{"id":4282,"date":"2021-10-20T21:37:51","date_gmt":"2021-10-20T21:37:51","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=4282"},"modified":"2021-10-21T08:20:39","modified_gmt":"2021-10-21T08:20:39","slug":"a-desercao-e-uma-historia-que-parece-comecar-a-sair-do-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2021\/10\/20\/a-desercao-e-uma-historia-que-parece-comecar-a-sair-do-silencio\/","title":{"rendered":"A deser\u00e7\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria que parece come\u00e7ar a sair do sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>ESPECIAL SF<\/strong><\/span> | Comunica\u00e7\u00e3o de Miguel Cardina<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">No 50\u00ba anivers\u00e1rio da ODTI, associa\u00e7\u00e3o francesa da regi\u00e3o de Grenoble que se inscreve numa atividade solid\u00e1ria  d<strong>e cunho internacionalista, foram realizadas diversas iniciativas que contaram com o contributo de v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es e de institui\u00e7\u00f5es do ensino superior que trouxeram ao evento uma base reflexiva sobre temas cr\u00edticos da sociedade francesa e europeia atual. <\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Uma dessas \u00e1reas tem\u00e1ticas, a quest\u00e3o das guerras coloniais e da deser\u00e7\u00e3o, foi abordada e desenvolvida por Miguel Cardina que se dirigiu aos participantes da Confer\u00eancia Internacional promovida pela ODTI em franc\u00eas e a dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Reproduzimos aqui o v\u00eddeo da comunica\u00e7\u00e3o do investigador e professor na Universidade de Coimbra e divulgamos a vers\u00e3o em portugu\u00eas num texto que o pr\u00f3prio Miguel Cardina nos facultou com a sua habitual generosidade e disponibilidade para alimentar o debate sobre causas e temas de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Edit\u00e1mos o texto com subt\u00edtulos, alguns destaque e multim\u00e9dia complementar para apoiar o leitor no intenso e apaixonante percurso tem\u00e1tico que Miguel Cardina nos prop\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">V\u00eddeo projetado na Confer\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Miguel Cardina no 50\u00ba Anivers\u00e1rio da ODTI\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xQl_73I7zE0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Vers\u00e3o portuguesa do v\u00eddeo (em texto)<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Portugal e os desertores<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Miguel Cardina<\/h3>\n\n\n\n<p>Gostaria de come\u00e7ar com uma hist\u00f3ria situada nestes nossos novos tempos. Em mar\u00e7o de 2020, no in\u00edcio da pandemia da COVID, Rodrigo Guedes de Carvalho, um conhecido pivot de telejornal, da SIC, encerrou o notici\u00e1rio com uma pequena nota. Falando aos jovens, disse-lhes que, <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">&#8220;aos seus av\u00f3s, tinha sido pedido para irem para uma guerra e que a eles era apenas pedido para ficarem no sof\u00e1. A guerra a que Rodrigo Guedes de Carvalho se referia era a \u201cguerra colonial\u201d. <\/span><\/h2>\n\n\n\n<p>Tratava-se de mais um exemplo de utiliza\u00e7\u00e3o de met\u00e1foras b\u00e9licas para caracterizar a crise pand\u00e9mica que ainda vivemos. Mas era tamb\u00e9m a reprodu\u00e7\u00e3o de uma certa leitura existente em Portugal sobre a guerra colonial: um conflito que se fez por dever patri\u00f3tico e ao qual, mal ou bem, a maioria dos jovens dos anos 60 e 70, teve de responder \u201cpresente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra colonial durou treze longos anos, entre 1961 e 1974. Conduziu perto de 800 mil jovens portugueses para \u00c1frica. A este n\u00famero deve juntar-se os cerca de 500 mil africanos integrados na tropa colonial para combater os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o. A guerra terminaria com o surgimento de cinco novas na\u00e7\u00f5es em \u00c1frica e com uma mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico em Portugal. A vit\u00f3ria da luta anticolonial trouxe a democracia ao pa\u00eds, uma realidade t\u00e3o evidente quanto esquecida. Ao mesmo tempo, a guerra colonial deixou marcas sociais e ideol\u00f3gicas ainda persistentes na sociedade portuguesa: ela \u00e9 parte de um passado colonial que continua a alimentar, quer o racismo sist\u00e9mico, quer a cont\u00ednua prolifera\u00e7\u00e3o de imagens de um pa\u00eds grandioso porque j\u00e1 foi grande, de um pa\u00eds tolerante porque o seu colonialismo era um n\u00e3o-colonialismo. Um simples encontro entre ra\u00e7as e povos, de um pa\u00eds em que as \u201csaudades de \u00c1frica\u201d se cruzam com um sentimento ressentido com a perda. Durante anos, falar da deser\u00e7\u00e3o foi abrir espa\u00e7o a uma narrativa alternativa que nos permite descobrir outros modos de ressignificar este passado.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dados sobre a desobedi\u00eancia \u00e0 guerra<\/h2>\n\n\n\n<p>Dividirei esta interven\u00e7\u00e3o em duas partes: num primeiro momento, ser\u00e3o avan\u00e7ados dados recentes sobre a desobedi\u00eancia \u00e0 guerra. Num segundo momento, trago algumas reflex\u00f5es sobre a mem\u00f3ria p\u00fablica da deser\u00e7\u00e3o, evidenciando como ela tem desafiado a mem\u00f3ria mais vasta da guerra em Portugal.<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7o com tr\u00eas esclarecimentos pr\u00e9vios, que ajudam a enquadrar o objeto sobre o qual me irei debru\u00e7ar. Em primeiro lugar, queria anotar a distin\u00e7\u00e3o feita entre tr\u00eas categorias relativas \u00e0 desobedi\u00eancia na guerra colonial, criadas pelo aparato estatal-militar.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira categoria \u00e9 a de \u201cfaltoso\u201d. Ou seja, aquele jovem que n\u00e3o se apresentou em tempo devido \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o militar. Segundo dados do pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito, estamos a falar de um n\u00famero que rondou os 200 mil jovens, perto de 20% do total de rapazes chamados \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o. \u00c9 verdade que n\u00e3o se pode, de todo, associar o aumento do n\u00famero de faltosos a um estrito sentimento anticolonial. Esse fluxo de jovens corresponde \u2013 at\u00e9 na sua proveni\u00eancia territorial \u2013 \u00e0quilo que foi o fluxo da emigra\u00e7\u00e3o desses anos. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns are-vertically-aligned-center has-black-color has-cyan-bluish-gray-background-color has-text-color has-background is-layout-flex wp-container-3 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:67%\">\n<h2 class=\"has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#000000\"><strong>Problematizar <\/strong><meta charset=\"utf-8\">a distin\u00e7\u00e3o r\u00edgida entre \u201cemigra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d e \u201cemigra\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color\" style=\"font-size:17px;line-height:1.1\">Mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que a distin\u00e7\u00e3o r\u00edgida entre \u201cemigra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d e \u201cemigra\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica\u201d \u2013 uma distin\u00e7\u00e3o que importa problematizar, como o historiador Victor Pereira tem feito &#8211; acaba por dificultar a compreens\u00e3o do fen\u00f3meno.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, no gesto de emigrar intersectavam-se as quest\u00f5es relativas ao sustento material e \u00e0 busca de oportunidades de vida no exterior, com o escape a constrangimentos de outro tipo, entre os quais pesava para os jovens o fantasma de ser mobilizado para combater numa guerra a milhares de quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia de casa.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:33%\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"300\" height=\"243\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/vp3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4336\"\/><figcaption>Victor Pereira<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Refrat\u00e1rios e desertores<\/h2>\n\n\n\n<p>As outras duas categorias eram as categorias de \u201crefrat\u00e1rio\u201d e de \u201cdesertor\u201d: os primeiros eram aqueles que compareciam \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 n\u00e3o compareciam \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o para a recruta. Os segundos, os desertores, eram aqueles que se ausentavam da sua unidade militar (passando ao oitavo dia de aus\u00eancia a essa condi\u00e7\u00e3o de desertor).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo que fiz conjuntamente com Susana Martins, apontamos para a exist\u00eancia de cerca de 9000 desertores (com lacunas pontuais em certos anos e setores militares), devendo a isso associar-se um n\u00famero de refrat\u00e1rios na ordem dos 10 a 20 mil jovens.<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a> Ser\u00e1 j\u00e1 de evidenciar o n\u00famero relativamente significativo de desertores e refrat\u00e1rios. Isto poder\u00e1 ter v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es: <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>em primeiro lugar, a maior debilidade das estruturas militares e do Estado para vigiar a juventude mobilizada para a guerra; <\/strong><\/span><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>em segundo lugar, a exist\u00eancia de canais e de redes familiares e comunit\u00e1rias instaladas na emigra\u00e7\u00e3o europeia (particularmente em Fran\u00e7a); <\/strong><\/span><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>em terceiro lugar, a crescente ilegitimidade social de uma guerra prolongada e distante.<\/strong><\/span><\/h3>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O percurso dos desertores<\/h2>\n\n\n\n<p>Segunda nota: qual \u00e9 o percurso que seguem? Todos os trajetos biogr\u00e1ficos s\u00e3o singulares, mas \u00e9 poss\u00edvel agrup\u00e1-los em tr\u00eas grandes grupos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background\">O primeiro grupo corresponde \u00e0s deser\u00e7\u00f5es que ocorrem ainda em Portugal. Estas ocorrem entre homens que, na maioria dos casos, ainda n\u00e3o tinham tido experi\u00eancia no terreno de guerra, e que em geral se dirigem para a emigra\u00e7\u00e3o europeia (Fran\u00e7a sobretudo, mas tamb\u00e9m Holanda, Su\u00e9cia, Dinamarca, B\u00e9lgica, Luxemburgo, etc.). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background\">O segundo grupo, corresponde aos desertores africanos integrados na tropa portuguesa, e que seguem rotas variadas: alguns regressam \u00e0s suas comunidades de origem, outros fogem para pa\u00edses lim\u00edtrofes, outros ainda passam para as fileiras dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background\">O terceiro grupo, mais circunscrito, agrega os portugueses que desertaram de \u00c1frica, j\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de combate.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-vimeo wp-block-embed-vimeo wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer Guerra ou Paz\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/57446051?h=44f4fb2013&amp;dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A discuss\u00e3o sobre a deser\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma terceira nota. A discuss\u00e3o sobre a deser\u00e7\u00e3o foi, desde cedo, um tema de debate no seio das oposi\u00e7\u00f5es \u00e0 ditadura. Logo em 1961, com o in\u00edcio da guerra em Angola, o PCP (Partido Comunista Portugu\u00eas), principal for\u00e7a da oposi\u00e7\u00e3o, definiu um discurso de den\u00fancia da guerra. Em julho de 1967, uma resolu\u00e7\u00e3o do Comit\u00e9 Central clarificava a posi\u00e7\u00e3o oficial do partido: os militantes comunistas \u201cn\u00e3o devem desertar, sen\u00e3o quando tenham de acompanhar uma deser\u00e7\u00e3o colectiva ou corram iminente perigo de ser presos em resultado da sua ac\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>. Apesar da sua localizada inser\u00e7\u00e3o social, seria o campo dos cat\u00f3licos progressistas e, mais vocalmente, da chamada extrema-esquerda (particularmente o que se poderia designar como o campo \u201cmarxista-leninista ou maoista\u201d) a propagandear abertamente a deser\u00e7\u00e3o como gesto pol\u00edtico leg\u00edtimo e necess\u00e1rio. Viria depois a desenvolver-se no estrangeiro uma a\u00e7\u00e3o de den\u00fancia \u00e0 guerra, que obtinha amparo e aux\u00edlio de estruturas de socorro ou de visibilidade da quest\u00e3o colonial e na cria\u00e7\u00e3o de Comit\u00e9s de Desertores em v\u00e1rios pa\u00edses europeus.<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Arg\u00e9lia, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960<\/h2>\n\n\n\n<p>Fazer a hist\u00f3ria da deser\u00e7\u00e3o na guerra colonial portuguesa \u00e9 tamb\u00e9m confrontarmo-nos com uma hist\u00f3ria que transborda as fronteiras da na\u00e7\u00e3o. Uma hist\u00f3ria que \u00e9 parte da hist\u00f3ria do imperialismo europeu, uma hist\u00f3ria que \u00e9 parte da hist\u00f3ria da Europa do p\u00f3s-guerra, uma hist\u00f3ria que \u00e9 parte de um mundo em muta\u00e7\u00e3o, com o impacto do movimento de descoloniza\u00e7\u00e3o em \u00c1frica e na \u00c1sia. Uma hist\u00f3ria que \u00e9 feita de encontros e desencontros, de cruzamentos e de solidariedades. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960, \u00e9 a solidariedade de novos pa\u00edses, como a Arg\u00e9lia, que permite a instala\u00e7\u00e3o de redes militantes ligadas aos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o africanos, particularmente, PAIGC (Guin\u00e9 e Cabo Verde), FRELIMO (Mo\u00e7ambique) e MPLA (Angola) e da oposi\u00e7\u00e3o portuguesa. Esta tinha na FPLN<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a> uma plataforma que agrupava membros de v\u00e1rias correntes da oposi\u00e7\u00e3o antifascista portuguesa e recebeu v\u00e1rios desertores, vindos sobretudo da Guin\u00e9. V\u00e1rios deles prestavam declara\u00e7\u00f5es a r\u00e1dios antifascistas e anticolonialistas, explicando as raz\u00f5es da sua deser\u00e7\u00e3o. Analisei, j\u00e1 num outro momento, 16 desses discursos e deteto neles cinco fun\u00e7\u00f5es primordiais.<a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<figure class=\"wp-block-gallery aligncenter columns-2 is-cropped wp-block-gallery-4 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"473\" height=\"361\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/voz-liberdade-1.png\" alt=\"\" data-id=\"4342\" data-full-url=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/voz-liberdade-1.png\" data-link=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/?attachment_id=4342\" class=\"wp-image-4342\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/voz-liberdade-1.png 473w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/voz-liberdade-1-300x229.png 300w\" sizes=\"(max-width: 473px) 100vw, 473px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">R\u00e1dio Voz da Liberdade<\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"606\" height=\"467\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/amilcar.png\" alt=\"\" data-id=\"4343\" data-full-url=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/amilcar.png\" data-link=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/?attachment_id=4343\" class=\"wp-image-4343\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/amilcar.png 606w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/amilcar-300x231.png 300w\" sizes=\"(max-width: 606px) 100vw, 606px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\">Amilcar Cabral &#8211; PAIGC<\/figcaption><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Testemunhos<\/h2>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, estes depoimentos servem para auxiliar a luta antifascista e anticolonial. A sua difus\u00e3o fazia parte do esfor\u00e7o de tornar vis\u00edvel a guerra, mesmo que, por vezes, estes testemunhos tivessem escassa circula\u00e7\u00e3o no interior de Portugal. Para uma parte muito consider\u00e1vel da sociedade portuguesa, a guerra era uma invisibilidade. A imprensa era censurada, os partidos pol\u00edticos proibidos, um debate sobre a guerra s\u00f3 tardiamente foi surgindo no pa\u00eds, e ainda assim vigiado e punido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, estes testemunhos permitiam divulgar as raz\u00f5es da deser\u00e7\u00e3o. Este elemento surge atrav\u00e9s da men\u00e7\u00e3o a de experi\u00eancias-limite incitadoras da vontade de desertar. \u00c9 o caso de Jos\u00e9 Ervedosa, major aviador que participara num ataque com napalm em Angola, e que esclarece: \u00abNum dia de fevereiro de 1962 a carne doeu-me finalmente. S\u00e3o dois corpos a arder, dois corpos inocentes para al\u00e9m de toda a d\u00favida: uma mulher e uma crian\u00e7a. Quem traz o avi\u00e3o de volta \u00e9 o co-piloto. Uma vez aterrado, vou para casa e ali passo, fechado, uma semana\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, estes depoimentos operam uma reconfigura\u00e7\u00e3o das fraturas atrav\u00e9s das quais se estabelece o discurso dominante sobre a guerra. Procuram mostrar a deser\u00e7\u00e3o, n\u00e3o como um gesto de cobardia, mas como um gesto de coragem. Procuram mostrar a deser\u00e7\u00e3o, n\u00e3o como um gesto antipatri\u00f3tico, mas como um gesto patri\u00f3tico. Nessa linha, caracterizam o outro lado do combate, n\u00e3o como inimigo, mas como amigo. Como diz o soldado Manuel Matos: <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>\u00abOs militantes do PAIGC receberam-me sempre como um amigo. Dormiram no ch\u00e3o para que eu pudesse dormir numa cama. Deram-me a comer o que tinham de melhor. Vestiram-me, deram-me cigarros e tudo o mais que eu tinha necessidade\u00bb<\/strong><\/span>.<\/h3>\n\n\n\n<p>Em quarto lugar, estes testemunhos buscavam romper com a l\u00f3gica de lealdade que sedimenta o corpo militar como um todo. Mais do que um discurso gen\u00e9rico contra os militares, h\u00e1 o desenho de uma clivagem entre os oficiais de topo, determinados ora pela malvadez, ora pela cobardia; e, no seu reverso, a tropa a quem competia enfrentar no terreno a guerra, vistos no geral como \u00abinfelizes\u00bb que lutam num contexto pol\u00edtica e ambientalmente adverso.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, e porventura o tra\u00e7o mais relevante, estes testemunhos servem para denunciar a viol\u00eancia da guerra e do colonialismo. Manuel Matos conta v\u00e1rias hist\u00f3rias de massacres a aldeias, com matan\u00e7a generalizada e viola\u00e7\u00e3o de mulheres. Conta tamb\u00e9m a hist\u00f3ria de uma tortura a um militante do PAIGC &#8211; deixado amarrado a uma \u00e1rvore durante cinco dias \u2013 que consistira e, cortar-lhe, regularmente, uma parte do corpo: uma orelha, depois outra, depois um dedo, acabando por ser metralhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes testemunhos visavam objetivos pol\u00edticos claros: denunciar a guerra, mostrar que a deser\u00e7\u00e3o era poss\u00edvel, explicitar a sua justeza, desmoralizar as tropas e associar a guerra ao fascismo e n\u00e3o ao povo portugu\u00eas. Nessa medida, eles se configuraram como uma narrativa alternativa relativamente \u00e0quela que era a imagem da guerra, n\u00e3o s\u00f3 durante a ditadura, mas tamb\u00e9m ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas no Portugal democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mem\u00f3ria fraca<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar a deser\u00e7\u00e3o j\u00e1 ter sido mencionada como um t\u00f3pico marginal na mem\u00f3ria p\u00fablica portuguesa, um novo interesse se tem operado nos \u00faltimos anos. Esta recente profus\u00e3o de trabalhos e de atividades n\u00e3o significa que o tema da deser\u00e7\u00e3o tenha deixado de ser o que o historiador Enzo Traverso designa como uma \u00abmem\u00f3ria fraca\u00bb<a href=\"#_ftn7\">[7]<\/a>. A deser\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 observada, em m\u00faltiplas circunst\u00e2ncias, como um gesto inadequado, e a sua recorda\u00e7\u00e3o vista como uma esp\u00e9cie de desonroso desafio \u00e0 mem\u00f3ria da guerra e dos seus combatentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas raz\u00f5es ajudar\u00e3o a explicar a dificuldade em abordar o tema da recusa da guerra. Em primeiro lugar, e apesar do papel dos militares no derrube da ditadura e na cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para o fim da guerra, desde o p\u00f3s-25 de abril que n\u00e3o se viram surgir condi\u00e7\u00f5es para abordar duas dimens\u00f5es cr\u00edticas do acontecimento: a viol\u00eancia da guerra e os seus modos de express\u00e3o, ainda hoje conhecida de forma parcelar; e o lugar da desobedi\u00eancia \u00e0 estrutura militar, parte da quebra de legitimidade social da guerra nos anos finais da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra raz\u00e3o que explica o silenciamento do tema da deser\u00e7\u00e3o na mem\u00f3ria p\u00fablica portuguesa consiste na perman\u00eancia da tal ideia de \u00abdever patri\u00f3tico\u00bb, mesmo que em circunst\u00e2ncias de risco f\u00edsico e psicol\u00f3gico extremo. Raz\u00f5es culturais associadas ao patriotismo, \u00e0 honra, ao orgulho e \u00e0 masculinidade agiam ent\u00e3o nesse sentido, mantendo alguma vig\u00eancia ainda hoje. Ir \u00e0 tropa era fazer-se homem. Combater os terroristas africanos \u2013 ou os \u201cturras\u201d, express\u00e3o ainda hoje usada para designar as crian\u00e7as irrequietas \u2013 era um ato de dever.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, e apesar de ser um tema de debate aceso no seio das oposi\u00e7\u00f5es, a deser\u00e7\u00e3o n\u00e3o viria a ser reivindicada, como patrim\u00f3nio memorial, por nenhum grande partido de esquerda no p\u00f3s-25 de Abril, nem se constitu\u00edram estruturas associativas que, direta ou indiretamente, reivindicassem essa hist\u00f3ria. <\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, em quarto lugar, a pr\u00f3pria car\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica, at\u00e9 aos tempos recentes, acabou por contribuir para esta invisibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O discurso de Marcelo<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o tema da deser\u00e7\u00e3o surgir\u00e1 por algumas vezes no espa\u00e7o p\u00fablico. Mas foi mais recentemente, em boa medida atrav\u00e9s do trabalho da Associa\u00e7\u00e3o de Exilados Pol\u00edticos Portugueses, que o tema ganhou nova visibilidade. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery aligncenter columns-1 is-cropped wp-block-gallery-8 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/20211020_233848-1024x768.jpg\" alt=\"\" data-id=\"4399\" class=\"wp-image-4399\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/20211020_233848-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/20211020_233848-300x225.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/20211020_233848-768x576.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/20211020_233848-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/20211020_233848-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Cito um pequeno exemplo. Nas \u00faltimas comemora\u00e7\u00f5es do 25 de Abril, o presidente da Rep\u00fablica, Marcelo Rebelo de Sousa, decidiu falar da guerra e do colonialismo, numa altura em que passavam 60 anos do in\u00edcio do conflito. Foi uma op\u00e7\u00e3o inesperada e as refer\u00eancias \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 escraviza\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito pouco comuns em discursos solenes desta natureza, ainda para mais na boa de um presidente oriundo da ditadura e filho de um antigo governador colonial. Foi surpreendente tamb\u00e9m que o discurso tenha iniciado com uma palavra sobre essa guerra que marcou indelevelmente quem combateu, mas tamb\u00e9m, \u201ca vida daqueles que, por op\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio, recusaram aquela partida e rumaram a outros destinos, iniciando ou continuando uma luta\u201d<a href=\"#_ftn8\">[8]<\/a> contra a ditadura, a guerra e o colonialismo. <\/p>\n\n\n\n<p>Veremos o que se passar\u00e1 nos pr\u00f3ximos tempos, particularmente no longo ciclo comemorativo do 25 de Abril que a\u00ed se aproxima. Creio, na verdade, que uma mudan\u00e7a se come\u00e7a a esbo\u00e7ar: em Portugal, a deser\u00e7\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria que parece come\u00e7ar a sair do sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Cf. Cardina, Miguel; Martins, Susana (2019), &#8220;Evading the war: deserters and draft evaders of the Portuguese army during the colonial war&#8221;, E-Journal of Portuguese History, 17, 2, 27-47; Cardina, Miguel (2020), &#8220;A deser\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra colonial: hist\u00f3ria, mem\u00f3ria e pol\u00edtica&#8221;, Revista de Hist\u00f3ria das Ideias, 38, 181-204.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Cardina e Martins (2019), op.cit.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> \u201cResolu\u00e7\u00e3o sobre Deser\u00e7\u00f5es\u201d, <em>Avante!<\/em>, nr. 382, Setembro, 1967.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Sobre a extrema-esquerda nesses anos ver, entre outros: Bebiano, Rui (2002), \u201cA esquerda e a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra colonial\u201d. In Rui de Azevedo Teixeira (ed.), <em>A Guerra do Ultramar. Realidade e Fic\u00e7\u00e3o<\/em>. Lisboa: Editorial Not\u00edcias; Madeira, Jo\u00e3o (2004), \u201cAs Oposi\u00e7\u00f5es de Esquerda e a Extrema-Esquerda\u201d. In Fernando Rosas e Pedro Aires Oliveira (eds.), <em>A Transi\u00e7\u00e3o Falhada. O Marcelismo e o Fim do Estado Novo (1968-1974)<\/em>. Lisboa: Editorial Not\u00edcias, 91-135; Cardina, Miguel (2011), <em>Margem de Certa Maneira. O Maoismo em Portugal (1964-1974<\/em>). Lisboa: Tinta-da-China; Pereira, Jos\u00e9 Pacheco (2013), <em>As Armas de Papel. Publica\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas clandestinas e do ex\u00edlio ligadas a movimentos radicais de esquerda cultural e pol\u00edtica (1963-1974)<\/em>. Lisboa: C\u00edrculo de Leitores; Pimentel, Irene Flunser (2014). <em>Hist\u00f3ria da Oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Ditadura. 1926-1974<\/em>. Porto:&nbsp; Figueirinhas, pp.411-596; Cordeiro, Jos\u00e9 Manuel Lopes (2017), \u201cA pol\u00e9mica sobre a deser\u00e7\u00e3o durante a guerra colonial\u201d, In Ana Sofia Ferreira, Jo\u00e3o Madeira e Pau Casanellas (eds.). <em>Viol\u00eancia Pol\u00edtica no S\u00e9culo XX. Um balan\u00e7o<\/em>. Lisboa: Instituto de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea, pp. 209-222.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Sobre a primeira fase da FPLN ver: Martins, Susana (2018), <em>Exilados Portugueses em Argel. A FPLN das origens \u00e0 rutura com Humberto Delgado<\/em>. Porto: Afrontamento.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> Sigo aqui alguns elementos explorados mais detalhadamente em Cardina (2020), op.cit.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> Traverso, Enzo (2012), <em>O Passado, Modos de Usar<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es UNIPOP.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> Marcelo Rebelo de Sousa, Discurso na Assembleia da Rep\u00fablica na Sess\u00e3o Solene Comemorativa do 47.\u00ba anivers\u00e1rio do 25 de Abril, 25 de abril de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ESPECIAL SF | Comunica\u00e7\u00e3o de Miguel Cardina No 50\u00ba anivers\u00e1rio da ODTI, associa\u00e7\u00e3o francesa da&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4345,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,239],"tags":[250],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto.png",1411,922,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto-300x196.png",300,196,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto-768x502.png",640,418,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto-1024x669.png",640,418,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto.png",1411,922,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto.png",1411,922,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto-1115x715.png",1115,715,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto-800x500.png",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto-1024x669.png",1024,669,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto-540x340.png",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/cardina-foto-400x250.png",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/especial-sf\/\" rel=\"category tag\">ESPECIAL-SF<\/a>","tag_info":"ESPECIAL-SF","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4282"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4282"}],"version-history":[{"count":30,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4282\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4402,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4282\/revisions\/4402"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4345"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4282"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4282"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}