{"id":17131,"date":"2026-06-22T18:49:02","date_gmt":"2026-06-22T18:49:02","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=17131"},"modified":"2026-06-22T18:52:54","modified_gmt":"2026-06-22T18:52:54","slug":"israel-o-que-correu-mal-com-o-meu-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/06\/22\/israel-o-que-correu-mal-com-o-meu-pais\/","title":{"rendered":"Israel: o que correu mal com o meu pa\u00eds?"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Israel esgotou por completo o cr\u00e9dito para alguma vez voltar a invocar o Holocausto<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\">No seu novo livro, o historiador israelo-americano Omer Bartov n\u00e3o deixa margem para d\u00favidas: o pa\u00eds onde nasceu est\u00e1 a cometer um genoc\u00eddio em Gaza. Em entrevista ao Expresso, diz que \u201co principal inimigo\u201d do Estado judaico \u201c\u00e9 o seu pr\u00f3prio Governo\u201d. E defende san\u00e7\u00f5es europeias e americanas \u2013 n\u00e3o para castigar Israel, mas \u201cpara o salvar de si pr\u00f3prio\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">In Expresso -15 junho 2026 07:30 | <strong>H\u00e9lder Gomes<\/strong> | Jornalista<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Omer Bartov nasceu num kibbutz, combateu nas For\u00e7as de Defesa de Israel na Guerra do Yom Kippur e tornou-se um dos maiores historiadores do Holocausto e do genoc\u00eddio. No seu novo livro, \u201cIsrael: o que correu mal com o meu pa\u00eds? Entre a mem\u00f3ria do Holocausto e a viol\u00eancia do presente\u201d (Ideias de Ler), o professor da Universidade de Brown sustenta que Israel est\u00e1 a cometer um genoc\u00eddio em Gaza e que o sionismo se converteu numa ideologia de Estado assente no etnonacionalismo. A entrevista foi feita por videochamada, com Bartov em Roma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Sim, comecei a escrever mais sobre Israel nos \u00faltimos dez anos, portanto n\u00e3o \u00e9 a primeira vez. Publiquei um livro anterior, \u201cGenocide, the Holocaust and Israel-Palestine\u201d, que saiu em 2022 em ingl\u00eas e alem\u00e3o. Nesse livro falo da minha investiga\u00e7\u00e3o sobre a Europa de Leste e incluo ensaios sobre Israel. Mas este \u00e9, claro, um empreendimento diferente, e teve mesmo que ver com os acontecimentos que ocorreram desde 7 de outubro. Eu estava a escrever outro livro sobre Israel-Palestina, que pus de lado para escrever este \u2013 que \u00e9, em larga medida, uma resposta ao que aconteceu desde ent\u00e3o e uma tentativa de perceber o que aconteceu, mas tamb\u00e9m quais as ra\u00edzes mais profundas daquilo a que chamo a transforma\u00e7\u00e3o de Israel, uma transforma\u00e7\u00e3o do sionismo que remonta ao final do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>A sua m\u00e3e veio de Buczacz, a cidade cuja destrui\u00e7\u00e3o reconstruiu em \u201cAnatomy of a Genocide\u201d. O que representa, para o historiador que dissecou um genoc\u00eddio na cidade da sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, dirigir agora essa acusa\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio Estado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O livro que escrevi sobre a terra natal da minha m\u00e3e, Buczacz \u2013 hoje na Ucr\u00e2nia, antes da II Guerra Mundial na Pol\u00f3nia \u2013, foi uma tentativa de ver o fen\u00f3meno do genoc\u00eddio, neste caso o Holocausto, que foi um genoc\u00eddio de grande escala, ao n\u00edvel local: o que acontece no terreno, na vida de uma localidade. De muitas maneiras, o meu processo de come\u00e7ar a pensar sobre o meu pr\u00f3prio pa\u00eds, sobre a minha educa\u00e7\u00e3o ali, sobre tudo o que eu sabia e tudo o que n\u00e3o sabia, ou que a minha gera\u00e7\u00e3o negou, come\u00e7ou enquanto fazia esse trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">H\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o, porque uma coisa que vi ao investigar no que \u00e9 hoje a Ucr\u00e2nia ocidental foi como o passado tinha sido encoberto, apagado de facto. Escrevi em 2007 um livro chamado \u201cErased\u201d, sobre o apagamento da civiliza\u00e7\u00e3o judaica \u2013 n\u00e3o s\u00f3 porque foi destru\u00edda pelos alem\u00e3es, mas porque, depois da guerra, a popula\u00e7\u00e3o que ali vivia simplesmente esqueceu, encobriu, e n\u00e3o restou mem\u00f3ria disso. E comecei a pensar sobre a minha pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o, num pa\u00eds que tinha acabado de fazer a limpeza \u00e9tnica da popula\u00e7\u00e3o palestiniana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Foi um processo longo, de pensar as liga\u00e7\u00f5es entre o que aconteceu na terra da minha m\u00e3e, e no Holocausto em geral, e os acontecimentos em Israel. Mas, claro, h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre pensar no que os alem\u00e3es e os colaboradores locais fizeram aos judeus, incluindo \u00e0 minha pr\u00f3pria fam\u00edlia, e pensar naquilo em que Israel se envolveu. Foi um processo dif\u00edcil. Como provavelmente sabe, n\u00e3o fui dos primeiros a dizer que o que Israel faz em Gaza \u00e9 genoc\u00eddio. Levou-me um tempo consider\u00e1vel at\u00e9 ter a certeza de que percebia o que era, e de que n\u00e3o havia outra forma de o definir sen\u00e3o como genoc\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Em 1976, esteve entre os soldados gravemente feridos num acidente de treino que diz ter sido encoberto. O que \u00e9 que esse epis\u00f3dio lhe ensinou sobre a forma como o Estado israelita lida com a responsabilidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">H\u00e1 aqui duas coisas. Israel tem-se negado a si pr\u00f3prio, e a sua popula\u00e7\u00e3o tem vivido em v\u00e1rios estados de nega\u00e7\u00e3o, sobretudo quanto ao que fez aos palestinianos. Mas este caso \u2013 um acidente militar que poderia ter sido evitado \u2013 teve que ver com outra coisa: com a desorganiza\u00e7\u00e3o geral, a falta de gest\u00e3o, a falta de m\u00e9todo que \u00e9 bastante t\u00edpica do ex\u00e9rcito israelita, apesar da apar\u00eancia de for\u00e7a e efici\u00eancia. Teve mais que ver com desleixo e com a incapacidade de quem est\u00e1 no topo de assumir responsabilidade pelos seus atos. Isso reflete-se no ex\u00e9rcito israelita e na pol\u00edtica israelita. As pessoas n\u00e3o assumem responsabilidade. \u00c9 muito comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Diria que o que vimos depois de 7 de outubro manifesta bem isso, porque o homem diretamente respons\u00e1vel, e o maior respons\u00e1vel, pelo fiasco de 7 de outubro \u00e9 [o primeiro-ministro israelita] Benjamin Netanyahu. V\u00e1rios altos respons\u00e1veis militares acabaram por se demitir e por dizer que eram respons\u00e1veis, ele n\u00e3o o fez. Conseguiu cumprir o mandato inteiro de quatro anos sem se demitir nem assumir qualquer responsabilidade m\u00ednima por aquele fiasco, e nem sequer sabemos se vai realizar elei\u00e7\u00f5es limpas em outubro \u2013 muita gente tem d\u00favidas. Portanto, reflete esse aspeto: n\u00e3o tanto a nega\u00e7\u00e3o do que Israel fez aos palestinianos, mas a nega\u00e7\u00e3o, por parte de generais e pol\u00edticos israelitas, da sua pr\u00f3pria responsabilidade pelos erros ou estupidezes que cometeram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Situa a crise de Israel em 1948, numa contradi\u00e7\u00e3o que o Estado nunca resolveu: ser ao mesmo tempo um Estado judaico e uma democracia liberal. Essa contradi\u00e7\u00e3o ia sempre acabar onde acabou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Esta \u00e9 uma daquelas perguntas&#8230; Sou historiador e, como historiador, n\u00e3o acredito verdadeiramente que as coisas sejam predeterminadas. Depois de 1948 houve v\u00e1rias oportunidades de mudar o rumo dos acontecimentos. As coisas podiam ter sido diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Diria, como digo no livro, que em 1948 algo foi posto em marcha numa dire\u00e7\u00e3o determinada \u2013 o facto de Israel n\u00e3o ter aprovado uma constitui\u00e7\u00e3o, o facto de nunca ter fixado as suas fronteiras teve, sem d\u00favida, efeitos a longo prazo. Mas houve tentativas, a mais not\u00f3ria no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, durante as negocia\u00e7\u00f5es de paz de Oslo, de resolver pelo menos a quest\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o. Falharam \u2013 talvez nunca pudessem ter tido \u00eaxito \u2013, mas falharam definitivamente porque [Yitzhak] Rabin, o ent\u00e3o primeiro-ministro, foi assassinado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Houve, portanto, tentativas. Mas sim, as coisas foram postas num rumo determinado, e tornou-se cada vez mais dif\u00edcil, sobretudo depois do assass\u00ednio de Rabin, corrigir esse rumo. Nesta altura, tornou-se, diria, imposs\u00edvel Israel avan\u00e7ar sem se despojar daquilo de que j\u00e1 se deveria ter despojado em 1948: o sionismo como ideologia de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Argumenta que Israel perdeu a oportunidade de escrever uma constitui\u00e7\u00e3o que garantisse direitos iguais independentemente da etnia ou da religi\u00e3o. Era um caminho genuinamente aberto em 1948, ou um cen\u00e1rio que nunca foi realista?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O Estado de Israel comprometeu-se, na sua proclama\u00e7\u00e3o, a 14 de maio de 1948, a aprovar uma constitui\u00e7\u00e3o at\u00e9 1 de outubro de 1948. Foi um compromisso oficial do Estado, assumido n\u00e3o porque os dirigentes israelitas estivessem particularmente empenhados nisso, mas porque era uma exig\u00eancia da ONU na resolu\u00e7\u00e3o de partilha de 29 de novembro de 1947. Israel queria ser reconhecido e tornar-se membro da ONU \u2013 e conseguiu-o \u2013, mas, depois disso, renegou a sua pr\u00f3pria promessa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Houve debates. N\u00e3o \u00e9 que tenham dito \u201cvamos fingir que o fazemos\u201d. Houve debates sobre o conte\u00fado e sobre se devia ou n\u00e3o haver constitui\u00e7\u00e3o. Inicialmente, o acordo n\u00e3o foi que n\u00e3o haveria constitui\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o aconteceria at\u00e9 outubro porque havia uma guerra. Foi adiada e, \u00e0 boa maneira da pol\u00edtica israelita, continuou a ser adiada \u2013 e nunca aconteceu. N\u00e3o era inevit\u00e1vel que n\u00e3o houvesse constitui\u00e7\u00e3o, teve de haver, no fim, uma decis\u00e3o de Ben-Gurion [o primeiro chefe do Governo israelita] de n\u00e3o haver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A raz\u00e3o oficial, frequentemente invocada por v\u00e1rias pessoas em Israel, tem que ver com a comunidade ortodoxa: os ortodoxos diziam \u201cn\u00e3o precisamos de constitui\u00e7\u00e3o, temos a Tor\u00e1\u201d. Mas a raz\u00e3o principal, sustento eu, era a quest\u00e3o no cerne da pol\u00edtica israelita desde 1948, e que ali\u00e1s remonta aos anos 1920: a rela\u00e7\u00e3o entre judeus e palestinianos. O Estado disse que haveria igualdade para todos os cidad\u00e3os, mas nunca a consagrou na lei, e nunca teve realmente a inten\u00e7\u00e3o de o fazer. E, com isso, exp\u00f4s a quest\u00e3o central: Israel n\u00e3o pode ser ao mesmo tempo democr\u00e1tico e judaico, a n\u00e3o ser que ali s\u00f3 existam judeus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Como um dos maiores estudiosos do Holocausto, o que sente quando v\u00ea a Shoah invocada para justificar o que Israel faz em Gaza?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Penso, primeiro, no embaixador de Israel na ONU a usar uma estrela amarela e a proclamar que Israel \u00e9 a principal v\u00edtima. Fico simplesmente tomado de vergonha. \u00c9 vergonhoso, \u00e9 um abuso da mem\u00f3ria do Holocausto por parte de um Estado que se diz o principal promotor e defensor dessa mem\u00f3ria \u2013 e que a usa, que a abusa, de uma forma simplesmente vergonhosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A segunda coisa, al\u00e9m disso, \u00e9 que conseguiu usar essa mem\u00f3ria, ou o abuso dessa mem\u00f3ria, para justificar o injustific\u00e1vel. Se usamos a mem\u00f3ria de um genoc\u00eddio \u2013 e o Holocausto foi o maior genoc\u00eddio moderno, talvez o maior da hist\u00f3ria \u2013 para justificar um genoc\u00eddio, ent\u00e3o colocamo-nos numa posi\u00e7\u00e3o muito estranha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A minha conclus\u00e3o \u00e9 que Israel esgotou por completo o cr\u00e9dito para alguma vez voltar a invocar o Holocausto. Porque, se o invocamos para justificar viol\u00eancia contra outros a esta escala \u2013 matar dezenas de milhares de pessoas, destruir toda a Faixa de Gaza \u2013, ent\u00e3o deixamos de ter o direito, e n\u00e3o nos deve voltar a ser concedido o direito, de usar e abusar da mem\u00f3ria do Holocausto para justificar a viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Dedicou o in\u00edcio da sua carreira \u00e0 \u201cbarbariza\u00e7\u00e3o da guerra\u201d, como soldados alem\u00e3es comuns se tornaram assassinos. At\u00e9 onde pode levar esse paralelo com as For\u00e7as de Defesa de Israel em Gaza?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Sou historiador e, como historiador, uso analogias e compara\u00e7\u00f5es. \u00c9 o que os historiadores fazem. Caso contr\u00e1rio, se olharmos para um acontecimento isolado, nos seus pr\u00f3prios termos, n\u00e3o compreendemos nada. Temos de o ver em rela\u00e7\u00e3o com outros acontecimentos, em contexto. Nunca quis, e nunca apoiei, comparar o que Israel fez em Gaza com o Holocausto \u2013 s\u00e3o acontecimentos muito diferentes. A \u00fanica coisa que t\u00eam em comum \u00e9 que ambos correspondem \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de genoc\u00eddio tal como existe na Conven\u00e7\u00e3o sobre o Genoc\u00eddio de 1948.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">No caso dos soldados, a analogia que fiz num ensaio que escrevi no ver\u00e3o de 2024, e que depois revi e inclu\u00ed no livro, \u00e9 entre a mentalidade dos soldados, de jovens homens e mulheres, quando v\u00e3o para a guerra e cometem crimes. Porque \u00e9 que o fazem? Qual \u00e9 o mecanismo que o torna poss\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Quando me encontrei e conversei com reservistas israelitas, estudantes universit\u00e1rios, fiquei impressionado com as semelhan\u00e7as. Estes jovens que conheci em 2024 apresentavam-se como v\u00edtimas, como seres humanos decentes que defendiam o seu pa\u00eds e n\u00e3o tinham outra escolha sen\u00e3o destruir outro pa\u00eds, outra regi\u00e3o, outro povo \u2013 e, ao mesmo tempo, tentavam apresentar-se a si pr\u00f3prios, e a mim, como v\u00edtimas inocentes. Diziam que n\u00e3o eram assassinos, que eram decentes, que alimentavam crian\u00e7as com fome e usavam os seus kits m\u00e9dicos para tratar crian\u00e7as feridas. E, simultaneamente, diziam que n\u00e3o tinham outra op\u00e7\u00e3o sen\u00e3o destruir Gaza, porque de outro modo haveria um genoc\u00eddio de Israel \u2013 que estavam a proteger Israel de um genoc\u00eddio. Por parte de quem? De umas poucas dezenas de milhares de militantes ligeiramente armados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Essa mentalidade \u2013 ver a destrui\u00e7\u00e3o que o nosso pr\u00f3prio ex\u00e9rcito provocou e dizer que n\u00e3o somos respons\u00e1veis por ela, mas que a responsabilidade \u00e9 do inimigo; \u201cse mat\u00e1mos 20 mil crian\u00e7as, a culpa n\u00e3o \u00e9 nossa, \u00e9 do Hamas\u201d \u2013 \u00e9 muito semelhante \u00e0 que vi entre os soldados alem\u00e3es na II Guerra Mundial, na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que atribu\u00edam os seus pr\u00f3prios crimes ao \u201cjudeu-bolchevismo\u201d, aos judeus e aos bolcheviques que, nas suas cabe\u00e7as, eram exatamente a mesma coisa, eram sin\u00f3nimos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">\u00c9 esse o mecanismo que me interessa, e \u00e9 um mecanismo que n\u00e3o come\u00e7ou a 7 de outubro: remonta a d\u00e9cadas. Foi identificado, n\u00e3o por mim, mas por um dos meus professores, Yehuda Elkana, j\u00e1 em 1988, quando escreveu sobre a primeira Intifada e sobre como a educa\u00e7\u00e3o israelita de jovens, com esta \u00eanfase excessiva no Holocausto, dava licen\u00e7a para a viol\u00eancia. O sentido de vitimiza\u00e7\u00e3o d\u00e1-nos licen\u00e7a para vitimizar os outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Situa agora o seu ponto de viragem em maio de 2024 e na destrui\u00e7\u00e3o de Rafah. O que exatamente fez transpor a linha: os factos no terreno ou o seu limiar de prova?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Foram os factos no terreno. Escrevi no in\u00edcio de novembro de 2023, no \u201cNew York Times\u201d, que tinham sido feitas declara\u00e7\u00f5es por l\u00edderes pol\u00edticos e militares israelitas que pareciam ter um conte\u00fado genocida. Mas o argumento, na altura \u2013 logo a seguir a declara\u00e7\u00f5es feitas no calor do momento, depois daquilo que o Hamas fez, que foi um crime de guerra e um crime contra a humanidade, o massacre de civis \u2013, quatro semanas ap\u00f3s o in\u00edcio da campanha de Israel em Gaza, que j\u00e1 matara dez mil pessoas, na maioria civis, foi este: h\u00e1 ind\u00edcios de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade, e receio que isto se torne genoc\u00eddio se n\u00e3o for travado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">N\u00e3o foi travado. E, em maio de 2024, quando as For\u00e7as de Defesa de Israel entraram em Rafah e retiraram de l\u00e1 um milh\u00e3o de pessoas \u2013 que tinham sido deslocadas para ali pelas pr\u00f3prias for\u00e7as israelitas, que depois demoliram as suas casas \u2013, olhei para tr\u00e1s, para o padr\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es. O padr\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es de outubro a maio-junho de 2024 mostrava que se tratava de uma opera\u00e7\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o deliberada de tudo o que existia em Gaza: casas, escolas, universidades, mesquitas, esta\u00e7\u00f5es de tratamento de \u00e1gua, centrais el\u00e9tricas, terra agr\u00edcola, tudo \u2013 e cujo objetivo era tornar Gaza inabit\u00e1vel para a sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O padr\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es respondia \u00e0s declara\u00e7\u00f5es que tinham sido feitas por aqueles l\u00edderes \u2013 ou seja, mostrava inten\u00e7\u00e3o. E o Tribunal Internacional de Justi\u00e7a determinou que a inten\u00e7\u00e3o pode ser demonstrada quer por declara\u00e7\u00f5es, quer pelo padr\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es \u2013 e, no caso de Israel, ambos se verificaram. Isso n\u00e3o me deixou, nem a mim nem, em seguida, a muitos outros estudiosos do genoc\u00eddio e do direito internacional, outra escolha sen\u00e3o dizer: ent\u00e3o, o que \u00e9 que Israel est\u00e1 a fazer? \u00c9 uma opera\u00e7\u00e3o genocida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A minha interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 que o objetivo do Governo israelita, depois de sair do choque do 7 de outubro \u2013 que mostrou que a sua pol\u00edtica anterior, de \u201cgerir a ocupa\u00e7\u00e3o\u201d, tinha rebentado \u2013, foi resolver esta quest\u00e3o atrav\u00e9s da limpeza \u00e9tnica, isto \u00e9, retirar de Gaza toda a sua popula\u00e7\u00e3o. O padr\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es mostrava-o: tentavam empurrar a popula\u00e7\u00e3o para a fronteira eg\u00edpcia, na esperan\u00e7a de que finalmente fosse autorizada a entrar no Egito ou em qualquer outro pa\u00eds \u2013 como foi dito em 2025, \u201cn\u00e3o t\u00eam casas para onde voltar, o nosso \u00fanico problema \u00e9 encontrar um pa\u00eds que os receba\u201d. Mas nenhum pa\u00eds os recebeu, e por boas raz\u00f5es, e o Egito n\u00e3o abriu as fronteiras. Assim, uma opera\u00e7\u00e3o concebida como limpeza \u00e9tnica tornou-se, como muitos genoc\u00eddios anteriores, uma opera\u00e7\u00e3o genocida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Aplica \u201cgenocida\u201d a Israel na qualidade de algu\u00e9m que passou a vida inteira a estudar o significado dessa palavra. Ao faz\u00ea-lo, n\u00e3o corre o risco de fazer colapsar a dist\u00e2ncia entre Gaza e a Shoah?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">N\u00e3o, n\u00e3o creio. Durante 25 anos dei uma cadeira chamada \u201cGenoc\u00eddio Moderno e Outros Crimes contra a Humanidade\u201d. Nessa cadeira ensinei muitos genoc\u00eddios: o genoc\u00eddio no Sudoeste Africano Alem\u00e3o [atual Nam\u00edbia], o dos arm\u00e9nios, o dos judeus, o do Camboja, o do Ruanda, o da B\u00f3snia. Todos foram genoc\u00eddios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Falar de outros genoc\u00eddios n\u00e3o diminui a escala do Holocausto. O Holocausto foi um genoc\u00eddio \u2013 particularmente vasto, bem organizado, \u00e0 escala de um continente \u2013, mas houve muitos outros. E, quando falamos de genoc\u00eddio, nunca devemos dizer \u201cse n\u00e3o se parece com o Holocausto, n\u00e3o \u00e9 genoc\u00eddio\u201d. Devemos perguntar: corresponde \u00e0 \u00fanica defini\u00e7\u00e3o que importa, pelo menos em direito internacional, que \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de genoc\u00eddio da Conven\u00e7\u00e3o para a Preven\u00e7\u00e3o e Repress\u00e3o do Crime de Genoc\u00eddio de 1948? \u00c9 a \u00fanica defini\u00e7\u00e3o que importa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Se tentarmos comparar outros genoc\u00eddios com o Holocausto, nenhum se aproxima da sua escala. Isso significa que, ao chamar-lhe genoc\u00eddio, estamos a diminuir a import\u00e2ncia do Holocausto? N\u00e3o. Estamos apenas a dizer que, na sequ\u00eancia do Holocausto, a comunidade internacional se reuniu \u2013 muito por iniciativa de Raphael Lemkin, o homem que cunhou o termo \u2013 e acordou uma defini\u00e7\u00e3o desse crime. \u00c9 um crime importante de reconhecer e de punir. Mas, se esperarmos que tal crime atinja as dimens\u00f5es do Holocausto, ent\u00e3o permitiremos que muitos governos delinquentes, incluindo o de Israel, fiquem impunes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Situa as ra\u00edzes da situa\u00e7\u00e3o atual em 1948, mas, para a maioria dos israelitas, o 7 de outubro foi a rutura que explica tudo o que veio depois. Tratar o massacre como sintoma de uma doen\u00e7a mais antiga n\u00e3o corre o risco de o minimizar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Pelo contr\u00e1rio. O problema \u00e9 que, em Israel, o 7 de outubro \u00e9 visto como um \u201cdeus ex machina\u201d, como se tivesse vindo do nada. \u00c9 precisamente esse o problema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Em agosto de 2023, dois meses antes do ataque do Hamas, eu e um conjunto de colegas public\u00e1mos uma esp\u00e9cie de manifesto a que cham\u00e1mos \u201co elefante na sala\u201d. Tinha que ver com as grandes manifesta\u00e7\u00f5es que ent\u00e3o ocorriam em Israel contra a reforma judicial, o golpe judicial que o Governo israelita tentava \u2013 e ainda tenta \u2013 p\u00f4r em pr\u00e1tica, e que mudar\u00e1 a natureza da pol\u00edtica israelita. Dissemos, na altura: apreciamos imenso estes protestos em massa, mas a quest\u00e3o central da pol\u00edtica israelita \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o, e as centenas de milhares de israelitas que sa\u00edram \u00e0 rua para protestar contra o golpe judicial n\u00e3o est\u00e3o dispostas a falar da ocupa\u00e7\u00e3o. A ocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 no centro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Se compreendermos que o problema de Israel, desde 1948, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre judeus e palestinianos, ent\u00e3o compreenderemos o seguinte: h\u00e1 sete milh\u00f5es de cada lado, entre o rio e o mar \u2013 sete milh\u00f5es de judeus e sete milh\u00f5es de palestinianos. Se ocupamos, oprimimos e desumanizamos outro grupo do mesmo tamanho que o nosso, se mandamos nele, o humilhamos, o matamos, acabaremos por provocar uma resposta. E a resposta, como aconteceu em muitos casos de colonialismo \u2013 e Portugal tamb\u00e9m tem uma hist\u00f3ria particular nesse aspeto \u2013, ser\u00e1 muitas vezes brutal, incluir\u00e1 massacres. E ent\u00e3o dizemos: \u201cagora sabemos que s\u00e3o selvagens, e \u00e9 por isso que temos de exterminar os brutos\u201d, como escreve Joseph Conrad em \u201cCora\u00e7\u00e3o das Trevas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A origem do problema n\u00e3o \u00e9 o 7 de outubro, nem qualquer ataque palestiniano anterior \u2013 e houve ataques, houve atentados suicidas, morreram muitos civis israelitas inocentes. O cerne do problema \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o: Israel quer o territ\u00f3rio, todo ele, e n\u00e3o quer as pessoas que ali vivem. Ou quer retir\u00e1-las, ou quer mant\u00ea-las numa jaula. E, quando se faz isso, \u00e9 isto que acontece. A leitura israelita disto, e aquilo que Israel tenta vender ao mundo \u2013 que tudo isto mostra que n\u00e3o tem alternativa sen\u00e3o obliterar completamente Gaza \u2013, \u00e9 algo que n\u00e3o se deve aceitar, e que \u00e9 uma f\u00f3rmula para viol\u00eancia sem fim. A \u00fanica forma de p\u00f4r termo \u00e0 viol\u00eancia \u00e9 regressar \u00e0 pol\u00edtica. Como se diz em Israel: se a viol\u00eancia n\u00e3o resulta, usa-se mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Consegue manter o crime do Hamas e a resposta de Israel num mesmo enquadramento moral sem os equiparar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Crimes s\u00e3o crimes. O que o Hamas fez, a morte de civis, \u00e9 um crime. Gostaria que os respons\u00e1veis do Hamas na altura ainda estivessem vivos, para poderem ser levados a tribunal. Ali\u00e1s, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de deten\u00e7\u00e3o contra dois l\u00edderes do Hamas, mas Israel matou-os, como \u00e9 seu costume \u2013 \u00e9 a justi\u00e7a \u00e0 maneira israelita. Foram, claro, crimes. Mas o facto de se cometerem crimes n\u00e3o significa que n\u00e3o se tenha o direito de resistir \u2013 tal como Israel tem o direito de se defender, mas n\u00e3o tem o direito de matar 70 mil civis. Isso n\u00e3o tem o direito de fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Identificar os crimes de um dos lados n\u00e3o alivia a responsabilidade do outro pelos seus pr\u00f3prios crimes. Crimes s\u00e3o crimes, genoc\u00eddio \u00e9 genoc\u00eddio, crimes de guerra s\u00e3o crimes de guerra. Mas \u00e9 preciso identificar, primeiro, onde reside a responsabilidade principal e, segundo, como garantir que tais acontecimentos n\u00e3o se repetem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A l\u00f3gica pol\u00edtica israelita, h\u00e1 muito tempo, \u00e9 esta: n\u00e3o conseguimos resolver esta quest\u00e3o com os palestinianos, temos de gerir o conflito. Netanyahu, h\u00e1 pelo menos quinze anos, quis que o Hamas se mantivesse no poder em Gaza. Canalizou dinheiro do Catar para Gaza, que s\u00f3 chegava porque era entregue pelos pr\u00f3prios israelitas, porque queria poder dizer que o Hamas estava no poder ali, e que, portanto, n\u00e3o havia alternativa sen\u00e3o fech\u00e1-los atr\u00e1s de uma veda\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es e mant\u00ea-los enjaulados \u2013 \u201cn\u00e3o h\u00e1 com quem falar\u201d. Essa pol\u00edtica rebentou a 7 de outubro. Mas, de muitas maneiras, \u00e9 ainda o que Netanyahu tenta fazer at\u00e9 hoje: \u201ctemos simplesmente de continuar a reprimi-los ou a expuls\u00e1-los\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">E a raz\u00e3o de fundo \u00e9 que n\u00e3o s\u00f3 Netanyahu, sejamos francos, mas tamb\u00e9m governos israelitas anteriores, incluindo trabalhistas, quiseram, em geral, o territ\u00f3rio sem o outro povo. Levi Eshkol, primeiro-ministro em 1967, quando Israel ocupou a Cisjord\u00e2nia, disse que Israel queria a noiva mas n\u00e3o o dote \u2013 ou seja, o territ\u00f3rio mas n\u00e3o o povo. Mas pessoas como Eshkol n\u00e3o eram t\u00e3o sanguin\u00e1rias como gente como Menachem Begin [tamb\u00e9m primeiro-ministro]: percebiam que havia um problema, n\u00e3o sabiam como resolv\u00ea-lo, queriam o territ\u00f3rio e n\u00e3o o povo, e falavam ent\u00e3o de uma \u201cocupa\u00e7\u00e3o esclarecida\u201d, que nunca existiu e \u00e9 imposs\u00edvel por defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Os que est\u00e3o hoje no poder em Israel falam abertamente em \u201cincentivar\u201d os palestinianos a sair. E isto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 em Gaza, \u00e9 tamb\u00e9m na Cisjord\u00e2nia, onde h\u00e1 viol\u00eancia maci\u00e7a. O Governo israelita tenta provocar uma intifada. Se uma intifada acabar por acontecer, ser\u00e1 o melhor pretexto para uma grande limpeza \u00e9tnica na Cisjord\u00e2nia, \u00e0 mesma escala de Gaza. E tornar-se-\u00e1 genocida, porque os palestinianos n\u00e3o v\u00e3o sair \u2013 e \u00e9 muitas vezes assim que a limpeza \u00e9tnica se torna genoc\u00eddio: as pessoas n\u00e3o podem ou n\u00e3o querem sair, n\u00e3o t\u00eam para onde ir ou n\u00e3o querem deixar as suas casas, e ent\u00e3o come\u00e7a-se a mat\u00e1-las em grande escala. \u00c9 isto que est\u00e1 no cerne da quest\u00e3o. E tentar contorn\u00e1-la dizendo \u201cmas vejam o que o Hamas fez a 7 de outubro\u201d&#8230; o que o Hamas fez a 7 de outubro conduziu ao que Israel fez em Gaza, que foi genoc\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>\u00c9 considerado traidor por alguns israelitas e aclamado por pessoas cujo antissionismo n\u00e3o partilha. O que lhe custou pessoalmente chegar a esta conclus\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">N\u00e3o sei bem, francamente. As pessoas que cortam rela\u00e7\u00f5es connosco normalmente n\u00e3o nos dizem. N\u00e3o vou a Israel desde dezembro de 2024. Quanto ao que mais me importa, que s\u00e3o os amigos em Israel, n\u00e3o sei ao certo. Sei de algumas pessoas que me transmitiram indiretamente que est\u00e3o muito incomodadas comigo; sei de outras que concordam inteiramente comigo, tamb\u00e9m em Israel. Mas, em geral, n\u00e3o sei, e n\u00e3o penso muito nisso, porque n\u00e3o estou a tentar fazer amigos nem a romper com eles. Estou apenas a tentar explicar, a mim e aos outros, aquilo que vejo. E acho-o importante, porque houve tanto medo, intimida\u00e7\u00e3o, ofusca\u00e7\u00e3o e ignor\u00e2ncia a confundir todo o debate. Estou s\u00f3 a tentar dissipar o nevoeiro, e isso deixa algumas pessoas desconfort\u00e1veis \u2013 n\u00e3o posso fazer nada quanto a isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Quanto a p\u00fablicos mais vastos, recebi muitas mensagens a chamar-me \u201ckapo\u201d, judeu que se odeia a si pr\u00f3prio, antissemita, ou qualquer outro disparate que me queiram atribuir. Mas recebi muito mais respostas de pessoas que, na verdade, me agradecem por tentar explicar com clareza o que est\u00e1 a acontecer e quais s\u00e3o as ra\u00edzes mais profundas. Estou grato por v\u00e1rias editoras me terem dado essa oportunidade, incluindo a minha editora em Portugal. Vivo parte do ano em Portugal, por isso fiquei muito contente por ver o livro sair em portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">N\u00e3o me interessa atribuir culpas, dizer \u201co sionismo \u00e9 terr\u00edvel\u201d ou \u201cos palestinianos s\u00e3o horr\u00edveis\u201d \u2013 n\u00e3o \u00e9 o meu estilo nem o meu objetivo. N\u00e3o penso que o sionismo fosse genocida desde o in\u00edcio. Os meus av\u00f3s, que vieram da Pol\u00f3nia, n\u00e3o tinham qualquer inten\u00e7\u00e3o genocida, e o facto de terem vindo da Pol\u00f3nia para a Palestina \u00e9 a raz\u00e3o por que eu nasci \u2013 de outro modo, nunca teria nascido. Mas aquilo em que o sionismo se transformou tornou-se uma ideologia que justificou um genoc\u00eddio, e uma ideologia que justifica o genoc\u00eddio n\u00e3o pode permanecer: tem de ser removida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Isso n\u00e3o significa que o Estado de Israel n\u00e3o permane\u00e7a. Israel est\u00e1 c\u00e1 para durar, a menos que se suicide. \u00c9 reconhecido internacionalmente, tem v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de pessoas que ali nasceram, \u00e9 um Estado forte, embora se esteja a enfraquecer a si pr\u00f3prio. O principal inimigo do Estado de Israel \u00e9 o seu pr\u00f3prio Governo. O perigo para Israel \u00e9 o que est\u00e1 a fazer a si mesmo. O Estado vai permanecer, a quest\u00e3o \u00e9 que tipo de Estado ser\u00e1. Com o sionismo como ideologia de Estado \u2013 uma ideologia que justificou um genoc\u00eddio \u2013, n\u00e3o pode tornar-se um Estado normal. Tem de se despojar dessa ideologia e redefinir-se como um Estado de cidad\u00e3os, que respeite todas as pessoas sob o seu dom\u00ednio e lhes d\u00ea direitos e dignidade iguais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Mas continua a n\u00e3o se assumir como antissionista, pois n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">N\u00e3o, e por duas raz\u00f5es. Tive este debate com Gideon Levy [jornalista e autor israelita], de quem gosto e que respeito. Crescemos no mesmo bairro. Mas nunca estive t\u00e3o pr\u00f3ximo da m\u00e1quina partid\u00e1ria israelita como Levy, que trabalhou para Shimon Peres [que foi primeiro-ministro e Presidente de Israel] e foi, nos seus anos mais jovens, um&nbsp;<em>apparatchik<\/em>&nbsp;do Partido Trabalhista. Nunca tive essa experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A primeira raz\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o gosto de ideologias do \u201canti\u201d. Ser antissionista n\u00e3o diz nada sobre quem se \u00e9, significa apenas que se \u00e9 contra o sionismo. Mas a favor de qu\u00ea? Qual \u00e9 a sua ideologia? Uma ideologia do \u201canti\u201d \u2013 antissionismo, antissemitismo \u2013 \u00e9 apenas uma posi\u00e7\u00e3o negativa, e as pessoas usam-na agora como uma esp\u00e9cie de medalha, sem pensar muito a fundo. H\u00e1 jovens judeus na Am\u00e9rica que se tornaram antissionistas sem nunca terem pensado a s\u00e9rio no que significa ser sionista ou antissionista. \u00c9 uma posi\u00e7\u00e3o muito plana e irrefletida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A segunda raz\u00e3o \u00e9 a que referi quando falei disto com Levy: se ser antissionista significa estar contra a reivindica\u00e7\u00e3o fundamental do sionismo \u2013 a de que os judeus t\u00eam direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o \u2013, ent\u00e3o \u00e9 preciso ser-se coerente. Se se acha que s\u00f3 os judeus n\u00e3o t\u00eam esse direito, mas as outras na\u00e7\u00f5es t\u00eam, ent\u00e3o simplesmente n\u00e3o se est\u00e1 a ser coerente. Mas, se se quer ser coerente e se diz que os judeus n\u00e3o t\u00eam esse direito, ent\u00e3o n\u00e3o vejo por que raz\u00e3o os palestinianos, ou seja quem for \u2013 portugueses, franceses \u2013, o haveriam de ter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">N\u00e3o sou um grande apoiante do nacionalismo. Acho que o nacionalismo provocou uma enorme destrui\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 o estado das coisas no mundo de hoje, e \u00e9 melhor ser-se cidad\u00e3o de um Estado do que ap\u00e1trida, como os judeus descobriram e os palestinianos bem sabem. Nesse sentido, n\u00e3o posso dizer que os judeus n\u00e3o tenham o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O que posso dizer \u00e9 que o sionismo, hoje, n\u00e3o \u00e9 defens\u00e1vel. Tornou-se uma ideologia de Estado que apoia e justifica o genoc\u00eddio. Se algu\u00e9m vive em Nova Iorque, em Washington ou em Lisboa e se considera sionista, muito bem, fica-lhe bem. Mas, em Israel, apoiar uma ideologia de Estado sionista \u00e9 apoiar uma ideologia que sustenta e justifica um genoc\u00eddio \u2013 e isso n\u00e3o pode manter-se. Essa ideologia de Estado tem de ser atirada para o caixote do lixo da Hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Argumenta que a mudan\u00e7a n\u00e3o pode vir de dentro de Israel, apenas de press\u00e3o externa, e adverte que se est\u00e1 a tornar um Estado p\u00e1ria. O que deveria a Europa fazer, concretamente, que n\u00e3o est\u00e1 a fazer?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">San\u00e7\u00f5es. A comunidade internacional, mas sobretudo, no que toca a Israel, a Europa e os Estados Unidos t\u00eam de aplicar um regime de san\u00e7\u00f5es militares, econ\u00f3micas e pol\u00edticas a Israel. N\u00e3o para o castigar \u2013 embora Israel precise de ser castigado \u2013, mas para o salvar de si pr\u00f3prio, porque est\u00e1 a despenhar-se no abismo. Israel est\u00e1 a tornar-se rapidamente um Estado p\u00e1ria, um Estado autorit\u00e1rio, um Estado onde n\u00e3o h\u00e1 Estado de direito, onde o Supremo Tribunal, a pol\u00edcia, todo o aparelho judicial se est\u00e1 a desmoronar. A pol\u00edcia tornou-se uma mil\u00edcia do ministro da Seguran\u00e7a Nacional, como ele pr\u00f3prio se intitula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Se quisermos salvar Israel de si mesmo, dos seus dem\u00f3nios, dos dem\u00f3nios que o dominaram, \u00e9 preciso p\u00f4-lo no seu lugar. Israel gozou, gra\u00e7as aos seus aliados europeus e aos Estados Unidos, de total impunidade. Cometeu um genoc\u00eddio e n\u00e3o pagou qualquer pre\u00e7o. E esse genoc\u00eddio est\u00e1 a destruir, claro, dezenas de milhares de vidas palestinianas, mas est\u00e1 tamb\u00e9m a destruir o pr\u00f3prio Estado de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Por isso, se o quisermos ajudar, \u00e9 preciso aplicar-lhe uma terapia de choque, e essa terapia de choque tem de ser um regime de san\u00e7\u00f5es orientado para uma mudan\u00e7a de todo o paradigma pol\u00edtico entre Israel e os palestinianos. \u00c9 preciso voltar a 1948 e redefinir o Estado como um Estado de todos os seus cidad\u00e3os \u2013 da maneira como os sete milh\u00f5es de judeus e os sete milh\u00f5es de palestinianos quiserem defini-lo. N\u00e3o lhes vou dizer como faz\u00ea-lo; h\u00e1 planos muito bons, escrevo sobre alguns no meu livro, mas isso \u00e9 com eles. O que tem de parar \u00e9 a ideia israelita de que se usa cada vez mais viol\u00eancia para conseguir o que se quer \u2013 viol\u00eancia financiada, protegida e aplicada pela Europa e pelos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>E o que pode um leitor europeu retirar deste livro que um americano talvez n\u00e3o retire?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">\u00c9 uma pergunta interessante. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre a rela\u00e7\u00e3o de Israel com a Europa e a rela\u00e7\u00e3o de Israel com os Estados Unidos. Penso que, na Europa, persiste ainda mais um sentimento de culpa, vergonha e responsabilidade por causa do Holocausto, e a ideia, em muitos pa\u00edses europeus \u2013 certamente na Alemanha, e at\u00e9 certo ponto em Fran\u00e7a e noutros \u2013, de que, como disse a chanceler Angela Merkel, a raz\u00e3o de Estado da Alemanha, e por implica\u00e7\u00e3o da Europa, \u00e9 proteger Israel, por causa do Holocausto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A minha interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 que a raz\u00e3o de Estado da Alemanha, ou de outros europeus, tem de ser n\u00e3o proteger Israel fa\u00e7a ele o que fizer, mas proteger o regime de direito internacional que foi criado depois da guerra para tentar impedir que horrores como os infligidos pelos nazis voltassem a acontecer \u2013 mesmo que esses crimes sejam cometidos pelo Estado judaico. E se a Alemanha e a Europa t\u00eam uma responsabilidade para com Israel, e penso que t\u00eam alguma, essa responsabilidade tem de ser exercida n\u00e3o dando a Israel licen\u00e7a para a viol\u00eancia, mas ajudando-o a mudar, a tornar-se um Estado que seja bom para todas as pessoas sob o seu controlo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Israel \u00e9 hoje um \u00fanico Estado, do rio ao mar, com pessoas a viver sob regimes diferentes. Foi por isso que se transformou, no fundo, num Estado de apartheid \u2013 e tem de ser ajudado a sair desse estado, que \u00e9 mau para os palestinianos e mau para os judeus israelitas. Os Estados Unidos s\u00e3o um caso um pouco diferente, porque ali Israel tornou-se tamb\u00e9m um instrumento central da pol\u00edtica americana no M\u00e9dio Oriente. A minha sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a mudan\u00e7a na opini\u00e3o p\u00fablica nos Estados Unidos tem sido bastante profunda, e provavelmente refletir-se-\u00e1 nas pol\u00edticas da pr\u00f3xima administra\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o apenas em sentimentos sobre Israel, mas na perce\u00e7\u00e3o de que Israel pode n\u00e3o ser o melhor aliado para os Estados Unidos na sua pr\u00f3pria estrat\u00e9gia no M\u00e9dio Oriente. E isso deve-se muito \u00e0s pol\u00edticas de Netanyahu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>H\u00e1 acad\u00e9micos e juristas s\u00e9rios que contestam a sua conclus\u00e3o. E se estiver errado quanto \u00e0 palavra \u201cgenoc\u00eddio\u201d? Que prova o faria reconsiderar o seu uso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">\u00c9 uma boa pergunta. Primeiro, penso que, quando escrevi aquilo pela primeira vez, em agosto de 2024, talvez estivesse em minoria. Agora j\u00e1 n\u00e3o creio que seja o caso; penso que h\u00e1, de facto, um consenso crescente. Diria que a maioria dos estudiosos do genoc\u00eddio e do direito internacional considera que isto \u00e9 um genoc\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Ser\u00e1 que alguma vez teremos a certeza? Sabemos que o Tribunal Internacional de Justi\u00e7a vai pronunciar-se. N\u00e3o sei como decidir\u00e1. Se o Tribunal decidir que isto n\u00e3o foi genoc\u00eddio, teremos de o aceitar \u2013 porque, se aceitamos a autoridade do Tribunal, ent\u00e3o temos de aceitar que se o mais alto tribunal diz que n\u00e3o foi, n\u00e3o foi. \u00c9 poss\u00edvel que decida algo interm\u00e9dio, como o Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugosl\u00e1via fez em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 B\u00f3snia: que houve casos de genoc\u00eddio, mas n\u00e3o na totalidade. N\u00e3o sei ao certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Mas, neste momento, a principal preocupa\u00e7\u00e3o que devemos ter n\u00e3o \u00e9 se haver\u00e1 provas em contr\u00e1rio \u2013 quem me dera que houvesse \u2013, mas sim como garantir que este acontecimento, que est\u00e1 em curso e n\u00e3o terminou, encontre algum tipo de resolu\u00e7\u00e3o e de puni\u00e7\u00e3o para quem o levou a cabo, de modo a que a impunidade de que Israel gozou n\u00e3o seja, pelo menos, permanente.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"399\" height=\"610\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17133\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer.jpg 399w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-196x300.jpg 196w\" sizes=\"(max-width: 399px) 100vw, 399px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"\"><strong>Ao t\u00edtulo original (\u201cIsrael: What went wrong?\u201d) a edi\u00e7\u00e3o portuguesa acrescenta-lhe \u201ccom o meu pa\u00eds\u201d. Escreve sobre Israel h\u00e1 cerca de uma d\u00e9cada. O que torna este livro diferente? E o que mudou com os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><em>Leitura recomendada por Francisco Melro no seguimento da publica\u00e7\u00e3o do artigo\u00a0<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/06\/21\/era-uma-vez-nas-arabias\/\">ERA UMA VEZ NAS AR\u00c1BIAS\u00a0<\/a>da sua autoria \u2013 Para aprofundamento do tema.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Foto de destaque | Bildungsst\u00e4tte Anne Frank | <\/p>\n\n\n\n<ul class=\"\">\n<li class=\"\"><a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by\/3.0\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">CC BY 3.0<\/a><\/li>\n\n\n\n<li class=\"\">Ficheiro:Keynote Omer Bartov (BEYOND-Konferenz) 14.07 (cropped).jpg<\/li>\n\n\n\n<li class=\"\">Cria\u00e7\u00e3o: 22 de setembro de 2022<\/li>\n\n\n\n<li class=\"\">Carregamento: 21 de fevereiro de 202<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Israel esgotou por completo o cr\u00e9dito para alguma vez voltar a invocar o Holocausto No&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17134,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[519,747],"tags":[296],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1.jpg",1501,738,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1-300x148.jpg",300,148,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1-768x378.jpg",640,315,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1-1024x503.jpg",640,314,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1.jpg",1501,738,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1.jpg",1501,738,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1-1115x715.jpg",1115,715,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1-1024x503.jpg",1024,503,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/omer-1-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/biblioteca-das-ideias\/\" rel=\"category tag\">BIBLIOTECA DAS IDEIAS<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/debates\/\" rel=\"category tag\">DEBATES<\/a>","tag_info":"DEBATES","comment_count":"0","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17131"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17131"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17131\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17135,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17131\/revisions\/17135"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17134"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}