{"id":3087,"date":"2021-02-25T23:33:28","date_gmt":"2021-02-25T23:33:28","guid":{"rendered":"http:\/\/aep61-74.org\/?p=3087"},"modified":"2021-02-27T08:31:30","modified_gmt":"2021-02-27T08:31:30","slug":"dossie-ice-o-alarme-visto-por-dentro-ou-a-anatomia-do-rastilho-de-grenoble","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2021\/02\/25\/dossie-ice-o-alarme-visto-por-dentro-ou-a-anatomia-do-rastilho-de-grenoble\/","title":{"rendered":"DOSSI\u00ca ICE |  O Alarme visto por dentro, ou a anatomia do rastilho de Grenoble"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>SEM FRONTEIRAS <\/strong><\/span>| 25 de fevereiro 2021 | Dossi\u00ea Imprensa clandestina e do ex\u00edlio |<strong> O Alarme (I)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O jornal \u201cO Alarme\u201d, de linguagem simples e&nbsp; directa foi um exemplo original na emigra\u00e7\u00e3o, pela sua concep\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o, e conte\u00fado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>por Manuel Branco<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cAgora que andam por a\u00ed salazares empalhados, sujeitos que se alimentam no chafurdo da indignidade para se arvorarem em salvadores pol\u00edticos, lendo aos seus apaniguados o catecismo do \u00f3dio e da intoler\u00e2ncia, amea\u00e7ando uns e tentando agredir outros, apetece, mais do que nunca quando a demagogia e a mentira andam \u00e0 solta, evocar os tempos ominosos de um pa\u00eds amorda\u00e7ado e nessa evoca\u00e7\u00e3o gritar: viva a liberdade !&#8230;.\u201d, &nbsp;<\/em>palavras recentes do meu amigo Fernando Paulouro que ilustram o que aqui nos traz. <\/p>\n\n\n\n<p>Assistimos ao renascer de uma ideologia que conhecemos no passado com a qual a nova gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o lidou. Assistimos a uma tentativa de agrupar antigos pidescos fascistas, novos racistas e xen\u00f3fobos, indiv\u00edduos machistas, pessoal sem escr\u00fapulos nem racioc\u00ednios de solidariedade ou altru\u00edsmo e no meio disto muita gente do povo enganada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Lobos e cordeiros<\/h2>\n\n\n\n<p>A facilidade como estas ideias recome\u00e7am de novo, procurando penetrar e dividir a sociedade, metendo medo, procurando atrair os mais pobres e mais vulner\u00e1veis, todos quantos&nbsp; a sociedade vai deixando de lado, procurando o caos para se irem afirmando como os \u00fanicos capazes de instaurar a estabilidade, n\u00e3o nos podem deixar indiferentes. Aludem ser a solu\u00e7\u00e3o para o descontentamento e o desgaste do cidad\u00e3o face \u00e0s falcatruas e desvios de dinheiros p\u00fablicos a que vamos assistindo com relativa impunidade. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas a hist\u00f3ria est\u00e1 cheia destes exemplos come\u00e7am como cordeiros, e acabam como lobos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para essa ventura j\u00e1 demos&nbsp; que chega durante quase meio s\u00e9culo e cabe-nos hoje a imperiosa responsabilidade de debater, elucidar, ouvir e agir.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 61\/74, perto de um milh\u00e3o de portugueses (Fran\u00e7a), para fugir \u00e0 fome,  decidiu procurar noutros pa\u00edses da Europa condi\u00e7\u00f5es e sustento para viver e educar os seus filhos. No ex\u00edlio, muitos deles decidiram combater o regime fascista e a guerra colonial, dando tudo por tudo para acabar com a situa\u00e7\u00e3o desastrosa de analfabetismo&nbsp; e mis\u00e9ria que o pais vivia. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Falar do exemplo de lutas e organiza\u00e7\u00e3o que tantos de n\u00f3s adopt\u00e1mos para combater os anos cinzentos do fascismo aqui, ou no ex\u00edlio, pode ser uma alavanca para nos ajudar a estoirar na raiz tudo quanto possa criar divis\u00e3o, \u00f3dio, arrog\u00e2ncia e ataques pessoais no seio do povo e abrir caminho a novas ideais fascistas. Portugal que tanta gente envio para o ex\u00edlio e portugueses que foram acolhidos por essa Europa fora n\u00e3o pode esquecer hoje aqueles que procuram ex\u00edlio em Portugal<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Como nasceu<\/strong> <strong>o jornal \u201cO ALARME\u201d<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Grenoble nos anos 61\/74<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Unidade, solidariedade, organiza\u00e7\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Maio de 1968 prolongou-se em Grenoble e em1972 a conjuntura pol\u00edtica e militante era propicia para a nossa iniciativa, o meio estudantil continuava com uma certa efervesc\u00eancia, Grenoble tinha um presidente da c\u00e2mara , Hubert Dubedout, humanista e vision\u00e1rio, um grupo de franceses tinha criado o jornal V\u00e9rit\u00e9 Rh\u00f4ne-Alpes (VRA) para apoiar as lutas e contrapor a informa\u00e7\u00e3o que o Dauphin\u00e9 Lib\u00e9r\u00e9 ( do grupo Hersant) ia deturpando.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem grandes meios, sem jornalistas, sem publicidade, sem apoios outros que a venda do jornal, partindo da for\u00e7a de vontade e de um ideal de acabar com o regime&nbsp; fascista de Salazar e com a Guerra Colonial um punhado de jovens lan\u00e7aram-se numa aventura de que n\u00e3o mediram na altura o impacto.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos fins dos anos 71, t\u00ednhamos conseguido uma sala para o trabalho associativo que a C\u00e2mara de Saint Martin d\u2019H\u00e8res nos emprestou e&nbsp; em 1972 era criada a Associa\u00e7\u00e3o Franco-Portuguesa de Grenoble com sede na rua Marcel Peretto. Estes dois locais&nbsp; passaram a ser o centro de todas as actividades&nbsp;; folclore, baile, bar, organiza\u00e7\u00e3o de excurs\u00f5es, teatro, projec\u00e7\u00e3o de filmes,&nbsp; jogos de futebol, discuss\u00f5es, cinema, piqueniques, agita\u00e7\u00e3o permanente..\u2026 A ideia era sempre a mesma, passar dos problemas de cada um, transform\u00e1-los em problema colectivo e mobilizar os trabalhadores. A atividade desenvolvida nos bairros em Grenoble, Fontaine, \u00c9chirolles, Saint Martin d\u2019H\u00e8res crescia, era preciso ir mais longe, unificar todo este trabalho, alargar a nossa influ\u00eancia junto da emigra\u00e7\u00e3o, levar as nossas ideias a outras terras, fazer participar novos emigrantes .<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa altura certamente a minha proximidade com o \u00ab&nbsp;Jornal do Fund\u00e3o&nbsp;\u00bb nos anos 60, levou-me a pensar na cria\u00e7\u00e3o dum Jornal popular de massas que abrisse uma brecha no obscurantismo ambiente, (&#8220;O Correio Portugu\u00eas&#8221; pago pelo governo atrav\u00e9s dos consulados e &#8220;O Portugal Popular&#8221; pago pelos Bancos), que encorajasse os trabalhadores na luta contra o regime fascista e a Guerra Colonial.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A primeira reuni\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>A primeira reuni\u00e3o para lan\u00e7ar a ideia e discutir da necessidade de um Jornal teve lugar numa sala da Associa\u00e7\u00e3o Franco-Portuguesa de Grenoble (AFPG) no dia 7 de Junho de 1972. Estavam presentes uns 30 trabalhadores, cito de mem\u00f3ria ( Agostinho, Ant\u00f3nio Oliveira, Ant\u00f3nio e Teresa&nbsp; (Pedrinhas), J\u00falio (de Viana), Chico (da Croix du P\u00e2tre), Shirrah (falecida em 2014), Teresa Couto, Cruz, Ilda, Merita Andrade, Z\u00e9 Carlos Perdig\u00e3o, Godinho, Z\u00e9 Chaves, Christiane, Esteves, Chaves (o Louro-falecido em 2014),Toni (da mota), Nogueira (oper\u00e1rio da SDEM), Gomes (o barbas), Guedes, Merend\u00e3o, Sim\u00f5es, Coelho e mulher, Faria, Manuel Branco entre outros. A ideia foi discutida e bem aceite mas como fazer ? &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"770\" height=\"554\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/3-fundadores.png\" alt=\"\" data-id=\"3088\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/3-fundadores.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=3088\" class=\"wp-image-3088\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/3-fundadores.png 770w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/3-fundadores-300x216.png 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/3-fundadores-768x553.png 768w\" sizes=\"(max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">Tr\u00eas fundadores do jornal O Alarme  | 43 anos depois<br>Merita Andrade (esq.) Manuel Branco (centro) e Teresa Couto (dir.)<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p>Uma certa ousadia, uma aventura que arranca do nada a n\u00e3o&nbsp; ser a vontade e a determina\u00e7\u00e3o de um punhado de homens e mulheres. N\u00e3o havia tipografia, nem dinheiro nem jornalistas que diabo \u00edamos n\u00f3s fazer ?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Michel de Sigoyer (Michel Sigo), respons\u00e1vel do jornal VRA, amigo e camarada de sempre, com quem trabalh\u00e1vamos h\u00e1 v\u00e1rios anos, aceita a ideia que o nosso jornal seja um suplemento do \u00ab&nbsp;V\u00e9rit\u00e9 Rh\u00f4ne-Alpes-(VRA)\u00bb. A emigra\u00e7\u00e3o local era na maioria oriunda do tri\u00e2ngulo; Braga-Guimar\u00e3es-Pevid\u00e9m. Era uma emigra\u00e7\u00e3o rural, sem h\u00e1bitos de leitura, com pouco tempo para ler, e alguns analfabetos, lembramos que 25,7% da popula\u00e7\u00e3o com mais de 10 anos era analfabeta. Nessa altura o jornal era local e tinha de captar estes poss\u00edveis leitores.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00ednhamos receio que a PIDE rodasse por a\u00ed&#8230;( o que se veio a provar depois do 25 de Abril) , era necess\u00e1rio uma redac\u00e7\u00e3o&nbsp; clandestina e assim foi.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma reda\u00e7\u00e3o no apartamento<\/h2>\n\n\n\n<p>A equipa viria a evoluir no tempo, mas Z\u00e9 Chaves, Shirrah Hurwicz, Merita Andrade, Teresa Couto e Manuel Branco s\u00e3o os iniciadores da obra, de seguida integraram o projecto, o Esteves, o Asdr\u00fabal, o Guedes, etc&#8230;&nbsp; se a memoria n\u00e3o me atrai\u00e7oa.<\/p>\n\n\n\n<p>A redac\u00e7\u00e3o re\u00fane-se pela primeira vez em meados de Junho de 1972, no r\u00e9s do ch\u00e3o de um pequeno apartamento habitado pelo Z\u00e9 Chaves e a Shirrah, num bairro popular (\u201cLa Plaine\u201d em Saint Martin d\u2019H\u00e8res) nos arredores de Grenoble. O ambiente relacional come\u00e7a a definir-se assim como a ocupa\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica do local, sabemos que ao fim de cada reuni\u00e3o tudo deve ficar arrumado e limpo, dado que o espa\u00e7o da redac\u00e7\u00e3o se transforma em habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7a a nossa aprendizagem de redactores, compositores, revisores e por a\u00ed fora&#8230;.era um trabalho artesanal. A composi\u00e7\u00e3o tinha de obedecer ao formato definido com o tip\u00f3grafo, Michel Sigo . V\u00e1rios t\u00edtulos andam na baila mas acabamos por escolher \u201cO ALARME\u201d parecia evidente, quer\u00edamos alarmar e animar a malta&#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as tarefas, cada um deita a m\u00e3o ao que melhor sabe fazer. A Shirrah, met\u00f3dica e persistente o seu forte era a maquina de escrever&nbsp; e a Merita, com o seu sotaque Madeirense e sempre sorridente depressa se imp\u00f4s para a revis\u00e3o das provas. O ambiente das reuni\u00f5es repete-se regularmente; em cima da mesa um amontoado de pap\u00e9is, e da cafeteira da cozinha ia chegando o cheiro do caf\u00e9. A Shirrah \u00e9 mais pelo ch\u00e1, outros era a cervejinha fresca. Dos cinco comparsas iniciais ningu\u00e9m fumava o que j\u00e1 era bom para o ambiente fechado em que trabalh\u00e1vamos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-3 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"709\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/teclas-do-1024x709.png\" alt=\"\" data-id=\"3089\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/teclas-do.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=3089\" class=\"wp-image-3089\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/teclas-do-1024x709.png 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/teclas-do-300x208.png 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/teclas-do-768x532.png 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/teclas-do.png 1364w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">A m\u00e1quina de escrever do Alarme<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 fotocopiadora, os t\u00edtulos s\u00e3o feitos \u00e0 m\u00e3o com uma caneta de feltro, esferogr\u00e1fica&nbsp; ou com \u201cLettra set\u201d, o que tentamos evitar por ser muito caro. Temos uma pequena maquina de escrever port\u00e1til, papel, uma borracha, um tubo de cola, uma tesoura, uma r\u00e9gua , um esquadro, uns l\u00e1pis, umas canetas de feltro preto, o \u201cLiquid Paper\u201d e o \u201dTypewriter\u201d para as correc\u00e7\u00f5es e pouco mais&#8230;&#8230;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Colunas de 7,5 cm<\/h2>\n\n\n\n<p>&nbsp;A tesoura est\u00e1 preparada para os recortes e o tubo da cola aberto. A campainha da porta n\u00e3o vai tocar, o grupo chegava sempre a horas. L\u00e1 fora a noite j\u00e1 aperta mas \u00e9 sempre assim todos trabalham de dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante as primeiras semanas do m\u00eas recuperam-se as informa\u00e7\u00f5es, ilustra\u00e7\u00f5es, fotos, cartas que chegam etc&#8230; a ultima semana \u00e9 para fazer a maqueta e levar \u00e0 tipografia. O jornal deve estar pronto s\u00e1bado para ser distribu\u00eddo no primeiro Domingo de cada m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Shirrah logo que tinha algum tempo livre ia transcrevendo \u00e0 m\u00e1quina para avan\u00e7ar o trabalho, como n\u00e3o podia cortar e colar&nbsp; como estou a fazer ao escrever estas linhas, as novas tecnologias ainda n\u00e3o tinham chegado, quando se enganava numa ou duas letras apagava com o corrector branco e esperava que secasse e quando o erro era maior recome\u00e7ava tudo de novo. Tudo tinha de ser escrito em colunas de 7,5 cm para nos permitir uma pagina\u00e7\u00e3o a 3 colunas no formato definido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Caixa de correio emprestada<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas voltamos \u00e0 composi\u00e7\u00e3o do jornal. O Z\u00e9 Chaves, homem eficaz e de poucas falas, era <em>\u201chomem\u201d para toda a colher<\/em>, deitava a m\u00e3o a tudo, recuperava as cartas em casa de um amigo nos arredores de Grenoble que nos emprestava a sua caixa do correio.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos podiam dar a sua opini\u00e3o. Quais os artigos que pareciam mais importantes para a primeira p\u00e1gina? que titulo vamos dar a este artigo ? o&nbsp; que nos parece mais oportuno para o as noticias do m\u00eas ? . Quando as escolhas eram dif\u00edceis, a opini\u00e3o do autor destas linhas improvisado redactor\/paginador era uma voz respeitada, e a Teresa, sempre atenta \u00e0 defesa dos direitos das mulheres e contra o machismo, n\u00e3o deixava passar nada, ia cortando e colando ao meu lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por vezes a maqueta de ume p\u00e1gina estava quase acabada quando nos aperceb\u00edamos que o texto n\u00e3o cabia nela e que sobravam duas linhas para a p\u00e1gina seguinte, impunha-se reduzir o texto o que por vezes implicava escrever tudo de novo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pela noite fora, quando j\u00e1 \u00e9 a segunda vez que a tesoura corta uma linha errada do texto, ou que se colou no meio da coluna a parte do texto que deveria ir no final&#8230; ou que por vezes o titulo tinha sido colado fora do sitio&#8230; ou que o texto aparecia com uma palavra repetida&#8230;&#8230;eram enganos a dar sinal de fadiga.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-5 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"446\" height=\"599\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/ALARME-1.png\" alt=\"\" data-id=\"3090\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/ALARME-1.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=3090\" class=\"wp-image-3090\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/ALARME-1.png 446w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/ALARME-1-223x300.png 223w\" sizes=\"(max-width: 446px) 100vw, 446px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Era como dar \u00e0 luz um rec\u00e9m nascido<\/h2>\n\n\n\n<p>Cada reuni\u00e3o era um momento de conv\u00edvio, troca de impress\u00f5es leitura do material recebido, gargalhadas e ansiedade pelo jornal que ia sair. A sa\u00edda de cada numero era uma alegria imensa&nbsp;, era como dar \u00e0 luz um rec\u00e9m nascido. O problema \u00e9 que n\u00e3o t\u00ednhamos 9 meses para realizar o pr\u00f3ximo. Ia o jornal para a tipografia e j\u00e1 est\u00e1vamos a preparar o seguinte. <\/p>\n\n\n\n<p>O Jornal apoiava-se na tipografia de \u00ab&nbsp;La Monta&nbsp;\u00bb e Michel de Sigoyer (falecido em 2002 numa \u00ab&nbsp;avalanche&nbsp;\u00bb) foi o tip\u00f3grafo militante sem falhas&nbsp; que nos acompanhou desde o primeiro numero. Comprometeu-se a imprimir o Jornal para o 1\u00b0 Domingo de cada m\u00eas, com a excep\u00e7\u00e3o do m\u00eas de Agosto. O Z\u00e9 Chaves assegurava a liga\u00e7\u00e3o com a tipografia que estava situada num local semi-clandestino em St. Egr\u00e8ve (perto de Grenoble). O Jornal era pago com as vendas e nunca havia atrasos nos pagamentos. \u00c9 interessante ler as contas do jornal publicadas no n\u00b02 <em>&#8220;\u2026 total dos jornais vendidos 302 Fr. (o jornal era vendido a 1Fr.) O n\u00b01 custou (despesas de impress\u00e3o, tinta, papel etc.) 272 Fr\u2026..restam em caixa 30Fr &#8221; . <\/em>&nbsp;Isto quer dizer que desde o n\u00b0 1 o jornal sempre viveu unicamente das vendas, sem recurso a publicidade e nunca havia atrasos nos pagamentos. Ap\u00f3s a sa\u00edda e o sucesso do&nbsp; primeiro numero a 30 de Julho de 1972 foi necess\u00e1rio estruturar a distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os ardinas<\/h2>\n\n\n\n<p>Foram criados respons\u00e1veis por sector e cada sector organizava grupos de \u00ab&nbsp;ardinas&nbsp;\u00bb. Em fun\u00e7\u00e3o do local de habita\u00e7\u00e3o \u201cos ardinas\u201d decidiam onde iam vender o jornal. No primeiro domingo de cada m\u00eas o jornal sa\u00eda para a rua, para os bairros, para os mercados etc\u2026.Cada grupo definia as palavras de ordem que queria utilizar, lembro-me por exemplo no mercado da Abbaye gritavam <em>\u201ccomprem O ALARME\u201d, o jornal que fala mal dos patr\u00f5es !.\u201d.&nbsp; <\/em>O primeiro domingo do m\u00eas era reservado &nbsp;para a regi\u00e3o, nos domingos seguintes havia grupos que partiam para mais longe, Chambery, Annecy, Lyon, Gen\u00e8ve etc..&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na regi\u00e3o n\u00e3o t\u00ednhamos grandes problemas nas vendas com poss\u00edveis opositores, mas por exemplo na regi\u00e3o de Paris por vezes havia confrontos dif\u00edceis ao ponto que certos militantes franceses vinham dar a m\u00e3o aos ardinas do Alarme. Geralmente havia 3 ou 4 ardinas por grupo o que permitia entrar em conversa acesa com os trabalhadores e dar resposta ao&nbsp; questionamento; <em>\u201c&#8230;quem faz o jornal ?..\u201d, \u201c..para onde vai o dinheiro das vendas ? \u201d, \u201d.. porque \u00e9 que voc\u00eas s\u00e3o contra os patr\u00f5es..?\u201d, \u201c..eu fiz a guerra tive que gramar&#8230;porque \u00e9 que voc\u00eas s\u00e3o contra&#8230;?\u201d, \u201cvoc\u00eas deviam era falar do meu patr\u00e3o..\u201d<\/em> . Procur\u00e1vamos sempre angariar ideias, testemunhos, contactos para alargarmos a nossa influ\u00eancia. Qualquer escrito, desenho, carta ou recorte de jornais eram sempre mat\u00e9ria preciosa a recuperar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-7 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"646\" height=\"464\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/teresa-e-o-alrme-1.png\" alt=\"\" data-id=\"3097\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/teresa-e-o-alrme-1.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/?attachment_id=3097\" class=\"wp-image-3097\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/teresa-e-o-alrme-1.png 646w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/teresa-e-o-alrme-1-300x215.png 300w\" sizes=\"(max-width: 646px) 100vw, 646px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">Teresa Couto, fundadora do ALARME<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O equivalente da assinatura em selo<\/h2>\n\n\n\n<p>Pouco a pouco procur\u00e1vamos criar respons\u00e1veis noutras cidades para distribuir e recolher informa\u00e7\u00f5es. A partir do n\u00b0 3 de Novembro de 1972, lan\u00e7amos a ideia das assinaturas. Recordo-me com certa emo\u00e7\u00e3o quando um leitor que queria ser assinante nos enviou o equivalente da assinatura em selos. O jornal crescia, receb\u00edamos cartas, chegavam assinantes, as vendas e as tiragens aumentavam de numero para numero. O jornal era pago exclusivamente com as vendas (1 Franco), sempre recusamos a publicidade e logo no primeiro numero diz\u00edamos <em>\u00ab&nbsp;\u2026n\u00e3o queremos que os bancos, as empresas, os patr\u00f5es, os consulados, ou outros lacaios venham por a pata no nosso jornal\u2026.&nbsp;\u00bb<\/em>. Isto implicava que o n\u00famero de tiragens tinha de ser calculado sempre em fun\u00e7\u00e3o das vendas para n\u00e3o haver perdas&#8230; talvez a raz\u00e3o porque as colec\u00e7\u00f5es do Alarme s\u00e3o hoje t\u00e3o raras&#8230;.mas como era um menino querido dos militantes alguns nunca se desfizeram deles&nbsp;!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um Jornal para apoiar a luta dos trabalhadores, em Portugal e na imigra\u00e7\u00e3o, a recusa do fascismo e da guerra colonial, o trabalho associativo e a luta das mulheres.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Manuel Branco<\/strong>, editor do Alarme e colaborador permanente do SEM FRONTEIRAS<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-9 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"573\" src=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mbranco_SF-1024x573.png\" alt=\"\" data-id=\"3070\" data-full-url=\"http:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mbranco_SF.png\" data-link=\"http:\/\/aep61-74.org\/index.php\/2021\/02\/24\/agenda-exilio-anticolonialismo-guerra-colonial-e-ideias-fascistas-em-debate-em-sciences-po-toulouse\/mbranco_sf\/\" class=\"wp-image-3070\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mbranco_SF-1024x573.png 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mbranco_SF-300x168.png 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mbranco_SF-768x430.png 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mbranco_SF.png 1286w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Foto de destaque Merota Andrade, Manuel Branco e Teresa Couto, fundadores do Alarme \u00a9 Carlos Ribeiro<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SEM FRONTEIRAS | 25 de 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