{"id":5368,"date":"2022-03-05T23:51:45","date_gmt":"2022-03-05T23:51:45","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=5368"},"modified":"2022-03-05T23:52:08","modified_gmt":"2022-03-05T23:52:08","slug":"a-ucrania-e-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/03\/05\/a-ucrania-e-nos\/","title":{"rendered":"A Ucr\u00e2nia e n\u00f3s"},"content":{"rendered":"\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>OPINI\u00c3O<\/strong><\/mark> | Guerra R\u00fassia &#8211; Ucr\u00e2nia<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5369\" width=\"251\" height=\"241\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio1.jpg 397w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio1-300x288.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 251px) 100vw, 251px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u00a0por Porf\u00edrio Silva<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Se, \u00e9 verdade, nada do que se passa no mundo nos \u00e9 estranho, n\u00e3o podemos ficar indiferentes \u00e0 guerra e \u00e0 paz, o elemento do que h\u00e1 de mais estreme na vida que nos \u00e9 comum como seres humanos. \u00c9, pois, um dever falar do que se passa na Ucr\u00e2nia, o que aqui farei em algumas notas mais ou menos soltas.<\/p>\n\n\n\n<p>1. Sem rebu\u00e7os: condenamos o governo russo de Putin pela invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, pelo desrespeito pela legalidade internacional (por muito fr\u00e1gil ou desequilibrada que ela seja), pelo espoletar de mais uma guerra (com o cortejo de sofrimento que ela encarna para tantas pessoas), por trazer mais umas d\u00e9cadas de guerra fria \u00e0 vida futura da Europa. Condenamos a vis\u00e3o imperialista de Putin, a deturpa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que a justifica ideologicamente, a falta de vergonha com que afirma direitos especiais sobre pa\u00edses que considera no seu \u201cquintal\u201d geoestrat\u00e9gico. Nisto, n\u00e3o duvidamos um momento; n\u00e3o aceitamos o truque de invocar outras paragens e outros momentos hist\u00f3ricos para desculpar ou disfar\u00e7ar o que est\u00e1 em causa agora e num terreno concreto, com gente concreta dentro (e fora, agora mais espalhada pelo mundo, expulsa pela guerra). Condenamos, sem hesita\u00e7\u00e3o, a invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia; n\u00e3o lhe encontramos desculpas; n\u00e3o temos nenhum motivo, racional ou emocional, para tentar esconder o sol com a peneira e poupar nas palavras desta condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>2. N\u00e3o tenho nenhuma simpatia pelo governo da R\u00fassia, liderado por um ditador reacion\u00e1rio que amalgama uma certa hist\u00f3ria da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica na sua vis\u00e3o neoczarista do mundo, que despreza os direitos humanos b\u00e1sicos do seu pr\u00f3prio povo, que trabalha incessantemente para desestabilizar as democracias ocidentais, nomeadamente por via do apoio material aos partidos protofascistas que por a\u00ed andam.<\/p>\n\n\n\n<p>3. Face a esta situa\u00e7\u00e3o, de guerra efetiva e de abertura de um novo per\u00edodo de guerra fria, temos de ser claros em todos os nossos valores, e n\u00e3o apenas em alguns. E, desde logo, temos de ser capazes de os reafirmar publicamente.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>4. A \u00fanica maneira de construir uma sa\u00edda para esta crise \u00e9 encontrar um quadro que d\u00ea garantias de seguran\u00e7a razo\u00e1veis a todas as partes, incluindo \u00e0 R\u00fassia. A Ucr\u00e2nia tem direito \u00e0 sua soberania, \u00e0s suas fronteiras, \u00e0 sua integridade \u2013 e a R\u00fassia tem direito a n\u00e3o ter a sua capital a dois minutos de dist\u00e2ncia de m\u00edsseis bal\u00edsticos de pot\u00eancias que n\u00e3o considera amigas, tal como as minorias russas t\u00eam direito a n\u00e3o serem alvo de discrimina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica nos pa\u00edses onde foram implantadas pela hist\u00f3ria. Ningu\u00e9m pode obrigar a OTAN a formalizar uma ren\u00fancia a abrir as portas a novos membros, mas tem de ser encontrada uma solu\u00e7\u00e3o que considere a seguran\u00e7a de cada pa\u00eds da regi\u00e3o como um problema coletivo de todos e n\u00e3o um problema que cada um tenta resolver \u00e0 sua maneira. S\u00f3 h\u00e1 seguran\u00e7a de cada pa\u00eds se houver seguran\u00e7a coletiva, seguran\u00e7a do conjunto, seguran\u00e7a de todos. A seguran\u00e7a coletiva \u00e9 condi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>sine qua non<\/em>\u00a0para a paz. Ningu\u00e9m espere ter paz duradoura se a R\u00fassia se sentir permanentemente amea\u00e7ada \u2013 e, nesse ponto, Putin tem, claramente, o apoio do povo russo.<\/p>\n\n\n\n<p>5. A Europa, e a Uni\u00e3o Europeia, tem de encontrar a sua voz pr\u00f3pria neste mundo. Mais uma vez, os Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o substantivamente afetados por esta guerra e quem paga a fatura \u00e9 a Europa. \u00c9 na Europa que se far\u00e3o sentir nos pr\u00f3ximos anos os impactos econ\u00f3micos mais n\u00edtidos desta guerra, \u00e9 a Europa que vai suportar o peso civilizacional de uma nova \u00e9poca de guerra fria, \u00e9 na Europa que mais mudan\u00e7as pol\u00edticas bruscas v\u00e3o afetar equil\u00edbrios de d\u00e9cadas (como representa bem o novo rearmamento da Alemanha, com resson\u00e2ncias hist\u00f3ricas terr\u00edveis). Temos de estar mais cientes do que nunca dos nossos valores fundamentais: na cena pol\u00edtica da Ucr\u00e2nia quase n\u00e3o h\u00e1 for\u00e7as de esquerda, a escolha \u00e9 praticamente entre mais \u00e0 direita e menos \u00e0 direita, mas isso n\u00e3o nos pode conduzir \u00e0 paranoia de considerar que s\u00e3o todos nazis e precisamos de saber respeitar esse quadro pol\u00edtico, sem sermos, contudo, ing\u00e9nuos; mas, ao mesmo tempo, precisamos de ter bem claro que n\u00e3o h\u00e1 ades\u00f5es instant\u00e2neas \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, que h\u00e1 crit\u00e9rios a cumprir para fazer parte da Europa que existe, seja no que toca \u00e0 solidez das institui\u00e7\u00f5es e a um efetivo Estado de direito, quer no que toca \u00e0s \u201cliberdades econ\u00f3micas\u201d \u2013 e que, obviamente, nenhum pa\u00eds pode tentar passar ao lado dessas exig\u00eancias se quiser ser membro da Uni\u00e3o. E os l\u00edderes europeus n\u00e3o est\u00e3o autorizados a entregar no altar da demagogia qualquer ced\u00eancia nesses princ\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p>6. Este momento, pela sua gravidade, n\u00e3o deveria autorizar nenhum facilitismo, nenhuma ced\u00eancia ao monocromatismo, nenhuma beliscadura no respeito pela autonomia c\u00edvica dos nossos cidad\u00e3os e da sua intelig\u00eancia. Nunca atacar a liberdade em nome da liberdade. As discrimina\u00e7\u00f5es contra cidad\u00e3os russos s\u00e3o inadmiss\u00edveis, ainda para mais quando se discrimina s\u00f3 por serem cidad\u00e3os russos, sem qualquer culpa concreta formada e comprovada. Despedir um artista porque, supostamente, \u00e9 amigo de Putin? Impedir equipas russas de entrar em competi\u00e7\u00f5es desportivas? Estamos a tornar esta triste realidade numa guerra de massa contra todas as pessoas com nacionalidade russa? Proibir \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o russos porque s\u00e3o ve\u00edculos de propaganda? Mas quais \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 que, numa situa\u00e7\u00e3o destas, podemos ter a certeza de que s\u00e3o absolutamente isentos de enviesamento? Mas, ent\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o acreditamos na intelig\u00eancia dos nossos cidad\u00e3os para avaliarem a informa\u00e7\u00e3o que recebem, precisamos de proibir que nos cheguem os sinais dos \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o do invasor? \u00c9 preciso, se somos democratas, termos mais confian\u00e7a na democracia e recorrermos menos a medidas de repress\u00e3o das ideias \u2013 mesmo que as ideias sejam m\u00e1s, porque a liberdade implica isso mesmo: a liberdade de se defenderem ideias horr\u00edveis e ser no campo do escrut\u00ednio livre que elas t\u00eam de ser derrotadas, n\u00e3o no campo das medidas restritivas mais ou menos administrativas e mal escrutinadas pol\u00edtica e juridicamente falando. Cuidado com a ligeireza com que nos afundamos na guerra fria.<\/p>\n\n\n\n<p>7. H\u00e1, tamb\u00e9m no campo da pol\u00edtica interna, consequ\u00eancias desastrosas desta situa\u00e7\u00e3o. O PCP, um partido que continua a fazer falta \u00e0 democracia portuguesa, continua a exibir uma das suas mais graves incapacidades pol\u00edticas, que \u00e9 precisamente uma pol\u00edtica internacional cega pelo manto omnipotente do seu antiamericanismo prim\u00e1rio. Claro que os EUA fizeram muitos disparates em pol\u00edtica internacional ao longo de toda a sua hist\u00f3ria, desde o Chile ao Iraque, passando por muit\u00edssimos outros cen\u00e1rios de banditismo internacional. Mas os EUA mudaram, apesar de tudo. E as culpas passadas dos EUA n\u00e3o deveriam ser a \u00fanica linha de racioc\u00ednio pol\u00edtico do PCP. Infelizmente, nada podemos fazer para salvar o PCP dos seus fantasmas. E nem \u00e9 certo que o pr\u00f3prio PCP possa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"679\" height=\"389\" data-id=\"5370\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/port.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5370\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/port.jpg 679w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/port-300x172.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 679px) 100vw, 679px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><em>Publicado no blogue <a href=\"https:\/\/maquinaespeculativa.blogspot.com\/\">Machina Speculatrix,<\/a> transcri\u00e7\u00e3o autorizada pelo autor.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OPINI\u00c3O | Guerra R\u00fassia &#8211; Ucr\u00e2nia \u00a0por Porf\u00edrio Silva Se, \u00e9 verdade, nada do que&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5371,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[236,99],"tags":[292],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2.jpg",647,505,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2-300x234.jpg",300,234,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2.jpg",640,500,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2.jpg",640,500,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2.jpg",647,505,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2.jpg",647,505,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2.jpg",647,505,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2-647x500.jpg",647,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2.jpg",647,505,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/porfirio2-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/mundo\/\" rel=\"category tag\">MUNDO<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a>","tag_info":"OPINI\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5368"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5368"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5368\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5373,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5368\/revisions\/5373"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5371"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5368"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5368"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5368"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}