{"id":7526,"date":"2022-07-21T16:28:03","date_gmt":"2022-07-21T16:28:03","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=7526"},"modified":"2022-07-21T16:28:05","modified_gmt":"2022-07-21T16:28:05","slug":"vagar-o-museu-da-cultura-alentejana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/07\/21\/vagar-o-museu-da-cultura-alentejana\/","title":{"rendered":"VAGAR o museu da cultura alentejana"},"content":{"rendered":"\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>CULTURA <\/strong><\/mark>| 21\/072022, <\/p>\n\n\n\n<p>A candidatura de \u00c9vora a capital da cultura \u00e9 um projeto que tem o cond\u00e3o de congregar o entusiasmo de todas as for\u00e7as pol\u00edticas com representa\u00e7\u00e3o na Assembleia Municipal. Mas, diversas pessoas pelo pa\u00eds fora, questionam se \u00c9vora ter\u00e1 uma \u201cmovida\u201d cultural t\u00e3o estonteante que justifique a pretens\u00e3o a capital da cultura?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/araujo9.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7527\" width=\"233\" height=\"235\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/araujo9.jpg 337w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/araujo9-297x300.jpg 297w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/araujo9-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 233px) 100vw, 233px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>por <strong>Jorge Ara\u00fajo<\/strong>, Presidente da Assembleia Municipal de \u00c9vora<\/p>\n\n\n\n<p>Eu respondo que n\u00e3o \u00e9 esse o \u201cponto\u201d. \u00c9vora merece ganhar o concurso porque a sua espessura cultural \u00e9 milenar, porque conserva testemunhos fundamentais do seu percurso de cria\u00e7\u00e3o cultural, porque soube miscigenar a cultura popular com a cultura erudita \u00e0 qual est\u00e1 ligada, indubitavelmente, a secular Universidade de \u00c9vora, porque manifesta, hoje em dia, um amplo espectro cultural, vivo, que vai do cante alentejano at\u00e9 \u00e0s express\u00f5es mais avan\u00e7adas da cultura, que a ci\u00eancia e a arte podem proporcionar.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia, no \u201cprinc\u00edpio\u201d, uma pequena colina, situada na interse\u00e7\u00e3o de tr\u00eas bacias hidrogr\u00e1ficas, que emergia de um mar imenso de floresta. Floresta relativamente densa e cont\u00ednua que um esquilo podia percorrer, em toda a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, saltando de ramo em galho, de galho em tronco. Floresta de folhas duras que n\u00e3o temem o frio. Os homens por aqui andavam h\u00e1 muito, mas quando, em raz\u00e3o da domestica\u00e7\u00e3o das plantas, tiveram que se deixar ficar abandonando o regime errante de ca\u00e7adores\/recolectores e optando pela vida de pastores\/agricultores. A colina oferecia boas condi\u00e7\u00f5es para assentar pois garantia uma vis\u00e3o em todos os azimutes.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo modo de vida exigia um conhecimento basilar: a previs\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que, por essa altura, o Homem j\u00e1 sabia que havia dias frios e quentes, longos e curtos. Mas, para quem domestica plantas e animais, saber prever com rigor o ciclo do sol \u00e9 fundamental, pela simples raz\u00e3o de que o ciclo reprodutivo dos animais e das plantas se pauta, em larga medida, pela dura\u00e7\u00e3o dos dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Com vagar, alinharam duas pedras-talhas com a posi\u00e7\u00e3o do sol nascente. Com vagar, vigiaram a posi\u00e7\u00e3o do sol ao nascer e assinalaram a posi\u00e7\u00e3o do sol correspondente ao dia mais longo. Com vagar, afinaram o sistema ano ap\u00f3s ano. E assim constru\u00edram o instrumento \u2013 um observat\u00f3rio astron\u00f3mico &#8211; que lhes permitiu fixar um ponto de refer\u00eancia do ciclo do sol, correspondente ao solst\u00edcio de ver\u00e3o. Essas pedras, passados 5.000 anos ou mais, ainda l\u00e1 est\u00e3o: constituem o mais antigo observat\u00f3rio astron\u00f3mico, visit\u00e1vel no Cromeleque dos Almendres; mas, concomitantemente, significa a aquisi\u00e7\u00e3o do conhecimento primordial para tudo o mais que se seguiu em termos de agricultura e pecu\u00e1ria. Foi esse conhecimento que consubstancia a nossa cultura primordial, ao qual subjaz o sucesso da sedentariza\u00e7\u00e3o e da explora\u00e7\u00e3o da terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Foi com vagar. Porque vagar \u00e9 a capacidade para parar, para olhar e pensar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi com vagar, que se descobriu que h\u00e1 terras mold\u00e1veis e que, uma vez submetidas ao fogo, se tornam duras. Foi com vagar que se descobriu que h\u00e1 pedras que, uma vez levadas ao lume, \u201cvertem\u201d metal. Foi com vagar que se domesticaram as plantas que s\u00e3o, ainda hoje, as nossas diletas companheiras: a vinha, a oliveira, a figueira e as duas outras \u00e1rvores da floresta, a azinheira e o sobreiro, entre diversas outras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Com vagar criou-se cultura. Mas&#8230;ent\u00e3o o que \u00e9 cultura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 simples: \u00e9 a soma do conhecimento consolidado que nos permite compreender o mundo que nos rodeia, bem como os artefactos, as artes e as t\u00e9cnicas que nos possibilitam interagir com ele. Esta defini\u00e7\u00e3o aplica-se tanto \u00e0 cultura popular como \u00e0quela que, mais tarde, surgiu, a que se pode adjetivar de erudita. A arte, por exemplo, esteve connosco muito antes da sedentariza\u00e7\u00e3o, como as pinturas rupestres da Gruta do Escoural, testemunham.<\/p>\n\n\n\n<p>A terra foi a m\u00e3e da nossa cultura: com ela aprendemos a utilizar o barro e a pedra, a extrair min\u00e9rios, e a aquec\u00ea-los para obter metais fundidos; a cultivar cereais, que fixam o carbono atmosf\u00e9rico, e com os quais se faz o p\u00e3o, e as leguminosas que fixam o azoto atmosf\u00e9rico e que nos d\u00e3o prote\u00ednas; a cultivar a vinha, que nos d\u00e1 a uva, o vinho e o \u00e1lcool; a cultivar a oliveira, que nos d\u00e1 a azeitona e o azeite; a conviver com azinheiras e sobreiros numa solu\u00e7\u00e3o de compromisso a que chamamos \u201cmontado\u201d e de cujos frutos, as bolotas, se alimentam animais em pastoreio; etc&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A designa\u00e7\u00e3o usual de artesanato atribu\u00edda aos artefactos produzidos pelo homem, \u00e9 redutora do valor que eles representam e abre o caminho para a adultera\u00e7\u00e3o, que o com\u00e9rcio n\u00e3o tem pejo em patrocinar. O artesanato \u00e9 a express\u00e3o da cultura genu\u00edna, pelo que a sua apresenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser desinserida do seu contexto, sob pena de serem vistos apenas objetos curiosos produzidos por gente de outro tempo. Na verdade, um tal\u00eago (ou taleigo) \u00e9 mais do que um saco de pano para guardar o p\u00e3o. Ele representa o meio mais bem-adaptado \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o do p\u00e3o, pois impede que a humidade, que se liberta do p\u00e3o, se condense e propicie o desenvolvimento de fungos; mas tamb\u00e9m mant\u00e9m no seu interior, um clima h\u00famido em relativo equil\u00edbrio din\u00e2mico com a humidade do p\u00e3o, que impede que este seque rapidamente. A apresenta\u00e7\u00e3o de um tarro como uma curiosa caixa de corti\u00e7a, \u00e9 um ultraje a um objeto que foi o primeiro recipiente isot\u00e9rmico e estanque, amplamente usado pelos trabalhadores rurais para manterem quente os alimentos. Muito mais haveria a dizer sobre os in\u00fameros artefactos que sinalizam o longo processo de acumula\u00e7\u00e3o de cultura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Toda a cultura tem por base o vagar. Mesmo a cultura gerada pelo m\u00e9todo cient\u00edfico, disso n\u00e3o tenhamos qualquer d\u00favida.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das formas de homenagearmos a cultura alentejana seria a cria\u00e7\u00e3o de um grande museu consagrado \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o, interpreta\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio cultural, que poderia designa-se, apropriadamente, por Vagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Concebo facilmente um museu onde estivessem presentes as diversas fileiras de atividade econ\u00f3micas de raiz genuinamente cultural: a fileira da pedra, a fileira do barro ao pote, \u00e0 talha, ao azulejo e, da\u00ed \u00e0s artes decorativas, mas tamb\u00e9m ao adobe e ao tijolo; a fileira do sobreiro \u00e0 corti\u00e7a e \u00e0s utiliza\u00e7\u00f5es industriais modernas; a fileira da vinha ao vinho e ao \u00e1lcool, a fileira da oliveira \u00e0 azeitona e ao azeite, \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o e \u00e0 culin\u00e1ria; as fileiras do carneiro e da cabra, da l\u00e3 e do leite e dos queijos, mas tamb\u00e9m da tecelagem ao capote e \u00e0 manta; a fileira da azinheira ao porco e \u00e0s carnes processadas, etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O museu da cultura integraria obrigatoriamente, as diversas express\u00f5es art\u00edsticas: musicais, pict\u00f3ricas e outras.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Penso num museu que constitu\u00edsse um incentivo para os artes\u00e3os, um centro pedag\u00f3gico ao servi\u00e7o da instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica e um forte atrativo para o turismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso num museu onde as diversas fileiras mencionadas, e outras, culminassem em balc\u00f5es de comercializa\u00e7\u00e3o, que assegurassem a autossustenta\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do empreendimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Contribuamos ativamente para que \u00c9vora se assuma como capital do Alentejo e, como tal, primeira guardi\u00e3 da sua cultura milenar.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Texto publicado no &#8220;Di\u00e1rio do Sul&#8221; reproduzido no SF com autoriza\u00e7\u00e3o do autor<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Editado CR\/SF &#8211; destaques e imagem de destaque | <em>Foto: Cromeleque dos Almendres, Autor :<a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/User:Jo%C3%A3o_Carvalho\">Jo\u00e3o Carvalho<\/a> CComons<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"983\" height=\"737\" data-id=\"7528\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7528\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque.jpg 983w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque-300x225.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 983px) 100vw, 983px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CULTURA | 21\/072022, A candidatura de \u00c9vora a capital da cultura \u00e9 um projeto que&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,99],"tags":[32],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque.jpg",983,737,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque-300x225.jpg",300,225,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque-768x576.jpg",640,480,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque.jpg",640,480,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque.jpg",983,737,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque.jpg",983,737,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque-983x715.jpg",983,715,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque.jpg",983,737,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/cromeleque-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a>","tag_info":"OPINI\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7526"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7526"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7526\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7529,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7526\/revisions\/7529"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7528"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}