{"id":4462,"date":"2021-11-04T14:12:56","date_gmt":"2021-11-04T14:12:56","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=4462"},"modified":"2021-11-04T14:20:30","modified_gmt":"2021-11-04T14:20:30","slug":"la-plus-secrete-memoire-des-hommes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2021\/11\/04\/la-plus-secrete-memoire-des-hommes\/","title":{"rendered":"La plus secr\u00e8te m\u00e9moire des hommes"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>LIVROS E M\u00daSICA<\/strong><\/span> | <strong>Lu\u00edsa Semedo <\/strong>&#8211; Paris<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Antes de tudo\u2026 t\u00e3o feliz pelo Mohamed Mbougar Sarr e o seu Goncourt para o<strong> \u201cLa plus secr\u00e8te m\u00e9moire des hommes\u201d,<\/strong> cujas palavras eu havia partilhado por aqui h\u00e1 uns dias. A literatura tem destas coisas, quando o autor partilha connosco da forma mais sincera poss\u00edvel aquilo que \u00e9, a mat\u00e9ria de que \u00e9 feito, os seus desassossegos, as suas esperan\u00e7as, no fim temos a impress\u00e3o de o conhecer, de passar a ser um \u00edntimo. Ao ouvir h\u00e1 pouco as entrevistas do Mohamed estava emocionada e orgulhosa como se ele fosse um \u201cpetit-Grand Fr\u00e8re\u201d. <\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">N\u00e3o tenho d\u00favidas que, ainda mais do que em conversas ou em entrevistas, \u00e9 atrav\u00e9s da literatura que brota a verdade. <\/span><\/h3>\n\n\n\n<p>Que se ousa dizer mais de si e da sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo do que atrav\u00e9s de qualquer outra forma de express\u00e3o, mesmo se atrav\u00e9s de caminhos tortuosos, e mesmo se n\u00e3o nos damos conta daquilo que no escapa e que afinal \u00e9 a verdade mais profunda. Mas se estivermos atentos est\u00e1 l\u00e1 tudo (ou quase tudo). E essa \u00e9 tamb\u00e9m uma das maiores for\u00e7as do livro do MMS. Costumo dizer aos meus filhos e alunos que a arte \u00e9 generosidade, \u00e9 d\u00e1diva. O artista decide partilhar connosco o seu \u00edntimo, o seu mundo, a sua solid\u00e3o. Considera-nos dignos dessa partilha, dessa confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">MMS passa o tempo a interrogar-se sobre o sentido da literatura, sobre o sentido da vida, dentro da grande quest\u00e3o sem fim sobre a natureza humana. <\/span><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cLa plus secr\u00e8te m\u00e9moire des hommes\u201d \u00e9 um livro obrigat\u00f3rio para quem escreve, independentemente do seu \u201cestatuto\u201d no \u201cmundo das letras\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m um livro para quem vive ou viveu o ex\u00edlio, a busca por outra vida, a busca do sentido, a revela\u00e7\u00e3o daquilo que est\u00e1 para al\u00e9m da montanha.<\/p>\n\n\n\n<p>A ambi\u00e7\u00e3o de MMS enquanto escritor est\u00e1 presente em todo o livro, e essa ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 estranhamente tocante e ao mesmo tempo inspira o respeito. Tocante porque lemos os defeitos, lemos aquilo que lhe falta viver para poder contar, nomeadamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. Nesse campo a escrita de MMS ainda \u00e9 fr\u00e1gil e por vezes cai no estere\u00f3tipo ou na vis\u00e3o idealizada da mulher ao servi\u00e7o do imagin\u00e1rio er\u00f3tico do homem. MMS n\u00e3o \u00e9 perfeito e isso \u00e9 tocante porque na sua fragilidade coabita a procura do aperfei\u00e7oamento, e \u00e9 precisamente a\u00ed que entra o respeito. A ambi\u00e7\u00e3o de MMS \u00e9 acompanhada de exig\u00eancia. E essa exig\u00eancia obriga-nos a ser tamb\u00e9m mais exigentes naquilo que escrevemos, naquilo que fazemos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me vou alongar sobre a ambiguidade de sentimentos que MMS tem em rela\u00e7\u00e3o a este tipo de recompensas. <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Considero que n\u00e3o foi o Goncourt que o recompensou, foi ele que recompensou e prestigiou o Goncourt com a sua presen\u00e7a. <\/span><\/h3>\n\n\n\n<p>O pr\u00e9mio como fim n\u00e3o importa, at\u00e9 porque o j\u00fari em algumas declara\u00e7\u00f5es, como previsto, desiludiu. Isto de premiar um \u201cescritor africano\u201d tem as suas armadilhas marotas. O pr\u00e9mio \u00e9 importante porque \u00e9 um meio, um meio para que MMS possa continuar a escrever (os artistas tamb\u00e9m comem), que a sua voz chegue mais longe, que sirva de modelo a tantas e tantos outros, que seja traduzido, inclusive em portugu\u00eas (espero, etc.).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-4 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<figure class=\"wp-block-gallery alignwide columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"556\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms7-1024x556.png\" alt=\"\" data-id=\"4475\" data-full-url=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms7.png\" data-link=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/index.php\/2021\/11\/04\/la-plus-secrete-memoire-des-hommes\/mms7\/\" class=\"wp-image-4475\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms7-1024x556.png 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms7-300x163.png 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms7-768x417.png 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms7.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"blocks-gallery-item__caption\"><meta charset=\"utf-8\">Mohamed Mbougar Sarr<\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"407\" height=\"214\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms2-1.png\" alt=\"\" data-id=\"4471\" data-full-url=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms2-1.png\" data-link=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/?attachment_id=4471\" class=\"wp-image-4471\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms2-1.png 407w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms2-1-300x158.png 300w\" sizes=\"(max-width: 407px) 100vw, 407px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Mohamed Mbougar Sarr \u00e9 um escritor senegal\u00eas, \u00e9 negro, chama-se Mohamed. E num mundo n\u00e3o racista ele n\u00e3o precisaria de se justificar sobre a verdadeira raz\u00e3o deste pr\u00e9mio, n\u00e3o precisaria de dizer que o pr\u00e9mio se deve \u00e0 qualidade liter\u00e1ria e n\u00e3o a outras raz\u00f5es descabidas, partilhadas de forma indigna em tantos coment\u00e1rios \u00e0 sua vit\u00f3ria. Num mundo n\u00e3o racista os artistas negros n\u00e3o precisariam de ser o tempo todo reduzidos \u00e0s quest\u00f5es raciais, sobretudo quando as suas obras cont\u00eam tantas outras dimens\u00f5es (que o diga a Chimamanda Ngozi Adichie que mesmo quando escreve um livro sobre a quest\u00e3o do luto depois da perda dos seus pais, obrigam-na em Fran\u00e7a, no maior programa liter\u00e1rio, a dialogar com tr\u00eas outros convidados sobre a quest\u00e3o da escravatura e do racismo, quando ela queria manifestamente falar de outro tema). Imposs\u00edvel para MMS de fazer impasse sobre a quest\u00e3o do racismo no seu livro, mas n\u00e3o \u00e9 de todo esse o tema central, <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">um artista negro tamb\u00e9m ambiciona \u00e0 universalidade, a ter o direito de escrever sobre a natureza humana.<\/span><\/h3>\n\n\n\n<p>O artista negro ser\u00e1 sempre suspeito por falar de mais ou de menos da sua cor de pele. Se &#8220;fala demais&#8221; \u00e9 um ativista perigoso, se fala de menos obrigam-no a n\u00e3o sair das suas supostas fronteiras. N\u00e3o te estiques, \u00f3 africano! (Isto tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e1lido para outros dom\u00ednios como por exemplo na pol\u00edtica.) No livro, Mohamed p\u00f5e estas palavras na boca de um personagem: \u201cSer\u00e1 que as coisas hoje s\u00e3o diferentes? Fala-se de literatura, de valor est\u00e9tico, ou fala-se de pessoas, do seu bronzeado, da sua voz, da sua idade, dos seus cabelos, do c\u00e3o, do pelos da gata, da decora\u00e7\u00e3o da casa, da cor do casaco?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E partilho mais este excerto, mas na l\u00edngua original, sem a trai\u00e7\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o: <strong>\u201cCe que tu penses \u00eatre la v\u00e9rit\u00e9 enti\u00e8re n\u2019est qu\u2019un fragment parmi mille fragments.<\/strong>\u201d O mesmo \u00e9 v\u00e1lido para os artistas negros que t\u00eam direito a ser o m\u00faltiplo dentro da unidade do ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Partilho um \u00faltimo excerto bonito (mas o melhor \u00e9 mesmo ler o livro) : <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">\u201cJe te dis qu\u2019il vaut mieux ne pas \u00e9crire si tu n\u2019as pas au moins l\u2019ambition de faire trembler l\u2019\u00e2me d\u2019une personne \u00bb<\/span>.<\/h3>\n\n\n\n<p>Mission accomplie, cher Mohamed <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/mohamedmbougar?__cft__%5b0%5d=AZVstFho96GcHtnztNK_0oLK5DQ1NwgKyymGLTs6MDOG-Q5kno8oMO0qUCwA0wYnoQF7Jzgi28M36H70hdROOHwN8ItS5qeCDsyifKsBm79VztviBODgunYgFND-7UchMcQ&amp;__tn__=-%5dK-R\">Mbougar Sarr<\/a>. Bravo pour le livre.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/luisa-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4465\" width=\"261\" height=\"289\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/luisa-1.png 790w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/luisa-1-271x300.png 271w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/luisa-1-768x850.png 768w\" sizes=\"(max-width: 261px) 100vw, 261px\" \/><figcaption><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/luisa.semedo\">Lu\u00edsa Semedo<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LIVROS E M\u00daSICA | Lu\u00edsa Semedo &#8211; Paris Antes de tudo\u2026 t\u00e3o feliz pelo Mohamed&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4466,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[242],"tags":[259,194],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1.png",1100,811,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1-300x221.png",300,221,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1-768x566.png",640,472,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1-1024x755.png",640,472,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1.png",1100,811,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1.png",1100,811,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1-1100x715.png",1100,715,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1-800x500.png",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1-1024x755.png",1024,755,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1-540x340.png",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/mms1-400x250.png",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/livros-musica\/\" rel=\"category tag\">LIVROS &amp; M\u00daSICA<\/a>","tag_info":"LIVROS &amp; M\u00daSICA","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4462"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4462"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4462\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4477,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4462\/revisions\/4477"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4466"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4462"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4462"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4462"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}