordo t\u00e1cito com a Ag\u00eancia Judaica para dividir a Palestina, \u00e0 custa dos palestinianos. Evitou um confronto direto durante a guerra de 1948 e retomou o di\u00e1logo atrav\u00e9s das linhas de batalha ap\u00f3s o fim da guerra. Continuou a reunir-se e a negociar com l\u00edderes israelitas literalmente at\u00e9 ao dia da sua morte, em julho de 1950, quando foi assassinado \u00e0 porta da Mesquita de al-Aqsa por um nacionalista palestiniano. Outro exemplo \u00e9 Hosni Za\u2019im, o chefe do Estado-Maior s\u00edrio, que protagonizou um golpe de Estado em mar\u00e7o de 1949 e ofereceu a Israel paz plena, troca imediata de embaixadores, rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas normais e total normaliza\u00e7\u00e3o. Pediu para se encontrar com David Ben-Gurion, o primeiro-ministro israelita. Ben-Gurion recusou. Hosni Za\u2019im ofereceu, no contexto de um acordo global para o conflito, acolher um quarto de milh\u00e3o de refugiados palestinianos na S\u00edria. Um ter\u00e7o do total de refugia\u00addos palestinianos, que eram cerca de 750 mil. Era, portanto, um l\u00edder \u00e1rabe pragm\u00e1tico e disposto a negociar com Israel \u2014 mas foi o lado israelita que se mostrou intransigente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Qual \u00e9 o terceiro exemplo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A historiografia sionista afirma que, perto do fim do mandato brit\u00e2nico na Palestina, a Gr\u00e3-Bretanha incitou, armou e encorajou os seus aliados \u00e1rabes a invadir a Palestina e a destruir o Estado judaico nascente. Eu argumento, com base em provas provenientes de documentos brit\u00e2nicos, que a Gr\u00e3-Bretanha, na verdade, estava resignada ao aparecimento do Estado de Israel e apoiou o rei Abdullah no seu projeto de capturar a Cisjord\u00e2nia, o cora\u00e7\u00e3o do que deveria ter sido o Estado palestiniano. Portanto, h\u00e1 um caso a fazer contra a Gr\u00e3-Bretanha no fim do mandato, mas n\u00e3o por ter tentado impedir o nascimento de um Estado judaico \u2014 antes por ter apoiado o rei Abdullah em abortar o nascimento de um Estado palestiniano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>At\u00e9 que ponto \u00e9 tudo isto culpa da Declara\u00e7\u00e3o Balfour, na sua opini\u00e3o? Foi o erro original?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Resumindo, a Gr\u00e3-Bretanha roubou a Palestina aos palestinianos e deu-a aos sionistas. A Declara\u00e7\u00e3o Balfour, de 1917, prometeu o apoio brit\u00e2nico \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um \u201clar nacional\u201d para o povo judeu na Palestina. \u201cLar nacional\u201d era um termo novo \u2014 n\u00e3o existia no direito internacional \u2014 e foi um eufemismo para um Estado judaico. Assim, a Gr\u00e3-Bretanha apoiou a transforma\u00e7\u00e3o da Palestina num Estado judaico. Em 1917, os palestinianos, os \u00e1rabes, constitu\u00edam 90% da popula\u00e7\u00e3o. Os judeus eram menos de 10% e possu\u00edam apenas 2% das terras. Mesmo assim, a Gr\u00e3-Bretanha prometeu o seu apoio \u00e0 minoria judaica. E, para agravar o insulto, referiu-se aos 90% de \u00e1rabes como \u201cas comunidades n\u00e3o-judaicas da Palestina\u201d \u2014 definindo-os pelo que n\u00e3o eram, em vez do que eram. Foi um documento colonial cl\u00e1ssico, que ignorou completamente os direitos e aspira\u00e7\u00f5es da maioria da popula\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 absolutamente crucial para compreender o que se seguiu. A Gr\u00e3-Bretanha, uma pot\u00eancia colonial ocidental, imp\u00f4s um Estado judaico no cora\u00e7\u00e3o do mundo \u00e1rabe, e tanto a Gr\u00e3-Bretanha como mais tarde os Estados Unidos apoiaram Israel de todas as formas. Eu argumentaria que a Declara\u00e7\u00e3o Balfour \u00e9 diretamente respons\u00e1vel pelo que est\u00e1 a acontecer em Gaza. Ela permitiu ao movimento sionista iniciar a tomada sistem\u00e1tica de toda a Palestina, um processo que implicou a limpeza \u00e9tnica do territ\u00f3rio e que hoje degenerou em genoc\u00eddio em Gaza. Noam Chomsky disse que o colonialismo de povoamento \u00e9 a forma mais violenta e extrema de imperialismo. Hoje, tanto a Gr\u00e3-Bretanha como os Estados Unidos s\u00e3o n\u00e3o apenas c\u00famplices dos crimes de guerra de Israel em Gaza, mas apoiantes ativos desses crimes, ao continuarem a fornecer armas a Israel e a proteg\u00ea-lo diplomaticamente nas Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong><em>\u201cNas \u00faltimas d\u00e9cadas, Israel provou que n\u00e3o tem interesse em alcan\u00e7ar a paz com os palestinianos, que rejeita a solu\u00e7\u00e3o dos dois Estados e que, devido \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o, se tornou num Estado de apartheid\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>At\u00e9 que ponto acha que o racismo esteve por detr\u00e1s de tudo isto em 1917 e ainda hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O racismo est\u00e1 no ADN das pot\u00eancias coloniais. Arthur Balfour, o ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros brit\u00e2nico, era na verdade um antissemita. Aprovou a Lei dos Estrangeiros de 1905, a primeira legisla\u00e7\u00e3o anti-imigra\u00e7\u00e3o na Gr\u00e3-Bretanha, destinada a impedir que judeus perseguidos na Europa de Leste viessem para o pa\u00eds. Os antissemitas apoiavam o sionismo \u2014 a cria\u00ad\u00e7\u00e3o de um Estado judaico \u2014 precisamente porque n\u00e3o queriam judeus nos seus pr\u00f3prios pa\u00edses. As pot\u00eancias coloniais viam os povos nativos como primitivos, inferiores e atrasados, mas os judeus num n\u00edvel de civiliza\u00e7\u00e3o superior. Em 1937, Winston Churchill comparou os \u00e1rabes locais, os nativos, a c\u00e3es num pres\u00e9pio, dizendo que o facto de o c\u00e3o ter estado deitado no pres\u00e9pio durante muitos anos n\u00e3o lhe dava direito a ele. Acrescentou que os \u00e1rabes deviam dar lugar a outra ra\u00e7a, uma ra\u00e7a mais experiente e superior \u2014 os judeus. \u00c9 um exemplo extremo do racismo brit\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Como avalia o plano de paz de Donald Trump?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O racismo e o colonialismo andam de m\u00e3os dadas. As pot\u00eancias coloniais s\u00e3o, quase por defini\u00e7\u00e3o, racistas. O racismo est\u00e1 no ADN das pot\u00eancias coloniais. O que Churchill disse \u00e9 t\u00edpico da vis\u00e3o colonial sobre judeus e \u00e1rabes \u2014 chocante, mas n\u00e3o surpreendente, porque, como disse, racismo e colonialismo andam sempre juntos. Hoje, um bom exemplo deste fen\u00f3meno \u00e9 Donald Trump, que \u00e9 simultaneamente antissemita e um grande apoiante de Israel. O plano de 20 pontos de Trump incorpora todo o racismo e preconceito de que tenho falado. \u00c9 um plano que d\u00e1 a Israel tudo o que quer: controlo total sobre Gaza, a dissolu\u00e7\u00e3o do Hamas, a entrega de todas as armas e a exclus\u00e3o do Hamas de qualquer papel futuro na governa\u00e7\u00e3o de Gaza. N\u00e3o h\u00e1 nele qualquer refer\u00eancia a um Estado palestiniano, nem a permitir aos palestinianos participarem na governa\u00e7\u00e3o ou decidirem o seu pr\u00f3prio destino. Nem sequer menciona a Cisjord\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Porque acha que, desde o in\u00edcio, a atitude de Israel foi sempre de recusa \u2014 recusa em rela\u00e7\u00e3o ao rei da Jord\u00e2nia, recusa em rela\u00e7\u00e3o aos s\u00edrios? Qual era o objetivo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O sionismo \u00e9 um movimento colonial de povoamento, e o Estado de Israel \u00e9 um Estado colonial de povoamento. A l\u00f3gica deste tipo de colonialismo \u00e9 a elimina\u00e7\u00e3o dos nativos para tomar posse da terra e dos seus recursos. Este foi o objetivo do sionismo desde o in\u00edcio: criar um Estado judaico o maior poss\u00edvel, com o menor n\u00famero poss\u00edvel de \u00e1rabes dentro das suas fronteiras. As orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do atual governo de Netanyahu s\u00e3o ainda mais extremas: afirmam que o povo judeu tem um direito exclusivo \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o em toda a Terra de Israel. A \u201cTerra de Israel\u201d significa a Cisjord\u00e2nia \u2014 ou \u201cJudeia e Samaria\u201d, como preferem chamar-lhe. Por outras palavras, Israel hoje nega totalmente qualquer direito palestiniano \u00e0 independ\u00eancia em qualquer parte da Palestina hist\u00f3rica. Essa \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do governo e, portanto, nenhum acordo com os palestinianos \u00e9 poss\u00edvel com base nisso. \u00c9 um Estado de supremacia judaica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Os acordos de Oslo foram uma tentativa genu\u00edna de fazer a paz ou apenas uma simula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Na altura em que os acordos de Oslo foram assinados, fiquei euf\u00f3rico. Acreditei que era algo real. H\u00e1 duas explica\u00e7\u00f5es para o fracasso do processo de paz de Oslo. A vers\u00e3o oficial diz que falhou porque era inerentemente defeituoso, contr\u00e1rio ao direito de Israel \u00e0 seguran\u00e7a e ao direito hist\u00f3rico do povo judeu a toda a Terra de Israel, incluindo Judeia e Samaria. A explica\u00e7\u00e3o oficial tamb\u00e9m afirma que foi o regresso dos palestinianos ao terrorismo que levou ao colapso do processo de paz. A minha explica\u00e7\u00e3o \u00e9 outra: o processo de paz de Oslo colapsou porque o Likud regressou ao poder sob Netanyahu e renegou a parte israelita do acordo. Expandiu as col\u00f3nias judaicas e violou os termos de Oslo. Essa \u00e9 a verdadeira raz\u00e3o do seu fracasso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Leitura recomendada por Francisco Melro no seguimento da publica\u00e7\u00e3o do artigo <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/06\/21\/era-uma-vez-nas-arabias\/\">ERA UMA VEZ NAS AR\u00c1BIAS <\/a>da sua autoria &#8211; Para aprofundamento do tema. <\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:46px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"617\" height=\"454\" data-id=\"17128\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17128\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim.jpg 617w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim-300x221.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 617px) 100vw, 617px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"\">Foto &#8211; wikip\u00e9dia \\ <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/w\/index.php?title=User:Mans2014&amp;action=edit&amp;redlink=1\">Mans2014<\/a>&nbsp;&#8211;&nbsp;Own work | Em Oxford, 2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista ao historiador Avi Shlaim \u00c9 uma das figuras mais eminentes do revisionismo que contesta&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17128,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[519,747],"tags":[296],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim.jpg",617,454,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim-300x221.jpg",300,221,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim.jpg",617,454,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim.jpg",617,454,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim.jpg",617,454,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim.jpg",617,454,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim.jpg",617,454,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim.jpg",617,454,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim.jpg",617,454,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/avi-shlaim-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/biblioteca-das-ideias\/\" rel=\"category tag\">BIBLIOTECA DAS IDEIAS<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/debates\/\" rel=\"category tag\">DEBATES<\/a>","tag_info":"DEBATES","comment_count":"0","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17127"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17127"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17130,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17127\/revisions\/17130"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17128"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}