{"id":8795,"date":"2022-12-30T13:31:26","date_gmt":"2022-12-30T13:31:26","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=8795"},"modified":"2025-01-09T19:43:54","modified_gmt":"2025-01-09T19:43:54","slug":"tribuna-o-fascismo-existe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2022\/12\/30\/tribuna-o-fascismo-existe\/","title":{"rendered":"TRIBUNA | O fascismo existe?"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-post-date\"><time datetime=\"2022-12-30T13:31:26+00:00\">30 de Dezembro, 2022<\/time><\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">A historiografia \u2013 que pratico \u2013 prefere pensar num conjunto heterog\u00e9neo de ditaduras de novo tipo que surgiram na Europa entre as duas guerras mundiais<\/mark><\/h3>\n\n\n\n<div style=\"height:14px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<figure class=\"wp-block-post-featured-image\"><img width=\"562\" height=\"321\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala.jpg\" class=\"attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image\" alt=\"sala\" decoding=\"async\" style=\"object-fit:cover;\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala.jpg 562w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala-300x171.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 562px) 100vw, 562px\" loading=\"lazy\" \/><\/figure>\n\n\n<div style=\"height:18px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">por Irene Pimentel (*)<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/irene-Pimentel-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8797\" width=\"208\" height=\"203\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/irene-Pimentel-1.jpg 388w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/irene-Pimentel-1-300x293.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 208px) 100vw, 208px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:10px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Algo perplexa assisto ao retorno de uma discuss\u00e3o acad\u00e9mica velha de mais de 50 anos, a n\u00edvel internacional e nacional. Trata-se da caracteriza\u00e7\u00e3o do regime ditatorial de Salazar (e de Caetano) e a sua inclus\u00e3o, ou n\u00e3o, num modelo de fascismo gen\u00e9rico, que ressurge, no <em>DN<\/em>, de 31\/10, a prop\u00f3sito do livro <em>Fascismos para al\u00e9m de Hitler e Mussolini<\/em>. O autor, Carlos Martins, afirma: \u00abN\u00e3o se pode classificar o Estado Novo como fascista\u00bb, mas de \u00abconservador fascizante\u00bb. N\u00e3o li o livro, mas parece-me que a frase entra em contradi\u00e7\u00e3o com o t\u00edtulo, que pressup\u00f5e a exist\u00eancia de mais regimes fascistas, al\u00e9m dos de Mussolini e Hitler. Presumo que o autor, num momento como o actual, conheceria as consequ\u00eancias de afirmar que os \u00fanicos de que se pode dizer sem reservas \u00abisto foi \u201cfascismo\u201d foram a It\u00e1lia e Alemanha Nazi\u00bb. Mais abaixo, mostro que os dois regimes s\u00e3o t\u00e3o diferentes na sua ess\u00eancia que, ou n\u00e3o s\u00e3o ambos fascistas, ou o nazismo n\u00e3o \u00e9 fascista, ou o fascismo italiano n\u00e3o foi fascista, o que \u00e9 absurdo<\/p>\n\n\n\n<p>As afirma\u00e7\u00f5es de Carlos Martins suscitaram, por seu lado, uma habitual reac\u00e7\u00e3o da parte de Pedro Tadeu, ao considerar que n\u00e3o qualificar de fascista o regime ditatorial portugu\u00eas \u00e9 desrespeitar o sofrimento dos que o combateram, perderam empregos, a liberdade e at\u00e9 a vida. \u00c9 verdade que h\u00e1 reais tentativas de branquear o regime ditatorial portugu\u00eas e que o argumento usado \u00e9 sobretudo o de n\u00e3o o qualificar de \u201cfascista\u201d. Depois, vem de imediato o branqueamento da ditadura (chamada \u201cditabranda\u201d), da repress\u00e3o, da censura e at\u00e9, como vi recentemente, o falso argumento de que o Estado Novo teria acabado com o analfabetismo e sido o introdutor da literacia em Portugal (!). Mais, aos historiadores que n\u00e3o elogiam o regime de Salazar, dizem que est\u00e3o a fazer pol\u00edtica, em vez de Hist\u00f3ria, como se, ao mentirem e branquearem n\u00e3o estivessem a fazer o que acusam os outros de fazer.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Fascismo e nazismo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-luminous-vivid-amber-background-color has-background\">O conceito de fascismo \u2013 tal ali\u00e1s como o de totalitarismo \u2013 surgiu na It\u00e1lia, onde Mussolini chegou ao poder, ap\u00f3s a \u201cmarcha sobre Roma\u201d de 1922, h\u00e1 cem anos. O termo prov\u00e9m do nome que deu ao seu movimento <em>Fasci di Combattimento<\/em> (1919), por seu turno apropriado da Roma antiga.<\/p>\n\n\n\n<p> Respondendo ao gigantesco <em>bluff <\/em>dessa \u201cmarcha\u201d, o rei Emanuel III ofereceu a Mussolini o cargo de primeiro-ministro e o Fascismo passou de movimento a um regime ditatorial de novo tipo. Entre as semelhan\u00e7as entre os regimes de Mussolini e de Hitler, que chegaram ambos ao poder atrav\u00e9s de uma alian\u00e7a com as elites industriais, rurais, militares e burocr\u00e1ticas, contaram-se o culto belicista e militarista, alimentado pela crise s\u00f3cio-pol\u00edtica, o nacionalismo exacerbado e chauvinista, com tend\u00eancias imperialistase expansionistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois regimes, dirigidos por um partido \u00fanico e um chefe carism\u00e1tico, caracterizaram-se pela total intoler\u00e2ncia relativamente a toda a oposi\u00e7\u00e3o e por terem uma pol\u00edtica antiliberal, anti-socialista e anticomunista, de destrui\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es da classe oper\u00e1ria. Nestes aspectos, ambos os regimes n\u00e3o se diferenciaram da ess\u00eancia do salazarismo. Mas, houve tamb\u00e9m diferen\u00e7as significativas entre o fascismo italiano e o nazismo alem\u00e3o, que levam a considerar-se exclusivamente de fascista o regime de Mussolini, e a inserir o nacional-socialismo numa categoria \u00e0 parte (totalit\u00e1ria, como a URSS de Staline). A n\u00edvel de regime, o nazismo teve uma din\u00e2mica ideol\u00f3gica racial e elevou a <em>Volksgemeinschaft <\/em>(\u00abcomunidade nacional\u00bb) acima do Estado, quando este era \u201csagrado\u201d para o fascismo italiano. Comparado com a relativa limita\u00e7\u00e3o da penetra\u00e7\u00e3o da ordem fascista na It\u00e1lia, o nazismo teria representado um muito maior dom\u00ednio do Estado sobre a sociedade, embora \u2013 sabe-se hoje \u2013 n\u00e3o total. Por outro lado, a uma pol\u00edtica externa, expansionista, mais \u00abtradicional\u00bb e pr\u00f3xima do colonialismo da It\u00e1lia (invas\u00e3o da Abiss\u00ednia e L\u00edbia), a da Alemanha nazi caracterizara-se pela vontade de dom\u00ednio racial total e imperialista do nazismo, baseada na conquista de <em>Lebensraum <\/em>(\u00abespa\u00e7o vital\u00bb)<em>.<\/em> Devido a esta caracter\u00edstica, Manuel Lucena nem considera o nazismo de nacionalismo, ao contr\u00e1rio de It\u00e1lia e Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, h\u00e1 que lembrar que, no fascismo italiano, a partir de 1943, quando Mussolini foi expulso do Grande Conselho Fascista, preso, libertado pelos nazis e formou a Rep\u00fablica de Sal\u00f2 no norte da It\u00e1lia, as diferen\u00e7as at\u00e9 ent\u00e3o, com o nazismo esbateram-se, com a ocupa\u00e7\u00e3o dessa parte da It\u00e1lia pelos nazis e a colabora\u00e7\u00e3o directa tamb\u00e9m no genoc\u00eddio dos judeus. Da mesma forma que, a partir de 1941, o colaboracionismo com o nazismo na Europa esbateu diferen\u00e7as com outros regimes. Para s\u00f3 referir alguns, que participaram no genoc\u00eddio de judeus e ciganos, mencione-se a Fran\u00e7a de Vichy, bem como os Estados fantoches criados pelos nazis, dos Ustachas na Cro\u00e1cia, da Cruz Flechada na Hungria e do sacerdote cat\u00f3lico Jozef Tiso na Eslov\u00e1quia.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente o nacional-socialismo alem\u00e3o, devido \u00e0s suas diferen\u00e7as de ess\u00eancia com o fascismo italiano (at\u00e9 1943) e com a maioria das ditaduras dos anos 30 e 40, foi considerado como um fen\u00f3meno \u00fanico e singular. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-luminous-vivid-amber-background-color has-background\">Por isso, respondo afirmativamente \u00e0 pergunta deixada de Pedro Tadeu, na sua cr\u00f3nica, confirmando que nazismo e fascismo representam esp\u00e9cies distintas no interior de um mesmo g\u00e9nero, sem que isso implique uma identidade total. <\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se ent\u00e3o dizer que, se n\u00e3o se aplica sequer aos dois regimes, italiano e alem\u00e3o, o conceito de fascismo gen\u00e9rico acabaria por n\u00e3o ser \u00fatil e mais valeria abandon\u00e1-lo. Ironicamene chegou-se at\u00e9 a observar que nem o fascismo italiano teria sido \u201cfascista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Salazarismo e Fascismo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No entanto, pode-se utilizar o conceito gen\u00e9rico com proveito para todos os regimes ditatoriais europeus coet\u00e2neos, assinalando as respectivas diferen\u00e7as e semelhan\u00e7as. A caracteriza\u00e7\u00e3o do Estado Novo e a sua inclus\u00e3o, ou n\u00e3o, em modelos gen\u00e9ricos de fascismo tem sido debatido por muitos e muitas, quer a n\u00edvel historiogr\u00e1fico quer das ci\u00eancias sociais e da Politologia. No entanto, tem sido abandonado, por \u201cestorvar\u201d, mais do que ajudar \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o, na historiografia. N\u00e3o s\u00f3 porque esta analisa o singular e est\u00e1 vocacionada para detectar mais as diferen\u00e7as e singularidades, como tamb\u00e9m, \u00e0 medida dos avan\u00e7os nos estudos emp\u00edricos sobres os v\u00e1rios aspectos do regime portugu\u00eas. Tamb\u00e9m, porque os modelos ideal-t\u00edpicos tendem a afastar-se da realidade concreta, mesmose neles integram as singularidades e n\u00e3o o \u201cm\u00ednimo fascista\u201d de similitudes<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, ao come\u00e7ar a ser estudado, nos anos 70 e 80 do s\u00e9culo XX, historiadores e polit\u00f3logos usaram analiticamente o termo de fascismo para caracterizar num sentido gen\u00e9rico um conceito ideal-t\u00edpico, ligado a ideologias, movimentos e regimes existentes em diversos pa\u00edses durante o per\u00edodo entre as duas guerras mundiais. Procuraram detectar academicamente condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas que certo grupo ou regime pol\u00edtico deve ter para ser considerado fascista.<\/p>\n\n\n\n<p>No debate, velho de 50 anos, de caracteriza\u00e7\u00e3o do salazarismo, no qual intervieram ao longo dos anos historiadores e polit\u00f3logia, apenas refiro os estudos pioneiros, ainda em plena ditadura, de Herm\u00ednio Martins e Manuel Lucena, ambos exilados, recorrendo \u00e0 \u00e9poca \u00e0 teoria do totalitarismo de Arendt, hoje tamb\u00e9m maioritariamente abandonada. No seu estudo seminal sobre o corporativismo salazarista (1976), onde compara o Estado Novo com o fascismo italiano, Lucena definiu o primeiro como \u201cn\u00e3o-totalit\u00e1rio\u201d, mas como um \u201cfascismo sem movimento fascista\u201d e um regime que, na forma estatal, foi basicamente semelhante ao fascismo de Mussolini, no seu in\u00edcio. Ambos foram ditaduras de partido \u00fanico, de colabora\u00e7\u00e3o de classes, apoiados por toda a burguesia nacional, dirigidos por um \u00fanico chefe, com poder centralizado, uma pol\u00edcia pol\u00edtica, o Ex\u00e9rcito, uma organiza\u00e7\u00e3o corporativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-luminous-vivid-amber-background-color has-background\">Como se viu Mussolini e Hitler, tamb\u00e9m nomeado chanceler pelo presidente Hindenburg, em 1933,as indispens\u00e1veis \u00abcumplicidades conservadoras\u00bb civis e militares que levaram os fascistas e nazis ao poder tamb\u00e9m se registaram, e 1932, na nomea\u00e7\u00e3o de Salazar \u00e0 chefia do governo pelo presidente Carmona. Segundo o \u00abDec\u00e1logo\u00bb &#8211; os dez pontos de propaganda do Estado Novo salazarista, erguido atrav\u00e9s da Constitui\u00e7\u00e3o de 1933, o novo regime era uma ditadura nacionalista, antiliberal, anticomunista e autorit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Nacionalista e colonialista, porque era prop\u00f3sito do regime reintegrar Portugal \u00abna sua grandeza hist\u00f3rica\u00bb de \u00abvasto imp\u00e9rio\u00bb. Antiliberal, anticomunista e anti-individualista, porque subordinava \u00abtodas as classes \u00e0 suprema harmonia do Interesse Nacional\u00bb. Na ditadura portuguesa, o indiv\u00edduo s\u00f3 existia como parte integrante das fam\u00edlias, das corpora\u00e7\u00f5es e dos munic\u00edpios e n\u00e3o havia \u00abdireitos abstractos do Homem\u00bb. Recusando, al\u00e9m disso, o \u00abparlamentarismo e a ditadura dos partidos\u00bb, o Estado Novo pretendia ser um \u00abEstado Forte\u00bb, ditatorial, que considerava os seus advers\u00e1rios pol\u00edticos como \u00abinimigos da Na\u00e7\u00e3o\u00bb, contra os quais o Estado podia e devia usar \u00aba for\u00e7a\u00bb, para realizar \u00aba leg\u00edtima defesa da P\u00e1tria\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito brevemente, na perspectiva acad\u00e9mica, entre as semelhan\u00e7as dos tr\u00eas regimes ditatoriais italiano, portugu\u00eas e nacional-socialista no mesmo per\u00edodo dos anos 30 e 40, contaram-se os inimigos pol\u00edticos &#8211; da\u00ed os \u201canti\u201d -, e o corporativismo, nos casos de Portugal e da It\u00e1lia. Todos foram ditaduras com pol\u00edcias pol\u00edticas, persegui\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o do pluralismo pol\u00edtico e dos respectivos advers\u00e1rios, dos seus partidos pol\u00edticos. Claramente, a partir de 1935\/36 e at\u00e9 ao final da II Guerra Mundial, o regime de Salazar pode e deve ser comparado com todas as ditaduras de v\u00e1rios tipos, entre as quais a nazi e a fascista. Fez parte desse movimento ditatorial do per\u00edodo entre as duas guerras e chamar-lhe fascista n\u00e3o \u00e9 assim errado e pouco rigoroso, embora prefira eu n\u00e3o ir por a\u00ed.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das componentes referidas na sua entrevista \u00e9 a ideia de decad\u00eancia e de mito palingen\u00e9tico (no\u00e7\u00e3o de regenera\u00e7\u00e3o) de na\u00e7\u00e3o, apontado como uma das componentes do Fascismo pelo historiador Roger Griffin, Ao falar inicialmente de regenera\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o depois da d\u00e9cadas de decad\u00eancia liberal, o Estado Novo portugu\u00eas foi buscar refer\u00eancias a certas \u00e9pocas do passado hist\u00f3rico que, num eterno retorno, renascia sempre igual e imut\u00e1vel. A sua ideologia nacionalista era legitimada por um eterno renascimento de momentos gloriosos passados \u2013 a funda\u00e7\u00e3o e a restaura\u00e7\u00e3o de Portugal \u2013 que desembocavam no \u00abfim da Hist\u00f3ria\u00bb, datado em 1940 e representado pelo Estado Novo de Salazar.<\/p>\n\n\n\n<p>No Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o Nacional, Carneiro Pacheco utilizou frequentemente o termo \u00abregenera\u00e7\u00e3o\u00bb e enunciou como objectivo a forma\u00e7\u00e3o de uma \u00abnova mentalidade\u00bb para criar o \u00abhomem novo\u00bb. Este prop\u00f3sito que pode ser considerado \u00abtotalizante\u00bb e \u00abfascizante\u00bb na medida em que pressupunha que o Estado, substituindo-se \u00e0 vontade individual e \u00e0 fam\u00edlia, penetrasse na vida privada e moldasse a personalidade do ser humano transformando a sua identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente face \u00e0 derrota dos nazis e dos fascistas, Salazar tentou demarcar-se dos seus regimes derrotados, no p\u00f3s-guerra: SPN, PVDE, tribunais militares, para ser aceite pelos Aliados ocidentais vencedores e conseguiu, ao ser convidado a ingressar na NATO, em 1949.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de retirar o regime de Salazar do conjunto homog\u00e9neo \u201cfascista\u201d, de onde tamb\u00e9m seria retirado o nazismo, a historiografia \u2013 que pratico \u2013 prefere pensar num conjunto heterog\u00e9neo de ditaduras de novo tipo que surgiram na Europa entre as duas guerras mundiais, que englobe tanto o salazarismo como os regimes de Vichy, de Franco, de Mussolini e de Hitler entre muitos outros do mesmo conjunto. \u00c9 certo que, ao usar a compara\u00e7\u00e3o, a historiografia s\u00f3 pode comparar os regimes do mesmo per\u00edodo, no mesmo contexto e com os mesmos actores pol\u00edticos: por exemplo, o salazarismo at\u00e9 1945, com o fascismo e o nazismo. No entanto, o regime continuou em Portugal e at\u00e9 1974 e teve tamb\u00e9m uma componente colonial e de guerra colonial.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Estar\u00e1 a haver um retorno do fascismo?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Depois da II Guerra Mundial, o termo \u201cfascismo\u201d transformou-se num conceito com m\u00e1 fama, que define m\u00faltiplos aspectos de um movimento ou regime,que extravasou as defini\u00e7\u00f5es acad\u00e9micas e foi apropriado \u2013 e bem &#8211; pela opini\u00e3o p\u00fablica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-luminous-vivid-amber-background-color has-background\">Tal como Pedro Tadeu, deixo aqui umas perguntas: Pode-se hoje classificar de fascista a onda nacionalista de extrema-direita, racista, xen\u00f3foba e reaccion\u00e1ria e compar\u00e1-la \u00e0 vaga de ditaduras que assombrou a Europa do s\u00e9culo passado?<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos comparam esta onda, chamada \u201ciliberal\u201d &#8211; uma contradi\u00e7\u00e3o nos termos &#8211; iliberal, nacionalista de extrema-direita, racista, xen\u00f3foba, reaccion\u00e1ria (mais do que conservadora), usando o mote \u00abDeus, P\u00e1tria, Fam\u00edlia\u00bb) com a vaga de ditaduras, de tipo autorit\u00e1rio, fascista ou nacional-socialista, que assombrou a Europa nos anos 30 e 40 do s\u00e9culo XX. H\u00e1 semelhan\u00e7as, por exemplo, entre as consequ\u00eancias da crise econ\u00f3mica mundial de 1929 e as da crise financeira de 2007\/8. Em ambas as \u00e9pocas, assiste-se \u00e0 subida de movimentos de extrema-direita de rejei\u00e7\u00e3o das elites pol\u00edticas parlamentares, marcados pela xenofobia, o racismo e o anti-semitismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma grande diferen\u00e7a na actual vaga autorit\u00e1ria e populista, al\u00e9m do contexto e da mudan\u00e7a de personalidades que n\u00e3o necessita de proibir no imediato os partidos e a comunica\u00e7\u00e3o social, chegando-lhe utilizar os meios sociais<em> online<\/em> com not\u00edcias falsas de modo a tornar irrelevantes a verdade dos factos na \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d. Acrescentar\u00edamos que, nos anos 30 do s\u00e9culo XX, o fascismo e o nazismo, em graus diferentes, tiveram a preocupa\u00e7\u00e3o de monopolizar as For\u00e7as Armadas, o sistema judicial e policial bem como colocar a Igreja do seu lado ou neutraliz\u00e1-la. Mas todos t\u00eam em comum o facto de serem antidemocr\u00e1ticos, embora utilizem elei\u00e7\u00f5es, mas s\u00f3 at\u00e9 as perderem.<\/p>\n\n\n\n<p>Utilizar o termo \u00abfascismo\u00bb ou n\u00e3o? O que n\u00e3o se duvida \u00e9 das aterradoras semelhan\u00e7as e, embora concordando que a Hist\u00f3ria n\u00e3o se repete, pois \u00e9 feita por e com personalidades individuais e colectivos sociais em contextos diferentes, o facto de os seres humanos terem as mesmas caracter\u00edsticas ao longo de s\u00e9culos, revelam semelhan\u00e7as em \u00e9pocas diferentes N\u00e3o tenho nada contra a utiliza\u00e7\u00e3o do termo,, enquanto acad\u00e9mica e cidad\u00e3 preocupada, pois a palavra-conceito remete para o que conhecemos dessa onda e serve de alerta.<\/p>\n\n\n\n<p>(*) Irene Pimentel, historiadora | Editado por SF &#8211; subt\u00edtulo, destaques e ilustra\u00e7\u00e3o -.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A historiografia \u2013 que pratico \u2013 prefere pensar num conjunto heterog\u00e9neo de ditaduras de novo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8796,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,174,121],"tags":[133],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala.jpg",562,321,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala-300x171.jpg",300,171,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala.jpg",562,321,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala.jpg",562,321,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala.jpg",562,321,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala.jpg",562,321,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala.jpg",562,321,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala.jpg",562,321,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala.jpg",562,321,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala-540x321.jpg",540,321,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/sala-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/especial-sf\/dossies\/\" rel=\"category tag\">DOSSI\u00caS<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/causas\/tribuna\/\" rel=\"category tag\">TRIBUNA<\/a>","tag_info":"TRIBUNA","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8795"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8795"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8795\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8798,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8795\/revisions\/8798"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8795"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}