{"id":6127,"date":"2022-04-21T01:01:52","date_gmt":"2022-04-21T01:01:52","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=6127"},"modified":"2022-05-08T06:48:42","modified_gmt":"2022-05-08T06:48:42","slug":"latouche-e-a-felicidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/04\/21\/latouche-e-a-felicidade\/","title":{"rendered":"Latouche e a felicidade"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>L\u2019abondance frugale comme art de vivre \u2013 Bonheur, gastronomie et d\u00e9croissance (<\/strong>Autor:<strong> Serge Latouche)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-cyan-bluish-gray-background-color has-text-color has-background\">Coment\u00e1rios sobre o conte\u00fado dos diferentes cap\u00edtulos<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/filipe1-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6152\" width=\"250\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/filipe1-2.jpg 407w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/filipe1-2-300x271.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Por <strong>Filipe do Carmo<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\"><strong>Premi\u00e8re Partie: La d\u00e9croissance et les paradoxes du bonheur \u2013 La joie de vivre dans la frugalit\u00e9<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol type=\"1\"><li><strong>Les vicissitudes de la \u00ab vie bonne \u00bb: de la b\u00e9atitude au bien-avoir (pags. 15-39)<\/strong><\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Foi referido no Coment\u00e1rio anterior que a palavra \u201cfelicidade\u201d devia ser acrescentada \u00e0 lista das \u201cpalavas t\u00f3xicas\u201d (opini\u00e3o de Ivan Illich). Conv\u00e9m agora chamar a aten\u00e7\u00e3o, dado o que Latouche desenvolve logo ap\u00f3s a sua Introdu\u00e7\u00e3o, para o facto de a palavra que at\u00e9 ent\u00e3o foi maioritariamente utilizada em franc\u00eas para o que traduzimos por \u201cfelicidade\u201d ser \u201cbonheur\u201d. Ora outras palavras foram utilizadas por Latouche que podem ser traduzidas em portugu\u00eas por \u201cfelicidade\u201d e o t\u00edtulo acima inclui duas (\u201cvie bonne\u201d e \u201cbien-avoir\u201d) ou mesmo tr\u00eas (se lhes acrescentarmos \u201cb\u00e9atitude\u201d, palavra que no entanto j\u00e1 se traduziu no texto anterior por \u201cbeatitude\u201d). Tentar-se-\u00e1 no presente texto abstrair tanto quanto poss\u00edvel dessa diversidade de palavras francesas que tendemos a traduzir por felicidade, pois a preocupa\u00e7\u00e3o maior de quem est\u00e1 a comentar \u00e9 o \u201cdecrescimento\u201d. Come\u00e7ar-se-\u00e1 por prestar aten\u00e7\u00e3o ao sentido que beatitude tinha para os religiosos da Idade M\u00e9dia, uma perspectiva fortemente espiritual, celeste mesmo, imaterial e colectiva, enquanto o ideal de vida que se come\u00e7a a afirmar com o <strong>Iluminismo<\/strong>, mas tem precedentes no <strong>Renascimento<\/strong>, altura em que foi desencadeado o in\u00edcio de uma mudan\u00e7a radical (<strong>Antoine de Montchrestien<\/strong> (1575-1621) \u2013 visto por alguns como representante do mercantilismo franc\u00eas \u2013 j\u00e1 afirmava no seu <em>Traict\u00e9 d\u2019oeconomie politique<\/em> de 1615 que \u201cL\u2019heur des hommes consiste principalement en la richesse\u201d). Tal mudan\u00e7a \u00e9 ali\u00e1s precedida pelo aparecimento da palavra <em>bonheur<\/em> no s\u00e9culo XIII (indo \u00e0 etimologia, a palavra significa, conforme j\u00e1 referido, \u201cbom aug\u00fario\u201d).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1220\" height=\"777\" data-id=\"5955\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/latouche.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5955\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/latouche.jpg 1220w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/latouche-300x191.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/latouche-1024x652.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/latouche-768x489.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1220px) 100vw, 1220px\" \/><figcaption>Serge Latouche<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Serge Latouche<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Diderot<\/h2>\n\n\n\n<p>Atente-se em que <strong>Denis Diderot<\/strong> (1713-1784) acrescenta uma palavra, como n\u00e3o poderia deixar de ser, \u00e0s acima referidas, para intitular o artigo que escreve para a <em>Encyclop\u00e9die<\/em>: \u201cB\u00e9atitude, bonheur, f\u00e9licit\u00e9\u201d. E o artigo refere: \u201cLe <em>bonheur<\/em> marque un homme riche de biens de la fortune; la <em>f\u00e9licit\u00e9<\/em>, un homme content de ce qu\u2019il a; la <em>b\u00e9atitude<\/em> nous attend dans une autre vie. La jouissance des biens fait la <em>f\u00e9licit\u00e9<\/em>; leur possession le <em>bonheur<\/em>; la <em>b\u00e9atitude <\/em>r\u00e9veille une id\u00e9e d\u2019extase et de ravissement, qu\u2019on n\u2019\u00e9prouve ni dans le <em>bonheur<\/em>, ni dans la <em>f\u00e9licit\u00e9 <\/em>de ce monde\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Adam Smith<\/h2>\n\n\n\n<p>Latouche afirma que, com a Escola Escocesa do economista <strong>Adam Smith <\/strong>(1723-1790), se passa da <em>f\u00e9licit\u00e9<\/em> p\u00fablica \u00e0 <em>f\u00e9licit\u00e9<\/em> do p\u00fablico, o que traduz a emerg\u00eancia do <em>bonheur<\/em> a coincidir com a ascens\u00e3o da ideologia liberal enquanto projecto de constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade individualista que preconiza a neutralidade \u00e9tica dos meios governamentais, contribuindo assim para evitar as guerras de religi\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-3 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"197\" height=\"271\" data-id=\"6153\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/diderot.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6153\"\/><figcaption>Diderot<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"401\" height=\"364\" data-id=\"6154\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/smith.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6154\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/smith.jpg 401w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/smith-300x272.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 401px) 100vw, 401px\" \/><figcaption>A. Smith<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os comuns<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas a sociedade individualista come\u00e7a a afirmar-se mais cedo, com o Movimento das <em>Enclosures<\/em> (processo que serviu para p\u00f4r um termo aos direitos tradicionais que incidia sobre os campos comuns \u2013 <em>The Commons<\/em> \u2013 que eram utilizados pelos alde\u00f5es tanto para fazer pastar os seus animais como para cultivar produtos vegetais destinados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o), cujo desenvolvimento teve lugar sobretudo a partir do s\u00e9culo XVIII nas Ilhas Brit\u00e2nicas, mas com ra\u00edzes na Holanda desde cerca de seis s\u00e9culos antes. Esse movimento que, com os desenvolvimentos da industrializa\u00e7\u00e3o, alastrou ao Norte da Europa, conduziu a que a utiliza\u00e7\u00e3o das terras senhoriais que foram sendo vedadas fosse limitada a alguns indiv\u00edduos escolhidos pelos propriet\u00e1rios. A situa\u00e7\u00e3o foi sendo regulamentada na Gr\u00e3-Bretanha atrav\u00e9s de grande n\u00famero de <em>Enclosure Acts<\/em> (que se sucederam at\u00e9 final do s\u00e9culo XIX) e de que se destacam os de 1773 e de 1845, al\u00e9m do <em>General Enclosure Act<\/em> de 1801 (cuja maior import\u00e2ncia se deve ao facto de ter dado consist\u00eancia \u00e0s leis anteriores que foram instituindo as <strong><em>Enclosures<\/em><\/strong>).<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Felicidade e dinheiro<\/h2>\n\n\n\n<p>Assim, e de acordo com Latouche, o <em>buon governo<\/em> foi-se reduzindo ao que hoje em dia designamos por <em>good governance<\/em>, ou seja, a gest\u00e3o m\u00ednima do quadro do livre jogo dos interesses particulares, verificando-se que, para os Modernos, a felicidade (actualmente, como se viu acima, designada em franc\u00eas por <em>bonheur<\/em>) acaba por estar estreitamente associada ao dinheiro. E se habitualmente se admite que o dinheiro nem sempre leva \u00e0 felicidade, o que \u00e9 certo \u00e9 que existe unanimidade para dizer que a sua aus\u00eancia torna as pessoas infelizes. Ser\u00e1 talvez mais adequado falar de \u201cqualidade de vida\u201d ou \u201cvida agrad\u00e1vel\u201d em portugu\u00eas (a <em>v<\/em><em>ie bonne<\/em> que Latouche refere) quando se procura medi-la atrav\u00e9s do PIB <em>per capita<\/em>, conforme \u00e9 feito com frequ\u00eancia na literatura econ\u00f3mica. Ora, para Latouche, essa evolu\u00e7\u00e3o \u2013 uma verdadeira convuls\u00e3o \u2013 a partir do conceito de <em>f\u00e9licit\u00e9<\/em>,que ocorreu entre os s\u00e9culos XVI e XVII no Ocidente, requer, para ser compreendida, explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; (Ponto 1: <\/a><strong>Les vicissitudes de la \u00ab vie bonne \u00bb: de la b\u00e9atitude au bien-avoir<\/strong> \u2013 a continuar)<\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa, 19 de Abril de 2022<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Filipe do Carmo<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Para alguns desenvolvimentos consultar em particular na <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Inclosure_Acts.\">WIKIP\u00c9DIA<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>Editado CR_SF | Ilustra\u00e7\u00f5es, t\u00edtulo e subt\u00edtulos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u2019abondance frugale comme art de vivre \u2013 Bonheur, gastronomie et d\u00e9croissance (Autor: Serge Latouche) Coment\u00e1rios&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6155,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[308,317],"tags":[333,332],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith.jpg",823,514,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith-300x187.jpg",300,187,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith-768x480.jpg",640,400,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith.jpg",640,400,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith.jpg",823,514,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith.jpg",823,514,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith.jpg",823,514,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith.jpg",823,514,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/didesmith-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/ambiente-economia\/\" rel=\"category tag\">AMBIENTE &amp; ECONOMIA<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/noticias\/\" rel=\"category tag\">NOTICIAS<\/a>","tag_info":"NOTICIAS","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6127"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6127"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6157,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6127\/revisions\/6157"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6155"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}