{"id":3584,"date":"2021-06-26T11:03:24","date_gmt":"2021-06-26T11:03:24","guid":{"rendered":"http:\/\/aep61-74.org\/?p=3584"},"modified":"2021-10-05T12:13:17","modified_gmt":"2021-10-05T12:13:17","slug":"historia-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2021\/06\/26\/historia-e-politica\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria e pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Transcrevemos o texto publicado por Irene Pimentel no P\u00daBLICO sobre Hist\u00f3ria e Pol\u00edtica que alimenta o debate contra o populismo de forma consistente. A autora relembra, entre outras coisas, que &#8220;n\u00e3o cabe ao poder pol\u00edtico imiscuir-se na investiga\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica e dar uma vers\u00e3o oficial do passado&#8221;.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O actual populismo tem tend\u00eancia a fazer equivaler um historiador profissional que investiga com regras e m\u00e9todos cient\u00edficos e qualquer cronista que entra fortuitamente no campo complexo da Hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.publico.pt\/imagens.aspx\/803059?tp=UH&amp;db=IMAGENS&amp;type=JPG&amp;w=72&amp;h=72&amp;act=cropResize\" alt=\"Irene Flunser Pimentel\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Irene Flunser Pimentel<\/strong> 24 de Junho de 2021<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas semanas, a Hist\u00f3ria (contempor\u00e2nea) tem sido usada como arma pol\u00edtica do presente. Nada disto \u00e9 novo, a n\u00e3o ser que a \u201cpol\u00e9mica\u201d se iniciou agora num&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/05\/24\/politica\/noticia\/mel-quer-debate-politico-nao-partidario-reconstrucao-pais-1963759\">congresso das direitas portuguesas<\/a>&nbsp;e continuou em opini\u00f5es na comunica\u00e7\u00e3o social. Por outro lado, o poder pol\u00edtico, em Portugal, tem-se envolvido directa ou indirectamente, por boas ou m\u00e1s raz\u00f5es, no campo da Hist\u00f3ria, nomeadamente a prop\u00f3sito das pr\u00f3ximas comemora\u00e7\u00f5es do 50.\u00ba anivers\u00e1rio do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/25-de-abril\">25 de Abril<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>1. Sobre a \u201cpol\u00e9mica\u201d, n\u00e3o me proponho rebater uma argumenta\u00e7\u00e3o, baseada numa sacraliza\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros, transformados em factos indiscut\u00edveis, \u00e0 maneira positivista, para caracterizar o regime ditatorial portugu\u00eas. Qualquer historiador sabe que n\u00e3o \u00e9 \u201cfazer hist\u00f3ria\u201d abordar apenas aspectos econ\u00f3micos, sem os interpretar, contextualizar e comparar, e evacuando tudo o que tenha a ver com os aspectos pol\u00edticos, sociais e culturais. E na ditadura portuguesa, t\u00eam de ser referidos, pelo menos, os aspectos repressivos (censura, PIDE), a aus\u00eancia de Estado social, a emigra\u00e7\u00e3o, os sal\u00e1rios de fome, a mis\u00e9ria e a guerra colonial, apresentada pelo regime como um caso de pol\u00edcia, num Portugal do Minho a Timor.<\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 defendi, noutro debate ocorrido h\u00e1 anos neste mesmo jornal, a prop\u00f3sito de uma edi\u00e7\u00e3o sobre&nbsp;<em>Hist\u00f3ria de Portugal<\/em>, considero fundamental haver debate e troca de argumentos. Lamento at\u00e9 que a Hist\u00f3ria n\u00e3o saia espa\u00e7o acad\u00e9mico, para ser debatida no seio de uma opini\u00e3o p\u00fablica informada e conhecedora. Pela minha parte estarei sempre dispon\u00edvel para falar sobre o que investiguei.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Ao erigir como inimigo as \u201celites\u201d, o actual populismo tem tend\u00eancia a fazer equivaler um historiador profissional que investiga com regras e m\u00e9todos cient\u00edficos e qualquer cronista que entra fortuitamente no campo complexo da Hist\u00f3ria, sem ter passado um minuto num arquivo ou a ler. N\u00e3o estou a defender o corporativismo, mas, se o senso comum faz pensar que \u00e9 necess\u00e1rio um m\u00e9dico para tratar a doen\u00e7a e de um engenheiro para construir pontes, por que motivo, nas chamadas humanidades, todos se consideram especialistas?<\/p>\n\n\n\n<p>3. Relembro que existe j\u00e1 hoje uma muito abundante bibliografia historiogr\u00e1fica sobre o regime derrubado em 25 de Abril de 1974 e tamb\u00e9m que, para caracterizar qualquer regime do passado, \u00e9 ben\u00e9fico utilizar a compara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Mas \u00e9 melhor, por exemplo, comparar dados econ\u00f3micos no longo per\u00edodo ditatorial com outros pa\u00edses da Europa, no mesmo per\u00edodo. Para s\u00f3 falar dos valores da mortalidade infantil, compar\u00e1-los, entre os anos 30 e 70 do s\u00e9culo XX, em Portugal pouco traz, al\u00e9m de referir a cronologia da longa ditadura, a n\u00e3o ser que obviamente diminuiu em 42 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1930, 143,6 beb\u00e9s at\u00e9 um ano por cada mil morriam em Portugal, valor que foi baixando, mantendo-se, por\u00e9m, sempre muito alto: 94,1, em 1950, 77,5, em 1960 e 55,5 por mil, em 1970. Ora, neste \u00faltimo ano, a m\u00e9dia da mortalidade infantil da UE (a 27) era menos de metade do que em Portugal: 25 por mil. E j\u00e1 agora, conv\u00e9m comparar o valor da mortalidade infantil na ditadura com o de 2020, em Portugal: 2,4 por mil. Compare-se tamb\u00e9m os valores da mobilidade social, da redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza, do analfabetismo, da emigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Ap\u00f3s o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974, a direita portuguesa ficou \u00f3rf\u00e3 de um passado que pudesse servir de modelo pol\u00edtico e \u00e9 verdade que a democracia deve a homens como S\u00e1 Carneiro e Freitas do Amaral que, ao erguerem os primeiros partidos de direita, n\u00e3o defenderam o legado \u2013 por demais negativo \u2013 do chamado Estado Novo. Recentemente um estudo ter\u00e1 revelado que muitos portugueses gostariam de uma solu\u00e7\u00e3o de tipo autorit\u00e1rio e que quase todos identificariam a democracia com a corrup\u00e7\u00e3o do poder. Cabe ao historiador falar da corrup\u00e7\u00e3o antes do 25 de Abril, mostrar como e o que acontecia, como viviam na realidade os portugueses das v\u00e1rias classes sociais, e ao cidad\u00e3o que ele tamb\u00e9m \u00e9, combater politicamente, com os outros, as imperfei\u00e7\u00f5es da democracia que a podem destruir.<\/p>\n\n\n\n<p>5. A propens\u00e3o para o uso pol\u00edtico da Hist\u00f3ria sempre aconteceu e continuar\u00e1 a acontecer, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, da oposi\u00e7\u00e3o ao poder pol\u00edtico. No entanto, em democracia, cabe a este \u00faltimo favorecer a investiga\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica, financiando-a, sem favoritismos, nepotismos e com justi\u00e7a nos crit\u00e9rios de selec\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o papel do poder pol\u00edtico escolher historiadores ou uma verdade hist\u00f3rica oficial. Por isso, n\u00e3o esperava do ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que desvalorizasse e ignorasse a investiga\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica existente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 isso que faz, o apontar a exist\u00eancia de \u201cuma falha de conhecimento\u201d sobre os \u201csalvadores portugueses\u201d &#8211;&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/aristides-sousa-mendes\">Aristides de Sousa Mendes<\/a>&nbsp;e outros diplomatas que salvaram perseguidos pelo nazismo \u2013, a qual seria necess\u00e1rio \u201creparar com a edi\u00e7\u00e3o\u201d de \u201clivrinhos\u201d de divulga\u00e7\u00e3o, por ele encomendado. O senhor ministro n\u00e3o \u00e9 obrigado a conhecer a historiografia portuguesa, mas o papel de Portugal face ao Holocausto \u00e9 talvez dos temas que mais t\u00eam sido estudados por diversos historiadores, portugueses e estrangeiros, a partir dos anos 90 do s\u00e9culo passado. Seria exaustivo mencion\u00e1-los, mas a este tema aqui regressarei.<\/p>\n\n\n\n<p>6. Se n\u00e3o cabe ao poder pol\u00edtico imiscuir-se na investiga\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica e dar uma vers\u00e3o oficial do passado, ele tem, quanto a mim, o direito (e at\u00e9 o dever) de nomear atempadamente quem dirigir\u00e1 as&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/04\/25\/politica\/noticia\/50-anos-25-abril-comecam-comemorados-24-marco-2022-1959966\">comemora\u00e7\u00f5es do cinquenten\u00e1rio do 25 de Abril de 1974<\/a>, data fundadora do nosso regime democr\u00e1tico. Enquanto historiadora e cidad\u00e3, estou certa de que a comemora\u00e7\u00e3o ser\u00e1 levada a cabo com o desejado pluralismo, sem confundir mem\u00f3rias parcelares com Hist\u00f3ria e, pelo contr\u00e1rio, ao favorecer a liberdade de opini\u00e3o e de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mem\u00f3ria e Hist\u00f3ria est\u00e3o interligadas, mas a primeira \u00e9 sempre inerentemente parcelar e partid\u00e1ria (no sentido de obedecer a um interesse exclusivo). Por isso as diversas mem\u00f3rias s\u00f3 podem ser \u201ctratadas\u201d, pela Hist\u00f3ria, que \u00e9 o verdadeiro instrumento de lembran\u00e7a do passado. Na medida em que \u00e9 mais distante e impessoal na sua rela\u00e7\u00e3o com o passado, ela tem um papel de equidade e de verdade, para temperar a exclusividade das mem\u00f3rias particulares.<\/p>\n\n\n\n<p>7. Nas comemora\u00e7\u00f5es do cinquenten\u00e1rio, que resultar\u00e3o certamente em estudos de opini\u00e3o, exposi\u00e7\u00f5es, document\u00e1rios, obras de arte e novas investiga\u00e7\u00f5es, n\u00e3o deve evidentemente ser imposta, nem transmitida, por qualquer governo, uma \u00fanica vis\u00e3o da Hist\u00f3ria, muito menos oficial. Penso tamb\u00e9m que estas comemora\u00e7\u00f5es devem ser aproveitadas para se estudar em profundidade a guerra colonial, sobre cujo in\u00edcio em Angola passam 60 anos em 2021. \u00c9 certo que a Hist\u00f3ria da guerra colonial j\u00e1 come\u00e7ou a ser feita, entre outros, por Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, n\u00e3o por acaso dois capit\u00e3es de Abril, mas urge que a sua investiga\u00e7\u00e3o seja incentivada, desde logo com a abertura dos arquivos militares.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, o colonialismo e a guerra colonial j\u00e1 tem sido abordado noutros campos, desde logo a n\u00edvel das imagens visuais e do document\u00e1rio, com destaque para a s\u00e9rie televisiva de Joaquim Furtado. S\u00f3 este ano, em que passam 60 anos ap\u00f3s o in\u00edcio da guerra em Angola, assiste-se a diversas exposi\u00e7\u00f5es e filmes, sobre que recomendo:&nbsp;<em>A Heran\u00e7a<\/em>, de Ana Vidigal e Nuno Nunes-Ferreira;&nbsp;<em>Vis\u00f5es do Imp\u00e9rio<\/em>, de Miguel Bandeira Jer\u00f3nimo e Joana Pontes, que assina um filme com o mesmo nome, e o document\u00e1rio&nbsp;<em>Fantasmas do Imp\u00e9rio<\/em>, de Ariel de Bigault.<\/p>\n\n\n\n<p>8. Em democracia, os cidad\u00e3os e o poder pol\u00edtico t\u00eam de pautar a sua actua\u00e7\u00e3o pelo pluralismo e pela liberdade, combater a corrup\u00e7\u00e3o, o clientelismo e o nepotismo e n\u00e3o se \u201carmarem\u201d em detentores de qualquer \u201cmoral superior\u201d. A Hist\u00f3ria pode ajudar, ao indicar os caminhos de sofrimento e dor do passado do passado que n\u00e3o queremos voltar a trilhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transcrevemos o texto publicado por Irene Pimentel no P\u00daBLICO sobre Hist\u00f3ria e Pol\u00edtica que alimenta&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3482,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[99],"tags":[47,133],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene.png",624,340,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene-300x163.png",300,163,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene.png",624,340,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene.png",624,340,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene.png",624,340,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene.png",624,340,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene.png",624,340,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene.png",624,340,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene.png",624,340,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene.png",540,294,false],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/irene.png",400,218,false]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a>","tag_info":"OPINI\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3584"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3584"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3584\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3585,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3584\/revisions\/3585"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3482"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3584"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3584"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3584"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}