{"id":2816,"date":"2021-01-26T16:00:34","date_gmt":"2021-01-26T16:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/aep61-74.org\/?p=2816"},"modified":"2021-01-26T18:39:37","modified_gmt":"2021-01-26T18:39:37","slug":"combatentes-da-liberdade-nunca-lhe-chamei-carlos-carlos-antunes-e-como-se-fosse-uma-personalidade-estranha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2021\/01\/26\/combatentes-da-liberdade-nunca-lhe-chamei-carlos-carlos-antunes-e-como-se-fosse-uma-personalidade-estranha\/","title":{"rendered":"COMBATENTES DA LIBERDADE | Nunca lhe chamei Carlos. Carlos Antunes \u00e9 como se fosse uma personalidade estranha"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>SEM FRONTEIRAS <\/strong><\/span>|  26 de janeiro 2021 | Combatentes da Liberdade | Carlos Antunes<\/p>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 registos em dupla que n\u00e3o conseguimos separar. S\u00e3o como siameses da mem\u00f3ria. Sacco e Vanzetti, Bonnie e Clyde, Carlos Antunes e Isabel do Carmo. N\u00f3s sabemos que s\u00e3o dois, mas somos empurrados para o dois em um. Carlos Antunes deixou-nos muito recentemente e quisemos regist\u00e1-lo nos Combatentes da Liberdade, em lugar de honra. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Admitimos, fi\u00e9is \u00e0 dupla que nos acompanha na mem\u00f3ria e nas emo\u00e7\u00f5es da despedida,  que nada melhor que Isabel do Carmo para recordar momentos e situa\u00e7\u00f5es que <strong>Anabela Mota Ribeiro<\/strong> captou, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o uns tempos,  numa entrevista cheia de luz e de humanidade. Damos pois a palavra \u00e0 entrevistadora  e \u00e0 entrevistada, numa longa conversa apaixonante.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrevista por <strong><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Anabela Mota Ribeiro<\/span><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p><strong>Num s\u00e1bado, pela manh\u00e3. A casa banhada por uma luz sossegada. A mulher, que caminha para os sessenta, enredada em mem\u00f3rias. A voz da mulher, amaciada pelos anos, contraria a ang\u00fastia inconformada que ainda a consome. As hist\u00f3rias s\u00e3o as de um Portugal contempor\u00e2neo, propenso a querelas pol\u00edticas e minud\u00eancias do quotidiano.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dia esta mulher pensou em fugir-lhe, e deixou-se fascinar pelos solavancos de uma exist\u00eancia revolucion\u00e1ria. Que significa viver pelo que se acredita, morrer pelo que se acredita.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u00faltimos 20 anos, solidamente, reputaram-na na Endocrinologia. E aqueles que agora nascem, n\u00e3o descortinam no imediato que vida era aquela que antes levava, que a fez pol\u00edtica, que a manteve encarcerada. Que a fez sonhar. Para, como diz ao fim, se deixar infiltrar pelo sofrimento das coisas que ao cora\u00e7\u00e3o dizem respeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Isabel do Carmo nasceu no Barreiro. \u00c9 a mulher que a seguir se revela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gostava de come\u00e7ar por esta casa. Como \u00e9 que a encontrou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando sa\u00ed da cadeia foi-me oferecida uma casa, e fiquei a morar em Camarate. Era uma casa num bairro social, tinha jardinzinho, foi arranjada por n\u00f3s. Mas era muito distante, e tinha dificuldade em que os meus amigos me visitassem l\u00e1. Ent\u00e3o, h\u00e1 tr\u00eas anos procur\u00e1mos uma casa, e acab\u00e1mos por encontrar esta. Vivo aqui com os meus dois filhos: a Isabel, que tem 28 anos, e o S\u00e9rgio, que tem 23.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Separou-se do Carlos Antunes.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim. Quando nos separ\u00e1mos, resolvi mudar de casa; foi uma das raz\u00f5es para a mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como deve imaginar, os despiques da conjugalidade n\u00e3o me interessam. O que \u00e9 interessante \u00e9 o que a vida faz com as pessoas e com as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas. No passado, a Isabel do Carmo e o Carlos Antunes eram faces indissoci\u00e1veis da mesma luta.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s tamb\u00e9m funcionava assim, pelo menos para mim funcionava. Era uma liga\u00e7\u00e3o de grande complementaridade e cumplicidade. Depois, pronto, as pessoas acabam por ter for\u00e7as que as separam mais do que as unem. Foi uma separa\u00e7\u00e3o muito dolorosa, ao cabo de 25 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conheceram-se em Paris, n\u00e3o foi?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim. Foi um encontro pol\u00edtico. A nossa vida foi sempre muito pol\u00edtica. Talvez at\u00e9 demasiado. Talvez a parte mais \u00edntima fosse posta de lado e fosse dada uma maior relev\u00e2ncia \u00e0 parte pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tinha vinte e muitos anos, militava no PC. Ele era respons\u00e1vel por si.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tanto assim. Eu era ainda militante, mas estava numa situa\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao PC. Fui fazer um est\u00e1gio de medicina para Fran\u00e7a. Estava muito envolvida nas CDE\u2019s, e uma vez l\u00e1, falei num com\u00edcio. O Carlos Antunes estava na assist\u00eancia e veio ter comigo. E foi assim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quem era a plateia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Emigrantes econ\u00f3micos. Falei eu e falou o Urbano Tavares Rodrigues. O Carlos Antunes era funcion\u00e1rio do PC justamente para a popula\u00e7\u00e3o portuguesa em Fran\u00e7a. Eu fui indicada como representante da CDE durante o curto per\u00edodo em que l\u00e1 estava, e acab\u00e1mos por ter alguma liga\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Depois conjug\u00e1mos as nossas cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o ao PC, e sa\u00edmos ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que aconteceu em 70. Justificava a sua sa\u00edda do PC essencialmente por dois motivos: a leitura dos Processos de Moscovo e a invas\u00e3o da Checoslov\u00e1quia. Ao mesmo tempo, considerava que o PC portugu\u00eas ficava aqu\u00e9m das suas possibilidades, n\u00e3o contemplando, por exemplo, a luta armada.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Estalinismo foi uma situa\u00e7\u00e3o de grande repress\u00e3o interna, de intoler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a qualquer ideia divergente. Estaline liquidou a quase totalidade do Comit\u00e9 Central do PC russo. E liquidou um projecto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um sonho?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um sonho. Mas em rela\u00e7\u00e3o aos outros pa\u00edses tinha uma pol\u00edtica moderada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel a degeneresc\u00eancia dos projectos ut\u00f3picos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A grande quest\u00e3o est\u00e1 em saber o que \u00e9 que o movimento revolucion\u00e1rio de 17 j\u00e1 continha de g\u00e9rmenes que desembocaram no Estalinismo. A posteriori \u00e9 f\u00e1cil fazer an\u00e1lises: era um pa\u00eds muito atrasado, de camponeses,&nbsp; 90 e tal por cento de analfabetos; provavelmente os primeiros actos arbitr\u00e1rios e repressivos foram praticados pelo Lenine e pelo Trotsky&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ser\u00e1 poss\u00edvel identificar no momento um excesso intoler\u00e1vel e irrevers\u00edvel e um excesso sem repercuss\u00f5es significativas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um ponto essencial nos movimentos revolucion\u00e1rios: saber quando \u00e9 que as coisas t\u00eam de parar, para a defesa do projecto, a qual inclui repress\u00e3o, e quando isso evolui para uma situa\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o generalizada. Penso que no futuro, as quest\u00f5es n\u00e3o ser\u00e3o postas assim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Porque as novas revolu\u00e7\u00f5es, se \u00e9 que revolu\u00e7\u00f5es se lhes pode chamar, as novas roturas, n\u00e3o v\u00e3o ser da mesma maneira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 dif\u00edcil prever quais v\u00e3o ser as quest\u00f5es pelas quais as pessoas v\u00e3o fazer revolu\u00e7\u00f5es, e que armas v\u00e3o empenhar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As coisas s\u00e3o diferentes em pa\u00edses da \u00c1frica ou da Am\u00e9rica Latina e pa\u00edses da Europa ou dos Estados Unidos. Naturalmente gostaria de ainda as ver, mas passar\u00e3o alguns anos at\u00e9 haver roturas. Esta sociedade est\u00e1 insuport\u00e1vel, tanto nos pa\u00edses pobres como nos pa\u00edses desenvolvidos. S\u00f3 quem for louco \u00e9 que n\u00e3o v\u00ea que um mundo que tem 750 milh\u00f5es de famintos e outros a rebentar de fartura, um dia rebenta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 nessa assimetria Norte-Sul&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa assimetria vai ser, provavelmente, um dos pontos da rotura; at\u00e9 quando os famintos v\u00e3o aguentar esta situa\u00e7\u00e3o criada pelos pa\u00edses ditos industrializados. Depois, dentro dos pa\u00edses da abund\u00e2ncia&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nesses a doen\u00e7a \u00e9 a solid\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o quotidiano, que \u00e9 insuport\u00e1vel. Que vida \u00e9 a das pessoas que moram nos bairros perif\u00e9ricos? N\u00e3o passam fome, at\u00e9 t\u00eam aparelhos electrodom\u00e9sticos, mas a verdade \u00e9 que as depress\u00f5es s\u00e3o generalizadas. Por outro lado, h\u00e1 as fracturas dentro da sociedade; os bairros degradados t\u00eam bandos de jovens que entram numa revolta que n\u00e3o \u00e9 uma luta de classes porque n\u00e3o est\u00e1 organizada e politizada, mas \u00e9 uma revolta contra a sociedade dos ricos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>De uma forma ou de outra, o seu lugar foi sempre o do contra.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ah, temos que resistir com um discurso contra-corrente. Quando olhamos para a hist\u00f3ria, vemos que o discurso contra-corrente se vai sedimentando, que acaba por conduzir a roturas a determinado momento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 o seu contributo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento \u00e9. N\u00e3o me interessam as formas de organiza\u00e7\u00e3o em que estive no passado. Nos partidos geram-se quest\u00f5es de disputa de poder, de competi\u00e7\u00e3o, que consomem a maior parte da energia. A que me interessa \u00e9 a de grupos que se geram sem interesses partid\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A partir dos 80, eclipsou-se politicamente. As apari\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos anos t\u00eam que ver com a sua \u00e1rea de trabalho, a Endocrinologia. \u00c9 f\u00e1cil para si remeter-se ao sil\u00eancio depois de uma vida pol\u00edtica t\u00e3o intensa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o aconteceu de facto. Logo que sa\u00ed da cadeia fiz uma tentativa s\u00e9ria de me organizar com v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de Esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quais?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O PSR, a UDP, o que restava da LUAR. Quando o Otelo e os companheiros do Otelo foram presos, imediatamente o Carlos Antunes e eu cri\u00e1mos uma comiss\u00e3o pr\u00f3-amnistia. Depois formei o F\u00f3rum Ecologista e Alternativo. Depois integrei as Feiras Alternativas. E agora estou muito ligada a iniciativas da Livraria Ler Devagar. Ao longo destes anos n\u00e3o houve semana nenhuma em que n\u00e3o tivesse reuni\u00f5es pol\u00edticas. Simplesmente as coisas n\u00e3o aparecem publicamente. A visibilidade \u00e9 dos partidos e das pessoas ligadas aos partidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nestes \u00faltimos anos, o meio tem sido a palavra, atrav\u00e9s de encontros com pessoas. Aquando da forma\u00e7\u00e3o das Brigadas Revolucion\u00e1rias e da sua primeira ac\u00e7\u00e3o na Fonte da Telha, justificaram-nas dizendo que os portugueses tinham muita conversa, mas n\u00e3o faziam nada.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Havia muitos grupos com grandes discuss\u00f5es ideol\u00f3gicas, distribu\u00edam muitos escritos, e n\u00e3o faziam ac\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ao derrube da ditadura. Foi princ\u00edpio nosso que n\u00e3o far\u00edamos nenhum papel antes da primeira ac\u00e7\u00e3o. Mas penso que a comunica\u00e7\u00e3o entre as pessoas \u00e9 muito necess\u00e1ria. At\u00e9 porque, a hist\u00f3ria contempor\u00e2nea tem de ser discutida e digerida, houve acontecimentos que voltaram o mundo do avesso. A esse n\u00edvel, houve avan\u00e7os extraordin\u00e1rios, as pessoas est\u00e3o mais abertas, menos r\u00edgidas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A come\u00e7ar por si. As fotografias da altura mostram-na sisuda.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pois era. Foi um grande erro. Mas estava muito preocupada com a situa\u00e7\u00e3o, achava que era tudo muito s\u00e9rio; de maneira que apresentava-me com aquele aspecto. Quando olho para tr\u00e1s, acho mesmo que era um ar incr\u00edvel, que afastava as pessoas. Mas quando leio os escritos, n\u00e3o correspondem a isso: n\u00e3o eram nem sect\u00e1rios nem r\u00edgidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c0 semelhan\u00e7a da degeneresc\u00eancia do Estalinismo, era tamb\u00e9m previs\u00edvel que das Brigadas Revolucion\u00e1rias pudesse resultar uma organiza\u00e7\u00e3o como as FP- 25? Conseguiu vislumbrar o risco inalien\u00e1vel de morrerem pessoas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 outra quest\u00e3o importante, sobre a qual gosto bastante de reflectir. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s BR, tivemos como ponto de honra n\u00e3o matar ningu\u00e9m; pens\u00e1vamos que ningu\u00e9m tem o direito de tirar a vida, seja na pena de morte seja em ac\u00e7\u00f5es armadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi um ponto consensual?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Consensual. Houve alguma discuss\u00e3o entre o Carlos Antunes e o Nuno Bragan\u00e7a, que pensava que se devia tirar a vida aos pides, etc; mas para n\u00f3s foi ponto assente. As Brigadas nunca foram uma organiza\u00e7\u00e3o militarizada isolada da pol\u00edtica. Mas h\u00e1 um s\u00e9rio risco nas organiza\u00e7\u00f5es armadas de elas se tornarem militarizadas, e ganharem uma estrutura em que a pol\u00edtica \u00e9 cada vez mais posta de lado. \u00c9 mais f\u00e1cil discutir coisas t\u00e9cnicas, (funcionamento das armas, funcionamento dos grupos), do que discutir pol\u00edtica, que levanta muito mais d\u00favidas, requer uma maior capacidade de an\u00e1lise. Foi-me dado observar que h\u00e1 uma fort\u00edssima tend\u00eancia, sob a bandeira da organiza\u00e7\u00e3o, para os grupos se tornarem tecnocr\u00e1ticos das armas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A quest\u00e3o \u00e9 onde reside efectivamente o poder, na intelig\u00eancia da an\u00e1lise ou na burocracia das armas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um factor real que pode levar \u00e0 infiltra\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia \u2013 \u00e9 mais f\u00e1cil um agente infiltrado discutir armas que discutir pol\u00edtica; e estas organiza\u00e7\u00f5es deixam-se infiltrar que \u00e9 um disparate&#8230; E h\u00e1 a quest\u00e3o da degeneresc\u00eancia das pessoas. \u00c9 f\u00e1cil numa organiza\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica armada as pessoas afastarem-se dos objectivos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 f\u00e1cil porqu\u00ea? \u00c9 apenas o desejo de poder?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o desejo de subsist\u00eancia, que coincide com o desejo de poder. Como se observa em todos os partidos, o objectivo principal \u00e9 a sobreviv\u00eancia enquanto organiza\u00e7\u00e3o, o engrandecimento enquanto organiza\u00e7\u00e3o. Os objectivos estrat\u00e9gicos apontados nos programas s\u00e3o esquecidos a maior parte do tempo. Passa-se o mesmo com as organiza\u00e7\u00f5es armadas. Com o risco de estarem armadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Acabou por n\u00e3o dar uma resposta taxativa, se \u00e9 que h\u00e1, para a quest\u00e3o do perigo em que incorriam quando fundaram as BR ou avan\u00e7aram para ac\u00e7\u00f5es como a da Fonte da Telha.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sempre tivemos consci\u00eancia disso, nomeadamente o Carlos Antunes que nunca foi militarista e impregnou politicamente as ac\u00e7\u00f5es. Digamos que as Brigadas nunca degeneraram. A grande cis\u00e3o que houve com a funda\u00e7\u00e3o das FP-25 foi porque, de facto, n\u00f3s n\u00e3o admit\u00edamos essa orienta\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando percebeu que poderia ser acusada daquilo de que veio a ser acusada? Foi no momento da cis\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um bocadinho antes. No 25 de Novembro fomos derrotados. T\u00ednhamos um projecto revolucion\u00e1rio, que foi derrotado por um golpe de Direita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Continua a achar isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ah com certeza. Penso at\u00e9 que \u00e9 evidente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um golpe de Direita que precisou da coniv\u00eancia de alguma Esquerda.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Houve coniv\u00eancia posterior. Precisou de um \u00e1libi, e desencadeou uma provoca\u00e7\u00e3o com aquela hist\u00f3ria de Tancos; mas preparavam o golpe desde Agosto. Depois teve a aquiesc\u00eancia do Partido Comunista. Fic\u00e1mos derrotados. Pens\u00e1vamos, e penso, que teria havido uma grande reviravolta na Europa se em Portugal tivesse triunfado um poder revolucion\u00e1rio, novo. N\u00e3o foi. A partir do 25 de Novembro fiquei \u00e0 espera de ser presa. Tive os primeiros mandados de captura em Dezembro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi presa em 78, tr\u00eas anos depois. Como viveu esses anos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Organiz\u00e1vamo-nos muito para resistir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vivia tamb\u00e9m da pol\u00edtica? A medicina estava completamente posta de parte?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nessa altura sim. Mas fazia consulta no Hospital do Barreiro uma vez por semana, nunca deixei de fazer. Nem mesmo em 74\/75. Era muito engra\u00e7ado!, no meio daquilo tudo, l\u00e1 ia eu fazer consulta. Fomos presos em 78 e a cis\u00e3o com as pessoas que formaram as FP- 25 foi s\u00f3 em 80. Mas de facto, os g\u00e9rmenes j\u00e1 estavam lan\u00e7ados. Quando fomos presos, havia muitas discuss\u00f5es internas que conduziram a essa cis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A prop\u00f3sito dos 25 anos do 25 de Novembro, o Carlos Antunes dizia numa entrevista, num tom megal\u00f3mano, que foram derrotados, mas que \u00abisto\u00bb estava nas vossas m\u00e3os. Houve um momento em que acharam verdadeiramente que isto estava nas vossas m\u00e3os?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Carlos Antunes diz muitos factos que s\u00e3o realidade, mas a entrevista reveste-se de um estilo que n\u00e3o me parece interessante do ponto de vista pol\u00edtico. D\u00e1 esse aspecto de megalomania. Antes do 25 de Novembro realmente t\u00ednhamos muito poder.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"498\" height=\"318\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp1.png\" alt=\"\" data-id=\"2817\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp1.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2817\" class=\"wp-image-2817\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp1.png 498w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp1-300x192.png 300w\" sizes=\"(max-width: 498px) 100vw, 498px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">Foto Jo\u00e3o Freire<\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"500\" height=\"319\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp3.png\" alt=\"\" data-id=\"2818\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp3.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2818\" class=\"wp-image-2818\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp3.png 500w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp3-300x191.png 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">Foto Jo\u00e3o Freire<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Que se concretizava em qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>T\u00ednhamos uma influ\u00eancia s\u00e9ria em muitos quart\u00e9is, nos chamados quart\u00e9is revolucion\u00e1rios, havia grupos armados em s\u00edtios fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Est\u00e1 a falar do pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Do pa\u00eds, mas sobretudo Porto, Set\u00fabal e Lisboa. Havia uma liga\u00e7\u00e3o a bases do PC que estavam armadas. Houve uma tentativa s\u00e9ria, entre n\u00f3s e os militares, de ter uma lideran\u00e7a unificada. Mas, por um lado, n\u00e3o est\u00e1vamos a organizar, ao contr\u00e1rio do que se diz, um golpe de Esquerda. Por outro lado, n\u00e3o nos organiz\u00e1mos eficientemente para resistir ao golpe de Direita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sabiam do golpe da Direita e n\u00e3o se organizaram. Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sobretudo por dificuldade de lideran\u00e7a comum, entre n\u00f3s e os militares.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os militares s\u00e3o por acaso criaturas vol\u00e1teis, perme\u00e1veis aos intentos ora da Esquerda ora da Direita?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os militares foram excelentes, sinceramente dispostos a resistir. O grande problema foi o Copcon, que teve uma posi\u00e7\u00e3o oscilante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A grande dificuldade, para come\u00e7ar, passava pelo entendimento de toda a Esquerda, da mais moderada \u00e0 mais extremada<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Que n\u00e3o havia. A divis\u00e3o entre n\u00f3s e o PC era uma divis\u00e3o de fundo, marcada pela diferen\u00e7a de objectivos. O PC obedecia \u00e0 pol\u00edtica da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que n\u00e3o queria um poder revolucion\u00e1rio em Portugal, sobretudo um poder revolucion\u00e1rio que lhe escapasse ao controle. E escaparia.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide columns-2 is-cropped wp-block-gallery-3 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"494\" height=\"316\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp4.png\" alt=\"\" data-id=\"2819\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp4.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2819\" class=\"wp-image-2819\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp4.png 494w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp4-300x192.png 300w\" sizes=\"(max-width: 494px) 100vw, 494px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">Foto Jo\u00e3o Freire<\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"492\" height=\"330\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp5.png\" alt=\"\" data-id=\"2820\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp5.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2820\" class=\"wp-image-2820\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp5.png 492w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp5-300x201.png 300w\" sizes=\"(max-width: 492px) 100vw, 492px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">Foto Jo\u00e3o Freire<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O objectivo do PRP nos meses que antecederam o 25 de Novembro era constituir um governo revolucion\u00e1rio com o documento Copcon, redigido em Julho, como programa. A manifesta\u00e7\u00e3o dos SUV, Soldados Unidos Vencer\u00e3o, foi um m\u00eas antes.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os SUV foi uma coisa extraordin\u00e1ria! Eram conselhos de soldados, soldados mesmo, j\u00e1 n\u00e3o tinha a ver com os oficiais. Ocupou toda a cidade de Lisboa, e acredito que tenha provocado medo, para usar grandes chav\u00f5es, medo \u00e0 burguesia, \u00e0s pessoas instaladas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 que assistiu a isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 dentro!, na manifesta\u00e7\u00e3o. Os SUV foram libertar dois soldados que estavam presos na Trafaria, e foram mesmo libertados. E isso tamb\u00e9m \u00e9 poder. De uma maneira geral, eram pessoas modestas, pobres, que nunca tiveram poder de coisa nenhuma, que foram sempre comandados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Significa que em Junho ainda acreditava no seu sonho?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Comecei francamente a p\u00f4r em d\u00favida a possibilidade quando vi os militares indecisos. Depois fez-se o documento do Copcon, com o MES e os militares, e houve a manifesta\u00e7\u00e3o do Copcon. Houve ainda a manifesta\u00e7\u00e3o da FUR, e a\u00ed o PC esteve envolvido. H\u00e1 um momento em que o PC vem ter connosco, tivemos mais que uma reuni\u00e3o na sede do PRP.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi o PC que foi ter convosco, o que queria dizer alguma coisa<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Queria dizer que t\u00ednhamos poder. Naturalmente havia por parte de algumas pessoas do PC a sincera ideia de uma jun\u00e7\u00e3o. Antes disso tivemos um encontro com o Vasco Gon\u00e7alves, no mesmo sentido, e quando foi feita a manifesta\u00e7\u00e3o da FUR havia uma unidade entre os militares revolucion\u00e1rios, o Vasco Gon\u00e7alves, que representava os militares ligados ao PC, e o Costa Gomes que representava&#8230; [riso] a tend\u00eancia de equil\u00edbrio ou compromisso.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignwide has-background-dim-20 has-background-dim is-position-center-center\" style=\"background-image:url(http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp8-1.png);min-height:375px;background-position:40% 26%\"><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-text-align-center has-text-color\" style=\"color:#fffffa;font-size:74px;line-height:1.1\"><strong>Mural<\/strong><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-huge-font-size\"><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na altura era tamb\u00e9m entendido assim?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Era. A grande ofensa que se gritava da manifesta\u00e7\u00e3o ao general Costa Gomes era \u00abSocial Democrata\u00bb! Chamar Social Democrata era um terr\u00edvel insulto. A dada altura ele gritou de l\u00e1 de cima, \u00abEu n\u00e3o sou Social Democrata\u00bb! [risos] Eram tempos em que as pessoas acreditavam muito numa transforma\u00e7\u00e3o, na organiza\u00e7\u00e3o da sociedade em termos de poder descentralizado e distribu\u00eddo. At\u00e9 o PPD tinha socialismo no programa. Os discursos de S\u00e1 Carneiro, eram inflamados esquerdistas!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual era o seu sentimento quando estava com \u00abo inimigo\u00bb?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nunca tomei como inimigo as outras fac\u00e7\u00f5es de Esquerda. Inimigo era a Direita. Mesmo a\u00ed havia pessoas a quem dificilmente poderia chamar inimigo: Vasco Louren\u00e7o e todos os outros militares que entraram nisso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que era um inimigo suficientemente poderoso para a tirar de si?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Direita. Logo a seguir ao 25 de Novembro, foi realmente atrevido&#8230;, fui fazer um com\u00edcio a Viana do Castelo. Poderia ter sofrido qualquer coisa de grave; fizeram-me um cerco ao carro e perseguiram-me at\u00e9 ao Porto. Felizmente viajei com muita seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Viajava com seguran\u00e7a?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tinha escolta armada. E a\u00ed corri s\u00e9rios riscos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Revelava uma coragem f\u00edsica e moral extraordin\u00e1ria. Ainda que fosse extremamente provocadora. N\u00e3o tinha medo de esp\u00e9cie alguma?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tenho medos, medos concretos, muito grandes; como seja andar de avi\u00e3o. Depois n\u00e3o tenho medo de confronto, nem f\u00edsico nem ideol\u00f3gico. N\u00e3o tenho medo do confronto com a pol\u00edcia. H\u00e1 quem diga que o medo de inimigos concretos depende da rela\u00e7\u00e3o com o pai. Que os pais muito repressivos criam medos. O meu pai era muito doce, muito querido, nunca nos bateu, e n\u00e3o tenho medo nenhum da autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide columns-2 is-cropped wp-block-gallery-6 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"495\" height=\"551\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp6.png\" alt=\"\" data-id=\"2822\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp6.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2822\" class=\"wp-image-2822\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp6.png 495w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp6-270x300.png 270w\" sizes=\"(max-width: 495px) 100vw, 495px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"409\" height=\"263\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp7.png\" alt=\"\" data-id=\"2823\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp7.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2823\" class=\"wp-image-2823\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp7.png 409w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp7-300x193.png 300w\" sizes=\"(max-width: 409px) 100vw, 409px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O seu pai foi a sua grande influ\u00eancia. Tanto quanto sei era um homem intelectualmente avan\u00e7ado, muito aberto. Tinham uma exist\u00eancia confort\u00e1vel num universo oprimido como o Barreiro.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Viv\u00edamos num n\u00edvel superior ao da maioria das pessoas do Barreiro, t\u00ednhamos acesso aos meios culturais: frequent\u00e1vamos o teatro, \u00edamos a concertos. Mas sempre \u00e0 tira em termos de dinheiro. O meu pai foi uma influ\u00eancia determinante; era do PC, mas anti-estalinista, embora com os artif\u00edcios que as pessoas arranjam para desculpar certas coisas. \u00c0 volta da minha casa havia muita movimenta\u00e7\u00e3o de pessoas envolvidas nas lutas \u2013 tinham estado na Guerra de Espanha, com todas as suas recorda\u00e7\u00f5es, tinham estado no Tarrafal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi o fasc\u00ednio por esta gente interessante, que por acaso era revolucion\u00e1ria, que a conduziu aos meandros da pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que sim. Os contadores de hist\u00f3rias pol\u00edtico-pessoais exerciam um grande fasc\u00ednio sobre mim. Est\u00e1 a ver, as pessoas optarem por uma vida em que tudo \u00e9 rotina, d\u00e1-me uma ang\u00fastia terr\u00edvel! E essas pessoas tinham hist\u00f3rias que fugiam ao quotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E a sua m\u00e3e?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acompanhava muito bem estas coisas. Era radicalmente de Esquerda. Tanto que durante o per\u00edodo revolucion\u00e1rio tomou posi\u00e7\u00f5es mais \u00e0 Esquerda que o meu pai.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 que eles acompanharam o seu percurso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ah, os meus pais foram extremamente solid\u00e1rios. Com receios, j\u00e1 se sabe. Os pais saberem que os filhos v\u00e3o ser presos&#8230;, que horror, n\u00e3o \u00e9? Mas nunca, nunca me disseram para deixar de ter actividade pol\u00edtica, fosse antes do 25 de Abril, fosse depois.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mesmo na greve da fome?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O meu pai tinha uma conversa do tipo \u00abV\u00ea l\u00e1, o Bobby Sands [guerrilheiro do IRA] acabou por morrer, o Poder \u00e9 capaz de ser inflex\u00edvel&#8230;\u00bb. Mas nunca me disse para desistir. Tenho um respeito enorme por isso, imagino o que ser\u00e1 ver um filho ao fim de muitos dias de greve da fome. Pelo contr\u00e1rio, o meu pai acabava sempre por dar uma palavra de encorajamento \u00e0 luta. Falou-me do Bobby Sands, mas depois escreveu-me uma carta a dizer \u00abAs lutas s\u00e3o assim, lembra-te dos guerrilheiros de El salvador&#8230;\u00bb. Impec\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Chegou a chorar quando leu essas cartas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ah, claro, claro que chorava. \u00c9 muito bom as pessoas chorarem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A sua imagem era a tal da extrema dureza e inflexibilidade. Era capaz de chorar em p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Isso talvez fosse mais dif\u00edcil&#8230; Al\u00e9m disso, chorei sempre por emo\u00e7\u00e3o ou como\u00e7\u00e3o, nunca por medo ou esmagada pelas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que constituiu o seu baptismo pol\u00edtico aos 15 anos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entrei para o MUD juvenil quando o MUD estava quase a terminar. Entre os 10 e os 14 estudei no Liceu de Set\u00fabal, e foi maravilhoso: eram 300 rapazes e raparigas, num regime muito liberal. Olhe, a Odete Santos tamb\u00e9m andou l\u00e1. Aos 15 fui obrigada a vir para Lisboa, estive dois anos no Maria Am\u00e1lia e por um triz n\u00e3o dei em delinquente! Aquilo era uma repress\u00e3o completa: as raparigas n\u00e3o podiam andar sem meias, os rapazes n\u00e3o podiam passar no passeio em frente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Est\u00e1vamos no baptismo pol\u00edtico aos 15 anos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nessa altura fui contactada para o MUD juvenil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por quem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por uma rapariga do Barreiro, mais velha. Distribu\u00ed panfletos do MUD, julgo que relativos ao julgamento do Agostinho Neto, de forma tonta e perigosa. Dois anos depois entrei para a faculdade de medicina e normalizei-me completamente \u2013 deixei de ter a atitude de revolta prim\u00e1ria do Maria Am\u00e1lia. Uns meses mais tarde fui convidada para entrar no PC.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Porque \u00e9 que foi para medicina numa altura em que as pessoas que tinham interesses pol\u00edticos cursavam Direito e Econ\u00f3micas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Penso que n\u00e3o est\u00e1 desligado da maneira filos\u00f3fica como via o mundo e as pessoas. \u00c9 paix\u00e3o por conhecer o ser humano na sua globalidade, e essa \u00e9 tamb\u00e9m uma forma pol\u00edtica de estar no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Havia algu\u00e9m na sua fam\u00edlia em medicina?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando entrou na faculdade passou a frequentar o Cineclube Imagem e era uma apaixonada pelo cinema.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A certa altura comecei a viver com o Ernesto de Sousa, ele \u00e9 que estava ligado ao Cineclube Imagem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi o seu primeiro amor?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, j\u00e1 tinha tido bastantes namorados! [risos] Enquanto andei no liceu tive sempre namorados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 dif\u00edcil imagin\u00e1-la, rapariga namoradeira com interesses voltados para os rapazes\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Era mesmo muito dada a essas actividades! N\u00e3o se acreditava que era a mesma pessoa, que estava no quadro de honra e que tinha namorados todos os anos!, desde os dez anos! [risos]<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Isso \u00e9 bestial! Como \u00e9 que funcionava?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como sempre: olhava-se, mandava-se uns bilhetinhos, e havia os bailes. Organizei uma vez uma greve num baile. Durante muitos anos proibiam os meninos das escolas t\u00e9cnicas de virem aos bailes do liceu, o que era uma distin\u00e7\u00e3o de classe insuport\u00e1vel. A greve consistia no seguinte: se os rapazes das escolas t\u00e9cnicas n\u00e3o fossem admitidos, n\u00e3o dan\u00e7\u00e1vamos. Perante tal amea\u00e7a, rompeu-se a regra e vieram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aos 21 anos come\u00e7ou a viver com o Ernesto de Sousa. As uni\u00f5es de facto n\u00e3o eram propriamente convencionais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi quanto houve de mais transgressor! Para os meus pais foi chat\u00edssimo! N\u00e3o aceitaram de maneira nenhuma&#8230; At\u00e9 que acabaram por aceitar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nunca teve o ideal rom\u00e2ntico do casamento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o! \u00c9 como a vida quotidiana: d\u00e1-me muita ang\u00fastia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entretanto casou com um m\u00e9dico, que \u00e9 o pai da sua filha.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 70\/71 fui presa, e a Pide n\u00e3o deixou que ele me visitasse. Quando sa\u00ed cas\u00e1mos, dava-nos mais garantias para situa\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Era tamb\u00e9m revolucion\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Orlando Lindim Ramos esteve preso cinco anos em Peniche, foi funcion\u00e1rio do PC. Era um homem muito firme.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00f3 pergunto para saber se seria poss\u00edvel ter uma rela\u00e7\u00e3o com uma pessoa que n\u00e3o vivesse os entusiasmos da pol\u00edtica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o. N\u00e3o concebo para mim a vida em comum ou o erotismo com pessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quais n\u00e3o h\u00e1 uma fus\u00e3o do ponto de vista do pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma das imagens mais comuns associadas ao PREC \u00e9 a de um desbragamento sexual enquanto explos\u00e3o depois de um per\u00edodo repressivo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Francamente nunca me foi dado observar situa\u00e7\u00f5es dessas. Mas \u00e9 natural. As pessoas eram muito jovens, estavam muito juntas umas com as outras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em 73 viveu clandestina durante alguns meses. Como foi esse per\u00edodo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi mau, como todas as clandestinidades, e para as mulheres foi sempre pior. Come\u00e7\u00e1mos por estar, eu e a minha filha, ent\u00e3o com dois anos, numa casa da Dra. Laura Ayres, em Sesimbra. T\u00ednhamos de ficar todo o dia fechadas em casa, e ela gritava, barafustava, queria ir para a rua ver os c\u00e3es! Depois foram as sucessivas estadias, e por fim acabei por mand\u00e1-la para casa da minha irm\u00e3. Uma separa\u00e7\u00e3o doloros\u00edssima. Tanto que no dia 25 de Abril a primeira coisa que fiz, eu estava no Porto, foi meter-me num carro e vir por a\u00ed a baixo ver a minha filha. Ela olhou para mim com um ar de zanga, como \u00abDe onde \u00e9 que vem esta&#8230;\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os seus filhos passaram por coisas terr\u00edveis. Como \u00e9 que se explica a um filho que, de uma certa maneira, h\u00e1 uma causa que se sobrep\u00f5e?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nunca tive problemas a esse respeito. Nunca fiz aquela hist\u00f3ria do proselitismo, dos discursos ideol\u00f3gicos muito marcados. E tamb\u00e9m nunca fiz as conversas da martiriologia, o que as pessoas sofrem e n\u00e3o sei qu\u00ea, para os comover. Foi tudo sempre pela positiva: pelas coisas que queremos, pela sociedade que desejamos, pelo que queremos construir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas quando volta a ver a sua filha com ar de zanga, n\u00e3o \u00e9 imediato que ela perceba tudo isso.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essas coisas que n\u00e3o s\u00e3o expressas \u2013 a primeira separa\u00e7\u00e3o, quando fui presa, novamente a separa\u00e7\u00e3o, as idas \u00e0 cadeia; emocionalmente deixam marcas muito pesadas. Mas, sobretudo com ela, nunca me mostrei oprimida ou subjugada ou a sofrer. No per\u00edodo que antecedeu a minha pris\u00e3o passeava com ela em frente ao Conselho de Ministros, ali na Estrela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Olhe que era bem provocadora&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para lhe dizer, \u00abEst\u00e1s a ver, est\u00e1 aqui o Governo todo, mas sou mais forte que eles, eu \u00e9 que sou forte\u00bb. Ela tinha seis anos, julgo que lembra at\u00e9 mais do que eu fazia: ela diz que eu dizia que era mais forte que isto e aquilo e aqueloutro, e que mand\u00e1vamos nisto e naquilo e n\u00e3o sei qu\u00ea. Ficou-lhe a imagem de uma m\u00e3e poderosa. Mas acho muito importante que as pessoas n\u00e3o se mostrem enfraquecidas e martirizadas, porque os filhos v\u00e3o beber aos pais a for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como bebeu do seu a for\u00e7a e a do\u00e7ura.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pois.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Disse que escolheu ser presa.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com certeza. Antes do 25 de Abril observei pessoas no ex\u00edlio, e \u00e9 um sofrimento terr\u00edvel: estar afastado da terra, sem se saber quando se pode voltar, perdendo os la\u00e7os com os amigos, com a fam\u00edlia, com tudo. \u00c9 prefer\u00edvel estar na cadeia!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Continua a achar isso hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Continuo, cada vez mais. Estar na cadeia?&#8230; Ent\u00e3o v\u00e3o l\u00e1 as visitas todas&#8230; [gargalhada], l\u00ea-se os jornais portugueses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conseguiu sempre relativizar e gracejar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, mesmo nessa altura. Quando o pai da minha filha, o Orlando, e mais dois amigos sa\u00edram de Peniche, que n\u00e3o era brinquedo, contaram imensos epis\u00f3dios, gozavam os guardas, e transformavam aquilo em gra\u00e7a. Quando estive na cadeia, consegui sempre dar a volta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mesmo na fase de incomunicabilidade total?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estive um ano ao todo. Primeiro nas celas da Judici\u00e1ria \u2013 as condi\u00e7\u00f5es da Judici\u00e1ria do Porto s\u00e3o de masmorra, umas paredes largu\u00edssimas, uma janelinha de grade e um balde para as necessidades. Com uma crian\u00e7a. Depois vim para Caxias, a cela tinha melhores condi\u00e7\u00f5es, eu \u00e9 que estava numa incomunicabilidade tal que s\u00f3 tinha dez minutos de visita e um quarto de hora de recreio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Chegou a odiar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3dio, \u00f3dio&#8230; N\u00e3o, o \u00f3dio \u00e9 uma coisa que nos consome. Posso ter uma grande combatividade, uma grande energia. Mas, se quer que lhe diga, as coisas que me afectam s\u00e3o as coisas afectivas. Quem me provocou bastante raiva foi a Vera Lagoa; acompanhou toda a minha pris\u00e3o com uma campanha no \u00abDiabo\u00bb que levou ao endurecimento das minhas condi\u00e7\u00f5es na cadeia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Era pelo facto de ser mulher?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi com certeza pelo facto de ser mulher que implicou mais. Inclusivamente p\u00f4s uma caricatura do meu filho, que tinha oito meses, carregadinho de armas, a dizer \u00abOs camaradas v\u00e3o l\u00e1 levar armas\u00bb! \u00c9 preciso uma criatura ser muito reles, muito inferior, para fazer uma coisa destas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As pessoas imaginavam que os seus filhos, sobretudo o S\u00e9rgio que estava consigo, poderiam ser um instrumento para a amaciar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nunca pensei nesses termos. Tinha direito a ter a crian\u00e7a, e para mim era sempre melhor ter a crian\u00e7a. A Isabel chegou a ficar em Cust\u00f3ias v\u00e1rias vezes, chegou a ficar um m\u00eas seguido; em Cust\u00f3ias as pessoas eram muito simp\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como eram esses momentos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma maravilha! Entrava na visita e depois recolhia comigo; a maior parte das vezes com desconhecimento do director, mas com conhecimento da chefe das guardas e das outras guardas. Na cadeia estavam sobretudo prostitutas, muito jovens&#8230;, eram crian\u00e7as. Faziam-lhe brincadeiras, pintavam-na, punham-lhe saltos altos. Ela adorava aqueles teatros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aproveitou para ler e reflectir. Diz-se que, mesmo nos anos quentes, nunca deixou de estudar medicina.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade. Quando as pessoas se isolam nas coisas pol\u00edticas e cortam os la\u00e7os com o mundo \u00e9 terr\u00edvel. Ainda h\u00e1 muito poucos meses uma colega minha, com quem durante anos n\u00e3o contactei, e em casa de cujos familiares estive clandestina, apareceu-me com um livro de medicina, daqueles grand\u00f5es!, com o qual andava atr\u00e1s de mim na clandestinidade para eu estudar. Ela guardou aquilo religiosamente, est\u00e1 a ver?, 20 e tal anos, e agora veio trazer-mo. \u00c9 comovente. E na cadeia andei sempre com muitos livros, \u00e9 um \u00f3ptimo s\u00edtio para ler.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando avan\u00e7ou para greves da fome, o que \u00e9 que achava que a sua vida valia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Valia a pena do sacrif\u00edcio. Uma pessoa que morre em greve da fome, lutando por um objectivo, marca terrivelmente um pa\u00eds, uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ningu\u00e9m pode duvidar da sinceridade e da justeza daquele objectivo. Como objectivo pol\u00edtico, vale e pena o risco, vale a pena o risco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A democracia estava j\u00e1 instalada. J\u00e1 n\u00e3o era o ideal revolucion\u00e1rio. Tinha que ver com os processos de que eram alvo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Era uma luta mais reivindicativa. Mas n\u00e3o se pode desligar uma coisa da outra. Se morr\u00eassemos, a morte era pela revolu\u00e7\u00e3o, apesar de ser apenas pelas condi\u00e7\u00f5es de pris\u00e3o, pela amnistia, etc. Ningu\u00e9m d\u00e1 a vida por uma coisa de detalhe, uma coisa particular. D\u00e1-se a vida pelos grandes objectivos. Ficava, ficava na consci\u00eancia das pessoas como a morte dos que se tinham rebelado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Carlos Antunes dizia que era assim que ficaria para os vossos filhos, que ficaria o exemplo de coragem e dignidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E era, acredito sinceramente. Embora tivesse muito medo de morrer. Muito medo de morrer. Mas, a certa altura, as coisas assumem um caminho irrevers\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 escolha. Por uma quest\u00e3o de coer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o sentiu alguma vez um esp\u00edrito de heroicidade a insuflar o sacrif\u00edcio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 her\u00f3is, h\u00e1 caminhos irrevers\u00edveis. E ent\u00e3o, o que fica \u00e9 uma imagem de heroicidade. Mas os caminhos \u00e9 que s\u00e3o irrevers\u00edveis. Se a pessoa voltar para tr\u00e1s, \u00e9 a sua pr\u00f3pria dignidade que fica em jogo. E \u00e9 pior, \u00e9 pior que arriscar a vida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A sua filha mandava-lhe desenhos. Nunca fraquejou?, nunca se interrogou sobre o sentido que tudo aquilo fazia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o dos filhos \u00e9 a mais dif\u00edcil de suportar, mais para as mulheres que para os homens. Mas devo ter pensado isso v\u00e1rias vezes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 que os seus filhos a v\u00eaem? A M\u00e3e-M\u00e9dica, a M\u00e3e- ex-Revolucion\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ah, v\u00eaem as duas coisas. Mas v\u00eaem muito a parte pol\u00edtica e intelectual, talvez mais que a m\u00e9dica. O nosso conv\u00edvio \u00e9 muito na base das coisas pol\u00edticas e intelectuais, na discuss\u00e3o dos grandes temas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sentem orgulho no seu percurso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que sim, eles dizem que sim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Acreditaram sempre em si? Uma vez, falando com um jornalista, disse \u00abApesar das acusa\u00e7\u00f5es, quer acredite quer n\u00e3o, n\u00e3o sou bombista\u00bb.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que eu gostava de saber \u00e9 se tem import\u00e2ncia para si que as pessoas acreditem na sua inoc\u00eancia, e que pessoas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito importante. Se tenho ideias, est\u00e1 muito na minha natureza explic\u00e1-las \u00e0s pessoas, e querer que acreditem nelas. Vivo muito na comunica\u00e7\u00e3o; por isso gosto muito que as pessoas acreditem em mim.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide columns-2 is-cropped wp-block-gallery-8 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"438\" height=\"543\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp11.png\" alt=\"\" data-id=\"2824\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp11.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2824\" class=\"wp-image-2824\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp11.png 438w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp11-242x300.png 242w\" sizes=\"(max-width: 438px) 100vw, 438px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"491\" height=\"495\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp9.png\" alt=\"\" data-id=\"2825\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp9.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2825\" class=\"wp-image-2825\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp9.png 491w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp9-298x300.png 298w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp9-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 491px) 100vw, 491px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Quando saiu da cadeia, a sua vida foi estruturada de uma outra maneira.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tive de come\u00e7ar tudo do zero. N\u00e3o t\u00ednhamos nada. N\u00e3o t\u00ednhamos casa, n\u00e3o t\u00ednhamos len\u00e7\u00f3is, n\u00e3o t\u00ednhamos comida. Depois recomecei a medicina, que foi a forma de ganhar algum dinheiro. Foi lento, foi uma luta de perseveran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dificuldades entre pares?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Algumas, h\u00e1 sempre, coisas de competi\u00e7\u00e3o e tal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eu pensava nos colegas e nos doentes que olhavam para si como a Isabel-Bombista.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nunca senti isso. Comecei no Barreiro, onde o ambiente \u00e9 muito bom. Depois de ter come\u00e7ado, houve uma coisa muito aborrecida \u2013 voltei a ser presa, em 84, no consult\u00f3rio; estive pouqu\u00edssimos dias, mas foi um golpe, porque estava a reinstalar-me com muitas dificuldades, sobretudo de natureza econ\u00f3mica. O meu filho assistiu \u00e0 minha pris\u00e3o, foi atr\u00e1s do carro a correr&#8230; Uma cena deplor\u00e1vel. Quando voltei, as pessoas receberam-me com ramos de flores. No Barreiro o ambiente foi-me sempre muito favor\u00e1vel. As pessoas queixavam-se das doen\u00e7as e depois falavam da pol\u00edtica! Ainda hoje \u00e9 assim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desculpe se insisto na imagem do casal; mas o Carlos Antunes parece incarnar uma vol\u00fapia pelo poder. Era tamb\u00e9m o seu amor por ele&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o. De uma forma mais simples, n\u00e3o era ele que me influenciava nesse sentido. Muitas vezes tivemos posi\u00e7\u00f5es discordantes dentro do PRP, e, isso que diz, era para mim tamb\u00e9m claro \u2013 que nos distanci\u00e1vamos nessa forma de estar. Isso sim, isso faz sofrer. Tinha a vis\u00e3o de que, se as coisas caminhassem no sentido do poder, possivelmente diverg\u00edamos. Embora o Carlos Antunes seja uma pessoa muit\u00edssimo clarividente.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide columns-1 is-cropped wp-block-gallery-10 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"975\" height=\"530\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp13.png\" alt=\"\" data-id=\"2826\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp13.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2826\" class=\"wp-image-2826\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp13.png 975w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp13-300x163.png 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/prp13-768x417.png 768w\" sizes=\"(max-width: 975px) 100vw, 975px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">Foto AFP<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O casamento ficava em risco se divergissem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ent\u00e3o a causa maior era a p\u00e1tria<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A p\u00e1tria da revolu\u00e7\u00e3o! Pois claro que sim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Porque \u00e9 que o seu filho se chama S\u00e9rgio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Chama-se S\u00e9rgio porque era o pseud\u00f3nimo do pai durante a clandestinidade. Quando o conheci ele era Jacques.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual era o seu?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Elisa. Foi-me arranjado pelo Carlos Antunes. N\u00f3s trat\u00e1vamo-nos assim e t\u00ednhamos um rigor que agora at\u00e9 parece imposs\u00edvel. Eu n\u00e3o sabia, por exemplo, onde era a r\u00e1dio clandestina. Fui lev\u00e1-lo ao aeroporto e tive de sair para n\u00e3o ver para onde se encaminhava. Portanto, s\u00f3 vim a saber o nome dele muito mais tarde.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi ele que lho disse?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A certa altura disse: \u00abJ\u00e1 agora, podes saber o meu nome\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Foi num momento amoroso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi. [risos] Depois formaram-se as Brigadas e ele passou a ser o S\u00e9rgio. Ali\u00e1s, enquanto vivi com ele, e ainda hoje quando me refiro a ele com pessoas dessa \u00e9poca, digo sempre \u00abO S\u00e9rgio\u00bb. Nunca lhe chamei Carlos. Carlos Antunes \u00e9 como se fosse uma personalidade estranha.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 curioso, parecem tantas vidas numa s\u00f3.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E s\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevista conduzida e publicada por Anabela Mota Ribeiro no Blog com o mesmo nome (transcri\u00e7\u00e3o autorizada pela autora).<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide columns-1 is-cropped wp-block-gallery-12 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"579\" height=\"361\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/anabela-1.png\" alt=\"\" data-id=\"2832\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/anabela-1.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=2832\" class=\"wp-image-2832\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/anabela-1.png 579w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/anabela-1-300x187.png 300w\" sizes=\"(max-width: 579px) 100vw, 579px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">Anabela Mota Ribeiro | Fotografia Publico<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SEM FRONTEIRAS | 26 de janeiro 2021 | Combatentes da Liberdade | Carlos Antunes H\u00e1&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2828,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5,93],"tags":[164,107,165,166],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes.png",1253,687,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes-300x164.png",300,164,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes-768x421.png",640,351,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes-1024x561.png",640,351,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes.png",1253,687,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes.png",1253,687,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes.png",1115,611,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes.png",800,439,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes.png",1024,561,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes.png",540,296,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/carlos-antunes.png",400,219,false]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/memorias-vivas\/centro-documentacao\/\" rel=\"category tag\">CENTRO DOCUMENTA\u00c7\u00c3O<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/memorias-vivas\/combatentes-da-liberdade\/\" rel=\"category tag\">Combatentes da Liberdade<\/a>","tag_info":"Combatentes da Liberdade","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2816"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2816"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2816\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2841,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2816\/revisions\/2841"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2816"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2816"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2816"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}