{"id":17445,"date":"2026-08-01T10:09:06","date_gmt":"2026-08-01T10:09:06","guid":{"rendered":"https:\/\/nsf.pt\/?p=17445"},"modified":"2026-08-01T10:09:09","modified_gmt":"2026-08-01T10:09:09","slug":"uma-guerra-hibrida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2026\/08\/01\/uma-guerra-hibrida\/","title":{"rendered":"Uma guerra h\u00edbrida"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ceuta n\u00e3o \u00e9 uma crise migrat\u00f3ria \u00e9 um epis\u00f3dio de press\u00e3o geopol\u00edtica <\/h2>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"648\" height=\"330\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/luis-vidigal-Cola2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17446\" style=\"aspect-ratio:1.9636363636363636;width:200px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/luis-vidigal-Cola2.jpg 648w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/luis-vidigal-Cola2-300x153.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 648px) 100vw, 648px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">por Lu\u00eds Vidigal<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"\">Nas \u00faltimas 24 horas, dezenas de milhares de pessoas atravessaram a fronteira de Ceuta. As imagens chocam e vale a pena diz\u00ea-lo sem rodeios, que ali se v\u00ea \u00e9 inaceit\u00e1vel enquanto gest\u00e3o humana da fronteira. Mas quem ficar preso a essa moldura humanit\u00e1ria, dram\u00e1tica e imediata, est\u00e1 a olhar para o dedo que aponta e a ignorar a m\u00e3o que o move.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Isto n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio migrat\u00f3rio \u00e9 um epis\u00f3dio de press\u00e3o geopol\u00edtica e Marrocos tem-no usado como instrumento sempre que Madrid faz algo que desagrada a Rabat. O padr\u00e3o repete-se com uma regularidade que deixou de ser coincid\u00eancia para se tornar gram\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">A 20 de julho, Pedro S\u00e1nchez viajou \u00e0 Arg\u00e9lia e regressou com um acordo para refor\u00e7ar o fornecimento de g\u00e1s argelino a Espanha, g\u00e1s esse que, durante duas d\u00e9cadas e meia, atravessava 540 quil\u00f3metros de territ\u00f3rio marroquino antes de chegar a solo espanhol, rendendo a Rabat portagens e uma fatia gratuita do pr\u00f3prio g\u00e1s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Essa depend\u00eancia terminou em 2021, quando a Arg\u00e9lia cortou o fornecimento por Marrocos e passou a envi\u00e1-lo diretamente para Almer\u00eda atrav\u00e9s do gasoduto submarino Medgaz, sem tocar em territ\u00f3rio marroquino. Dez dias depois do novo acordo, a fronteira de Ceuta abre-se de forma coordenada, com as for\u00e7as marroquinas a afastarem-se e a deixar passar um fluxo que tinha, claramente, sido preparado com anteced\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">N\u00e3o \u00e9 a primeira vez, pois o mesmo mecanismo foi acionado em 2021, depois de Espanha ter aceitado tratar num hospital de Logro\u00f1o o dirigente saarau\u00ed Brahim Ghali, doente de cancro e de covid-19, decis\u00e3o esta que Rabat considerou uma afronta. A fronteira, neste contexto, n\u00e3o \u00e9 uma linha que falha. \u00c9 uma torneira que se abre e se fecha consoante a conveni\u00eancia de um reino que trata a migra\u00e7\u00e3o como alavanca diplom\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O que se segue em Espanha \u00e9 a parte mais reveladora e a mais perigosa. Vozes como as de Santiago Abascal ou Isabel D\u00edaz Ayuso apressam-se a apresentar o epis\u00f3dio como uma &#8220;invas\u00e3o&#8221; orquestrada pelo governo de S\u00e1nchez e pela esquerda. Nessa narrativa, Marrocos desaparece, a Arg\u00e9lia desaparece e desaparecem tamb\u00e9m os Estados Unidos, que na mesma semana felicitavam Mohammed VI pelo seu anivers\u00e1rio no trono, o mesmo Mohammed VI que batizou com o nome de Donald Trump uma autoestrada que conduz ao Sara Ocidental.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Um colaborador da administra\u00e7\u00e3o Trump, questionado se Washington apoiaria a anexa\u00e7\u00e3o marroquina de Ceuta e Melilla, respondeu que ambas as cidades est\u00e3o em territ\u00f3rio marroquino e que os Estados Unidos mant\u00eam uma excelente rela\u00e7\u00e3o com Rabat. Sobre Espanha, nem uma palavra. Em paralelo, vozes israelitas repetem o argumento de que Ceuta e Melilla deveriam pertencer a Marrocos. O desenho \u00e9 n\u00edtido, quando Mohammed VI abre a fronteira e em Espanha h\u00e1 quem, gratuitamente, complete a segunda metade da opera\u00e7\u00e3o, transformando a press\u00e3o geopol\u00edtica externa em combust\u00edvel de guerra ideol\u00f3gica interna. N\u00e3o \u00e9 preciso que ningu\u00e9m pague a esses pol\u00edticos para que o fa\u00e7am, basta a oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Conv\u00e9m n\u00e3o branquear ningu\u00e9m neste processo. Os sucessivos governos espanh\u00f3is, do PP e do PSOE, nunca tiveram a coragem de enfrentar Marrocos com firmeza. Em mar\u00e7o de 2022, o pr\u00f3prio S\u00e1nchez escreveu a Mohammed VI classificando o plano de autonomia marroquino para o Sara Ocidental, que na pr\u00e1tica entrega a soberania do territ\u00f3rio como &#8220;a base mais s\u00e9ria, realista e cred\u00edvel&#8221; para resolver o conflito, invertendo quarenta e cinco anos de posi\u00e7\u00e3o espanhola. Isso merece ser dito e criticado sem contempla\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Mas a li\u00e7\u00e3o de fundo n\u00e3o \u00e9 sobre um governo em particular. \u00c9 sobre a fragilidade estrutural de qualquer Estado que depende, na sua fronteira, na sua energia ou na sua narrativa p\u00fablica, de um vizinho disposto a usar essa depend\u00eancia como arma. A isto chama-se guerra h\u00edbrida, que n\u00e3o se combate com ex\u00e9rcitos, combate-se com fluxos migrat\u00f3rios geridos ao mil\u00edmetro e com um relato interno que, em vez de resistir, colabora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Portugal n\u00e3o est\u00e1 imune a este tipo de mec\u00e2nica, nem no plano migrat\u00f3rio, nem no energ\u00e9tico, nem no da soberania digital. Sempre que um Estado cede espa\u00e7o de decis\u00e3o a um ator externo, cria uma alavanca que, mais cedo ou mais tarde, algu\u00e9m acionar\u00e1. E sempre que a resposta interna a essa alavanca \u00e9 dividir os cidad\u00e3os em vez de refor\u00e7ar a resili\u00eancia coletiva, o Estado perde duas vezes: perde a fronteira que devia controlar e perde a coes\u00e3o que devia proteger. Ceuta \u00e9 hoje o exemplo espanhol, mas o mecanismo \u00e9 universal e \u00e9 esse mecanismo, n\u00e3o o epis\u00f3dio, que merece ser vigiado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\"><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:41px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" data-id=\"17447\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/guerra-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17447\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/guerra-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/guerra-300x200.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/guerra-768x512.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/guerra.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ceuta n\u00e3o \u00e9 uma crise migrat\u00f3ria \u00e9 um epis\u00f3dio de press\u00e3o geopol\u00edtica por Lu\u00eds Vidigal&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17448,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[238,622],"tags":[667],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv.jpg",944,473,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv-300x150.jpg",300,150,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv-768x385.jpg",640,321,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv.jpg",640,321,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv.jpg",944,473,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv.jpg",944,473,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv.jpg",944,473,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv-800x473.jpg",800,473,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv.jpg",944,473,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-luisv-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/o-mundo-em-transicao\/\" rel=\"category tag\">O MUNDO EM TRANSI\u00c7\u00c3O<\/a>","tag_info":"O MUNDO EM TRANSI\u00c7\u00c3O","comment_count":"0","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17445"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17445"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17445\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17449,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17445\/revisions\/17449"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17448"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}