{"id":5045,"date":"2022-02-02T03:08:47","date_gmt":"2022-02-02T03:08:47","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=5045"},"modified":"2022-02-02T03:10:48","modified_gmt":"2022-02-02T03:10:48","slug":"diogo-pacheco-de-amorim-o-mdlp-e-o-padre-max","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/02\/02\/diogo-pacheco-de-amorim-o-mdlp-e-o-padre-max\/","title":{"rendered":"Diogo Pacheco de Amorim, o MDLP e o Padre Max"},"content":{"rendered":"\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>CAUSAS<\/strong><\/span> | Contra a extrema-direita | N\u00c3O PASSAR\u00c3O!<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">J\u00e1 se comenta como um elemento perturbador e at\u00e9 angustiante a possibilidade formal do deputado do Chega Diogo Pacheco de Amorim ser indicado para ocupar uma das quatro vice-presid\u00eancias da Assembleia da Rep\u00fablica, sendo no entanto de prever que a maioria de esquerda no Parlamento ir\u00e1 opor-se atrav\u00e9s do voto que, neste caso, ser\u00e1 secreto.<\/h3>\n\n\n\n<p>Conhecido pela sua rela\u00e7\u00e3o recorrente com d\u00edvidas e penhoras por n\u00e3o-cumprimento das suas obriga\u00e7\u00f5es fiscais e comerciais e ainda pelas suas liga\u00e7\u00f5es ao MDLP no per\u00edodo da intensa atividade que este levou a efeito no ver\u00e3o quente, o deputado da extrema-direita \u00e9 apresentado atrav\u00e9s de elementos sempre comprometedores no plano pessoal e no plano pol\u00edtico e partid\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Pacheco de Amorim foi um antigo membro do Movimento Democr\u00e1tico de Liberta\u00e7\u00e3o de Portugal&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Movimento_Democr%C3%A1tico_de_Liberta%C3%A7%C3%A3o_de_Portugal\">(MDLP)<\/a>, e ex-assessor do antigo presidente do&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/CDS_%E2%80%93_Partido_Popular\">CDS-PP<\/a>&nbsp;e vice-primeiro-ministro,&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Diogo_Freitas_do_Amaral\">Diogo Freitas do Amaral<\/a>, e antigo chefe de gabinete de&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Manuel_Monteiro\">Manuel Monteiro<\/a>.<sup><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Diogo_Pacheco_de_Amorim#cite_note-4\">[4]<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Fez parte de movimentos estudantis integracionistas da sua \u00e9poca, que contestavam a descoloniza\u00e7\u00e3o e defendiam Portugal e as&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Prov%C3%ADncia_ultramarina\">prov\u00edncias ultramarinas<\/a>&nbsp;como um todo. Exilou-se para&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Madrid\">Madrid<\/a>&nbsp;para fugir do&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Comando_Operacional_do_Continente\">COPCON<\/a>. Passou ainda por partidos como o Movimento para a Independ\u00eancia e Reconstru\u00e7\u00e3o Nacional&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Movimento_Independente_para_a_Reconstru%C3%A7%C3%A3o_Nacional_\/_Partido_da_Direita_Portuguesa\">(MIRN)<\/a>, do pol\u00e9mico&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/General\">general<\/a>&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ka%C3%BAlza_de_Arriaga\">Ka\u00falza de Arriaga<\/a>, e mais tarde pelo CDS-PP e Nova Democracia, partido de que foi ide\u00f3logo, juntamente com Manuel Monteiro&#8221; estes s\u00e3o elementos divulgados na Wikip\u00e9dia sobre o seu percurso.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo em conta a liga\u00e7\u00e3o de Diogo P. Amorim ao MDLP, ach\u00e1mos por bem publicar um artigo sobre o assassinato do padre Max, redigido por Miguel Carvalho, que nos autorizou a sua publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\">PADRE MAX, 45 ANOS DEPOIS<\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A EXTREMA-DIREITA MATOU-O, MAS NINGU\u00c9M FOI JULGADO POR ISSO<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\"><figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/mc1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5059\" width=\"235\" height=\"243\"\/><figcaption>Miguel Carvalho<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Foi dos processos mais viajados da democracia portuguesa. A organiza\u00e7\u00e3o extremista MDLP foi considerada culpada pelo crime, mas a bomba morreu \u00f3rf\u00e3<\/p>\n\n\n\n<p>A2 de abril de 1976 a noite estava escura, a ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica desligada e chovia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Casa da Cultura da Cumieira, a sete quil\u00f3metros de Vila Real, o padre Maximino de Sousa ensinava Portugu\u00eas e Franc\u00eas a trabalhadores-estudantes.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era ainda meia-noite quando perguntou as horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Do\u00eda-lhe a garganta, estava exausto e febril. \u201cJ\u00e1 dei muitas aulas hoje, vamos embora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de se dirigir para o seu&nbsp;<em>Simca 1000<\/em>, de cor amarela, estacionado junto ao fontan\u00e1rio, deteve-se \u00e0 conversa com alunos a prop\u00f3sito de uns emblemas da UDP que lhes prometera. Dali a semanas, ele seria candidato daquele partido de esquerda nas primeiras elei\u00e7\u00f5es livres. E era influente entre os jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no carro, cuja porta direita de tr\u00e1s n\u00e3o trancava, o padre Max \u2013 assim era chamado \u2013 buzinou para que Carlos, diretor da Casa da Cultura, se apressasse. \u00c0 boleia, ia tamb\u00e9m Maria de Lurdes, de 18 anos, estudante e sua protegida.<\/p>\n\n\n\n<p>O autom\u00f3vel arrancou.<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos esticou as pernas, batendo com os p\u00e9s num volume debaixo do banco de Maria de Lurdes. \u201cO que \u00e9 isto que vai aqui?\u201d, perguntou. \u201cSei l\u00e1\u201d, respondeu o padre.<\/p>\n\n\n\n<p>Duzentos metros \u00e0 frente, Max parou em casa do amigo para recolher um dos dois garraf\u00f5es de vinho de cinco litros que l\u00e1 havia deixado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 sa\u00edda do carro, Carlos viu uma luva de cabedal de cor castanha, forrada a l\u00e3, esquecida no assento. \u201cDe quem \u00e9 esta luva?\u201d, questionou-se, intrigado. \u201cEssa luva \u00e9 tua, p\u00e1, n\u00e3o me gozes\u201d, atirou-lhe Max, apressado.<\/p>\n\n\n\n<p>Lurdes ainda lhe disse que parecia ser de rapariga. \u201cN\u00e3o \u00e9, olhem para esta man\u00e1pula\u201d, observou o padre, pegando-lhe.<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos foi buscar o garraf\u00e3o enquanto o cunhado ficou breves minutos \u00e0 conversa com o sacerdote.<\/p>\n\n\n\n<p>Despediram-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos entrava em casa quando ouviu o estrondo. O ch\u00e3o tremeu. Um clar\u00e3o enorme iluminava o breu. \u201cMataram o padre Max!\u201d, gritava a irm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Lurdes jazia no meio da estrada, ao quil\u00f3metro 71.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda disse \u201cque desgra\u00e7a!\u201d ou \u201csocorre-me!\u201d, algo assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Max estava ca\u00eddo junto \u00e0 valeta, \u00e0 esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00d3 p\u00e1, que desgra\u00e7a!\u201d, disse, a custo.<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp;<em>Simca<\/em>, partido em dois, era j\u00e1 sucata. No ch\u00e3o, havia panfletos ensopados a anunciar um baile na Quinta do Rodo, em Godim, na R\u00e9gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria de Lurdes foi transportada ao hospital num&nbsp;<em>jeep<\/em>&nbsp;que passava. Ele seguiu no carro do cunhado de Carlos. No caminho, disse que lhe faltava o ar.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela chegou j\u00e1 sem vida ao hospital. Vestia tr\u00eas camisolas leves de v\u00e1rias cores.<\/p>\n\n\n\n<p>Max entrou com grande dificuldade em falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Perguntaram-lhe o que se passara.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cColocaram-me uma bomba no carro e agora est\u00e1 a arder, mas n\u00e3o faz mal. \u00c9 esta a democracia portuguesa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois entrou em coma.<\/p>\n\n\n\n<p>Faleceu \u00e0s seis horas e vinte minutos do dia 3 de abril de 1976.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha 32 anos e dizia que n\u00e3o chegaria \u00e0 idade de Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-2 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"856\" height=\"533\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/max1-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5051\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/max1-1.jpg 856w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/max1-1-300x187.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/max1-1-768x478.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/max1-1-400x250.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 856px) 100vw, 856px\" \/><\/figure><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"581\" height=\"371\" src=\"\" alt=\"IMG_258\">O Padre Max e a estudante Maria de Lurdes foram assassinados \u00e0 bomba pelos extremistas de direita do MDLP em 1976<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mem\u00f3rias de Almendra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nascido na Choupica, Ribeira de Pena, um dos cinco filhos de pais emigrados em Fran\u00e7a, mas for\u00e7ados a regressar por causa do avan\u00e7o nazi na II Guerra, Maximino Barbosa de Sousa passou parte da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia em Almendra, concelho de Vila Nova de Foz C\u00f4a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terra onde as alcunhas dizem mais do que o nome pr\u00f3prio, \u201cManuel dos Tamancos\u201d, pai de Maximino, tornara-se feitor do Conde de Almendra. Chefe da Uni\u00e3o Nacional e da PIDE, o nobre escolhia os presidentes de c\u00e2mara, os regedores das aldeias e tinha uns quantos informadores por conta que lhe iam sussurrando o rumorejar da terra. As duas casas senhoriais, perten\u00e7a dos Viscondes de Banho e do Conde de Almendra, detinham, entre vinhedos e olivais, mais de 80 por cento das propriedades.<\/p>\n\n\n\n<p>Fam\u00edlia de viver para o trabalho sete dias por semana, com cinco filhos para criar, os pais de Maximino trancavam-se em casa e n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria e testemunhos de se terem integrado na comunidade local.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher, mais beata, n\u00e3o se dava a tricotar bisbilhotices.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cManuel dos Tamancos\u201d jamais fora visto \u00e0 porta da Igreja em conv\u00edvio com os outros homens da terra. O seu Deus era o conde. E a ele se dedicaria todo o tempo, percorrendo o calv\u00e1rio das esta\u00e7\u00f5es do ano a da fertilidade das terras.<\/p>\n\n\n\n<p>Max tornara-se amigo de Manuel Varges, tamb\u00e9m de origens humildes. Nascido numa prole de 16 catraios, cinco foram levados cedo pela mortandade desse tempo. \u201cOs filhos dos pobres\u201d grudam um no outro. Max mais introvertido, humilde e pouco dado. Varges, expansivo e brincalh\u00e3o. Eram parelha de futeboladas, de ir aos ninhos das rolas e cuidar dos grilos em gaiolas de metal. A dupla lambuzava-se com amoras. Entregues a si pr\u00f3prios, eram ases a roubar mel\u00f5es e melancias e andavam na rua como as galinhas. \u00c0 noite, recolhiam \u00e0 \u201ccapoeira\u201d. Nas f\u00e9rias de ver\u00e3o, faziam de aios dos filhos do conde, com os quais brincavam. Aprenderam a podar cris\u00e2ntemos, ajudavam o padre nas missas, nos batismos e na catequese.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo Natal, a viscondessa ofertava-lhes pijamas, camisolas, a roupa que sobejava dos seus meninos.<\/p>\n\n\n\n<p>Daniel, irm\u00e3o mais velho de Maximino, foi o primeiro a revoltar-se com a canseira dos dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Corro\u00eda-o ver os pais a trabalhar de sol a sol, mal pagos, por vezes meses sem receber. Era um rapaz forte, rude, pouco devendo \u00e0 beleza, abrutalhado nos gestos e nos dizeres. Aquele viver de pobreza e mis\u00e9ria afiara-lhe as palavras como l\u00e2minas. Seria, por isso, o primeiro a ser apelidado de \u201ccomunista\u201d. Com o servi\u00e7o militar a aproximar-se, arriscou: rumaria de vez a Fran\u00e7a, onde a m\u00e3e mantinha familiares. E dele n\u00e3o mais se ouviu not\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns has-cyan-bluish-gray-background-color has-background is-layout-flex wp-container-4 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"329\" height=\"329\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem2-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5052\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem2-1.png 329w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem2-1-300x300.png 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem2-1-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 329px) 100vw, 329px\" \/><\/figure><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Max, terceiro a contar da esquerda, na segunda fila, num baptizado de fam\u00edlia<\/p>\n\n\n\n<p>Max seguiria entretanto para o semin\u00e1rio de Vila Real.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Almendra, as mulheres lamentaram que um rapaz \u201ct\u00e3o bonito\u201d se inclinasse para o sacerd\u00f3cio. Ele, por\u00e9m, n\u00e3o iria ser apenas mais um. Da passagem pela vila hist\u00f3rica duriense deixar\u00e1, de resto, pasto para lendas. Jura-se ainda por ali, a p\u00e9s juntos, que Maximino gravou nas paredes da casa dos condes de Almendra uma inscri\u00e7\u00e3o que o guiar\u00e1 at\u00e9 ao \u00faltimo suspiro: \u201cAprendi a servir o povo no nojo da burguesia\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desconfort\u00e1vel com a educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3 espartana, submerso noite e dia nos conceitos de bem e de mal, de pecado e penit\u00eancia, cedo Maximino ser\u00e1 propenso a desobedi\u00eancias no interior da Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p>O irm\u00e3o Duarte viu-o \u201csempre pronto a responder \u00e0s injusti\u00e7as\u201d e a sofrer \u201cdissabores de outros padres\u201d.Em 1967, formou-se a rezar missa nova em F\u00e1tima, mas o seu \u201cbatismo revolucion\u00e1rio\u201d deu-se em Fran\u00e7a, por breve per\u00edodo, na insurrei\u00e7\u00e3o estudantil e laboral de 1968.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c0 frente do seu tempo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acabado o semin\u00e1rio, Max ocupara, na capital transmontana, a sala do primeiro andar na moradia da travessa de D. Dinis, n\u00ba 2, alugada por mil escudos aos pais de Maria de Lurdes, tamb\u00e9m emigrados em Fran\u00e7a. A jovem vivia com a av\u00f3 e a irm\u00e3. E o padre assumiu o papel de encarregado de educa\u00e7\u00e3o das raparigas.Maria das Dores, a propriet\u00e1ria da casa, come\u00e7ara por indagar se o sacerdote era \u201cpessoa de bem\u201d. Confirmadas as boas refer\u00eancias, e depois de o hospedar em casa, tornara-se amiga e at\u00e9 confidente. Considerava-o inteligente e humilde: \u201cDava tudo o que tinha sem nada pedir em troca\u201d. E at\u00e9 lhe fez uma coberta e pregou um fecho numas cal\u00e7as velhas. \u201cDizia que a virgindade n\u00e3o tinha valor nenhum. E tinha raz\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os anos seguintes levaram Max a Lisboa.Trabalharia no setor estudantil da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica em 1971, seria professor no liceu Padre Ant\u00f3nio Vieira, na capital, e no Externato Sebasti\u00e3o da Gama, em Set\u00fabal. A PIDE seguia-lhe j\u00e1 ent\u00e3o os passos por v\u00ea-lo escudar estudantes que haviam sido suspensos injustamente, tendo perdido o ano. \u201cOu luto, arrisco, vou para a frente\u2026ou para ser padre como tantos se veem prefiro sair\u201d, desabafara.Vigiado, desconfiado de maldades que lhe estariam a preparar, Max recebe o \u201c25 de Abril\u201d em \u00eaxtase. A 27, escrever\u00e1 numa carta a amigos de Tr\u00e1s-os-Montes: \u201cE por a\u00ed? O mesmo atraso, n\u00e3o? Dava-me vontade de ir falar, gritar\u2026\u201d.Se algo j\u00e1 o chamava, a vontade de regresso torna-se, nesse momento, indom\u00e1vel. \u201cO meu povo \u00e9 Vila Real e ele talvez precise de mim\u201d, justificou. Regressaria. Sentia que ali morava a sua voca\u00e7\u00e3o e destino.Para o bem e para o mal, n\u00e3o se enganou.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-10 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-columns has-cyan-bluish-gray-background-color has-background is-layout-flex wp-container-8 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<figure class=\"wp-block-gallery aligncenter columns-1 is-cropped wp-block-gallery-5 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem3-1-150x150.png\" alt=\"\" data-id=\"5053\" data-full-url=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem3-1.png\" data-link=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/?attachment_id=5053\" class=\"wp-image-5053\"\/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>A hierarquia da Igreja n\u00e3o disfar\u00e7ou a sua preocupa\u00e7\u00e3o com as ideias e atividades do Padre Max, como comprova este bilhete enviado pelo Bispo de Vila Real ao sacerdote<\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 1974, as ideias de Max j\u00e1 geravam burburinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Os mexericos seriam tema de conversa entre Max e Manuel Varges durante uma viagem a Lisboa para batizar a sobrinha do amigo de inf\u00e2ncia, ent\u00e3o residente na capital. Havia muito tempo que n\u00e3o se encontravam. As vidas de ambos e a geografia n\u00e3o ajudavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da partida, Varges assistira a uma homilia celebrada na S\u00e9 de Vila Real, onde Maximino falara do fascismo, da repress\u00e3o e da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. Depois seguiram juntos at\u00e9 Lisboa, no&nbsp;<em>Simca 1000<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O bom condutor que Max era, apaixonado por ralis, n\u00e3o o livrava de percal\u00e7os. A meio do percurso, teve um furo no pneu. Quil\u00f3metros \u00e0 frente, a roda saltou. Max apertara mal os parafusos e andaram ambos \u00e0 cata do pneu e dos ditos. Nem por isso a conversa abrandou.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo caminho, o amigo, j\u00e1 ent\u00e3o militante do PS, n\u00e3o deixara de refletir no que ouvira e ambos comentaram as incid\u00eancias daquela manh\u00e3: \u201cEle queria pregar, a todo o custo, a vers\u00e3o humanista que a Igreja deve ter da sociedade, mas na altura essas ainda eram ideias perversas e perniciosas. E houve gente que n\u00e3o gostou\u201d. Dito isto, desafiou-o: \u201cEh p\u00e1, tu tens um \u00f3timo palco, podes pregar a vis\u00e3o crist\u00e3 e humana da Igreja, dar a volta aos direitos dos cidad\u00e3os, porque \u00e9 que tinhas de ir logo para a UDP?\u201d. Ao volante, Maximino replicou. \u201cEu sou da UDP porque a UDP \u00e9 pela classe oper\u00e1ria e os direitos dos explorados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O di\u00e1logo repetir-se-ia na cozinha da casa de Varges, na Estrela, bairro da Lapa. \u201cN\u00e3o conseguiu dar-lhe a volta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da festa de batismo, celebrado na Igreja S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus, despediram-se. Sem saber que seria para sempre.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O homem al\u00e9m do seu tempo regressara de vez a um meio conservador e tradicional. Em Vila Real, o vendaval de Abril n\u00e3o levantara uma folha, nem abalara por a\u00ed al\u00e9m a modorra desse viver.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Max fora notado: era de esquerda, vestia cal\u00e7as de ganga, agitava consci\u00eancias. O desagrado com o regime anterior tornara-se milit\u00e2ncia. Dava aulas no liceu e na Escola Industrial e Comercial. Mobilizava lutas de estudantes pelas ruas contra a opress\u00e3o. Celebrava missa em casa com alunos e amigos. Apoiava oper\u00e1rios nas lutas fabris, andava com grupos de teatro de aldeia em aldeia, ensinava adultos a ler e a escrever. \u201cSe eu desistir, quem h\u00e1 de ensinar a ler \u00e0quelas 40 pessoas da Cumieira que s\u00e3o analfabetas?\u201d, interrogara-se.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A \u201covelha negra\u201d e o rebanho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Maximino come\u00e7ara a ser falado. \u201cNaquela fase prim\u00e1ria do exerc\u00edcio democr\u00e1tico meteu medo. Meteu muito medo\u201d, dir\u00e1 M\u00e1rio Brochado Coelho, que o conhecera dois dias antes da morte em Vila Real, onde se deslocou a pedido do sacerdote para tentar dirimir conflitos laborais entre grupos de trabalhadores com as entidades patronais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os jovens seguiam-no, os pais temiam-no.<\/p>\n\n\n\n<p>Panfletos sem nome intitulavam-no \u201cfamigerado e bandoleiro\u201d. Os amigos, alguns padres, admiravam-lhe as qualidades morais e profissionais, o bom car\u00e1ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Fam\u00edlias abastadas da terra, militantes da direita radical e a maioria dos sacerdotes da regi\u00e3o olhavam-no como desagregador do rebanho, incapaz de seguir \u201cuma linha de pudor que estivesse de acordo com os h\u00e1bitos da terra\u201d. Boatos de sacristia relacionavam-no com roubos de avultadas quantias de dinheiro. Dirigentes do CDS amea\u00e7aram-no em p\u00fablico que lhe davam um tiro. Uma comiss\u00e3o de pais exigiu ao bispo da diocese a expuls\u00e3o da \u201covelha negra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 1974 que os p\u00e1rocos reclamavam medidas, sob pena de o bispo ser \u201cseveramente criticado\u201d e vir \u201ca sofrer amarguras\u201d, amea\u00e7avam.<\/p>\n\n\n\n<p>O sacerdote Eduardo Sarmento lamentara \u201cos desatinos doutrin\u00e1rios e disciplinares\u201d de Max. O padre Portelinha benzia-se ante tantos pecados, mas um dia n\u00e3o foi de rezas e atirou-se ao gasganete do insolente Maximino: \u201cVoc\u00ea \u00e9 daqueles que me h\u00e1 de matar, mas a vingan\u00e7a ser\u00e1 terr\u00edvel!\u201d, prometeu. Cartas endere\u00e7adas ao bispo referiam-se, em jeito de esc\u00e2ndalo, a ditos e reditos atribu\u00eddos ao padre em sess\u00f5es p\u00fablicas. Segundo as missivas redigidas em nome da generalizada indigna\u00e7\u00e3o no meio cat\u00f3lico transmontano, Max teria acusado padres e bispos de \u201cconservar o povo ignorante para assim o dominarem\u201d e defendera o fim das aulas de Moral nos liceus por serem \u201cfantochadas\u201d. Maximino teria ainda revelado, numa dessas ocasi\u00f5es, que fora certa vez convidado a confessar o antigo Presidente da Rep\u00fablica, Am\u00e9rico Tom\u00e1s. \u201cRecusei-me a faz\u00ea-lo, pois n\u00e3o sabia a penit\u00eancia a aplicar-lhe\u201d, justificara.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"804\" height=\"101\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem5-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5054\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem5-2.png 804w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem5-2-300x38.png 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem5-2-768x96.png 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem5-2-800x101.png 800w\" sizes=\"(max-width: 804px) 100vw, 804px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Um dos primeiros relat\u00f3rios da PJ sobre o atentado deu corda \u00e0 tese passional, mas tal nunca se confirmou<\/p>\n\n\n\n<p>Max era, por esta altura, candidato a deputado nas listas da UDP nas primeiras elei\u00e7\u00f5es livres para a Assembleia da Rep\u00fablica. Num com\u00edcio na sede dos bombeiros, ati\u00e7aria ainda mais os altares e a beatice: \u201cSe h\u00e1 tantos padres de direita porque \u00e9 que um n\u00e3o h\u00e1 de ser de esquerda?\u201d, desafiara. Para o sacerdote, aquela era uma \u201cluta de morte\u201d para evitar que uns tivessem \u201cp\u00e3o de primeira\u201d e os outros nem o vissem. E perguntava, quase em s\u00faplica: \u201cComo \u00e9 que um capitalista pode celebrar ou dizer todos os dias \u00abo p\u00e3o nosso\u00bb quando o tipo tem o celeiro de todos?\u201d. E perguntava, mais e mais: \u201cQuem foi que matou milhares de jovens transmontanos numa guerra que nunca compreenderam, que lhe chamavam patri\u00f3tica e que fizeram com que eles n\u00e3o tivessem mais casa, n\u00e3o tivessem mais fam\u00edlia, n\u00e3o tivessem mais campos?\u201d, pregava, impar\u00e1vel. \u201cQuando a Igreja organizar o povo j\u00e1 n\u00e3o precisamos de caciques\u201d, desafiara. \u201cE ent\u00e3o a esquerda \u2013 no trabalho e na luta \u2013 dar\u00e1 a propriedade que o povo merece e n\u00e3o a explora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O padre Manuel Morais era dos poucos que lhe tinha \u201cestima e considera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o clima entre religiosos ardia como o fogo dos infernos. \u201cDisse-me o senhor bispo que h\u00e1 grande falat\u00f3rio, que fui levar a revolta aos jovens de Vila Real\u201d, comentara o pr\u00f3prio Max. \u201cCoitados! O Evangelho \u00e9 terr\u00edvel. Quem o prega a valer, sem ser por dinheiro, j\u00e1 sabe: s\u00f3 a \u00abcruz\u00bb o espera\u201d. Na verdade, o bispo Dom Ant\u00f3nio Cardoso Cunha, que se afei\u00e7oara ao sacerdote desavindo, esticou a corda at\u00e9 onde p\u00f4de. \u201cTenho sido inalteravelmente seu amigo, n\u00e3o obstante os grandes dissabores que (\u2026) tenho experimentado nestes dois \u00faltimos anos, devido \u00e0 sua conduta e atividades de natureza pol\u00edtica. Sinto-me no dever de dar uma explica\u00e7\u00e3o p\u00fablica a toda esta gente\u201d, escreveu o bispo de Vila Real, resignado, num bilhete enviado ao \u201ccaro Maximino\u201d, a 15 de mar\u00e7o de 1976.<\/p>\n\n\n\n<p>Ato cont\u00ednuo, Max foi proibido de exercer o minist\u00e9rio. E nem \u00e0 esquerda tinha o pleno das b\u00ean\u00e7\u00e3os. Militantes do MRPP acusavam-no de trai\u00e7\u00e3o. O bispo contara aos investigadores do crime que teria at\u00e9 havido alterca\u00e7\u00f5es entre o padre e os militantes daquele partido. \u201cV\u00f3s precisais de aprender a nadar\u201d, ati\u00e7ara Max. \u201cTamb\u00e9m o senhor precisa de aprender a voar\u201d, rosnaram os outros. O MRPP nem sequer lamentou a sua morte. Arnaldo Matos, ent\u00e3o l\u00edder e \u201cgrande educador da classe oper\u00e1ria\u201d, garantira, inflamado, num com\u00edcio: era o padre quem levava a bomba que o matou.<\/p>\n\n\n\n<p>O temperamento de Max punha-o a jeito para afli\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi amea\u00e7ado e puxado pelos colarinhos em reuni\u00f5es de associa\u00e7\u00f5es de pais e do clero local. Um Morris vermelho e um Alfa Romeo verde rondavam-no. Fam\u00edlias influentes e grupos de rufias da regi\u00e3o tiravam-lhe as medidas. Cartas amea\u00e7adoras, an\u00f3nimas, eram frequentes. \u201cO seu lugar n\u00e3o \u00e9 junto dos estudantes mas sim em Lisboa junto das prostitutas\u201d, escrevia-se. Nos muros do liceu, pichagens prometiam-lhe a morte. \u201cMax, porco e sabujo\u201d, lia-se.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 noite, jovens do CDS entretinham-se a insult\u00e1-lo \u00e0 porta de casa e atiravam-lhe garrafas de vinho, por vezes cheias. Saber-se-ia mais tarde que v\u00e1rias das cartas an\u00f3nimas haviam sido datilografadas numa m\u00e1quina&nbsp;<em>Lettera 22 Olivetti&nbsp;<\/em>encontrada na sede do CDS de Vila Real.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pre\u00e2mbulo de um crime<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Max passou a recear a pr\u00f3pria sombra.<\/p>\n\n\n\n<p>Inspecionava o autom\u00f3vel antes de entrar, era cuidadoso com o fecho das portas, mas a direita, na parte traseira, n\u00e3o teve emenda nem na oficina.<\/p>\n\n\n\n<p>Por duas vezes lhe furaram os pneus, puseram bilhetes amea\u00e7adores no para-brisas e paus de f\u00f3sforos na fechadura do carro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ramiro Moreira, operacional da rede bombista de extrema-direita, fez-se passar por sindicalista para o vigiar no in\u00edcio de 1976. \u201cMandaram-me ir ver o que o padre Max andava a fazer por aquelas bandas\u201d, admitira. \u201cEra um homem que se servia da pol\u00edtica para outros fins, mas n\u00e3o era um homem perigoso, n\u00e3o era nada perigoso\u201d, dir\u00e1 o bombista. \u201cEventualmente, teria de se lhe dar uma co\u00e7a\u201d ou \u201cpint\u00e1-lo com zarc\u00e3o e deix\u00e1-lo todo nu no meio da pra\u00e7a principal de Vila Real\u201d, comentara-se em reuni\u00f5es do MDLP. Mas algo mais seria planeado.<\/p>\n\n\n\n<p>Na brincadeira, Max dizia que qualquer dia lhe punham uma bomba. \u201cN\u00e3o desisto e, se morrer, \u00e9 por uma causa justa\u201d, ouviram-no, mais a s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Queixava-se pouco. Mas nos dias que antecederam a morte, viram-no triste e apreensivo. Com uma exce\u00e7\u00e3o: \u201cA coisa que mais me alegra \u00e9 que, daqui a um m\u00eas, a Maria de Lurdes vai fazer 18 anos e votar \u00e0 esquerda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final da tarde do dia 2 de abril de 1976, a amiga Maria Manuela disse-lhe \u00e0 porta do liceu que n\u00e3o ia com ele, nessa noite, \u00e0 Cumieira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEnt\u00e3o n\u00e3o te vejo mais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Percebendo na amiga um sorriso assustado, ele corrigiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o te vejo mais\u2026hoje\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esteve depois no Governo Civil num encontro de todos os partidos para discutir as elei\u00e7\u00f5es desse mesmo m\u00eas. A\u00ed, lamentou a rea\u00e7\u00e3o que vinha sentindo nos meios rurais e pediu compreens\u00e3o democr\u00e1tica. A reuni\u00e3o foi cordata.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes das 22 horas deu boleia a um rapaz do seu curso noturno que ia tratar de uma queimadura na perna direita ao hospital.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguiu depois para a Cumieira.Entregues os garraf\u00f5es de vinho vazios em casa de Carlos, s\u00f3 parou na Casa da Cultura. A bomba foi colocada no seu carro enquanto dava a \u00faltima aula de um dia esgotante.Na estrada, depois da explos\u00e3o, corpo prostrado no asfalto, s\u00f3 pediu:\u201cVejam como me levam\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-11 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"869\" height=\"576\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem6.png\" alt=\"\" data-id=\"5055\" class=\"wp-image-5055\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem6.png 869w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem6-300x199.png 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem6-768x509.png 768w\" sizes=\"(max-width: 869px) 100vw, 869px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p><em>O que sobrou do autom\u00f3vel do Padre Max, ap\u00f3s o atentado \u00e0 bomba na Cumieira (Vila Real)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Era o \u00faltimo f\u00f4lego do padre que havia ajudado os alunos a ensaiar a pe\u00e7a&nbsp;<em>Mortos sem Sepultura<\/em>, de Sartre, escrita trinta anos antes. O original retrata a personagem Canoris, homem de a\u00e7\u00e3o, pronto a enfrentar a morte em nome da liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao funeral, a 5 de abril, assistiram vinte mil pessoas. O com\u00e9rcio e os servi\u00e7os fecharam portas. \u201cCoisa nunca vista\u201d, diz quem l\u00e1 esteve.<\/p>\n\n\n\n<p>A missa foi celebrada pelo padre H\u00e9lder S\u00e1 na presen\u00e7a de 40 sacerdotes, vindos de todo o Pa\u00eds. Os p\u00e1rocos de Vila Real recusaram celebrar a missa de 30\u00ba dia. O altar dividiu os homens perante Deus. E a Maximino, \u00e0 terra roubado, at\u00e9 o c\u00e9u lhe proibiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Na hora de recolher roupas, livros e outros objetos pessoais do falecido, Duarte Barbosa, irm\u00e3o de Maximino, encontrou v\u00e1rias cartas an\u00f3nimas amea\u00e7adoras. Mas quando setores da Pol\u00edcia Judici\u00e1ria do Porto entraram em campo preferiram dar corda ao preconceito e enveredar pela pista do crime passional. A teoria, mirabolante, apontava Carlos, amigo de Max e Maria de Lurdes, como autor do crime e propriet\u00e1rio da bomba, que teria at\u00e9 a forma de garraf\u00e3o de vinho. Carlos esteve confessadamente apaixonado por Maria de Lurdes, mas ela pediu tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>A jovem estaria gr\u00e1vida de tr\u00eas meses quando morreu e o padre Maximino seria, para a Judici\u00e1ria, o principal motivo de ci\u00fame de Carlos. O amigo seria insultado e enxovalhado durante um inqu\u00e9rito. E ouviria, da boca de um agente que o intimidava, uma frase lapidar: \u201cUma das desgra\u00e7as que trouxe o 25 de Abril foi acabar com a PIDE\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel Varges, o amigo de tempos idos que nunca vira maldade no Maximino, conhecia bem o territ\u00f3rio em que se lavrava boataria a esmo. \u201cA cultura vigente nas aldeias era esta: se um homem andava muito tempo com uma rapariga s\u00f3 podiam ser namorados ou amantes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A PJ do antigamente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A PJ teceu a pista passional sem haver amanh\u00e3, vertendo-a para os relat\u00f3rios. Tudo se conjugava: o padre \u201cdava pol\u00edtica de modo a cativar os alunos segundo a ideologia da UDP\u201d, era defensor \u201cdo chamado amor livre\u201d e vivia \u201cmaritalmente\u201d com Maria de Lurdes. \u201cPor tudo isto e o mais que n\u00e3o foi poss\u00edvel averiguar, o padre Maximino n\u00e3o gozava de boa reputa\u00e7\u00e3o\u201d, conclu\u00eda-se, de forma desassombrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta altura, os agentes \u201cdo antigamente\u201d na PJ do Porto adaptavam-se o melhor que podiam \u00e0 nova realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas puseram a ideologia a comandar as investiga\u00e7\u00f5es\u201d, conta quem viveu esse per\u00edodo por dentro. N\u00e3o espantou, por isso, a displic\u00eancia na salvaguarda de elementos de prova.<\/p>\n\n\n\n<p>A chapa exterior de uma das portas do carro s\u00f3 foi encontrada no socalco de uma vinha mais de dois meses depois do atentado. Passou id\u00eantico per\u00edodo at\u00e9 que fossem recolhidos peda\u00e7os do tapete do ve\u00edculo e examinados os vest\u00edgios da bomba. Por esses dias, j\u00e1 excel\u00eancias da dire\u00e7\u00e3o nacional da PJ se encontravam com eventuais testemunhas do caso antes dos investigadores chegarem a elas.S\u00f3 nos anos 80, quando foi necess\u00e1rio voltar \u00e0 estaca zero, o caso do padre Max entrou em trilhos s\u00f3lidos: o crime pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery aligncenter columns-1 is-cropped wp-block-gallery-13 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"470\" height=\"315\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem7.png\" alt=\"\" data-id=\"5056\" class=\"wp-image-5056\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem7.png 470w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem7-300x201.png 300w\" sizes=\"(max-width: 470px) 100vw, 470px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p>A estrada onde o padre Max e a estudante Maria de Lurdes foram assassinados. Foto: Luc\u00edlia Monteiro<\/p>\n\n\n\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o do assass\u00ednio, por desconhecidos, do industrial Joaquim Ferreira Torres, em agosto de 1979, iluminou a noite da Cumieira. Um crime levou ao outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, o julgamento do&nbsp;<em>S\u00e3obentogate,&nbsp;<\/em>que limpou a PJ do Porto da corrup\u00e7\u00e3o mais end\u00e9mica, fez o resto. O \u201c25 de Abril\u201d chegar\u00e1 finalmente \u00e0 Judici\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Torres, esse, era o financiador conhecido do MDLP, presidido por Sp\u00ednola e liderado por Alpoim Calv\u00e3o. O movimento, organizado a partir de Espanha, p\u00f4s Portugal a ferro e fogo entre 1975 e 1976. Segundo um dos seus quadros, o MDLP custava tr\u00eas mil contos por m\u00eas (mais de 400 mil euros em 2015). Pagava 30 mil pesetas aos casados, 20 mil aos solteiros. Deixou um rasto de bombas e inc\u00eandios em alvos de esquerda, a par de v\u00edtimas mortais.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel de Torres no planeamento e financiamento da opera\u00e7\u00e3o da Cumieira provou-se no Tribunal Judicial de Vila Real. Contou com a ajuda de gente ligada ao MDLP, ainda que, na \u00e9poca, pudessem j\u00e1 andar em roda livre, quais prestadores de servi\u00e7o \u00e0 conta de bom dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O receio de Torres voltar a ser preso por causa da rede bombista f\u00ea-lo amea\u00e7ar, \u00e0 boca cheia, que abriria o livro sobre as cumplicidades e neg\u00f3cios feitos \u00e0 sombra do MDLP. N\u00e3o era \u201cbluff\u201d, foi o seu fim.<\/p>\n\n\n\n<p>O industrial fora, logo ap\u00f3s o 25 de Abril, fiel deposit\u00e1rio de fortunas e valores de figuras influentes e poderosas recolhidas no estrangeiro. Uma \u00e9poca em que o MDLP contou com fi\u00e9is amigos na PJ do Porto. \u201cProtegia-se gente do fascismo e camuflava-se o envio de importantes somas de dinheiro para fora do Pa\u00eds\u201d, segundo hist\u00f3ricos da \u201ccasa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201csubmundo\u201d do MDLP, feito de segredos c\u00famplices e neg\u00f3cios sujos \u00e0 margem do terrorismo pol\u00edtico, intimidara os pr\u00f3prios membros. Francisco Pessoa, que se tornara secret\u00e1rio, piloto e homem de m\u00e3o do comandante Alpoim Calv\u00e3o no MDLP, seria esclarecedor quando inquirido no processo: \u201cTem a certeza absoluta de que ao ditar estas declara\u00e7\u00f5es ou produzi-las verbalmente em qualquer tribunal, passa a estar imediatamente numa extrema e delicada situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a pessoal, o mesmo acontecendo com os familiares\u201d, dir\u00e1 \u201cChico Pessoa\u201d quando denuncia aqueles que, na sua opini\u00e3o, teriam sido os executantes do crime.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns has-cyan-bluish-gray-background-color has-background is-layout-flex wp-container-16 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"259\" height=\"277\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem8.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5057\"\/><\/figure><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Processo do Padre Max no Tribunal Judicial de Vila Real. Foto: Lucilia Monteiro<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mist\u00e9rios e obst\u00e1culos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O processo do padre Max foi dos mais viajados da Justi\u00e7a portuguesa.E dos mais longos.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve de tudo. Al\u00e9m da falta de meios e incentivos, embrulhadas em solicita\u00e7\u00f5es constantes para que se desistisse de vasculhar o passado, teve agentes da PJ apanhados nas escutas a sabotar a atividade de colegas. \u201cTrabalhava-se com uma faca nas costas\u201d, diria um deles.As investiga\u00e7\u00f5es, na sua fase inicial, \u201cn\u00e3o permitiram a salvaguarda de elementos probat\u00f3rios\u201d, foram marcadas por um \u201ccomportamento tendencioso intimidat\u00f3rio\u201d e resumiram-se \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de \u201cmeios artesanais\u201d, registar\u00e1 o inqu\u00e9rito.A senten\u00e7a de um processo com 15 volumes e mais de quatro mil p\u00e1ginas foi proferida em 1999, 23 anos depois do crime e de uma prociss\u00e3o de avan\u00e7os e recuos.<\/p>\n\n\n\n<p>O MDLP foi condenado enquanto organiza\u00e7\u00e3o que planeou e financiou o atentado. Os alegados executantes foram absolvidos por falta de provas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tr\u00e1s, ficar\u00e1 um libelo acusat\u00f3rio que inclu\u00eda o c\u00f3nego bracarense Eduardo Melo, o tenente-coronel Canto e Castro e os industriais Rui Castro Lopo e Joaquim Ferreira Torres. Os quatro teriam urdido o \u201csinistro plano\u201d. O sacerdote minhoto lavara da\u00ed as m\u00e3os. N\u00e3o conhecia Maximino, nem sequer sabia o seu nome completo, diria, em sua defesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Eduardo Melo, na verdade, havia sido confessor do padre Max, mas a sua mem\u00f3ria desvanecera-se. Na penumbra ficara tamb\u00e9m certa madrugada do in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 quando assomou \u00e0 porta das instala\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Judici\u00e1ria de Braga. \u201cO c\u00f3nego Melo aqui?! A esta hora?!\u201d, indagou-se o agente que estava de piquete, seu antigo aluno de Grego no semin\u00e1rio. O sacerdote soubera que, por aqueles dias, inspetores da PJ teriam rondado a zona. Andariam \u00e0 cata de ind\u00edcios e testemunhos que pudessem trazer iluminar as trevas do inqu\u00e9rito sobre a morte do padre Max. Os volumes, circunstancialmente, repousavam naquelas instala\u00e7\u00f5es. \u201cSer\u00e1 que eu poderia ver o que eles andaram a fazer?\u201d, mendigou junto do seu antigo educando, agora de farda posta. \u201cEram umas quatro da manh\u00e3 e o certo \u00e9 que ele consultou o processo como quis\u2026\u201d, confessa o homem que, nessa noite, fraquejou diante da divinizada figura da arquidiocese minhota.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00f3nego Melo nunca seria condenado. Foi mais tarde afastado de qualquer suspeita no crime. A bem, supunha-se, da descoberta da verdade. \u201cSempre nos foi dito que se ele n\u00e3o estivesse l\u00e1 metido, a coisa andava mais depressa\u201d, justificou um dos elementos da Pol\u00edcia Judici\u00e1ria que agarrou o processo \u00e0 beira da prescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O julgamento do caso, que culminou em 1999, deu como provada a responsabilidade do MDLP. Mas os nomes dos autores nunca foram identificados. Foto de Luc\u00edlia Monteiro<\/p>\n\n\n\n<p>O julgamento incluiu um desfile de chefes e colaboracionistas da rede bombista.<\/p>\n\n\n\n<p>O desenlace poss\u00edvel deveu-se, em boa parte, ao profissionalismo e persist\u00eancia de dois investigadores da PJ. Um foi Artur Pereira, ele pr\u00f3prio natural da Cumieira e conhecido do padre Max. Quando o inqu\u00e9rito lhe chegou \u00e0s m\u00e3os, nos anos 80, pediu dispensa do processo dada a sua proximidade com o sacerdote, que substitu\u00edra, de resto, nas aulas de Franc\u00eas. Na PJ, por\u00e9m, decidiram mant\u00ea-lo nas investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 nos anos 90, seria V\u00edtor Alexandre, operacional da Dire\u00e7\u00e3o Central de Combate ao Banditismo (DCCB), a tomar conta do caso. A ele se deve o facto de Max n\u00e3o ter \u201cmorrido\u201d duas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o inqu\u00e9rito manteve desperto, por mais de duas d\u00e9cadas, o crime da Cumieira, tal tamb\u00e9m se deveu \u00e0 persist\u00eancia do ent\u00e3o procurador Paulo S\u00e1 e a M\u00e1rio Brochado Coelho, advogado das v\u00edtimas. \u201cO modo como foram investigados e julgados os processos relativos a \u00abcrimes de direita\u00bb foi mais ben\u00e9volo. Encobriram-se responsabilidades e respons\u00e1veis deliberadamente. O caso do padre Max e da Maria de Lurdes foi um paradigma de obstru\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica \u00e0 descoberta da verdade. E estivemos muito perto de sab\u00ea-la toda\u201d, afirmara o caus\u00eddico.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o a sabemos, \u201c\u00e9 porque h\u00e1 coisas do presente que ainda assentam neste passado\u201d, conclu\u00edra um dos investigadores do caso. \u201cOlhe-se para a matriz do regime, para a gente que beneficiou do que se fez naquele tempo e tirem-se as conclus\u00f5es. Os indultos vieram da pr\u00f3pria esquerda\u201d. H\u00e1 uns anos, um antigo alto quadro do MDLP resumia a situa\u00e7\u00e3o nestes termos \u00e0 Judici\u00e1ria: \u201cTemos de dizer aos av\u00f3s daqueles que est\u00e3o no poder para p\u00f4r os meninos nos eixos, a ver se eles se portam bem. Sen\u00e3o isto ainda acaba tudo outra vez \u00e0 estalada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seria \u00e0 bomba?<\/p>\n\n\n\n<p>Carta an\u00f3nima, enviada a um antigo operacional do MDLP, e integrada no processo do Padre Max.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mem\u00f3ria e esquecimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, na Cumieira, quase n\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgios desse tempo.A Casa da Cultura deu lugar ao novo edif\u00edcio da Junta de Freguesia.\\E ao quil\u00f3metro 71, s\u00f3 uns dizeres desbotados inscritos numa paragem de autocarro velha e enferrujada insistem em preservar a mem\u00f3ria que n\u00e3o perdeu validade: \u201cPadre Max, assassinos \u00e0 solta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No cemit\u00e9rio de Santa Iria, o jazigo de Maria de Lurdes \u00e9 a cara do desleixo.<\/p>\n\n\n\n<p>A campa de Maximino de Sousa \u00e9 a 1240, a dois passos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Les Temps Passe, le Souvenir Reste,&nbsp;<\/em>l\u00ea-se.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns has-cyan-bluish-gray-background-color has-background is-layout-flex wp-container-18 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"569\" height=\"380\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem11.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5058\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem11.png 569w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Imagem11-300x200.png 300w\" sizes=\"(max-width: 569px) 100vw, 569px\" \/><\/figure><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Campa do Padre Max no cemit\u00e9rio de Santa Iria, em Vila Real. Foto: Lucilia Monteiro<\/p>\n\n\n\n<p>As flores s\u00e3o de pl\u00e1stico, mas o craveiro ao fundo da laje preta tem cravos a florir, em rebeldia. Apenas uma funcion\u00e1ria da Seguran\u00e7a Social de Vila Real l\u00e1 vai, \u00e0s vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os anos, Maria Augusta, feliz zeladora do cemit\u00e9rio a meias com o marido, recebe chamadas do estrangeiro. S\u00e3o emigrantes pedindo que enfeite a \u00faltima morada dos familiares.Pelo padre Max e Maria de Lurdes, ningu\u00e9m telefona. Para eles, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 velas nem flores.<\/p>\n\n\n\n<p><em>EP\u00cdLOGO<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em 2014, o jornalista Ricardo de Saavedra editou \u201cO Puto\u201d, biografia do \u201cComandante Paulo\u201d, ou melhor, Manuel Vicente da Cruz Gaspar, nascido em Montepuez, Mo\u00e7ambique. Tratava-se de um ex-comando refugiado na \u00c1frica do Sul, combatente no Esquadr\u00e3o Chipenda, da FNLA, em Angola. Seria depois um dos operacionais do terrorismo de direita em Portugal e um dos radicais envolvidos na fuga dos \u201cpides\u201d de Alcoentre, onde se encontrava detido. Ricardo de Saavedra entrevistou o \u201ccomandante Paulo\u201d em Joanesburgo, em 1979, numa casa da Monk Street. Gravou 23 cassetes durante 25 encontros e manteve resguardado o seu conte\u00fado por 35 anos. Em determinada fase da longa conversa, \u201co Puto\u201d descreveu uma viagem a Vila Real: \u201cO objetivo era o carro de um padre comunist\u00f3ide de Tr\u00e1s-os-Montes, que usava boina \u00e0 Che e, embora professor, precisava de li\u00e7\u00e3o \u00e0 antiga, um susto \u00e0 maneira\u201d. Juntamente com um colega de apelido Favas, rumou a Vila Real a 2 de abril de 1976. Dia em que tr\u00eas elementos se juntaram \u00e0 dupla e, segundo ele, se ter\u00e1 delineado o atentado a Maximino Barbosa de Sousa, o padre que \u201ctemperava regras de moral e gram\u00e1tica ou trechos liter\u00e1rios de portugu\u00eas e franc\u00eas com aforismos de esquerda, acrescidos de considera\u00e7\u00f5es um tanto lascivas, que escandalizavam beatas e precatados var\u00f5es das par\u00f3quias \u00e0 volta da cidade\u201d. O embrulho com o engenho que mataria o sacerdote foi colocado no carro \u201cem sessenta segundos\u201d. Regulado para tr\u00eas horas e meia, o tempo permitiu que \u201co Puto\u201d e Favas ganhassem centenas de quil\u00f3metros em dire\u00e7\u00e3o a sul antes do rebentamento. Foi a \u201cdedilhar ladainhas\u201d que passaram Peso da R\u00e9gua e chegaram a Viseu. No momento em que o padre Max j\u00e1 transportava consigo a bomba que assinalaria o seu tr\u00e1gico destino, e \u201catendendo ao adiantado da hora\u201d, o \u201ccomandante Paulo\u201d resolveu parar o carro. Descansado, foi \u201ccalar a grafonola com um cabrito estufado que estava de comer e chorar por mais\u201d.<\/em> *Investiga\u00e7\u00e3o publicada na VIS\u00c3O em mar\u00e7o de 2006 e aprofundada, com novos documentos e testemunhos, para o livro \u201cQuando Portugal Ardeu \u2013 Hist\u00f3rias e segr<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-luminous-vivid-amber-background-color has-background\">NOTA &#8211; Quem tiver em seu poder elementos sobre este e outros deputados do Chega pode enviar informa\u00e7\u00f5es para geral@semfronteiras.eu<\/p>\n\n\n\n<p><span class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>N\u00c3O PASSAR\u00c3O<\/strong><\/span>!<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CAUSAS | Contra a extrema-direita | N\u00c3O PASSAR\u00c3O! 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