{"id":17438,"date":"2026-07-31T16:17:13","date_gmt":"2026-07-31T16:17:13","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=17438"},"modified":"2026-07-31T17:05:49","modified_gmt":"2026-07-31T17:05:49","slug":"a-chama-situacionista-vai-se-apagando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/07\/31\/a-chama-situacionista-vai-se-apagando\/","title":{"rendered":"A chama situacionista vai-se apagando"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Com Guy Debord, no ver\u00e3o de 1961, em Paris, fundou a Internacional Situacionista<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><br>O fil\u00f3sofo belga Raoul Vaneigem morreu na madrugada de ter\u00e7a para quarta-feira, aos 92 anos, no seu apartamento na costa catal\u00e3, perto de Barcelona. Com ele, desaparece uma das \u00faltimas vozes do Maio de 68 que nunca se rendeu ao capitalismo e \u00e0 mercantiliza\u00e7\u00e3o do mundo.<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"\">Faleceu &#8220;de morte pac\u00edfica e natural&#8221;, disse um amigo pr\u00f3ximo \u00e0 AFP, com a discri\u00e7\u00e3o que caracterizou toda a sua vida. Raoul Vaneigem nunca procurou apari\u00e7\u00f5es na televis\u00e3o ou a vida social parisiense. N\u00e3o precisava disso. As suas palavras j\u00e1 tinham circulado por Paris em 68 e continuam hoje a ressoar na mente de todos aqueles que se recusam a vergar-se ao todo-poderoso d\u00f3lar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Nascido em mar\u00e7o de 1934 em Lessines, na B\u00e9lgica, no seio de uma fam\u00edlia modesta e anticlerical, onde o pai, sindicalista ferrovi\u00e1rio, lhe incutiu desde cedo o gosto pela luta de classes, Vaneigem cresceu longe dos requintados sal\u00f5es da burguesia. Depois de estudar literatura e l\u00ednguas cl\u00e1ssicas em Bruxelas, lecionou durante cerca de dez anos antes de o seu encontro com Guy Debord, no ver\u00e3o de 1961, em Paris, lhe mudar a vida. Juntos, fundaram a Internacional Situacionista, um movimento que rejeitava a sociedade do espet\u00e1culo, essa m\u00e1quina de fabricar passividade e resigna\u00e7\u00e3o perante a ditadura das mercadorias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Em 1967, enquanto Debord publicava <em>A Sociedade do Espet\u00e1culo<\/em>, Vaneigem lan\u00e7ava <em>Um Tratado sobre a Vida para Uso das Gera\u00e7\u00f5es Mais Novas<\/em>. O manuscrito tinha sido rejeitado por quinze editoras antes de Raymond Queneau o resgatar. Este livro, no entanto, tornar-se-ia a b\u00edblia de toda uma gera\u00e7\u00e3o que, poucos meses depois, abalaria o regime gaullista at\u00e9 ao \u00e2mago. Contra o consumismo desenfreado, Vaneigem clamava por uma emancipa\u00e7\u00e3o individual radical e por uma vida vivida em plenitude, sem concess\u00f5es \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o do trabalho. Uma \u00fanica frase deste texto resume toda a sua luta: defendia uma vida intensa, para si pr\u00f3prio, com a consci\u00eancia de que o que realmente importa a cada indiv\u00edduo importa a todos. Ao contr\u00e1rio de Debord, mais te\u00f3rico e frio na sua abordagem da estrutura social, Vaneigem tinha uma vis\u00e3o mais po\u00e9tica e visceral, alimentada por Lautr\u00e9amont e Nietzsche, onde a revolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m precisava de ser expressa atrav\u00e9s da alegria e do desejo. Abandonou a Internacional Situacionista em 1970, marcando uma ruptura definitiva com Debord, sem nunca renunciar ao cerne do seu compromisso. Ao longo da sua vida, manteve um olhar atento sobre o estado do mundo, nunca abandonando os seus ideais de rutura com a ordem estabelecida. Chegou a apoiar a revolta zapatista em Chiapas, no M\u00e9xico, na d\u00e9cada de 1990, e mais tarde o movimento dos Coletes Amarelos em Fran\u00e7a, em 2018 e 2019, prova de que a sua indigna\u00e7\u00e3o contra os poderosos n\u00e3o tinha diminu\u00eddo em nada. Autor de cerca de meia centena de livros que fundem ensaios pol\u00edticos sobre autogest\u00e3o com estudos sobre heresias medievais, e pai de quatro filhos, este amante da natureza e do vinho dividia o seu tempo entre o campo da regi\u00e3o de Yonne e a costa catal\u00e3. Numa rara entrevista ao Le Monde em 2019, fez uma declara\u00e7\u00e3o que ressoa como um manifesto para os nossos tempos: a democracia, disse, encontra-se nas ruas, n\u00e3o nas urnas, e defendeu um pacifismo insurrecional que faria da pr\u00f3pria vida uma arma que nunca mata.<br>Este \u00e9 o legado que nos deixa. Enquanto os poderosos continuam a mercantilizar as nossas vidas, enquanto a precariedade se instala e a revolta popular \u00e9 desprezada por aqueles que preferem as urnas fraudulentas aos movimentos de rua, o pensamento de Vaneigem permanece surpreendentemente relevante. Nunca acreditou em compromissos com um sistema que destr\u00f3i vidas para enriquecer uma minoria. Acreditava na autogest\u00e3o, na criatividade dos bairros oper\u00e1rios, na resist\u00eancia local contra os poderosos no topo. \u00c9 este legado que devemos manter vivo, sem nunca fazermos concess\u00f5es, sem nunca nos resignarmos \u00e0 falsa vida que o capitalismo nos imp\u00f5e como nosso \u00fanico horizonte. Descanse em paz, camarada. A luta continua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Arnaud \u2013 Le M\u00e9dia Libre<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-3 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"246\" height=\"395\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/traite.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17440\" style=\"aspect-ratio:0.6227848101265823;width:478px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/traite.jpg 246w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/traite-187x300.jpg 187w\" sizes=\"(max-width: 246px) 100vw, 246px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Tratado do saber &#8211; viver  para uso das Gera\u00e7\u00f5es Mais Jovens<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O Tratado do saber-viver para Uso das Gera\u00e7\u00f5es Mais Jovens marca o surgimento, em um mundo em decl\u00ednio, de uma era radicalmente nova. No curso acelerado que recentemente varreu seres e escolhas, sua clareza s\u00f3 aumentou. Devo contrapor o desejo de autonomia individual ao sentimento necessariamente desesperado de estar preso em uma conspira\u00e7\u00e3o universal de circunst\u00e2ncias hostis. O negativo \u00e9 o pretexto para uma ren\u00fancia a nunca ser si mesmo, a nunca alcan\u00e7ar.\u2026<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com Guy Debord, no ver\u00e3o de 1961, em Paris, fundou a Internacional Situacionista O fil\u00f3sofo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17441,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[519,238],"tags":[804],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2.jpg",1187,712,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2-300x180.jpg",300,180,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2-768x461.jpg",640,384,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2-1024x614.jpg",640,384,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2.jpg",1187,712,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2.jpg",1187,712,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2-1115x712.jpg",1115,712,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2-1024x614.jpg",1024,614,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/raoul-2-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/biblioteca-das-ideias\/\" rel=\"category tag\">BIBLIOTECA DAS IDEIAS<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a>","tag_info":"DESTAQUE","comment_count":"0","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17438"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17438"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17438\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17444,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17438\/revisions\/17444"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17441"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}