{"id":6905,"date":"2022-05-30T08:50:32","date_gmt":"2022-05-30T08:50:32","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=6905"},"modified":"2022-05-30T09:14:32","modified_gmt":"2022-05-30T09:14:32","slug":"manuel-e-o-lobo-na-praca-da-cancao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/05\/30\/manuel-e-o-lobo-na-praca-da-cancao\/","title":{"rendered":"Manuel e o Lobo, na Pra\u00e7a da Can\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>LIVROS &amp; M\u00daSICA <\/strong><\/mark>| Cr\u00f3nica de Ant\u00f3nio Lobo Antunes | Pra\u00e7a da Can\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Pra\u00e7a da Can\u00e7\u00e3o | reprodu\u00e7\u00e3o da Cr\u00f3nica de Ant\u00f3nio Lobo Antunes <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para dar in\u00edcio aos LIVROS SEM FRONTEIRAS, rubrica que anualmente animamos aqui de forma simples e contando sempre com a colabora\u00e7\u00e3o dos autores, selecion\u00e1mos <\/strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Um livro, Uma Cr\u00f3nica e um V\u00eddeo\/can\u00e7\u00e3o,<\/mark><strong> no caso associando a comemora\u00e7\u00e3o dos 50 anos do 25 de Abril com os 50 anos da publica\u00e7\u00e3o da Pra\u00e7a da Can\u00e7\u00e3o de Manuel Alegre (editado em 1965.<\/strong> Comemora\u00e7\u00f5es realizadas em 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>Cr\u00f3nica de Ant\u00f3nio Lobo Antunes<\/p>\n\n\n\n<p>Passei a Faculdade a escrever. N\u00e3o estudava, n\u00e3o ia \u00e0s aulas, houve exames a que nem sequer compareci.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje me espanta a paci\u00eancia com que o meu pai aturou isso tudo, ele que era muito autorit\u00e1rio e, por vezes, violento. Argumentava que queria ser escritor, n\u00e3o queria ser m\u00e9dico, soube muito mais tarde que o meu pai, para meu espanto, tinha a certeza que eu tinha talento embora n\u00e3o lhe mostrasse o que fazia: periodicamente queimava tudo junto \u00e0 figueira do quintal, depois soube que ele ia l\u00e1 sem me dizer nada, lia os restos que ficavam na cinza e copiava-os para um caderno verde. O meu pai possu\u00eda um respeito sagrado pelos artistas e talvez, na sua cabe\u00e7a, pensasse que eu era um deles, enquanto eu, pouco mais do que um mi\u00fado, vivia atormentado pelas minhas defici\u00eancias, sempre a dizer-me<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Ainda n\u00e3o \u00e9 isto, ainda n\u00e3o \u00e9 isto e levei vinte anos a encontrar o que seria a minha voz, quando me apareceu a Mem\u00f3ria de Elefante. Disse<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Ainda n\u00e3o \u00e9 isto mas acho que descobri o caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>E, depois, seguiu-se o trabalho de fazer crescer aquilo tudo. Mas, nessa altura, j\u00e1 havia terminado a Faculdade de Medicina, j\u00e1 havia passado mais de tr\u00eas anos na tropa, j\u00e1 vivera os horrores de \u00c1frica. At\u00e9 ent\u00e3o fora o tormento do curso, que o fez sofrer a ele e me aborrecia a mim. Mal come\u00e7ava a estudar pensava logo<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Devia estar a escrever e voltava aos poemas p\u00e9ssimos e \u00e0 prosa mais do que med\u00edocre de que ent\u00e3o era capaz, certo que, escondido, morava em mim um grande talento. N\u00e3o certo, cert\u00edssimo, ao ponto de sacrificar fosse o que fosse \u00e0 literatura. Pai, agrade\u00e7o-lhe a paci\u00eancia que teve para comigo, pe\u00e7o-lhe perd\u00e3o de o haver humilhado com a mis\u00e9ria das minhas notas, agrade\u00e7o que no fundo de si, embora nunca mo dissesse, me haja compreendido. A certa altura, a meio do curso, aconteceu uma coisa que me abalou muito. Era o final dos anos 60, em que os estudantes se levantavam contra a ditadura: cargas policiais, viol\u00eancia, pris\u00f5es. Tudo isto me passou um bocado ao lado, entregue, como estava, \u00e0 minha luta com as palavras. Um colega, no hospital, entregou-me, com grandes pedidos de segredo, um ma\u00e7o de folhas policopiadas. Na primeira p\u00e1gina estava escrito Pra\u00e7a da Can\u00e7\u00e3o e, por baixo, o nome do autor, que nada me dizia: Manuel Alegre. Foi certamente o livro mais lido, mais comentado, mais entusiasmante, mais influente para a minha gera\u00e7\u00e3o. Num segundo (pareceu-me que num segundo) tornou-se a bandeira dos estudantes contra o fascismo e a monstruosidade que viv\u00edamos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me interessou a sua qualidade liter\u00e1ria. Interessou-me a corajosa chama daqueles versos e o imenso cora\u00e7\u00e3o do autor.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que Manuel Alegre era um poeta, n\u00e3o me ralou o tamanho do poeta que ele era, interessou-me o tamanho do que ele dizia.<\/p>\n\n\n\n<p>A ousadia com que fez arder uma gera\u00e7\u00e3o inteira, e o inc\u00eandio que levantou sozinho. Uma ocasi\u00e3o, na fronteira com a Z\u00e2mbia, morreu-me um camarada. S\u00f3 sei dizer assim: morreu-me, porque me morreu de facto. De imediato veio-me \u00e0 cabe\u00e7a um poema de Manuel Alegre<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3 meu amigo que nunca mais acender\u00e1s no meu o teu cigarro e comecei a chorar. S\u00f3 quem passou por uma desgra\u00e7a assim \u00e9 capaz de entender isto at\u00e9 ao osso \u00d3 meu amigo que nunca mais acender\u00e1s no meu o teu cigarro.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta, e outras passagens do livro, ficaram comigo para sempre, ficar\u00e3o comigo para sempre: que nunca mais acender\u00e1s no meu o teu cigarro.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi Manuel Alegre que o escreveu, e \u00e9 a Manuel Alegre que o devo, porque se trata de uma prenda que nenhum dinheiro paga. Faz cinquenta anos que o livro surgiu, cinquenta anos de gratid\u00e3o da minha parte. O Poeta mandou-me um exemplar comemorativo do anivers\u00e1rio do livro, com uma dedicat\u00f3ria cuja generosidade me tocou imenso. Manuel, n\u00e3o imaginas quanto estiveste comigo em \u00c1frica e quanto continuas comigo porque, em certo sentido, nunca sa\u00edmos de l\u00e1. E tu ajudaste-me naquele ex\u00edlio muito mais do que imaginas. Tenho pena que j\u00e1 n\u00e3o fumes porque o brinde que queria fazer-te agradecendo o muito que deste sem o saberes, ao estudantezinho an\u00f3nimo que eu era, ao militar an\u00f3nimo que eu fui, seria estender o meu cigarro para ti, dizer-te olhos nos olhos<\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3 meu amigo que nunca mais acender\u00e1s no meu o teu cigarro<\/p>\n\n\n\n<p>e esconder uma l\u00e1grima de homem para homem num chup\u00e3o imenso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"384\" data-id=\"6907\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-1024x384.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6907\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-1024x384.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-300x112.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-768x288.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes.jpg 1345w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Lobo Antunes &#8211; 23 de julho de 2015<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-block-columns alignfull are-vertically-aligned-center is-style-default is-layout-flex wp-container-5 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:44%\">\n<h2 class=\"has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#000000\">SINOPSE<\/h2>\n\n\n\n<p><em>Pra\u00e7a da Can\u00e7\u00e3o<\/em>, de Manuel Alegre, h\u00e1 muito ultrapassou as fronteiras da literatura para assumir uma dimens\u00e3o simb\u00f3lica ou mesmo m\u00edtica. Quando saiu, no in\u00edcio do ano de 1965, h\u00e1 50 anos, que com esta edi\u00e7\u00e3o se assinalam, foi tamb\u00e9m um incisivo retrato de uma \u00ab[\u2026] p\u00e1tria parada \/ \u00e0 beira de um rio triste\u00bb, foi uma bandeira desfraldada e um rastilho de resist\u00eancia e luta contra a ditadura&#8230;..<br><br>(do Pref\u00e1cio de Jos\u00e9 Carlos de Vasconcelos)<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:56%\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"339\" height=\"449\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/praca.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6909\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/praca.jpg 339w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/praca-227x300.jpg 227w\" sizes=\"(max-width: 339px) 100vw, 339px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Can\u00e7\u00e3o com L\u00e1grimas\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1VAt71bYlGU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LIVROS &amp; M\u00daSICA | Cr\u00f3nica de Ant\u00f3nio Lobo Antunes | Pra\u00e7a da Can\u00e7\u00e3o Pra\u00e7a da&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6907,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[242,317],"tags":[218],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes.jpg",1345,504,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-300x112.jpg",300,112,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-768x288.jpg",640,240,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-1024x384.jpg",640,240,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes.jpg",1345,504,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes.jpg",1345,504,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-1115x504.jpg",1115,504,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-1024x384.jpg",1024,384,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/lobo-antunes-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/livros-musica\/\" rel=\"category tag\">LIVROS &amp; M\u00daSICA<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/noticias\/\" rel=\"category tag\">NOTICIAS<\/a>","tag_info":"NOTICIAS","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6905"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6905"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6905\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6910,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6905\/revisions\/6910"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6907"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6905"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6905"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6905"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}