{"id":6063,"date":"2022-04-17T12:07:32","date_gmt":"2022-04-17T12:07:32","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=6063"},"modified":"2022-04-17T12:07:38","modified_gmt":"2022-04-17T12:07:38","slug":"no-tempo-em-que-os-pinhais-nao-ardiam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/04\/17\/no-tempo-em-que-os-pinhais-nao-ardiam\/","title":{"rendered":"No tempo em que os pinhais n\u00e3o ardiam"},"content":{"rendered":"\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>LIVROS &amp; M\u00daSICA <\/strong><\/mark>| Livros do Ex\u00edlio e da deser\u00e7\u00e3o contra a guerra colonial (1)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Tentamos anualmente dar o nosso contributo \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de livros e publica\u00e7\u00f5es diversas que apresentam uma rela\u00e7\u00e3o forte com os temas do ex\u00edlio e da deser\u00e7\u00e3o \u00e0 Guerra Colonial. Trata-se, numa dimens\u00e3o e com o impacto poss\u00edvel, incentivar \u00e0 escrita e \u00e0 publica\u00e7\u00e3o sobre temas que t\u00eam tido uma abordagem crescente por parte de protagonistas diversos e que surgem ainda mais interessantes quando s\u00e3o tratados na primeira pessoa. Trata-se tamb\u00e9m de incentivar os leitores e comprarem e a apoiarem estas iniciativas que s\u00e3o sempre muito esfor\u00e7adas por parte de quem as promove.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Damos in\u00edcio a esta Feira do Livro Informal e de pequena escala com Fernando Cardeira cuja a\u00e7\u00e3o neste campo das &#8220;mem\u00f3rias da deser\u00e7\u00e3o&#8221; se tornou refer\u00eancia pelas iniciativas \u00e1s quais est\u00e1 associado desde h\u00e1 uns anos a esta parte. <strong>Cr\u00f3nica de uma Deser\u00e7\u00e3o &#8211; Retrato de um Pa\u00eds<\/strong> \u00e9 o livro que o autor tem vindo a divulgar, com sess\u00f5es p\u00fablicas que alimentam o debate sobre estes temas centrais do ex\u00edlio e da deser\u00e7\u00e3o contra aGuerra Colonial.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sele\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio autor publicamos um excerto do livro que nos conduz \u00e0 sua aldeia e destacamos a foto do resineiro, no livro na p\u00e1g. 251, que foi publicada na revista Spartacus em Outubro de 1974.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"403\" height=\"385\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/fcardeira.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6064\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/fcardeira.jpg 403w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/fcardeira-300x287.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 403px) 100vw, 403px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por<strong> Fernando Mariano Cardeira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-vivid-red-color has-text-color wp-block-heading\">No tempo em que os pinhais n\u00e3o ardiam<\/h2>\n\n\n\n<p>Numa zona de pinhal, como \u00e9 grande parte dos concelhos da Nazar\u00e9 e de Alcoba\u00e7a, tudo o que o pinheiro produzia era aproveitado. Essa actividade constitu\u00eda uma parte importante da ocupa\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ao longo do ano. Desde a caruma (ou \u201caguilhota\u201d, no dizer local), a casca ou carrasca, a rama que era atada em molhos chamados de \u201cmotano\u201d, usados como combust\u00edvel nas f\u00e1bricas de vidro existentes em Pataias e na Marinha Grande, at\u00e9 ao enorme cepo que ficava enterrado, depois de cortado o pinheiro, e que era preciso arrancar da terra, tudo servia para se fazer algum dinheiro. <\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra actividade importante nos anos 50 e 60 era a apanha das pinhas (designadas em Fanhais por \u201cpinhocas\u201d ou \u201cpinhocos\u201d conforme as pinhas estivessem abertas ou fechadas). Era um trabalho muito dif\u00edcil e penoso, que se fazia ou subindo aos pinheiros, actividade normalmente reservada para as crian\u00e7as, ou com longas e pesadas varas ou varolas armadas de ganchos ou garranchos que arrancavam os pinhocos dos ramos mais altos do pinheiro. N\u00e3o havia tempo para deixar os pinhocos amadurecerem, quem chegasse primeiro \u00e9 que os apanhava. Estes eram depois estendidos nas eiras a secar para abrirem com o sol e deixarem sair a semente, o penisco, um produto que se vendia a bom pre\u00e7o. As pr\u00f3prias pinhas, depois de abertas pelo calor do sol, recuperado o penisco, eram usadas para acender as lareiras e eram muito procuradas, tanto na Nazar\u00e9 como em Alcoba\u00e7a. Ir vender pinhas \u00e0 Maiorga, a Alcoba\u00e7a e \u00e0 Nazar\u00e9 era um trabalho regular para as gentes de Fanhais.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Quem viveu estes tempos entende bem porque \u00e9 que raramente havia inc\u00eandios nestes pinhais. Tudo era aproveitado dos pinhais, e em muitos casos era at\u00e9 necess\u00e1rio pedir autoriza\u00e7\u00e3o ao dono do pinhal para apanhar a caruma, as pinhas ou a carrasca. Os pinhais estavam naturalmente limpos, devido \u00e0s necessidades das popula\u00e7\u00f5es locais. E se um fogo se iniciasse havia sempre algu\u00e9m a trabalhar nos campos, nas hortas ou nas matas, n\u00e3o muito longe, que dava o alarme, tocando o sino da pequena igreja, e rapidamente aparecia a aldeia em peso a combater o inc\u00eandio. Nunca assisti a grandes inc\u00eandios nem me lembro de alguma vez ter visto por ali um carro de bombeiros, pois nem estradas havia! Mesmo um ou outro fogo em habita\u00e7\u00f5es da aldeia era combatido com baldes de \u00e1gua que passavam de m\u00e3o em m\u00e3o em longas filas de pessoas que acorriam de todos os cantos da povoa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida das crian\u00e7as nestas aldeias pobres e isoladas n\u00e3o era t\u00e3o id\u00edlica como poder\u00e1 por vezes transparecer das recorda\u00e7\u00f5es que guardamos da inf\u00e2ncia pois, felizmente, quase sempre remetemos as mais penosas mem\u00f3rias para o fundo da nossa mente. Lembro-me ainda muito bem dos Invernos frios, com chuva e vento que por vezes nos apanhava no meio dos pinhais, ainda longe do calor da lareira, que estava quase sempre acesa em casa. Por vezes abrig\u00e1vamo-nos em casotas abandonadas, muito raras, ou, mais frequentemente, em espigueiros rudimentares, feitos com a palha de milho que fora cortada e era armazenada de modo a constituir uma pequena cabana de duas \u00e1guas. O cheiro da palha de milho, da terra molhada e o ru\u00eddo da chuva que ca\u00eda sobre o improvisado abrigo, acabavam por constituir um momento de agrad\u00e1vel conv\u00edvio familiar, enquanto a chuva n\u00e3o parava, ou at\u00e9 a fome apertar e ser necess\u00e1rio meter pernas a caminho para regressar a casa, esfomeados, encharcados e enregelados.<\/p>\n\n\n\n<p>A roupa e o cal\u00e7ado nestas aldeias eram muito rudimentares, e nem sempre suficientes para nos agasalhar no Inverno, ou para nos proteger no Ver\u00e3o. Nas casas mais pobres, a maioria delas, muito pouco confort\u00e1veis, os irm\u00e3os dormiam juntos na mesma cama, rapazes e raparigas, e nem sempre seria por falta de espa\u00e7o, mas sim porque juntos resistiam melhor ao frio. Numa \u00e9poca em que n\u00e3o se falava ainda de trabalho infantil, o trabalho das crian\u00e7as era aproveitado, com naturalidade, por toda a gente, pobres ou remediados. Havia sempre alguma tarefa no trabalho dos campos em que uma crian\u00e7a podia ajudar, fosse a pegar num sacho para abrir uma regueira, apanhar fruta, vindimar, ou mesmo tomar conta dos irm\u00e3os mais novos, que eram levados para as terras dentro de alcofas ou grandes cestos de verga, chamados poceiros. <\/p>\n\n\n\n<p>A partir dos sete ou oito anos, esse trabalho das crian\u00e7as passava a ser mesmo uma obriga\u00e7\u00e3o a cumprir. Passava-se das simples tarefas de fazer recados para a obriga\u00e7\u00e3o de passar os dias inteiros, quando n\u00e3o havia escola, junto dos pais para ajudar nas tarefas agr\u00edcolas, que podiam incluir semear batatas, milho ou feij\u00e3o, plantar couves ou \u00e1rvores de fruto. Nas \u00e9pocas das diferentes colheitas, e sobretudo na altura das vindimas, o trabalho das crian\u00e7as era um suplemento que nenhuma fam\u00edlia dispensava, feito \u00e0s vezes \u00e0 revelia da Escola. Faziam-no os jovens com cara alegre? Nem sempre, principalmente quando sabiam que havia amigos seus que estariam talvez a jogar \u00e0 bola, a jogar \u00e0 malha ou, melhor ainda, na Lagoa do Gago a banhar-se, enquanto eles tinham que andar na vindima at\u00e9 ao fim do dia.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-5 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-columns alignfull are-vertically-aligned-center has-cyan-bluish-gray-background-color has-background is-layout-flex wp-container-3 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:44%\">\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cr\u00f3nica de uma Deser\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.wook.pt\/autor\/fernando-mariano-cardeira\/5097568\">Fernando Mariano Cardeira<\/a>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>ISBN\u00a09789727807604Edi\u00e7\u00e3o\/Reimpress\u00e3o\u00a003-2021Editor:\u00a0\u00c2ncora EditoraIdioma:\u00a0Portugu\u00eas<\/p>\n\n\n\n<p>Dimens\u00f5es:\u00a0147 x 229 x 15mm<\/p>\n\n\n\n<p>Encaderna\u00e7\u00e3o:\u00a0Capa mole P\u00e1ginas:\u00a0264Tipo de Produto:\u00a0LivroClassifica\u00e7\u00e3o <\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:56%\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"303\" height=\"476\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cronica.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6069\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cronica.jpg 303w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cronica-191x300.jpg 191w\" sizes=\"(max-width: 303px) 100vw, 303px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Imagens da aldeia<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-6 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"630\" height=\"277\" data-id=\"6065\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/1951-Escola-Fanhais.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6065\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/1951-Escola-Fanhais.jpg 630w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/1951-Escola-Fanhais-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 630px) 100vw, 630px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-8 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"673\" 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