{"id":2642,"date":"2020-12-29T21:40:39","date_gmt":"2020-12-29T21:40:39","guid":{"rendered":"http:\/\/aep61-74.org\/?p=2642"},"modified":"2021-02-27T21:50:18","modified_gmt":"2021-02-27T21:50:18","slug":"exilios-da-gueule-de-bois-a-vivenda-da-modista-o-periplo-do-exilado-em-bruxelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2020\/12\/29\/exilios-da-gueule-de-bois-a-vivenda-da-modista-o-periplo-do-exilado-em-bruxelas\/","title":{"rendered":"EX\u00cdLIOS  | Da Gueule de Bois \u00e0 vivenda da modista, o p\u00e9riplo do exilado em  Bruxelas"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>SEM FRONTEIRAS <\/strong><\/span>| 29 de dezembro de 2020 | Ex\u00edlios &#8211; Narrativas na primeira pessoa. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Karl Marx, Victor Hugo, Prouhdon e muitos outros refugiados pol\u00edticos escolheram a capital belga para se abrigarem de persegui\u00e7\u00f5es ao longo dos tempos desde o s\u00e9culo XVIII. Tamb\u00e9m J.-M. Nobre Correia fez essa op\u00e7\u00e3o nos anos sessenta. Com o Di\u00e1rio de Lisboa debaixo do bra\u00e7o, chegou e deixou-se abra\u00e7ar pela cidade.<\/strong> <em>CR,SF<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Primeiro dia de ex\u00edlio<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/jm.nobrecorreia\/\">\u00a0<strong>J.-M. Nobre-Correia<\/strong><\/a>,  segunda-feira, 28 de dezembro de 2020<\/p>\n\n\n\n<p>Faz hoje 54 anos que cheguei ao meu destino de ex\u00edlio. Era j\u00e1 noite escura e chovia em Bruxelas. N\u00e3o conhecia ningu\u00e9m, ningu\u00e9m estava \u00e0 minha espera e o meu franc\u00eas era ent\u00e3o menos que rudimentar. Logo \u00e0 chegada, a pega da minha mala tinha resolvido rebentar! Quem me ajudou a repar\u00e1-la perguntou-me se eu era belga. Disse-lhe que n\u00e3o. E eu respondeu-me: \u201ceu tamb\u00e9m n\u00e3o, sou flamengo\u201d. Compreendi assim logo nos primeiros instantes que havia um problema em Bruxelas com que eu nem sequer tinha sonhado!<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3, em terra desconhecida, a \u00fanica refer\u00eancia de que dispunha era a de um artigo publicado duas semanas antes no&nbsp;<em>Di\u00e1rio de Lisboa<\/em>&nbsp;(Ver ilustra\u00e7\u00e3o). <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"724\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-1-724x1024.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"2644\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-1-scaled.jpeg\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2644\" class=\"wp-image-2644\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-1-724x1024.jpeg 724w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-1-212x300.jpeg 212w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-1-768x1086.jpeg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-1-1086x1536.jpeg 1086w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-1-1448x2048.jpeg 1448w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-1-scaled.jpeg 1810w\" sizes=\"(max-width: 724px) 100vw, 724px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"724\" height=\"1024\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-2-1-724x1024.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"2645\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-2-1-scaled.jpeg\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2645\" class=\"wp-image-2645\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-2-1-724x1024.jpeg 724w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-2-1-212x300.jpeg 212w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-2-1-768x1086.jpeg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-2-1-1086x1536.jpeg 1086w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-2-1-1448x2048.jpeg 1448w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Dia\u0301rio-de-Lisbioa-2-1-scaled.jpeg 1810w\" sizes=\"(max-width: 724px) 100vw, 724px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>Sob pretexto de \u201cindica\u00e7\u00f5es sobre a vida dos estudantes latino-americanos na B\u00e9lgica\u201d, eram nomeadamente mencionadas institui\u00e7\u00f5es dotadas de alojamentos e os respetivos endere\u00e7os.<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong> <\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p>O g\u00e9nero t\u00edpico de texto teoricamente desprovido de interesse num jornal portugu\u00eas para leitores portugueses. Mas um texto que fornecia assim informa\u00e7\u00f5es preciosas a quem queria sair do pa\u00eds. Texto em que os tacanhos servi\u00e7os de Censura n\u00e3o tinham manifestamente percebido o verdadeiro objetivo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>No t\u00e1xi, o condutor perguntou-me onde ficava a Rue de Parme que eu lhe indicara. \u201cPerto da universidade\u201d, disse-lhe eu. Mas n\u00e3o era. O condutor deve, no entanto, ter tido um arrebate de consci\u00eancia e l\u00e1 me levou direito ao Centre International des \u00c9tudiants. Problema: n\u00e3o havia quarto nenhum dispon\u00edvel! Mas estudantes do Haiti intervieram junto da diretora e eu pude finalmente passar l\u00e1 a noite.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, um desses mesmos haitianos, estudante em direito, aconselhou-me a ir at\u00e9 \u00e0 Gueule de Bois, um caf\u00e9 perto da Universit\u00e9 Libre de Bruxelles, \u201cmuito frequentado por portugueses\u201d. Gueule de Bois: o que significava este nome? Gueule: goela, dizia o dicion\u00e1rio. Bois: bosque, madeira, lenha. Uma formula\u00e7\u00e3o incompreens\u00edvel: podia eu l\u00e1 imaginar que queria de facto dizer ressaca?!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>A espera foi longa. E s\u00f3 para o fim da tarde \u00e9 que de facto ouvi falar portugu\u00eas.<\/strong><\/span> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p>Dois jovens que, para passar o ser\u00e3o, estavam a pensar em copos e meninas no centro de Bruxelas! Mas que l\u00e1 tiveram a amabilidade de me levar de carro at\u00e9 um hotelzito que eles conheciam na Place Albert Leemans, onde passei a noite.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, uma sexta-feira, fui \u00e0 universidade fazer a minha inscri\u00e7\u00e3o. L\u00e1 me indicaram o Service Logement, onde me assinalaram um quarto na Rue du Pacifique, em Uccle, na vivenda de uma modista, bastante longe da universidade. Aluguei-o, pois n\u00e3o tinha muita escolha poss\u00edvel, e logo no pr\u00f3prio dia pude l\u00e1 dormir.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e1bado 31 de dezembro, almocei no restaurante da universidade que estava fechado nos s\u00e1bados e domingos \u00e0 hora de jantar. Era dia de passagem do ano e eu perguntei \u00e0 modista, que tinha l\u00e1 os filhos para o jantar, onde poderia eu encontrar um restaurante. Ela indicou-me dois ali perto, mas em todos eles me disseram que era preciso ter reservado antes e que n\u00e3o havia nenhum lugar livre. Voltei poucos momentos depois para casa. A modista desejou-me um \u201cbom ser\u00e3o\u201d e \u201cuma boa noite\u201d, sem me fazer qualquer pergunta ou me dizer o que quer que fosse mais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>Entrei pois no novo ano a dormir de est\u00f4mago vazio\u2026<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p>Os meus primeiros dias de ex\u00edlio n\u00e3o foram muito clementes comigo. Mas depois das f\u00e9rias de Natal-Ano Novo, com a frequ\u00eancia das aulas e do restaurante universit\u00e1rio, e com a minha mudan\u00e7a logo em meados de fevereiro para um quarto na Cit\u00e9 Universitaire, comecei lentamente a integrar-me na vida \u201culbista\u201d e bruxelesa que passaram de facto a ser os meus mundos durante exatamente 45 anos e tr\u00eas meses!<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, como nos anos 1960, os portugueses t\u00eam tend\u00eancia a pensar que tudo \u00e9 maravilhoso, ou pelo menos bem melhor, para al\u00e9m das fronteiras nacionais e, em todo o caso, para al\u00e9m dos Piren\u00e9us. Grave ilus\u00e3o! <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>Para boa parte dos que quiseram libertar-se da chapa de chumbo salazarista, recusar a guerra colonial, conhecer mundo e viver em liberdade, o ex\u00edlio n\u00e3o era escolha f\u00e1cil.<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p>A facilidade ou dificuldade de um ex\u00edlio dependia, depende largamente das origens geogr\u00e1ficas, culturais, econ\u00f3micas e sociais do exilado. Como depende muito da sua capacidade de resist\u00eancia \u00e0 solid\u00e3o, \u00e0 aus\u00eancia da fam\u00edlia e dos amigos de sempre, assim como da afirma\u00e7\u00e3o na nova sociedade em que vive e que passa, ou n\u00e3o, a ser a sua. O ex\u00edlio n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil! Enquanto se vai esperando que o regresso n\u00e3o seja de facto um ex\u00edlio interior!\u2026<\/p>\n\n\n\n<p><em>Fotos dos recortes de jornal e do Destaque \u00a9 J.-M. Nobre Correia<\/em> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SEM FRONTEIRAS | 29 de dezembro de 2020 | Ex\u00edlios &#8211; Narrativas na primeira pessoa&#8230;.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2646,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[51],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia.png",1069,650,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia-300x182.png",300,182,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia-768x467.png",640,389,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia-1024x623.png",640,389,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia.png",1069,650,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia.png",1069,650,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia.png",1069,650,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia.png",800,486,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia.png",1024,623,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia.png",540,328,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jm-ncorreia.png",400,243,false]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/memorias-vivas\/centro-documentacao\/\" rel=\"category tag\">CENTRO DOCUMENTA\u00c7\u00c3O<\/a>","tag_info":"CENTRO DOCUMENTA\u00c7\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2642"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2642"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2642\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2653,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2642\/revisions\/2653"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2646"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}