{"id":2245,"date":"2020-11-04T22:00:15","date_gmt":"2020-11-04T22:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/aep61-74.org\/?p=2245"},"modified":"2020-12-29T00:45:06","modified_gmt":"2020-12-29T00:45:06","slug":"acolhimento-em-tempos-de-crise-o-outro-como-expiacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2020\/11\/04\/acolhimento-em-tempos-de-crise-o-outro-como-expiacao\/","title":{"rendered":"OPINI\u00c3O| Em tempos de crise, o Outro como expia\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>SEM FRONTEIRAS<\/strong><\/span><strong> |  4 de novembro 2020 | ACOLHIMENTO | Decidimos percorrer tempos e territ\u00f3rios para caraterizar e eventualmente avaliar os processos de acolhimento de migrantes no passado e no presente, tenham eles sido exilados, desertores, refrat\u00e1rios ou imigrantes nos anos 60-70 ou refugiados, exilados ou novos imigrantes nos tempos atuais. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fazer incidir o foco em Portugal e de forma mais fina sobre um grupo espec\u00edfico de migrantes, como \u00e9 o caso da migra\u00e7\u00e3o feminina brasileira, constitui um esfor\u00e7o de aprofundamento particularmente merit\u00f3rio. A sorte \u00e9 ter quem o fa\u00e7a, neste caso a Camila Craveiro Queiroz,  a partir dos referenciais da academia mas tamb\u00e9m de  \u00e2ngulos e olhares ainda mais finos e acutilantes habilitados pelo arsenal anal\u00edtico da Comunica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em tempos de crise, o Outro como expia\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>por Camila Craveiro Queiroz*<\/p>\n\n\n\n<p>Recordo-me de um artigo de opini\u00e3o que redigi, ainda em 2016, acerca da inser\u00e7\u00e3o das migrantes brasileiras no mercado laboral portugu\u00eas. Eu era rec\u00e9m-chegada \u00e0 Lisboa, onde investigava a migra\u00e7\u00e3o feminina brasileira em Portugal, e lembro-me de ficar surpresa com a maneira com que as qualifica\u00e7\u00f5es e compet\u00eancias desse grupo eram constantemente postas \u00e0 prova \u2013 parecia que o que sab\u00edamos fazer profissionalmente ou nosso conhecimento cient\u00edfico eram questionados e mesmo invalidados pela nossa nacionalidade. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Na minha percep\u00e7\u00e3o, aquele que, no imagin\u00e1rio social, se configurava como pa\u00eds-irm\u00e3o do Brasil, abria, quando muito, as portas dos fundos para nos receber.<\/span><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Munida dos estudos que caracterizam a perspectiva descolonial, dei-me conta de que o ran\u00e7o colonial insistia (ou melhor, insiste) em nos qualificar a partir de uma diferen\u00e7a ontol\u00f3gica, que nos diz que somos menos civilizadas, culturalmente atrasadas, moralmente inferiores, cujos \u201ccorpos coloniais\u201d (Gomes, 2013) est\u00e3o dispon\u00edveis para o uso, seja em trabalhos pesados ou sexualmente. Pesam, sobremaneira, para o g\u00eanero feminino, neste contexto migrat\u00f3rio, os estere\u00f3tipos da submiss\u00e3o e da hipersexualiza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o raramente associam a brasileira \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Os estranhos<\/h4>\n\n\n\n<p>A cis\u00e3o entre os grupos, aut\u00f3ctones <em>versus<\/em> imigrantes, nos categoriza enquanto o Outro a ser vigiado, questionado, evitado, nos mais diversos espa\u00e7os sociais. Em obra p\u00f3stuma, Bauman (2017, posi\u00e7\u00e3o 84) analisa o sentimento que migrantes e refugiados despertam nas sociedades de acolhida: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">\u201cEstranhos tendem a causar ansiedade por serem <em>diferentes<\/em> \u2013 e, assim, assustadoramente imprevis\u00edveis, ao contr\u00e1rio das pessoas com as quais interagimos todos os dias e das quais acreditamos saber o que esperar. Pelo que conhecemos, o influxo maci\u00e7o de estranhos pode ser o respons\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o das coisas que apreci\u00e1vamos, e sua inten\u00e7\u00e3o \u00e9 desfigurar ou abolir nosso modo de vida confortavelmente convencional.\u201d<\/span><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Muros pichados com dizeres racistas<\/h4>\n\n\n\n<p>A recente onda de manifesta\u00e7\u00f5es xenof\u00f3bicas em universidades e escolas portuguesas, que tiveram seus muros pichados com dizeres racistas, bem como os protestos de universit\u00e1rios\/as brasileiros\/as ofendidos\/as em redes sociais por colegas e (pasmem!) professores\/as, deixam claro que o agravamento da crise econ\u00f3mica, potencializada pela pandemia que nos aflige, acirra o preconceito e vulnerabiliza ainda mais as minorias.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, esse \u00e9 um fen\u00f3meno que est\u00e1 longe de ser circunscrito \u00e0s rela\u00e7\u00f5es portugueses\/as-brasileiros\/as, e que pode ser percebido nas intera\u00e7\u00f5es entre o sul e o norte global (uma defini\u00e7\u00e3o muito mais qualitativa do que geogr\u00e1fica). O Brasil, por exemplo, assolado por uma grave crise econ\u00f3mica e social e governado pela extrema-direita, que n\u00e3o se escusa de apontar como inimigos migrantes <em>indesej\u00e1veis<\/em>, tem manifestado epis\u00f3dios recorrentes de discrimina\u00e7\u00e3o aos migrantes venezuelanos e haitianos residentes no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda, de acordo com Bauman: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">\u201c(&#8230;) N\u00e3o admira que as sucessivas ondas de novos imigrantes sejam percebidas com ressentimento como (recordando Bertolt Brecht) <em>precursores de m\u00e1s not\u00edcias<\/em>. Eles s\u00e3o personifica\u00e7\u00f5es do colapso da ordem (o que quer que consideremos a <em>ordem<\/em>: um estado de coisas em que as rela\u00e7\u00f5es entre causas e efeitos s\u00e3o est\u00e1veis e, portanto, compreens\u00edveis e previs\u00edveis, permitindo aos que fazem parte dela saber como proceder), de uma ordem que perdeu sua for\u00e7a impositiva.\u201d (Bauman, 2017, posi\u00e7\u00e3o 145).<\/span><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 justamente na atualidade do colapso da ordem que Brasil e Portugal se aproximam e podem, neste contexto, ressentidos e preconceituosos, ser considerados pa\u00edses-irm\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Camila Craveiro Queiroz<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Bauman, Z. (2017). <em>Estranhos \u00e0 nossa porta<\/em>. [<em>Kindle version<\/em>]. Retirado de <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\">http:\/\/www.amazon.com<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Gomes, M. (2013). <em>O Imagin\u00e1rio Social &lt;Mulher Brasileira&gt; em Portugal: Uma An\u00e1lise da Constru\u00e7\u00e3o de Saberes, das Rela\u00e7\u00f5es de Poder e dos Modos de Subjetiva\u00e7\u00e3o<\/em>. Tese de Doutoramento em Sociologia, ISCTE &#8211; Instituto Universit\u00e1rio de Lisboa, Lisboa. Retirado de https:\/\/repositorio.iscte-iul.pt\/handle\/10071\/6077<\/p>\n\n\n\n<p>*Nota biogr\u00e1fica:<\/p>\n\n\n\n<p>Camila Craveiro Queiroz.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicit\u00e1ria, professora e investigadora da \u00e1rea de Comunica\u00e7\u00e3o Social. Doutora em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade do Minho, tendo feito parte do Programa de Doutorado Pleno no Exterior da CAPES, onde defendeu a tese &#8220;Os estere\u00f3tipos tamb\u00e9m envelhecem? Uma an\u00e1lise descolonial das intersec\u00e7\u00f5es entre racismo, sexismo e idadismo, a partir das viv\u00eancias de migrantes brasileiras em Portugal&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SEM FRONTEIRAS | 4 de novembro 2020 | ACOLHIMENTO | Decidimos percorrer tempos e territ\u00f3rios&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2248,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[99],"tags":[],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1.png",515,357,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1-300x208.png",300,208,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1.png",515,357,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1.png",515,357,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1.png",515,357,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1.png",515,357,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1.png",515,357,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1.png",515,357,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1.png",515,357,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1.png",490,340,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/camila1.png",361,250,false]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a>","tag_info":"OPINI\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2245"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2245"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2245\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2639,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2245\/revisions\/2639"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2248"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2245"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2245"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2245"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}