{"id":3290,"date":"2021-03-24T17:39:26","date_gmt":"2021-03-24T17:39:26","guid":{"rendered":"https:\/\/aep61-74.org\/?p=3290"},"modified":"2021-03-24T17:39:28","modified_gmt":"2021-03-24T17:39:28","slug":"dossie-a-guerra-colonial-no-espaco-publico-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2021\/03\/24\/dossie-a-guerra-colonial-no-espaco-publico-ii\/","title":{"rendered":"DOSSI\u00ca |  A guerra colonial no espa\u00e7o p\u00fablico II"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>SEM FRONTEIRAS<\/strong><\/span> | 24 de mar\u00e7o 2021 | Dossi\u00ea Guerra Colonial &#8211; 20 anos depois | OPINI\u00c3O<\/p>\n\n\n\n<p>por <strong>Jorge Leit\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tenho presente na mem\u00f3ria uma fotografia de uma jovem mulher vestida de negro, com len\u00e7o negro que lhe cobre a cabe\u00e7a, rosto expressando dor e luto, ao mesmo tempo que um militar com posto de oficial superior lhe prende uma medalha na blusa negra. \u00c0 volta, ocupando a pra\u00e7a, numa posi\u00e7\u00e3o fronteiri\u00e7a, uma companhia militar fazendo parte do aparato que a circunst\u00e2ncia imp\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p>Nota-se, pela express\u00e3o de contrafeito e pela forma de vestir, que a jovem \u2013 esposa, irm\u00e3, noiva ou namorada de um jovem vitima da guerra \u2013 n\u00e3o vive na cidade onde a cerim\u00f3nia se realiza, e um pouco alheada do que se passa e constrangida l\u00e1 vai fazendo o papel que lhe coube. O Estado nunca lhe deve ter dado nada, s\u00f3 agora: na forma de uma medalha em troca de uma vida que lhe foi roubada. Sempre que vejo os monumentos em \u201c<strong>homenagem aos que serviram a p\u00e1tria no ultramar\u201d<\/strong> vem-me \u00e0 mem\u00f3ria a imagem desta jovem. Agora em vez das medalhas s\u00e3o os monumentos que tentam vincular a campanha militar nas col\u00f3nias com o imperativo da defesa da p\u00e1tria \u2013 e que este imperativo tem um pre\u00e7o, o <strong>\u201ctributo de sangue\u201d<\/strong>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Reflex\u00e3o sobre a guerra<\/h2>\n\n\n\n<p>Um monumento digno desse nome, dedicado \u00e0s vitimas portuguesas desses 13 anos de guerra deveria levar, a quem o contempla, \u00e0 reflex\u00e3o sobre a guerra nas col\u00f3nias e desencadear a auto-interroga\u00e7\u00e3o sobre a raz\u00e3o e sentido da morte e invalidez de milhares de jovens ao servi\u00e7o do ex\u00e9rcito do regime da altura. Infelizmente n\u00e3o \u00e9 isso que \u00e9 manifesto nesses monumentos que proliferam em todo o pa\u00eds, transparecendo em todos eles como seu fundamento, o de \u201c<strong>cumprir um acto de justi\u00e7a, de homenagem \u00e0queles que, como Combatentes, serviram Portugal no ex-Ultramar portugu\u00eas\u201d<\/strong> (*).<\/p>\n\n\n\n<p>Este lema \u00e9 um atavismo duma \u00e9poca que se julgava ultrapassada, e \u00e9 um reflexo da propaganda desses anos de guerra. Subsiste teimosamente a grande mentira, concebida e alimentada pelo regime fascista, de que a luta contra os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia nas col\u00f3nias era, por parte de Portugal, uma luta pela defesa da p\u00e1tria. Mas, como se sabe &#8230; nenhum militar foi para \u00c1frica defender a p\u00e1tria portuguesa. Procura-se uma justifica\u00e7\u00e3o para a morte de 8 mil jovens portugueses e s\u00f3 se encontra um sentido canhestro de participar numa guerra que n\u00e3o fazia desde o seu in\u00edcio nenhum sentido, imposta pelo caqu\u00e9tico, casmurro, pouco iluminado e relho de Santa Comba, juntamente com os seus ac\u00f3litos, muito deles com uniforme militar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Perpetuar um mito<\/h2>\n\n\n\n<p>Este reaparecimento deste tipo de discurso faz destes monumentos um eco do Estado Novo e da sua cren\u00e7a na justeza da guerra em \u00c1frica pela conserva\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio. Os monumentos inserem-se no conjunto de rituais, de discursos, e outras caracter\u00edsticas e pr\u00e1ticas&nbsp;&nbsp;culturais com que o regime fascista imaginava a na\u00e7\u00e3o. Estes conjuntos recriam a imagem mitol\u00f3gica fascista do car\u00e1cter de Portugal integrante com a sua miss\u00e3o de colonizador. Sem col\u00f3nias, Portugal n\u00e3o existe.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses monumentos, esses jovens mortos em \u00c1frica s\u00e3o representados como militares, sacrificados no <strong>\u201caltar da p\u00e1tria\u201d<\/strong> \u2013 \u00e9 essa, em s\u00edntese, a mensagem. N\u00e3o se tenta encontrar o indiv\u00edduo por detr\u00e1s da farda (A pe\u00e7a no Algarve de Vitor Guerreiro de Brito e Renato Silva, com tr\u00eas ef\u00edgies representando os tr\u00eas ramos das for\u00e7as armadas, n\u00e3o \u00e9 excep\u00e7\u00e3o). O pesar e sofrimento dos muitos milhares de familiares e amigos dessas vitimas \u00e9 passado ao largo. De facto, a mem\u00f3ria desses jovens como maridos, pais, filhos, irm\u00e3os, amigos, n\u00e3o \u00e9 respeitada. N\u00e3o \u00e9 isso que interessa. O que se pretende \u00e9 perpetuar o mito dos feitos impares dos portugueses quando militares e da heroicidade cont\u00ednua do ex\u00e9rcito portugu\u00eas, sejam os mesmos fundamentados ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">M\u00e3e com seu filho morto<\/h2>\n\n\n\n<p>Vendo-se todos estes monumentos, qu\u00e3o diferente \u00e9 a escultura de K\u00e4the Kollwitz \u201c<strong>M\u00e3e com seu filho morto\u201d<\/strong>, uma r\u00e9plica da qual, em grande formato e como mem\u00f3ria \u00e0s vitimas da guerra, se encontra no Neue Wache em Berlim. A obra original de Kollwitz de 1937 foi realizada por ocasi\u00e3o do anivers\u00e1rio da morte do seu filho Peter na Primeira Grande Guerra. E por isso mesmo, a narrativa \u00e9 outra, muito diferente da dos monumentos que pretendem fazer tributo \u00e0 mem\u00f3ria dos mortos na circunst\u00e2ncia de militares, n\u00e3o como seres humanos e individuais, com um passado pr\u00f3prio e com um futuro que lhes foi roubado.<\/p>\n\n\n\n<p>A a independ\u00eancia das col\u00f3nias era, mais tarde ou mais cedo, um facto inevit\u00e1vel, e com outro tipo de pessoas no governo de Portugal, com uma vis\u00e3o mais inteligente e menos m\u00edope, a independ\u00eancia das mesmas poderia ser obtida sem a guerra; o que leva a concluir que como resultado final e produto desta s\u00f3 houve uma coisa: s\u00f3 v\u00edtimas. Todas estas considera\u00e7\u00f5es, aqui expostas, conduzem \u00e0 inevit\u00e1vel e oportuna pergunta: <strong>quando \u00e9 que em Portugal se erigir\u00e1 um digno monumento \u00e0s V\u00cdTIMAS da guerras colonial? E que compreenda todas as v\u00edtimas: portuguesas e n\u00e3o portuguesas, militares e civis, mortos e feridos.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>(*) Liga dos Combatentes, MUSEU DO COMBATENTE &#8211; Forte do Bom Sucesso: Objectivos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Segundo a Liga dos Combatentes, a situa\u00e7\u00e3o do monumento no Forte do Bom Sucesso nas imedia\u00e7\u00f5es da Torre de Bel\u00e9m, \u00e9 um local muito apropriado, com \u201cGrande dignidade e tradi\u00e7\u00f5es \u00edmpares ligadas \u00e0 nossa epopeia do Ultramar\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignwide has-background-dim-20 has-background-dim is-position-center-center\" style=\"min-height:375px\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"492\" height=\"518\" class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-3292\" alt=\"\" src=\"https:\/\/aep61-74.org\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/jorge.png\" style=\"object-position:40% 26%\" data-object-fit=\"cover\" data-object-position=\"40% 26%\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/jorge.png 492w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/jorge-285x300.png 285w\" sizes=\"(max-width: 492px) 100vw, 492px\" \/><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-text-align-center has-text-color\" style=\"color:#fffffa;font-size:74px;line-height:1.1\"><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Jorge Leit\u00e3o<\/strong>, autor<\/p>\n\n\n\n<p>Foto de destaque |<strong> \u00a9 Jorge Leit\u00e3o | Interior do Neue Wache, Berlim, com a est\u00e1tua de K\u00e4the Kollwitz \u201cM\u00e3e com seu filho morto\u201d como mem\u00f3ria \u00e0s vitimas da guerra. Um lugar para reflex\u00e3o.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SEM FRONTEIRAS | 24 de mar\u00e7o 2021 | Dossi\u00ea Guerra Colonial &#8211; 20 anos depois&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3293,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5,99],"tags":[172,173],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge.png",674,376,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge-300x167.png",300,167,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge.png",640,357,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge.png",640,357,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge.png",674,376,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge.png",674,376,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge.png",674,376,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge.png",674,376,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge.png",674,376,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge.png",540,301,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/mae-jorge.png",400,223,false]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/memorias-vivas\/centro-documentacao\/\" rel=\"category tag\">CENTRO DOCUMENTA\u00c7\u00c3O<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a>","tag_info":"OPINI\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3290"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3290"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3290\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3295,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3290\/revisions\/3295"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}