{"id":7898,"date":"2022-09-05T10:28:49","date_gmt":"2022-09-05T10:28:49","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=7898"},"modified":"2022-09-05T10:29:56","modified_gmt":"2022-09-05T10:29:56","slug":"a-palavra-e-o-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/09\/05\/a-palavra-e-o-silencio\/","title":{"rendered":"A Palavra e o Sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"\n<p>publicado 5\/09\/2022 | Colabora\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>LIVROS | OPINI\u00c3O<\/strong><\/mark><\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">por Nelson Anjos<\/h2>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A ci\u00eancia \u00e9 o conhecimento produzido pela mente humana em intera\u00e7\u00e3o com a \u201crealidade\u201d, bem como os processos da sua aquisi\u00e7\u00e3o e verifica\u00e7\u00e3o, tendo como suporte de valida\u00e7\u00e3o a experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:16px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"475\" data-id=\"7901\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-1024x475.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7901\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-1024x475.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-300x139.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-768x356.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault.jpg 1088w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"303\" height=\"176\" data-id=\"7900\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/palavras-e-.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7900\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/palavras-e-.jpg 303w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/palavras-e--300x174.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 303px) 100vw, 303px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 certamente porque a morte, um fen\u00f3meno que pela sua natureza n\u00e3o permite a utiliza\u00e7\u00e3o posterior da experi\u00eancia, muito embora confrontando o homem com ela desde as suas origens, continua a ser espa\u00e7o mais de d\u00favida, perplexidade e ignor\u00e2ncia do que de saber. E, por consequ\u00eancia, organizando-se o pensamento na base da utiliza\u00e7\u00e3o das palavras, sejam estas escassas relativamente \u00e0 quest\u00e3o da morte.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Fui h\u00e1 dias confrontado com ela \u2013 a minha morte \u2013 ao ser atendido pela minha gestora de conta numa institui\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria. Havia um novo produto ao qual eu era convidado a aderir: nem mais nem menos que um seguro destinado a cobrir as despesas do meu \u00f3bito, at\u00e9 ao montante de 5.000 \u20ac. Independentemente de outras considera\u00e7\u00f5es que adiante farei, n\u00e3o quero antes deixar de louvar e dar nota da minha surpresa, pela positiva, pela forma desembara\u00e7ada e \u2013 como direi? \u2013 limpa, como a eficiente funcion\u00e1ria deu conta do recado. Desde logo, pela aus\u00eancia de rodeios sup\u00e9rfluos, na abordagem de um tema que a nossa cultura teima ainda em manter envolto em farrapos e teias de aranha, herdados pelo menos da idade m\u00e9dia. As palavras foram apenas as suficientes para me lembrar que, aos setenta e sete anos \u2013 a minha idade \u2013 eu encontrava-me num momento da agenda da minha exist\u00eancia em que era maior a probabilidade de morrer a qualquer momento, do que viver mais uma ou duas dezenas de anos. Logo, e ao abrigo do velho princ\u00edpio \u201cn\u00e3o deixes para amanh\u00e3 o que podes fazer hoje\u201d, seria boa altura, at\u00e9 para salvaguardar a bolsa de familiares, de reservar um pec\u00falio para prover ao meu ato f\u00fanebre, logo que a lei da vida o impusesse.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ora, nada disto casa com o conhecido folclore, prol\u00edfero em ru\u00eddo, que normalmente se associa \u00e0 morte do indiv\u00edduo, no quadro cultural onde nos foi dado viver. Familiares e amigos do defunto estafam-se em f\u00f3rmulas gastas no uso de milhares de \u00f3bitos. \u201cOs meus p\u00easames\u201d, \u201cos meus sentidos p\u00easames\u201d, \u201cos meus mais profundos p\u00easames\u201d, \u201cos meus sentimentos\u201d, \u201cas minhas condol\u00eancias\u201d, n\u00e3o passam, na generalidade dos casos, de express\u00f5es da gram\u00e1tica da hipocrisia social de que se faz acompanhar o evento. A que se juntam infind\u00e1veis elegias acerca da personalidade e feitos do \u201cpassado\u201d \u2013 aquele que se passou \u2013 abundando refer\u00eancias ao melhor do seu car\u00e1ter, bondade, honradez e demais virtudes. E como se a superficialidade das express\u00f5es \u201c<em>take away<\/em>\u201d n\u00e3o bastasse \u2013 o sil\u00eancio d\u00e1 trabalho \u2013 as carpideiras informais acrescentam-lhe sempre mais algum grotesco condimento: \u201cera t\u00e3o boa pessoa!\u201d, \u201ca vida \u00e9 assim mesmo!\u201d, \u201c\u00e9 a ordem natural das coisas!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O profundo desconhecimento que temos acerca da morte torna a palavra sempre pr\u00f3xima do obsceno. \u201cA palavra \u00e9 de prata mas o sil\u00eancio \u00e9 de ouro\u201d \u2013 ouvi muitas vezes \u00e0 minha av\u00f3. E \u00e9 tamb\u00e9m vulgar a express\u00e3o \u201cn\u00e3o h\u00e1 palavras!\u201d para sublinhar acontecimentos que, pela sua estranheza ou transcend\u00eancia nos causam espanto.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em \u201cAs Palavras e as Coisas\u201d Michel Foucault discute essa rela\u00e7\u00e3o. Onde a morte \u00e9 o fim da coisa, natural seria que fosse tamb\u00e9m o fim da palavra. O morto n\u00e3o fala e, at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, n\u00e3o ouve o que dele dizem. Para o nosso conhecimento atual a morte funde-se com o sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Na escrita musical existe um sinal gr\u00e1fico para representar o sil\u00eancio: a pausa. Na linguagem escrita n\u00e3o existe sinal correspondente, que seria importante para salvaguardar e valorizar o sil\u00eancio. O ponto final (.) n\u00e3o o \u00e9. Na morte, a palavra ofende o sil\u00eancio do defunto e n\u00e3o passa de ru\u00eddo. John Cage celebrou o sil\u00eancio musical com a sua conhecida pe\u00e7a 4\u2019 e 33\u201d. Trata-se de uma pe\u00e7a constitu\u00edda por uma pausa com a dura\u00e7\u00e3o de quatro minutos e trinta e tr\u00eas segundos. Os nossos cemit\u00e9rios, para al\u00e9m de uma certa semelhan\u00e7a com aterros sanit\u00e1rios, ao contr\u00e1rio do que acontece por exemplo nos pa\u00edses n\u00f3rdicos, onde se fundem com magn\u00edficos jardins integrados no espa\u00e7o urbano, s\u00e3o tamb\u00e9m lugares ruidosos. E o \u201cminuto de sil\u00eancio\u201d \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o que ainda escapa \u00e0 sociedade do ru\u00eddo em que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ter\u00e1 tamb\u00e9m a morte a mesma&nbsp;<em>natureza hist\u00f3rica<\/em>&nbsp;que Foucault encontra em tantos outros aspetos da \u201crealidade\u201d? \u2013 Por mim prefiro a crema\u00e7\u00e3o e cuidarei de deixar na minha conta banc\u00e1ria saldo suficiente para cobrir o d\u00e9fice deixado pelos tais 5.000 \u20ac do seguro.<\/p>\n\n\n\n<p>nelson anjos<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/nelson-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7899\" width=\"294\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/nelson-1.jpg 407w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/nelson-1-300x289.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 294px) 100vw, 294px\" \/><figcaption>Nelson Anjos<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>publicado 5\/09\/2022 | Colabora\u00e7\u00e3o LIVROS | OPINI\u00c3O por Nelson Anjos &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A ci\u00eancia \u00e9 o conhecimento&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7901,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[238,242,99],"tags":[354],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault.jpg",1088,505,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-300x139.jpg",300,139,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-768x356.jpg",640,297,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-1024x475.jpg",640,297,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault.jpg",1088,505,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault.jpg",1088,505,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault.jpg",1088,505,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-1024x475.jpg",1024,475,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/foucault-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/livros-musica\/\" rel=\"category tag\">LIVROS &amp; M\u00daSICA<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a>","tag_info":"OPINI\u00c3O","comment_count":"0","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7898"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7898"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7898\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7903,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7898\/revisions\/7903"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7901"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7898"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7898"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7898"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}