{"id":3053,"date":"2021-02-23T22:18:19","date_gmt":"2021-02-23T22:18:19","guid":{"rendered":"http:\/\/aep61-74.org\/?p=3053"},"modified":"2021-02-23T22:18:22","modified_gmt":"2021-02-23T22:18:22","slug":"dossie-ice-o-salto-jornal-dos-trabalhadores-portugueses-emigrados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2021\/02\/23\/dossie-ice-o-salto-jornal-dos-trabalhadores-portugueses-emigrados\/","title":{"rendered":"DOSSI\u00ca ICE |O Salto, jornal dos trabalhadores portugueses emigrados"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>SEM FRONTEIRAS <\/strong><\/span>| 23 de fevereiro 2021 | Dossi\u00ea Imprensa Clandestina e do ex\u00edlio | Aprofundamento tem\u00e1tico | Cristina Cl\u00edmaco<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Salto, jornal dos trabalhadores portugueses emigrados<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cristina Cl\u00edmaco<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>O Salto<\/em>, \u00f3rg\u00e3o do Clube dos Jovens Trabalhadores Portugueses de Paris (CJTPP), \u00e9 editado em Paris entre Novembro de 1970 e Junho-Julho de 1974 por um grupo de jovens ligados ao PCP-ml, destinando-se o peri\u00f3dico a ser um meio de mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o da numerosa col\u00f3nia emigrada em Fran\u00e7a, e mais particularmente da residente na regi\u00e3o parisiense, em favor da luta contra o Estado Novo e&nbsp; a guerra&nbsp; colonial. Publicado inicialmente bimestralmente, passa a mensal a partir do n\u00famero 13, de Novembro de 1972, tinha uma tiragem de 3 mil exemplares (a t\u00edtulo comparativo, <em>O Trabalhador<\/em>, jornal da Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho francesa para a imigra\u00e7\u00e3o portuguesa, tirava entre 18 a 20 mil exemplares), e o n\u00famero de p\u00e1ginas oscilava entre 8 a 12 consoante os n\u00fameros.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O Salto<\/em> posiciona-se como uma continuidade do <em>Jornal do Emigrante<\/em>, publicado pela Liga Portuguesa do Ensino e da Cultura Popular, cuja edi\u00e7\u00e3o cessara em 1969 (ser\u00e1 posteriormente retomada em 1971), em consequ\u00eancia de uma cis\u00e3o interna que op\u00f4s Mois\u00e9s Esp\u00edrito Santo e \u00c1lvaro Vasconcelos relativamente \u00e0 linha editorial do jornal. O grupo ligado a \u00c1lvaro Vasconcelos opta pela funda\u00e7\u00e3o de um novo jornal, com um t\u00edtulo mais contestat\u00e1rio, para o qual escolhe <em>O Salt<\/em>o, segundo o fundador sem liga\u00e7\u00e3o com o filme do mesmo nome de Christian de Chalonge, que sa\u00edra em 1967. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"422\" height=\"640\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-n\u00b01.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"3054\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-n\u00b01.jpeg\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=3054\" class=\"wp-image-3054\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-n\u00b01.jpeg 422w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-n\u00b01-198x300.jpeg 198w\" sizes=\"(max-width: 422px) 100vw, 422px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"460\" height=\"640\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl-3.png\" alt=\"\" data-id=\"3055\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl-3.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=3055\" class=\"wp-image-3055\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl-3.png 460w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl-3-216x300.png 216w\" sizes=\"(max-width: 460px) 100vw, 460px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Diretor franc\u00eas<\/h2>\n\n\n\n<p>Seguindo uma <em>d\u00e9marche<\/em> comum a outras publica\u00e7\u00f5es, o jornal dota-se de um director franc\u00eas, cujo prest\u00edgio nos meios militantes serve de cau\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica: Anny Souque e, a partir do n\u00b0 8, Bernard Weber, mas \u00e9 \u00c1lvaro Vasconcelos quem o dirige efectivamente. Este exilara-se na B\u00e9lgica, em 1967, deslocando-se depois para Paris. A sede da redac\u00e7\u00e3o est\u00e1 instalada no n\u00b0\u00a056, rue de la Fontaine au Roi, no 11\u00b0 bairro de Paris, num local cedido pela igreja protestante e partilhado com o CJTPP e, posteriormente, com o Movimento dos Trabalhadores Portugueses Emigrados (MTPE), movimento federativo impulsionado pelo <em>O Salto <\/em>para estruturar as associa\u00e7\u00f5es de emigrados econ\u00f3micos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O Salto<\/em> apresenta-se como um jornal \u201cdos trabalhadores para os trabalhadores\u201d, sem liga\u00e7\u00f5es a grupos pol\u00edticos, mas das entrelinhas emerge a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa sob a \u00e9gide do PCP-ml, rec\u00e9m fundado em Paris, mas cuja liga\u00e7\u00e3o \u00e9 ocultada pela redac\u00e7\u00e3o. Os objectivos abertamente anunciados nas p\u00e1ginas do jornal s\u00e3o a consciencializa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos emigrantes e a eleva\u00e7\u00e3o do seu n\u00edvel cultural, em que <em>O Salto<\/em> serviria aos elementos consciencializados de instrumento de trabalho para a politiza\u00e7\u00e3o dos emigrantes e unifica\u00e7\u00e3o do movimento associativo. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conte\u00fados<\/h2>\n\n\n\n<p>Os problemas da emigra\u00e7\u00e3o, a guerra colonial, o notici\u00e1rio nacional, uma p\u00e1gina informativa sobre as actividades associativas e o MTPE, constituem as principais sec\u00e7\u00f5es do jornal, para al\u00e9m de uma rubrica internacional que patenteia a orienta\u00e7\u00e3o pr\u00f3-chinesa do jornal, e que chama a aten\u00e7\u00e3o pela aus\u00eancia de coment\u00e1rio da pol\u00edtica francesa, ou quando por a\u00ed se aventura, colocando-o sob o prisma da emigra\u00e7\u00e3o, com \u00e9 o caso das elei\u00e7\u00f5es de 1973. Trata-se de uma escolha deliberada da redac\u00e7\u00e3o face \u00e0s caracter\u00edsticas da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa de n\u00e3o envolvimento nas lutas sociais, ver uma apatia desta relativamente \u00e0s quest\u00f5es pol\u00edticas, pelo que o jornal adopta uma estrat\u00e9gia de penetra\u00e7\u00e3o na col\u00f3nia que evitasse aos emigrantes de se encontrarem em <em>porte \u00e0 feu<\/em> face ao pa\u00eds de acolhimento. Estrat\u00e9gia movida antes de mais pelo pragmatismo do grupo de editores que riscam a interdi\u00e7\u00e3o do jornal e a expuls\u00e3o de Fran\u00e7a se se envolvessem de modo vis\u00edvel na pol\u00edtica francesa. <\/p>\n\n\n\n<p>O \u201ccorreio dos leitores\u201d, rubrica tradicional deste tipo de jornal, \u00e9 a que apresenta maior plasticidade, integrando por vezes as sec\u00e7\u00f5es guerra colonial ou notici\u00e1rio nacional, noutras constituindo uma sec\u00e7\u00e3o independente. Presen\u00e7a menos constante, \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o desportiva, que quando existe, assume a forma de suplemento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Implanta\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Em Fran\u00e7a, <em>O Salto<\/em> \u00e9 distribu\u00eddo nas principais cidades de implanta\u00e7\u00e3o da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa atrav\u00e9s das Nouvelles Messageries de la Presse Parisienne. Em Paris, \u00e9 vendido directamente no mercado do boulevard Richard Lenoir e na porta de Clichy, e a partir do n\u00b0 4 em v\u00e1rios quiosques e livrarias progressistas da capital, nomeadamente Maspero e L\u2019Herbe Rouge. Na periferia parisiense, o mercado de Villiers imp\u00f5e como principal polo de venda, onde chegam a ser vendidos mais de cem exemplares num mesmo dia, mas \u00e9 tamb\u00e9m vendido atrav\u00e9s do porta \u00e0 porta nas cidades de HLM habitadas por portugueses, nas festas associativas lusas, nos jogos de futebol, e de modo geral em locais de ajuntamentos de portugueses, como caf\u00e9s e clubes. Para al\u00e9m da regi\u00e3o de Paris, <em>O\u00a0Salto<\/em> \u00e9 distribu\u00eddo em Bourges, Li\u00e3o, Nantes e Grenoble. \u00c9 tamb\u00e9m difundido na B\u00e9lgica, na Holanda, na Alemanha, no Luxemburgo e no Reino-Unido, e partir de Setembro\/Outubro de 1973 na Su\u00e9cia, atrav\u00e9s da rede associativa ou dos comit\u00e9s de desertores. Os contactos com associa\u00e7\u00f5es exteriores \u00e0 Fran\u00e7a datam ainda do tempo do <em>Jornal do<\/em> <em>Emigrante<\/em>, nomeadamente com a associa\u00e7\u00e3o Resist\u00eancia e Trabalho, de Amsterd\u00e3o. O jornal estabelece com esta associa\u00e7\u00e3o uma estreita colabora\u00e7\u00e3o, mantendo-se est\u00e1vel durante todo o per\u00edodo de publica\u00e7\u00e3o do jornal (a cis\u00e3o ocorrer\u00e1 pouco antes da cessa\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o), levando \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de iniciativas culturais comuns. <\/p>\n\n\n\n<p>Introduzido clandestinamente em Portugal, <em>O Salto <\/em>\u00e9 vendido nas livrarias Barata, de Lisboa, e em Sacav\u00e9m; as associa\u00e7\u00f5es de estudantes ter\u00e3o contribu\u00eddo para a circula\u00e7\u00e3o do jornal em Portugal. <\/p>\n\n\n\n<p>O financiamento prov\u00e9m do produto da venda ao n\u00famero, das assinaturas (pouco antes do final da publica\u00e7\u00e3o contava com cerca de 200 assinantes), dos donativos de leitores e do lucro angariado atrav\u00e9s de festas organizadas pelo CJTPP, nas quais participam nomeadamente Tino Flores, Lu\u00eds C\u00edlia, Jos\u00e9 Maria Branco, Zeca Afonso (este considerado pelo <em>O Salto<\/em> como demasiado intelectual). Os fundos s\u00e3o, contudo, insuficientes para sustentar a publica\u00e7\u00e3o, levando a uma frequente mudan\u00e7a de tipografia.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Voca\u00e7\u00e3o federativa<\/h2>\n\n\n\n<p><em>O Salto <\/em>dedica particular aten\u00e7\u00e3o aos problemas da emigra\u00e7\u00e3o: den\u00fancia das condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho dos emigrantes, informa\u00e7\u00e3o e conselhos pr\u00e1ticos sobre os direitos no pa\u00eds de acolhimento, sobre os acordos de emigra\u00e7\u00e3o, ou ainda sobre a situa\u00e7\u00e3o das mulheres emigradas. <\/p>\n\n\n\n<p>Apresentando-se como um jornal antifascista e anticapitalista, procura alertar contra os \u201cagentes do fascismo na emigra\u00e7\u00e3o, ou seja, as estruturas de enquadramento da col\u00f3nia pelo regime portugu\u00eas (consulados, bancos), e sensibilizar para a explora\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o v\u00edtimas os trabalhadores portugueses. Considerando que os problemas da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa s\u00e3o transversais \u00e0s v\u00e1rias col\u00f3nias estabelecidas na Europa, <em>O Salto<\/em>, atrav\u00e9s do MTPE, fundado em Fevereiro de 1972, procura ser uma estrutura federativa das associa\u00e7\u00f5es e um instrumento para a unidade da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa nos v\u00e1rios pa\u00edses da Europa ocidental. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow\">\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-5 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"424\" height=\"641\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-n\u00b014-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3065\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-n\u00b014-2.jpeg 424w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-n\u00b014-2-198x300.jpeg 198w\" sizes=\"(max-width: 424px) 100vw, 424px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\"><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\">O MTPE re\u00fane uma dezena de associa\u00e7\u00f5es em Fran\u00e7a, em particular na regi\u00e3o parisiense, assim como no exterior, entre as quais a associa\u00e7\u00e3o Resist\u00eancia e Trabalho de Amsterd\u00e3o(<em>Novo Rumo<\/em>, jornal editado por esta associa\u00e7\u00e3o vir\u00e1 a fusionar com <em>O\u00a0Salto<\/em>), o Centro Cultural e Recreativo de Bruxelas, a Liga Portuguesa de Ensino de Londres, Associa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria 1\u00b0 de Maio de Estugarda, o Centro Cultural de Neuss, e o Clube dos Trabalhadores Portugueses de Dusseldorf.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Iniciativas culturais<\/h2>\n\n\n\n<p>A dinamiza\u00e7\u00e3o cultural assume desde o in\u00edcio do jornal papel fundamental como meio de politiza\u00e7\u00e3o da emigra\u00e7\u00e3o. \u00c9 neste contexto que o jornal, organiza sess\u00f5es culturais, que conjugam a apresenta\u00e7\u00e3o de filmes, de pe\u00e7as de teatro, de espect\u00e1culos musicais, e interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sob a forma de testemunhos. Algumas destas sess\u00f5es resultam na publica\u00e7\u00e3o de suplementos nomeadamente sobre Angola e a Guin\u00e9-Bissau (este enquanto suplemento do n\u00b0 20). O teatro tido pelo jornal como \u201ca arte que melhor serve o povo\u201d \u00e9 um dos meios por excel\u00eancia da dinamiza\u00e7\u00e3o cultural. Nos in\u00edcios de 1971, a pe\u00e7a \u201cO Emigrante\u201d, escrita por elementos do CJTPP, na qual s\u00e3o analisadas as causas da emigra\u00e7\u00e3o clandestina e a deser\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o militar, \u00e9 apresentada em Nantes, Amsterd\u00e3o e Bruxelas. O jornal apoia ainda a forma\u00e7\u00e3o do coro do CJTPP para difus\u00e3o de m\u00fasica popular.<\/p>\n\n\n\n<p>A principal iniciativa organizada pelo <em>O Salto<\/em> em conjunto com o MTPE s\u00e3o os Jogos Florais, que se realizam de 9 a 11 de Junho de 1973, na Cartoucherie de Vincennes, e que re\u00fanem cerca de 5 mil pessoas. A ideia ascende a Fevereiro de 1973, no momento da constitui\u00e7\u00e3o do MPTE, como meio de promo\u00e7\u00e3o da cultura popular e do desporto no seio da emigra\u00e7\u00e3o e como estrat\u00e9gia para o desenvolvimento do movimento associativo e implanta\u00e7\u00e3o do jornal no seio deste. A campanha de divulga\u00e7\u00e3o dos Jogos Florais come\u00e7a no n\u00b0 9, de Abril de 1972, com a abertura de uma nova rubrica na qual se discute o que \u00e9 a cultura popular que <em>O Salto <\/em>op\u00f5e \u00e0 cultura burguesa, esta identificada com a burguesia liberal (e, por conseguinte, com a oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica), e \u00e0 qual atribui a inten\u00e7\u00e3o de querer desviar o povo da luta pol\u00edtica atrav\u00e9s de temas liter\u00e1rios sem rela\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e social. <em>O Salto<\/em> define a cultura popular como a forma de express\u00e3o dos prolet\u00e1rios na sua rela\u00e7\u00e3o com as massas, devendo reflectir os problemas do quotidiano de oper\u00e1rios e camponeses, pelo que a cultura popular \u00e9 para o jornal uma cultura de classe. <\/p>\n\n\n\n<p>Numerosas associa\u00e7\u00f5es marcam presen\u00e7a nos Jogos Florais, que revestem o aspecto de festa popular com bailes, interven\u00e7\u00e3o de cantores e quermesse; a ag\u00eancia noticiosa do PCP-ml, Novaport, organisa uma exposi\u00e7\u00e3o sobre a imprensa oper\u00e1ria. As modalidades a concurso s\u00e3o o teatro, a recita\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica e can\u00e7\u00e3o popular, a literatura, o cinema e fotografia, e o desporto. Um pr\u00e9mio especial, UTPE-Solidariedade, \u00e9 atribu\u00eddo ao filme \u201cLaureta et les autres\u201d, de Dominique Danton, sobre a luta de Laureta da Fonseca contra a destrui\u00e7\u00e3o do bairro de lata de Massy, na categoria de melhor obra estrangeira sobre o povo portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Duas circulares<\/h2>\n\n\n\n<p>A luta contra as circulares Marcellin-Fontanet, em 1972, assume particular visibilidade no jornal.\u00a0 Face ao aumento do desemprego, o governo franc\u00eas refor\u00e7a a repress\u00e3o contra os estrangeiros em situa\u00e7\u00e3o irregular atrav\u00e9s de duas circulares que visam regular a entrada e a estadia dos estrangeiros em Fran\u00e7a, e cujo objectivo \u00e9 limitar a imigra\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da altera\u00e7\u00e3o das regras de atribui\u00e7\u00e3o dos t\u00edtulos de estadia, impondo como condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u00e0 entrada em Fran\u00e7a a apresenta\u00e7\u00e3o de um contrato de trabalho e a obten\u00e7\u00e3o de um alojamento. <em>O Salto<\/em> implica-se na campanha em favor da retirada das circulares Marcellin-Fontanet, levada a cabo atrav\u00e9s do MPTE. Este organiza sess\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o nas associa\u00e7\u00f5es, publica artigos nos jornais associativos, e solidariza-se com a luta conduzida por Ant\u00f3nio Silva, oper\u00e1rio portugu\u00eas na f\u00e1brica da Renault, com dois outros companheiros n\u00e3o portugueses, que iniciam uma greve da fome como forma de protesto contra as circulares. <\/p>\n\n\n\n<p>Diversas manifesta\u00e7\u00f5es contra as circulares s\u00e3o organizadas por estruturas de apoio aos imigrados. Face \u00e0 amplitude da reac\u00e7\u00e3o, o governo franc\u00eas temporiza na aplica\u00e7\u00e3o das circulares, adiando a entrada em vigor, mas recusando a sua retirada. Ap\u00f3s a entrada em vigor das circulares, o apoio do <em>O Salto<\/em> aos trabalhadores clandestinos passa pela ajuda \u00e0 regulariza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da publica\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o sobre os sectores recrutadores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Asilo e deser\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>A guerra colonial e a falta de prote\u00e7\u00e3o de que gozam os desertores nos pa\u00edses de emigra\u00e7\u00e3o, que os deixa numa situa\u00e7\u00e3o de grande vulnerabilidade, \u00e9 um tema que assume particular relev\u00e2ncia nas p\u00e1ginas de <em>O Salto<\/em>. Desde o primeiro n\u00famero, o jornal discute a guerra colonial, a deser\u00e7\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o nas col\u00f3nias e os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o, apoiando a deser\u00e7\u00e3o sem, contudo, apelar a uma forma concreta. <\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o dos desertores na Holanda, acusada de n\u00e3o respeitar as disposi\u00e7\u00f5es da conven\u00e7\u00e3o de Genebra, de 1951 sobre o direito de asilo, \u00e9 particularmente seguida pelo <em>O Salto<\/em>, que faz a cobertura da semana de Portugal na Holanda, organiza entre 27 de Mar\u00e7o e 3 de Abril de 1972 a associa\u00e7\u00e3o Resist\u00eancia e Trabalho para chamar a aten\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica holandesa. <\/p>\n\n\n\n<p>Em Junho de 1972, encontram-se refugiados na Holanda, por raz\u00f5es pol\u00edticas, cerca de 600 jovens dos quais apenas duas dezenas obtiveram o estatuto de refugiado pol\u00edtico. A dificuldade de obten\u00e7\u00e3o deste estatuto \u00e9 interpretada como uma clara descrimina\u00e7\u00e3o dos portugueses relativamente aos refugiados da Europa de Leste, que n\u00e3o t\u00eam dificuldade em obt\u00ea-lo. Se em Fran\u00e7a a situa\u00e7\u00e3o dos desertores e refract\u00e1rios n\u00e3o representa um problema de maior at\u00e9 ao acordo franco-portugu\u00eas de 1971, atrav\u00e9s do recurso ao estatuto de imigrante econ\u00f3mico, a situa\u00e7\u00e3o altera-se ap\u00f3s esta data, come\u00e7ando a emergir neste pa\u00eds os comit\u00e9s de desertores, como meio de fazer press\u00e3o sobre a administra\u00e7\u00e3o francesa e a opini\u00e3o p\u00fablica para o reconhecimento do estatuto de refugiado pol\u00edtico a esta categoria de portugueses. Em liga\u00e7\u00e3o com <em>O\u00a0Salto<\/em> e o PCP-ml \u00e9 formado o Comit\u00e9 de Apoio aos Desertores e refract\u00e1rios portugueses em Fran\u00e7a, que publica <em>A Voz do Desertor<\/em> e mant\u00e9m uma perman\u00eancia em Paris (127 rue S. Maur et 174 rue de Champerret).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide columns-2 is-cropped wp-block-gallery-7 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"459\" height=\"640\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl1.png\" alt=\"\" data-id=\"3057\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl1.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=3057\" class=\"wp-image-3057\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl1.png 459w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl1-215x300.png 215w\" sizes=\"(max-width: 459px) 100vw, 459px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"460\" height=\"640\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl2.png\" alt=\"\" data-id=\"3058\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl2.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=3058\" class=\"wp-image-3058\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl2.png 460w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/O-Salto-supl2-216x300.png 216w\" sizes=\"(max-width: 460px) 100vw, 460px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Liberta\u00e7\u00e3o das col\u00f3nias<\/h2>\n\n\n\n<p><em>O Salto<\/em> solidariza-se com os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o das col\u00f3nias portuguesas, denunciando os massacres cometidos pelo ex\u00e9rcito colonial e informando sobre o avan\u00e7o dos confrontos nas tr\u00eas frentes de guerra. O jornal colabora com a F\u00e9d\u00e9ration des \u00c9tudiants de l\u2019Afrique Noire en France (FEANF), nomeadamente em Mar\u00e7o de 1971 na organiza\u00e7\u00e3o da sess\u00e3o comemorativa do 10\u00b0&nbsp;anivers\u00e1rio do levantamento em Angola, para a qual s\u00e3o convidados os v\u00e1rios movimentos de liberta\u00e7\u00e3o das col\u00f3nias portuguesas, mas em que apenas a UNITA se faz representar, e por ocasi\u00e3o do assassinato de Am\u00edlcar Cabral na promo\u00e7\u00e3o um encontro de estudantes na Casa da Tun\u00edsia, na Cidade Universit\u00e1ria Internacional. Em Fevereiro 1974, <em>O Salto <\/em>lan\u00e7a uma campanha de angaria\u00e7\u00e3o de fundos para a compra de uma ambul\u00e2ncia para a Rep\u00fablica da Guin\u00e9-Bissau, cuja independ\u00eancia tinha sido proclamada em Setembro de 1973 pelo PAIGC.<\/p>\n\n\n\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de Abril d\u00e1 ainda origem a um n\u00famero especial, com data de 26 de Abril, mas o n\u00facleo fundador do jornal regressa pouco depois a Portugal pelo que o \u00faltimo n\u00famero de <em>O Salto, <\/em>com data de Junho-Julho de 1974, \u00e9 j\u00e1 editado por um outro comit\u00e9 de reda\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m de que pouco antes da Revolu\u00e7\u00e3o d\u00e1-se uma nova cis\u00e3o dando origem \u00e0s fac\u00e7\u00f5es Mendes e Vilar, que se constituem em partidos distintos. A nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em Portugal e o regresso ao pa\u00eds dos jovens exilados deixa temporariamente \u00f3rf\u00e3 a imprensa militante portuguesa em Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignwide has-background-dim-20 has-background-dim is-position-center-center\" style=\"background-image:url(http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/ana-climaco.png);min-height:375px;background-position:40% 26%\"><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-text-align-center has-text-color\" style=\"color:#fffffa;font-size:74px;line-height:1.1\"><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>Cristina Cl\u00edmaco Pereira \u00e9 doutorada em Hist\u00f3ria das Sociedades Ocidentais pela Universit\u00e9 de Paris 7 Denis Diderot, investigadora, colabora com o Instituto de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da Universidade Nova de Lisboa e do CEIS 20 da Universidade de Coimbra. <\/p>\n\n\n\n<p><em>Ilustra\u00e7\u00f5es, \u00a9fonte autora<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SEM FRONTEIRAS | 23 de fevereiro 2021 | Dossi\u00ea Imprensa Clandestina e do ex\u00edlio |&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3059,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[5,174],"tags":[175],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO.png",1292,721,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO-300x167.png",300,167,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO-768x429.png",640,358,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO-1024x571.png",640,357,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO.png",1292,721,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO.png",1292,721,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO.png",1115,622,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO.png",800,446,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO.png",1024,571,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO.png",540,301,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/SALTO_CRISTINA-CLIMACO.png",400,223,false]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/memorias-vivas\/centro-documentacao\/\" rel=\"category tag\">CENTRO DOCUMENTA\u00c7\u00c3O<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/especial-sf\/dossies\/\" rel=\"category tag\">DOSSI\u00caS<\/a>","tag_info":"DOSSI\u00caS","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3053"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3053"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3068,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3053\/revisions\/3068"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3059"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}