{"id":9050,"date":"2023-02-10T10:40:50","date_gmt":"2023-02-10T10:40:50","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=9050"},"modified":"2023-02-10T13:39:22","modified_gmt":"2023-02-10T13:39:22","slug":"opiniao-a-geopolitica-no-nosso-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2023\/02\/10\/opiniao-a-geopolitica-no-nosso-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"OPINI\u00c3O &#8211; A geopol\u00edtica no nosso s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-post-date\"><time datetime=\"2023-02-10T10:40:50+00:00\">10 de Fevereiro, 2023<\/time><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\"> O RECENTE CONFLITO NATO-R\u00daSSIA<\/mark><\/h2>\n\n\n\n<div style=\"height:17px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<figure class=\"wp-block-post-featured-image\"><img width=\"542\" height=\"352\" src=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd.jpg\" class=\"attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image\" alt=\"odd\" decoding=\"async\" style=\"object-fit:cover;\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd.jpg 542w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd-300x195.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 542px) 100vw, 542px\" loading=\"lazy\" \/><\/figure>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\">Emmanuel Todd<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">por Filipe do Carmo<\/h2>\n\n\n\n<p>Numa recente cr\u00f3nica<sup>1<\/sup> publicada no jornal <em>Le Monde<\/em>, o autor (Alain Frachon) d\u00e1 grande aten\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra da Ucr\u00e2nia, salientando as dificuldades russas em fazer vergar esse pa\u00eds. Tais contrariedades seriam devidas n\u00e3o s\u00f3 ao apoio militar que a Ucr\u00e2nia tem recebido dos EUA e de pa\u00edses europeus, mas tamb\u00e9m \u00e0s dificuldades derivadas das condena\u00e7\u00f5es relativas ao desencadeamento da guerra que tiveram lugar na ONU e \u00e0 falta de aprova\u00e7\u00e3o clara \u00e0 guerra por parte da China. S\u00e3o quest\u00f5es que j\u00e1 conduziram a uma afirma\u00e7\u00e3o de que a R\u00fassia \u00e9 cada vez mais um pa\u00eds \u201cvassalo\u201d de Pequim.<sup>2<\/sup> Pode-se compreender tal situa\u00e7\u00e3o de \u201cvassalidade\u201d aplicada a um Estado quando a sua soberania \u00e9 afectada por uma crescente depend\u00eancia face a outro Estado ou mesmo a uma organiza\u00e7\u00e3o internacional. O que \u00e9 por exemplo o caso da depend\u00eancia em que bastantes Estados europeus se encontram face \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e mesmo desta face aos EUA e \u00e0 NATO. Como se verifica actualmente com a recente sujei\u00e7\u00e3o dessa Uni\u00e3o a condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas mais desfavor\u00e1veis em termos de aquisi\u00e7\u00e3o de armas e g\u00e1s americanos.<sup>3<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias a dificuldades russas em fazer vergar a Ucr\u00e2nia ou \u00e0s fortes possibilidades de no presente ano esse pa\u00eds vir a poder celebrar uma vit\u00f3ria na guerra (como se depreende do t\u00edtulo do artigo de Teresa de Sousa) s\u00e3o claramente contraditadas numa entrevista feita a Emmanuel Todd (antrop\u00f3logo e historiador) e publicada h\u00e1 cerca de um m\u00eas no jornal <em>Le Figaro<\/em><sup>4<\/sup>. Nessa entrevista, Todd, em particular, considera os jornais ocidentais (e n\u00e3o s\u00f3 o que \u00e9 referido por Teresa de Sousa) como \u201ctragiquement amusants\u201d por eles n\u00e3o se cansarem de dizer \u00abLa Russie est isol\u00e9e, la Russie est isol\u00e9e\u00bb. E prossegue, dizendo que quando se tem em aten\u00e7\u00e3o os votos na ONU, n\u00e3o se pode deixar de constatar que 75% do mundo n\u00e3o segue o Ocidente, Ocidente esse que assim nos aparece como bastante pequeno. Naturalmente que para p\u00f4r em causa as fortes possibilidades de a Ucr\u00e2nia vir em breve a festejar uma vit\u00f3ria na guerra, Todd teve que apresentar argumentos que v\u00e3o mais longe que a constata\u00e7\u00e3o referida. \u00c9 sobre tais argumentos que incidem os pr\u00f3ximos par\u00e1grafos.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio da entrevista, Todd come\u00e7a por recordar que se pensava, quando a guerra estalou, que o ex\u00e9rcito russo era extremamente poderoso, o que faria com que a Ucr\u00e2nia viesse a ser esmagada militarmente. Ora isso n\u00e3o sucedeu, embora ela tivesse perdido 16% do seu territ\u00f3rio at\u00e9 \u00e0 data (12 de Janeiro de 2023) em que a entrevista foi concedida. Tamb\u00e9m se pensava que a R\u00fassia iria ser esmagada economicamente (dado que a sua economia era muito fraca) pelo Ocidente e tal n\u00e3o sucedeu (a esse prop\u00f3sito, Todd afirma que o rublo ganhou, desde a v\u00e9spera do in\u00edcio da guerra, 8% ao d\u00f3lar e 18% ao euro). A explica\u00e7\u00e3o que o autor d\u00e1 para a resist\u00eancia que a Ucr\u00e2nia tem oferecido \u2013 considerando que Putin cometeu um grave erro quando admitiu que a Ucr\u00e2nia era uma sociedade em decomposi\u00e7\u00e3o e se afundaria ao primeiro choque \u2013 \u00e9 que essa sociedade, alimentada por recursos financeiros e militares exteriores (como bem se sabe, oriundos dos pa\u00edses ocidentais), encontrou na guerra um novo tipo de equil\u00edbrio e mesmo um horizonte, uma esperan\u00e7a. Ainda quanto \u00e0 quest\u00e3o econ\u00f3mica, o que se tem verificado, para al\u00e9m da resist\u00eancia russa, \u00e9 que os europeus, \u201cobrigados\u201d a contribuir economicamente para a guerra, vieram a ser afectados por pen\u00farias e pela infla\u00e7\u00e3o. No respeitante aos efeitos da guerra nas economias russa e americana, convir\u00e1 dar previamente uma ideia dos coment\u00e1rios que Todd faz \u00e0 an\u00e1lise feita pelo geopol\u00edtico americano John Mearsheimer \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que precede o desencadeamento do conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora Mearsheimer havia compreendido que n\u00e3o s\u00f3 a Ucr\u00e2nia \u2013 cujo ex\u00e9rcito teria passado a ser apoiado ou mesmo controlado pelos militares da NATO (americanos, brit\u00e2nicos e polacos) desde pelo menos 2014 \u2013 era j\u00e1, em consequ\u00eancia e de facto, membro da NATO, mas tamb\u00e9m que os russos n\u00e3o tolerariam nunca que esse pa\u00eds viesse a ser incorporado nessa organiza\u00e7\u00e3o. E isso significa que fazem uma guerra que \u00e9, do seu ponto de vista, defensiva e preventiva. O que conduz Todd a considerar que quando o autor americano disse que a Ucr\u00e2nia era j\u00e1 de facto membro da NATO, ele n\u00e3o foi suficientemente longe. Na realidade faltou-lhe acrescentar que tanto a Alemanha como a Fran\u00e7a se haviam tornado parceiros menores na NATO e que n\u00e3o estavam ao corrente do que se tramava na Ucr\u00e2nia em termos militares. A j\u00e1 criticada ingenuidade desses dois pa\u00edses vir\u00e1 provavelmente de que eles n\u00e3o sabiam que americanos, brit\u00e2nicos e polacos haviam capacitado a Ucr\u00e2nia para estar em condi\u00e7\u00f5es de levar a cabo uma guerra durante mais tempo. \u00c9 que o arco fundamental da NATO \u00e9 agora Washington-Londres-Vars\u00f3via- Kiev. Mas Todd vai ainda mais longe e diz que Mearsheimer, como bom americano, valoriza demasiado o seu pa\u00eds ao considerar que, se para os russos a guerra da Ucr\u00e2nia p\u00f5e em risco a sua exist\u00eancia, para os americanos ela n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um \u201cjogo\u201d de poder entre outros (ap\u00f3s o Vietname, o Iraque e o Afeganist\u00e3o que import\u00e2ncia poder\u00e1 ter mais um desastre? E nada poder\u00e1 p\u00f4r em perigo a exist\u00eancia da Am\u00e9rica!). Ora para Todd a Am\u00e9rica \u00e9 fr\u00e1gil, pois a resist\u00eancia da economia russa empurra o sistema imperial americano para o precip\u00edcio. O que os pr\u00f3prios russos n\u00e3o haviam antecipado pois n\u00e3o havia sido previsto que a economia do seu pa\u00eds aguentaria face ao \u201cpoderio econ\u00f3mico\u201d da NATO.<sup>5<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>E, afirmando que tanto a R\u00fassia como os Estados Unidos n\u00e3o se podem retirar do conflito, Todd acha que todos n\u00f3s vivemos agora uma guerra sem fim, um afrontamento que n\u00e3o terminar\u00e1 sem o colapso de um ou de outro. Enquanto antrop\u00f3logo, Todd sabe que esta guerra n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 militar e econ\u00f3mica, \u00e9 tamb\u00e9m ideol\u00f3gica e cultural. Tendo j\u00e1 havido na R\u00fassia estruturas familiares mais densas, comunit\u00e1rias, certos aspectos de tais estruturas sobreviveram, entre os quais um sentimento patri\u00f3tico que \u00e9 algo que dificilmente ser\u00e1 compreendido entre n\u00f3s e que \u00e9 alimentado pelo subconsciente de uma na\u00e7\u00e3o-fam\u00edlia. Com uma organiza\u00e7\u00e3o familiar patrilinear em que os homens est\u00e3o no centro, tal na\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode aderir a todas as inova\u00e7\u00f5es ocidentais (neofeminismo, LGBT, transgenerismo,\u2026). Inevitavelmente, quando na\u00e7\u00f5es como a R\u00fassia aprovam medidas repressivas face a tais inova\u00e7\u00f5es, os ocidentais sentem-se superiores, considera Todd. Mas o autor tamb\u00e9m observa que, de um ponto de vista geopol\u00edtico, tal sentimento ser\u00e1 certamente um erro. Isto porque, sendo a organiza\u00e7\u00e3o de parentesco, em 75% do planeta, patrilinear, haver\u00e1 neste nosso mundo uma forte compreens\u00e3o das atitudes russas, entendidas como um conservantismo moral tranquilizador.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 a R\u00fassia poder\u00e1 contar com o apoio ou a compreens\u00e3o de 75% do planeta. As suas condi\u00e7\u00f5es internas, na an\u00e1lise de Todd (que contradita a ideia existente a tal prop\u00f3sito entre os ocidentais), melhoraram significativamente com Putin a partir da primeira d\u00e9cada dos anos 2000. Para os russos essa d\u00e9cada representou um retorno ao equil\u00edbrio, a uma vida normal, ap\u00f3s os anos 90, per\u00edodo de sofrimento inaudito. Com o regresso ao equil\u00edbrio, as taxas de suic\u00eddio e de homic\u00eddio foram-se afundando e a taxa de mortalidade infantil, indicador fundamental, desceu imenso, vindo a revelar-se inferior \u00e0 americana. Da\u00ed que, no esp\u00edrito dos russos, Putin tenha incarnado tal estabilidade, e a guerra ucraniana seja entendida para o comum dos cidad\u00e3os do pa\u00eds como defensiva. Para eles, a boa prepara\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica que consideram existir aumentou a sua confian\u00e7a, n\u00e3o propriamente face \u00e0 Ucr\u00e2nia mas face ao que eles designam como \u201cOcidente colectivo\u201d, ou seja \u201cos Estados Unidos e os seus vassalos\u201d. Para o autor, a verdadeira prioridade do regime russo n\u00e3o \u00e9 a vit\u00f3ria militar no terreno mas sim n\u00e3o perder a estabilidade social adquirida nos \u00faltimos 20 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Todd n\u00e3o fica contudo por aqui e faz na entrevista considera\u00e7\u00f5es que ajudam a compreender porque \u00e9 que considera que a Terceira Guerra Mundial j\u00e1 come\u00e7ou e pensa que ela poder\u00e1 ter uma dura\u00e7\u00e3o de cinco anos, com um resultado que n\u00e3o podemos antecipar neste momento. N\u00e3o s\u00f3 um confronto dos 75% do planeta (em que predominam as organiza\u00e7\u00f5es familiares comunit\u00e1rias e patrilineares) com as \u00e1reas ocidentais (onde se afirma a estrutura familiar nuclear e se desenvolvem os sistemas bilaterais de parentesco) poder\u00e1 ir mais longe que as manifesta\u00e7\u00f5es de empatia que actualmente se desenvolvem (alastrando mais ou menos no terreno especificamente pol\u00edtico), como ser\u00e1 necess\u00e1rio percepcionar mais adequadamente os sistemas econ\u00f3micos que se op\u00f5em e as respectivas capacidades para alimentar os esfor\u00e7os militares de uma e de outra parte. Mas esse \u00e9 um dom\u00ednio que ser\u00e1 deixado para mais tarde, num texto que procurarei disponibilizar em breve e que ganhar\u00e1 em ser complementado com percep\u00e7\u00f5es da situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica em termos econ\u00f3micos e sociais em que o mundo ocidental tem vindo a mergulhar. J\u00e1 recentemente divulguei um texto em que analisava o crescimento abissal das desigualdades que tem afectado o nosso mundo ocidental<sup>6<\/sup> e que o extremo desenvolvimento nos \u00faltimos meses da infla\u00e7\u00e3o s\u00f3 tem agravado. Teremos naturalmente de estar conscientes de que esse agravamento n\u00e3o deixar\u00e1 de ter uma forte influ\u00eancia nos equil\u00edbrios sociais e que isso afectar\u00e1 \u2013 interessa come\u00e7ar a pensar como \u2013 a Terceira Guerra Mundial \u201cpressagiada\u201d por Todd.<\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa, 10 de Fevereiro de 2023 <\/p>\n\n\n\n<p>Filipe do Carmo<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>NOTAS<\/p>\n\n\n\n<p><sup>1<\/sup> \u201cEn 2023, un nouveau monde\u201d, 2022-12-30, p\u00e1g. 22.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>2<\/sup> Ver, em particular, o artigo recente do P\u00fablico (2023-01-08, p\u00e1g. 9) de Teresa de Sousa: \u201c2023, o ano decisivo para a vit\u00f3ria da Ucr\u00e2nia\u201d. A afirma\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 crescente vassalagem da R\u00fassia face a Pequim baseia-se nas refer\u00eancias que a autora faz aos apoios que a R\u00fassia tem na comunidade internacional:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abPerdeu apoios nos pa\u00edses da \u00c1sia Central que j\u00e1 foram parte da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e que querem distanciar- se do Kremlin. A lista dos seus aliados reduz-se a quatro: Ir\u00e3o, Coreia do Norte, Bielorr\u00fassia e China.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p><sup>3<\/sup> Situa\u00e7\u00f5es que revelam concord\u00e2ncia com o referido num par\u00e1grafo do texto (\u201cNAH\u201d, ver em https:\/\/semfronteiras.eu\/?s=NAH ) assinado, em Mar\u00e7o de 2022, por \u201cNovas Gera\u00e7\u00f5es\u201d: \u00abReduzido a tr\u00eas Estados ainda realmente soberanos \u2013 os EUA, a China e a R\u00fassia \u2013 o nosso mundo assiste a desenvolvimentos que come\u00e7am por prenunciar a sa\u00edda do grupo deste \u00faltimo Estado. A agress\u00e3o em curso que ele exerce sobre um dos Estados subordinados \u00e0 tutela americana \u2013 a Ucr\u00e2nia, Estado fantoche em que a [sua] classe pol\u00edtica \u2026 se mostra disposta a sacrificar (a exemplo do que Salazar quis fazer com o ex\u00e9rcito portugu\u00eas na \u00cdndia em 1961) a sua popula\u00e7\u00e3o\u2026\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>4<\/sup> Ver Emmanuel Todd: \u00abLa Troisi\u00e8me Guerre mondiale a commenc\u00e9\u00bb (lefigaro.fr). O autor publicou recentemente um livro a prop\u00f3sito da guerra referida, com o t\u00edtulo <em>La Troisi\u00e8me Guerre mondiale a d\u00e9j\u00e0 commenc\u00e9<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><sup>5<\/sup> E Todd come\u00e7a por explicar a fragilidade americana dizendo que \u201cSi l\u2019\u00e9conomie russe r\u00e9sistait ind\u00e9finiment aux sanctions et parvenait \u00e0 \u00e9puiser l\u2019\u00e9conomie europ\u00e9enne, tandis qu\u2019elle-m\u00eame subsisterait, adoss\u00e9e \u00e0 la Chine, les contr\u00f4les mon\u00e9taire et financier am\u00e9ricains du monde s\u2019effondreraient, et avec eux la possibilit\u00e9 pour les \u00c9tats-Unis de financer pour rien leur \u00e9norme d\u00e9ficit commercial. Cette guerre est donc devenue existentielle pour les \u00c9tats-Unis. Pas plus que la Russie, ils ne peuvent se retirer du conflit, ils ne peuvent l\u00e2cher. C\u2019est pour \u00e7a que nous sommes d\u00e9sormais dans une guerre sans fin, dans un affrontement dont l\u2019issue doit \u00eatre l\u2019effondrement de l\u2019un ou de l\u2019autre. Chinois, Indiens et Saoudiens, entre autres, jubilent.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><sup>6<\/sup> Como explicitei num texto que enviei recentemente sobre a COP27, Thomas Piketty, numa das suas recentes cr\u00f3nicas no jornal <em>Le Monde <\/em>(2022-11-07, p\u00e1g. 31) com o t\u00edtulo &#8220;Redistribuer les richesses pour sauver la plan\u00e8te&#8221;, refere que, em Fran\u00e7a, as 500 maiores fortunas passaram, entre 2010 e 2022, de 200 mil milh\u00f5es de euros para um milh\u00e3o de milh\u00f5es (1 bili\u00e3o), ou seja, de 10% para perto de 50% do PIB (duas vezes mais de tudo o que possuem os 50% mais pobres). Mais escandaloso ainda que esse enriquecimento de 800 mil milh\u00f5es, refere ainda Piketty, foi que esses benefici\u00e1rios apenas tenham pago de imposto sobre o rendimento, durante todo esse per\u00edodo, o equivalente a menos de 5% desse enriquecimento (e tudo isso \u00e9 mais ou menos equivalente ao que se passa nos Estados Unidos em termos de tributa\u00e7\u00e3o dos seus milion\u00e1rios \u2013 ou bilion\u00e1rios?). Piketty chama ainda a aten\u00e7\u00e3o para o facto de que, se o governo franc\u00eas fizesse incidir uma tributa\u00e7\u00e3o excepcional de 50% sobre o tal enriquecimento de 800 mil milh\u00f5es, poderia ter reunido 400 mil milh\u00f5es de euros. Ora eu constato que tal posi\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e9 muito pouco ousada por parte do cronista, dado que, mesmo com tal tributa\u00e7\u00e3o excepcional, as tais 500 maiores fortunas ainda teriam passado a valer 600 mil milh\u00f5es em 2022, quando em 2010 eram de 200 mil milh\u00f5es (uma multiplica\u00e7\u00e3o por 3!). Conv\u00e9m de facto ter presente que, nos tempos de Roosevelt (anos 30), nos EUA, tributa\u00e7\u00f5es da ordem dos 80-90% foram introduzidas com sucesso e mantidas durante meio s\u00e9culo, inclusivamente em pa\u00edses europeus. O esc\u00e2ndalo da baixa tributa\u00e7\u00e3o dos excessivamente ricos em Fran\u00e7a (que tem paralelos em praticamente todos os pa\u00edses do mundo) vai, no entanto, ainda mais longe quando se sabe que, recentemente, foram vetadas pelos poderes institu\u00eddos decis\u00f5es do parlamento franc\u00eas no sentido de aumentar em reduzidos milh\u00f5es de euros investimentos na renova\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica dos edif\u00edcios e das redes ferrovi\u00e1rias (que contribuiriam para reduzir o aquecimento global), sob o pretexto de que n\u00e3o havia meios financeiros para tais generosidades\u2026<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:27px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/filipe1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9052\" width=\"240\" height=\"217\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/filipe1.jpg 407w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/filipe1-300x271.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><figcaption>FILIPE DO CARMO<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O RECENTE CONFLITO NATO-R\u00daSSIA Emmanuel Todd por Filipe do Carmo Numa recente cr\u00f3nica1 publicada no&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9051,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[317,99],"tags":[292],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd.jpg",542,352,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd-300x195.jpg",300,195,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd.jpg",542,352,false],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd.jpg",542,352,false],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd.jpg",542,352,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd.jpg",542,352,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd.jpg",542,352,false],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd.jpg",542,352,false],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd.jpg",542,352,false],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/odd-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/noticias\/\" rel=\"category tag\">NOTICIAS<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a>","tag_info":"OPINI\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9050"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9050"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9050\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9054,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9050\/revisions\/9054"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9051"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}