{"id":8543,"date":"2022-12-05T21:53:44","date_gmt":"2022-12-05T21:53:44","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=8543"},"modified":"2025-01-09T19:40:40","modified_gmt":"2025-01-09T19:40:40","slug":"quando-falamos-de-fascismo-afinal-do-que-e-que-estamos-a-falar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/12\/05\/quando-falamos-de-fascismo-afinal-do-que-e-que-estamos-a-falar\/","title":{"rendered":"TRIBUNA | Fascismo nunca mais \u00e9 o lema mais importante que a sociedade portuguesa alguma vez teve"},"content":{"rendered":"\n<p>5 de dezembro, 2022<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background\"><strong>TRIBUNA | Quando falamos de fascismo, afinal do que \u00e9 que esta<\/strong>mos afalar?<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:13px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CMr.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8606\" width=\"221\" height=\"227\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CMr.jpg 371w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CMr-291x300.jpg 291w\" sizes=\"(max-width: 221px) 100vw, 221px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:12px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"><strong>SF<\/strong><\/mark> | O assunto n\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rico. Admite-se que quanto mais clara estiver a representa\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, pol\u00edtica, cultural e social do fascismo nas cabe\u00e7as de quem deseja combat\u00ea-lo com efic\u00e1cia, melhores condi\u00e7\u00f5es existir\u00e3o para que ele saia derrotado. Dito de outra maneira, o &#8220;fascismo nunca mais&#8221; n\u00e3o deve ser slogan ancorado numa vis\u00e3o abstrata, restrita e passadista de um conceito que pode ser delimitado nos seus contornos de forma razoavelmente segura. <\/p>\n\n\n\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise regressamos \u00e0 interroga\u00e7\u00e3o que tem surgido com alguma pertin\u00eancia na \u00faltima d\u00e9cada: como podemos e devemos combater a extrema-direita em ascens\u00e3o no mundo, na Europa e em Portugal?<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos Martins tratou o primeiro tema, o dos fascismos, num livro com t\u00edtulo particularmente apropriado e relacionado com a pesquisa que tamb\u00e9m nos motiva &#8220;Fascismos: para al\u00e9m de Hitler e Mussolini&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros textos neste campo tem\u00e1tico ser\u00e3o exaustivamente tratados aqui no SEM FRONTEIRAS, Ent\u00e3o sem demoras avencemos para a reflex\u00e3o do Carlos Martins. <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">SEM FRONTEIRAS<\/mark><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:11px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:11px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"378\" height=\"542\" data-id=\"8544\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/ascismo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8544\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/ascismo.jpg 378w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/ascismo-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 378px) 100vw, 378px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"682\" height=\"681\" data-id=\"8545\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8545\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/carlos.jpg 682w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/carlos-300x300.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/carlos-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:9px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:10px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">&#8220;FASCISMO NUNCA MAIS&#8221; \u00c9 O LEMA MAIS IMPORTANTE QUE A SOCIEDADE PORTUGUESA ALGUMA VEZ TEVE<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Por Carlos Martins<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com \u201cfascismo nunca mais\u201d que, na sociedade portuguesa, se exprime o rep\u00fadio ao regime de Salazar. Reconhe\u00e7o a carga que a palavra \u201cfascismo\u201d legitimamente ganhou e, independentemente da classifica\u00e7\u00e3o que acho mais correta, nunca pensaria manifestar-me contra a exist\u00eancia desta frase. De igual modo, <a><\/a>jamais ousaria sugerir que os que lutaram contra a ditadura deixassem de se chamar a si mesmos de antifascistas (todo o meu respeito por eles). H\u00e1 coisas mais importantes do que ser rigoroso e, para todos os efeitos, n\u00e3o deixa de ser verdade que a ditadura portuguesa integrou elementos fascistas e que, no sentido que a palavra adquiriu, foi, sem d\u00favida, \u201cfascista\u201d (quem quiser utilizar a palavra com esse sentido tem, obviamente, todo o direito de o fazer). \u201cFascismo nunca mais\u201d \u00e9, muito provavelmente, o lema mais importante que a sociedade portuguesa alguma vez teve e estou totalmente de acordo com a ideia que ele transmite. Que o repitam por v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es! Demarco-me, assim, de todos os que possam aproveitar-se do que quer que eu aqui diga para tentar legitimar os anos de repress\u00e3o salazarista.<\/p>\n\n\n\n<p>Dito isto, julgo ser leg\u00edtimo tudo o resto que escreverei neste artigo. Vem isto a prop\u00f3sito de uma entrevista que me fizeram por causa do livro que escrevi (Fascismos: Para Al\u00e9m de Hitler e Mussolini) e que surgiu no DN com o t\u00edtulo \u201cO Estado Novo n\u00e3o pode ser classificado como fascista\u201d (na verdade, n\u00e3o acho que esse seja o ponto principal da minha entrevista e muito menos do livro). Compreensivelmente, algumas rea\u00e7\u00f5es menos positivas n\u00e3o se fizeram esperar. Devo dizer que procuro evitar este tipo de confrontos, pois sou \u201capenas\u201d um acad\u00e9mico apaixonado pela investiga\u00e7\u00e3o, e abro aqui uma exce\u00e7\u00e3o para me explicar e evitar mal-entendidos. De resto, julgo que este tipo de pol\u00e9micas est\u00e1 um pouco ultrapassado e, apesar de continuar a acreditar que as classifica\u00e7\u00f5es dos regimes e partidos s\u00e3o importantes, sou o primeiro a reconhecer que h\u00e1 muitos outros t\u00f3picos t\u00e3o ou mais relevantes. Em todo o caso, darei uma breve explica\u00e7\u00e3o, baseada no meu trabalho de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O fascismo e a classifica\u00e7\u00e3o do regime portugu\u00eas<\/h2>\n\n\n\n<p>Talvez a afirma\u00e7\u00e3o mais concisa sobre o ponto em que se encontra a investiga\u00e7\u00e3o internacional no que toca \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o dos diversos \u201ccandidatos\u201d a regimes fascistas est\u00e1 numa obra editada, entre outros, por Ismael Saz. Nela, \u00e9-nos dito que \u201cexiste um consenso relativamente amplo em v\u00e1rios campos de estudo historiogr\u00e1fico que v\u00ea as ditaduras italiana e alem\u00e3 como os \u00fanicos regimes totalmente fascistas\u201d (Reactionary Nationalists, Fascists and Dictatorships in the Twentieth Century, 2019, p.10). Estes dois regimes tiveram como ponto de partida a chegada ao poder de um movimento que se dizia \u201crevolucion\u00e1rio\u201d, apelava \u00e0 a\u00e7\u00e3o direta, \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o das massas populares, ao culto da viol\u00eancia, e fazia uso de todo um conjunto de rituais, s\u00edmbolos e liturgias, al\u00e9m de procurar alterar as formas de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade e a rela\u00e7\u00e3o das massas com os l\u00edderes. Al\u00e9m disso, os movimentos fascistas tinham como objetivo (sublinhado por Roger Eatwell) a cria\u00e7\u00e3o de \u201cnovas elites heroicas\u201d que substitu\u00edssem as elites \u201cdecadentes\u201d, distinguindo-se das ditaduras criadas sem que as classes dominantes necessitassem de fazer uma \u201calian\u00e7a\u201d com um movimento deste tipo. Entre os muitos agrupamentos do entre-guerras pass\u00edveis de serem classificados como fascistas encontram-se a Guarda de Ferro romena, o Partido da Cruz Flechada h\u00fangaro, a BUF brit\u00e2nica, o Nasjonal Samling noruegu\u00eas, a AIB brasileira, o PPF franc\u00eas, o Rexismo belga da fase tardia, a Falange espanhola, o Nacional-Sindicalismo portugu\u00eas, a Falanga polaca, o Nazismo alem\u00e3o e, claro, o movimento italiano, entre outros. Apenas os regimes fundados por um movimento deste g\u00e9nero poderiam com propriedade ser chamados de fascistas.<\/p>\n\n\n\n<p>No geral, tem predominado na investiga\u00e7\u00e3o internacional (n\u00e3o s\u00f3 anglo-sax\u00f3nica) a ideia de que as ditaduras do entre guerras se dividem entre os muitos regimes conservadores (Salazar, Dollfuss, Metaxas, Smetona, Tiso, Ulmanis, Horthy, etc) e os dois regimes fascistas da It\u00e1lia e da Alemanha, embora as abordagens utilizadas possam variar. Assim, para Roger Griffin, que define o fascismo como \u201cultranacionalismo palingen\u00e9tico\u201d, o regime portugu\u00eas seria um exemplo de \u201cpara-fascismo\u201d, que o autor parece descrever (pelo menos no seu primeiro livro, de 1991) como um \u201cfalso fascismo\u201d, ou seja, um fen\u00f3meno pol\u00edtico fundamentalmente conservador que, sem incluir o mesmo radicalismo na constru\u00e7\u00e3o de uma \u201cnova na\u00e7\u00e3o\u201d e de uma modernidade alternativa, adota algumas roupagens fascistas. J\u00e1 para Robert Paxton, seria a alian\u00e7a entre as elites conservadoras e o movimento fascista, bem como as tens\u00f5es que dessa alian\u00e7a fariam parte, que serviriam para identificar os regimes fascistas. Stanley Payne, por sua vez, utiliza uma tipologia que distingue entre o autoritarismo conservador, a direita radical e o fascismo propriamente dito, inserindo-se o regime portugu\u00eas na primeira op\u00e7\u00e3o (um regime cuja rutura com as institui\u00e7\u00f5es tradicionais n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o radical quanto a de outras variantes da direita e que se baseia nas elites tradicionais, ao mesmo tempo que rejeita a pol\u00edtica de massas).<\/p>\n\n\n\n<p>Michael Mann apresentou tamb\u00e9m a sua tipologia, menos influente, composta pelos regimes semi-autorit\u00e1rios, autorit\u00e1rios semi-reaccion\u00e1rios, corporativos, e os fascistas propriamente ditos. Apesar de este autor admitir que as fronteiras entre os tipos de regimes s\u00e3o amb\u00edguas, acaba por colocar na categoria dos fascistas apenas os dois suspeitos do costume. Tamb\u00e9m autores marxistas (Poulantzas, Vajda, o trotskysta Dave Renton, etc), desenvolvendo teorias mais subtis do que as que foram dominantes na era &#8220;estalinista&#8221;, identificaram a ditadura alem\u00e3 e italiana como as \u00fanicas \u201cestritamente fascistas\u201d, pois foi s\u00f3 nelas que, numa fase inicial, a pequena-burguesia tentou dirigir o estado capitalista num momento de crise entre as classes dominantes, mas acabando apenas por restaurar a hegemonia da burguesia, agora com a preponder\u00e2ncia do capital monopolista (tese de Poulantzas). Para alguns destes autores, a mobiliza\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa seria uma das componentes que distinguiria o fascismo de outras formas de rea\u00e7\u00e3o anti-prolet\u00e1ria. Importa igualmente referir que, entre os anos 80 e a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX, foram caindo um pouco em desuso express\u00f5es como &#8220;fascismo conservador&#8221;, &#8220;fascism from above&#8221;, ou &#8220;fascismo clerical&#8221; (esta \u00faltima ainda \u00e9 por vezes usada). Provavelmente, boa parte dos autores ter\u00e1 conclu\u00eddo que estas express\u00f5es indicavam que os regimes conservadores a que se referiam n\u00e3o eram fascismo &#8220;genu\u00edno&#8221; ou que, no m\u00e1ximo, remeteriam para uma vertente fascista que se dilu\u00eda noutras vertentes mais importantes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As abordagens mais recentes e o conceito de hibridiza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, contudo, novas abordagens t\u00eam vindo a tornar-se predominantes, focando a sua aten\u00e7\u00e3o, por exemplo, na transfer\u00eancia transnacional de modelos e ideias pol\u00edticas. Michel Dobry tamb\u00e9m sugeriu que se abandonasse a \u201cobsess\u00e3o\u201d com as classifica\u00e7\u00f5es, propondo que se estude a direita do entre guerras levando em conta o dinamismo, as influ\u00eancias m\u00fatuas entre as diversas organiza\u00e7\u00f5es e regimes, as perce\u00e7\u00f5es dos contempor\u00e2neos, etc. No limite, esta abordagem implica que deixe de fazer sentido discutir sequer o que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 fascista. David D. Roberts, em parte baseado nestes pressupostos, escreveu o seu &#8220;Fascist Interactions&#8221; com o objetivo de avaliar os resultados das intera\u00e7\u00f5es entre fascistas e conservadores, n\u00e3o indo ao ponto, contudo, de negar que houvesse distin\u00e7\u00f5es entre os dois (outro exemplo \u00e9 a historia do fascismo franc\u00eas escrita por Chris Millington, que procura narrar a evolu\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es sem se preocupar muito com classifica\u00e7\u00f5es). Ainda que pessoalmente rejeitando as implica\u00e7\u00f5es das propostas de Dobry, que nos levariam a abandonar por completo tipologias que s\u00e3o \u00fateis para o investigador compreender a realidade pol\u00edtica de ent\u00e3o, aceito que a sua reflex\u00e3o nos ajuda a compreender que as distin\u00e7\u00f5es entre as diversas variantes da direita n\u00e3o seriam t\u00e3o vincadas quanto a historiografia tradicional tende a pensar e que as influ\u00eancias fascistas junto dos conservadores (e vice-versa) devem ser levadas mais a s\u00e9rio. \u00c9, pois, poss\u00edvel falar de uma complexa rede de influ\u00eancias m\u00fatuas e mesmo de uma \u201chibridiza\u00e7\u00e3o&#8221;, conceito utilizado sobretudo por Aristotle Kallis, um dos autores que mais tem defendido que os regimes geralmente rotulados de conservadores sejam inclu\u00eddos, de uma maneira ou de outra, no universo do fascismo, e que inicialmente chegou a sugerir que o &#8220;para-fascismo&#8221; fosse visto como uma &#8220;genu\u00edna&#8221; manifesta\u00e7\u00e3o de fascismo, s\u00f3 que menos radical.<\/p>\n\n\n\n<p>Levando isto em conta, pode dizer-se que, por raz\u00f5es que n\u00e3o tenho espa\u00e7o para explicar, ocorreu, no seio dos regimes conservadores, uma \u201cfasciza\u00e7\u00e3o\u201d parcial, cuja dimens\u00e3o divergiu de pa\u00eds para pa\u00eds (arrisco hoje dizer, sem certezas, que onde ela foi maior foi na Rom\u00e9nia de Antonescu, a partir de 1941) e que levou ao surgimento de um \u201cconservadorismo fascizante\u201d (express\u00e3o usada por v\u00e1rios autores portugueses). No caso portugu\u00eas, ela teve lugar sobretudo na segunda metade dos anos 30 com a cria\u00e7\u00e3o da Mocidade Portuguesa e da Legi\u00e3o Portuguesa. \u00c9 precisamente por estar convicto de que essa \u201cfasciza\u00e7\u00e3o\u201d dos regimes foi parcial que prefiro adotar a express\u00e3o anteriormente referida \u00e0 de &#8220;fascismo conservador&#8221;, que \u00e9 recuperada por Fernando Rosas e Manuel Loff. Julgo, pois, que \u201cconservadorismo fascizante\u201d \u00e9 uma classifica\u00e7\u00e3o feliz para expressar o dinamismo e os processos de hibridiza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, que permitiram que os regimes conservadores se aproximassem dos fascistas, ao mesmo tempo salvaguardando a no\u00e7\u00e3o de que estes \u00faltimos eram diferentes, pois teriam uma evolu\u00e7\u00e3o e carater\u00edsticas estruturais e ideol\u00f3gicas distintas. Apesar da sua \u201cfasciza\u00e7\u00e3o\u201d parcial e porventura tempor\u00e1ria, os regimes conservadores continuavam a ser, no fundamental, isso mesmo: conservadores. Neles, as classes e institui\u00e7\u00f5es tradicionais n\u00e3o precisavam de partilhar o poder com os l\u00edderes de um movimento de cunho &#8220;popular&#8221; que pretendiam criar ou mesmo representar as &#8220;novas&#8221; elites &#8220;heroicas&#8221; (devo dizer, contudo, que me parece acertada a classifica\u00e7\u00e3o distinta de \u201cquasi-fascista\u201d pelo menos para os primeiros anos do regime de Franco, para o breve Estado Nacional-Legion\u00e1rio romeno de 1940 e porventura para a fase final de Vichy e mais um ou outro regime &#8230;ainda estou indeciso quanto ao que pensar do regime Ustashe da Cro\u00e1cia; e o regime do fascista h\u00fangaro Sz\u00e1lasi Ferenc foi demasiado curto e limitado para ser seriamente encarado como candidato a qualquer classifica\u00e7\u00e3o que seja, al\u00e9m da de sanguin\u00e1rio). Apesar de tudo isto, e ainda que de forma muito diferente da dos regimes italiano e alem\u00e3o, os regimes conservadores da \u00e9poca, como os de Salazar e outros, fazem tamb\u00e9m parte da hist\u00f3ria do fascismo e as abordagens transnacionais e relacionais ajudam-nos a compreender melhor os diferentes casos de &#8220;fasciza\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Remato dizendo que o meu livro \u00e9 o resultado de uma investiga\u00e7\u00e3o de quase dez anos que me levou a estudar afincadamente a hist\u00f3ria do fascismo, n\u00e3o por qualquer simpatia ideol\u00f3gica, mas para tentar compreender o que caraterizou este fen\u00f3meno pol\u00edtico infame. Esta investiga\u00e7\u00e3o levou-me a ler sobre personalidades pouco conhecidas que v\u00e3o de Gustavs Celmi\u0146\u0161 da Let\u00f3nia a Nakano Seigo do Jap\u00e3o e Adrien Arcand do Canad\u00e1, e, entre outras coisas, a viajar at\u00e9 Fran\u00e7a em busca de textos de Jacques Doriot, Marcel Bucard e Marcel D\u00e9at. O livro que agora apresento ao grande p\u00fablico, que fala sobre muit\u00edssimo mais do que a classifica\u00e7\u00e3o do regime de Salazar (ali\u00e1s, no livro eu nem abordo algumas das coisas que digo neste texto), e no qual os especialistas (assim o temo) nada encontrar\u00e3o de novo, resulta da minha convic\u00e7\u00e3o de que o conhecimento acad\u00e9mico n\u00e3o pode ser apenas partilhado num circulo restrito de investigadores. Aceitarei cr\u00edticas que chamem a aten\u00e7\u00e3o para interpreta\u00e7\u00f5es ou afirma\u00e7\u00f5es erradas (n\u00e3o alego ter um conhecimento detalhado de todas as realidades nacionais que abordo) ou para momentos do livro em que, inadvertidamente, possa ter apresentado estas ideologias de uma forma mais \u201csuave\u201d do que elas merecem (terei todo o gosto em reformular numa eventual reedi\u00e7\u00e3o, se as cr\u00edticas fizerem sentido). N\u00e3o aceito que julguem que sou motivado pela ignor\u00e2ncia ou por ideologias que n\u00e3o perfilho. NOTA FINAL: chamaram-me a aten\u00e7\u00e3o para algo de estranho que teria dito na entrevista ao DN, pois aparentemente teria classificado o regime de Putin como fascista. Contudo, nunca lhe atribuo verdadeiramente esta classifica\u00e7\u00e3o. O que quis dizer na entrevista \u00e9 que se trata de um regime fundamentalmente conservador que adota aspetos \u201cfascizantes\u201d, e que \u00e9 talvez o regime com maior tend\u00eancia para inserir elementos \u201cfascizantes\u201d dentre os que surgiram nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Na linguagem de Roger Griffin, isto seria um &#8220;para-fascismo&#8221; (express\u00e3o que, ao que julgo, o pr\u00f3prio j\u00e1 ter\u00e1 utilizado para o regime). De resto, este autor ter\u00e1 sugerido, num cap\u00edtulo que escreveu para um livro de Ant\u00f3nio Costa Pinto e Aristotle Kallis, que via agora o &#8220;para-fascismo&#8221; como um tipo de fen\u00f3meno pol\u00edtico por direito pr\u00f3prio e j\u00e1 n\u00e3o como uma mera imita\u00e7\u00e3o falsificada do &#8220;verdadeiro&#8221; fascismo.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Texto publicado no DN, publicado no SF com autoriza\u00e7\u00e3o do autor<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>5 de dezembro, 2022 TRIBUNA | Quando falamos de fascismo, afinal do que \u00e9 que&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8546,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,174,121],"tags":[400],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS.jpg",836,564,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS-300x202.jpg",300,202,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS-768x518.jpg",640,432,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS.jpg",640,432,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS.jpg",836,564,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS.jpg",836,564,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS.jpg",836,564,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS.jpg",836,564,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/FASCISMOS-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/especial-sf\/dossies\/\" rel=\"category tag\">DOSSI\u00caS<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/causas\/tribuna\/\" rel=\"category tag\">TRIBUNA<\/a>","tag_info":"TRIBUNA","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8543"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8543"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8543\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8629,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8543\/revisions\/8629"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8546"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}